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(Millôr Fernandes)

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Ela denunciou. A Justiça agiu. O ciclo de violência se encerrou

Sexta, 7 de agosto de 2026

Ela denunciou. A Justiça agiu. O ciclo de violência se encerrou








por TT — publicado 07/08/2026

Em alguns momentos da vida, uma decisão separa duas histórias possíveis. Ana*, 34 anos, mãe, escolheu viver. Ameaças, agressões e medo. O silêncio parecia mais seguro do que denunciar, mas havia uma lembrança que nunca saía de sua cabeça. 

A mãe de Ana nunca procurou ajuda. Nunca registrou ocorrência. Nunca pediu medida protetiva. Foi assassinada com dezenas de facadas. "Eu perdi minha mãe com 72 facadas. Eu não queria ser mais uma vítima nas estatísticas. Talvez hoje eu estivesse em um caixão debaixo da terra", relata.

Quando decidiu procurar a Justiça, Ana não buscava apenas um documento. Procurava a chance de continuar viva. E encontrou.  

O dia em que tudo mudou 

Um dia, Ana criou coragem e decidiu enfrentar o medo. Saiu de casa, foi até a delegacia e pediu ajuda. "Avaliei os riscos e deferi imediatamente as medidas protetivas de urgência para garantir sua segurança", conta a juízaGislaine Campos. O agressor foi proibido de manter contato, aproximar-se dela e frequentar seu local de trabalho.

Ana foi incluída no Programa Viva Flor, da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF), para que pudesse acionar a polícia em caso de emergência. O dispositivo é instalado no celular da mulher e, ao ser ativado, a viatura mais próxima é deslocada para atendimento prioritário da vítima. 

Para reforçar a proteção, a Justiça requisitou também o monitoramento pelo Policiamento de Prevenção Orientada à Violência Doméstica (Provid). O Provid, uma equipe especializada da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), acompanha casos graves e extremos de violência doméstica no DF.

Somente no 1º semestre de 2026, no âmbito do TJDFT, foram concedidas 9.496 medidas protetivas e julgados 6.917 processos de violência doméstica e 160 referentes a feminicídio. Os dados estão disponíveis no painel Justiça em Números do Conselho Nacional de Justiça.

A proteção que foi além do papel 

Quando o agressor tentou romper os limites impostos pela Justiça, a resposta veio antes que a violência voltasse. O agressor tentou se aproximar.  Ana acionou o sistema. A Justiça intensificou a proteção. O agressor passou a usar tornozeleira eletrônica 

Atualmente, segundo dados da SSP-DF, 2.141 mulheres são assistidas pelo Viva Flor, sendo que 3.429 vítimas já passaram pelo programa. Desde sua criação, não houve nenhum caso de nova agressão grave ou feminicídio entre as mulheres protegidas pelo dispositivo. 

Confira vídeo sobre o funcionamento do Viva Flor produzido pela Coordenadoria da Mulher em situação de Violência Doméstica e Familiar do DF (CMVDDF).

Um ano depois 

Há quase um ano, Ana vive sem novos contatos e tentativas de aproximação do ex-companheiro. "Eu sei que é muito difícil tomar a decisão de ir atrás da Justiça, pedir ajuda, mas a medida protetiva é muito importante para que a gente possa seguir a nossa vida depois de uma agressão, depois de uma ameaça. Ela me ajudou demais, me ajudou no emprego, me ajudou a seguir minha vida", ressalta Ana. 

Ana tem apoio psicológico e participa de grupo reflexivo para mulheres, desenvolvido por instituição parceira da Justiça. Se você está em uma situação de violência e precisa de apoio e orientação, acesse o catálogo de instituições da Rede de Proteção às Mulheres do Distrito Federal que oferecem atendimento à população. A relação também está disponível em PDF.  

A história que poderia ter terminado diferente 

A mudança começou no dia em que Ana decidiu romper o silêncio. A atuação integrada da Justiça e da rede de proteção transformou uma história que poderia terminar como a de sua mãe. Entre as duas histórias existe uma diferença fundamental: o acesso à proteção. 

Para a juíza Gislaine Campos, a história de Ana evidencia a diferença que a proteção pode fazer. "De um lado, uma mulher que permaneceu sem acesso a programas de proteção e teve sua vida interrompida pela violência extrema. De outro, a história de Ana, que buscou ajuda, foi acolhida pelo sistema de Justiça, aceitou os encaminhamentos e passou a contar com medidas concretas de proteção, acompanhamento e suporte".

Quando o silêncio mata 

Segundo a Secretaria de Estado de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP/DF), no período de 2015 a 2026, foram registrados 244 casos de feminicídio no DF. Das vítimas, 69,1% nunca haviam registrado boletim de ocorrência e 63% tinham sofrido violência anterior ao feminicídio.

A juíza Gislaine Campos explica que muitas mulheres permanecem em silêncio por medo, dependência emocional, financeira, vergonha, isolamento ou falta de percepção do risco que enfrentam. 

“O silêncio, muitas vezes, não significa ausência de violência. Ao contrário, pode ser justamente o espaço em que o risco cresce sem ser visto, sem ser comunicado e sem que a rede de proteção possa atuar e outros atendimentos e serviços como apoio jurídico, psicológico e assistenciais disponíveis”, reforça a magistrada.

Por isso, a juíza faz um apelo para as mulheres que se encontram em situação de violência doméstica. "Eu digo a você, mulher: denunciar é, sim, um ato de coragem. Aceitar os encaminhamentos fortalece, ajuda a superar a violência e participar do processo de responsabilização do agressor é o fim de um ciclo e contribui para a mudança social". 

Uma história agora sem violência

Ana pode até sentir medo, mas hoje o medo já não decide sua vida, pois quem decide é ela. A mulher que viu a mãe perder a chance de ser protegida escolheu escrever uma história diferente. Não porque a violência desapareceu sozinha, mas porque pediu ajuda e a Justiça respondeu. Encontrou uma rede preparada para agir e aceitou o acompanhamento. 

Ao olhar para trás, Ana sabe que existem duas versões possíveis da sua história. Uma terminou de forma trágica. A outra continua sendo escrita todos os dias e começa exatamente no ponto em que tantas mulheres ainda hesitam em chegar: na coragem de denunciar. 

CMVDDF

A Coordenadoria da Mulher em situação de Violência Doméstica e Familiar da Justiça do Distrito Federal (CMVDDF) é uma unidade especializada do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) que oferece apoio às mulheres em situação de violência doméstica e familiar.

A CMVDDF atua por meio de uma abordagem com perspectiva de gênero, a fim de assegurar que cada caso seja tratado de forma eficiente e humanizada. Além disso, realiza campanhas educativas e articula a rede de proteção a fim de garantir a segurança e o bem-estar das mulheres. Para mais informações , acesse a página da CMVDDF.

      Ouvidoria para Elas 

      O TJDFT disponibiliza ainda o Ouvidoria para Elas, um canal seguro, sensível e especializado voltado para o acolhimento, orientação e encaminhamento de mulheres em situação de violência, discriminação ou qualquer violação de direitos. Saiba como acessar o serviço.

      A iniciativa está vinculada ao Núcleo de Atendimento à Mulher, unidade responsável pela escuta qualificada e humanizada, com atenção às especificidades de gênero no Tribunal. O Núcleo conta ainda com Guia Prático de Enfrentamento da Violência contra a Mulher. O material está disponível em pdfe áudio.

      Histórias reais: Justiça que faz. Produto criado pela Secretaria de Comunicação Social do TJDFT para mostrar o impacto de ações, projetos e decisões da Justiça local na vida das pessoas e na construção de um sociedade mais justa, igualitária e pacífica.

      *Ana (nome fictício) de uma história real