
Não havia entre nós a consciência que a pedagogia colonial da época — onde a predominância estadunidense imperava com sua noção de progresso, de modernidade — não deixava espaço para um mundo que não fosse melhor. E melhor significava romper o atraso, seguir as etapas que o ex-conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América (EUA), com trabalho acadêmico financiado pela Agência Central de Inteligência (CIA), Walt W. Rostow (1916-2003) definia como “Os estágios do desenvolvimento econômico”.
Transcrevo da dissertação de mestrado de Rodrigo Oliveira Salgado, “Constituição e desenvolvimento: o mercado interno na Constituição de 1988”, apresentada ao Departamento de Direito Econômico e Financeiro, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), sob a orientação do professor Gilberto Bercovici, em 2013:
“a ideia de desenvolvimento de Rostow, apesar de não ser absolutamente linear, comporta um alto grau de etapismo, ou seja, a adoção de uma ideia de etapas a serem superadas para que determinada sociedade alcance altos níveis de desenvolvimento. Porém, a importância do conceito de Rostow talvez tenha sido a possibilidade de mapeamento das mais diversas economias mundiais. Suas listagens de dados sobre economias subdesenvolvidas, o bloco ocidental e o bloco soviético, propiciaram o entendimento dos diversos processos de crescimento existentes à época”.
A pedagogia colonial, então adotada, procurava eliminar os nacionalismos, dar conteúdo universal aos processos para o qual os EUA tinham controle, como se lê no prosseguimento da transcrição da tese:
“talvez sua maior contribuição tenha sido a noção de decolagem: para o economista, seu início se dá com um particular sharp stimulus, que será responsável por uma transição decisiva na história daquela sociedade. Mais do que isso, Rostow se preocupou em demonstrar o processo de países como Japão, Canadá e Suécia passaram por seus processos de decolagem, demonstrando como as altas taxas de investimento e de poupança permitiram a estes países um crescimento sustentado no tempo” (teses.usp.br/teses/disponiveis/2/2133/tde1202201153854/publico/Rodrigo_Salgado_dissertacao_final).
Outra tese acadêmica, de Flávio Diniz Ribeiro, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, para obtenção do título de Doutor em História, sob orientação da professora Maria Amélia Mascarenhas Dantes, em 2007, “Walt Whitman Rostow e a problemática do desenvolvimento – Ideologia, política e ciência na Guerra Fria” considera Rostow “um intelectual importantíssimo para o capital num momento crucial para a expansão capitalista pós segunda Guerra Mundial e para a construção/consolidação da hegemonia norte-americana nesse processo” (teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-04072008-160534/publico/Tese_Flavio_Diniz_Ribeiro).
Jessé Souza (Como o racismo criou o Brasil, Estação Brasil, RJ, 2021) afirma: “Rostow queria que seu livro fosse lido como um substituto do Manifesto Comunista, com a diferença de que o fim da história fosse representado pelo consumo de massas como ponto final do desenvolvimento econômico. Cada vez mais, seus colegas do “Center for International Studies” (CIS), do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), passaram a refletir sobre os meios para se atingir a “modernização”, chegando, inclusive, a considerar golpes militares os reais parteiros da modernização, desde que se acomodassem à nova ordem americana”.
Como aquela perspectiva alvissareira de futuro transformou-se na distopia que vivemos no Brasil, nestes últimos anos, e que também influenciam as opções estadunidenses e europeias?
