“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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domingo, 18 de agosto de 2013

Generais e patrões: os militares egípcios-norte-americanos

Domingo, 18 de agosto de 2013


Marwan Bishara Al-Jazeera, Qatar
Com a situação em escalada rumo a confronto declarado entre os militares egípcios e apoiadores da Fraternidade Muçulmana, Washington brinca mais uma vez de cabra-cega com Estados seus fregueses.
Feliz de ver os islamistas de volta, o governo dos EUA resistiu a chamar de golpe a derrubada do presidente Morsi, nem depois de influentes membros do Congresso a terem identificado como tal. O governo Obama queria que o golpe prosperasse, mas não queria ser apanhado com sangue nas mãos. Mas se contava com conseguir acalmar os militares e manobrá-los, errou.
Os generais decididos a conter, se não a quebrar, a Fraternidade, viram os problemas políticos que o Egito enfrenta como problemas de segurança a exigirem o uso da força. Impuseram leis de emergência que permitem maior controle, mas o movimento só fez aumentar a violência. Prepararam-se para atacar violentamente os apoiadores de Morsi. E viram Washington permanecer quase integralmente em silêncio.
Os clamores dos EUA por moderação, diálogo e pela volta das urnas pareceram mais retóricos que práticos ou efetivos. A ansiedade por manter relação íntima com os militares e por continuar relevantes no Egito impediu que os norte-americanos tomassem posição clara.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O golpe militar no Egipto. Uma revolução abortada ou a génese de uma revolução genuína?

Terça, 15 de fevereiro de 2011
 Publicado em resistir.info
por Behzad Majdian
Polícia de choque egípcia. Milhões de pessoas no Egipto e por todo o Médio Oriente irromperam em alegria quando Omar Suleiman anunciou na sexta-feira que Hosni Mubarak havia renunciado.


Os militares egípcio decidiram expelir um ditador muito mal quisto pois isto dava azo à ameaça crescente do nascimento de uma revolução potencial nas ruas do Egipto. Se tivesse sido permitido que continuasse por mais uns poucos dias, o levantamento podia ter redundado numa revolução completa a qual potencialmente poderia destruir o estado egípcio. Para salvar o estado, os militares assumiram o comando e derrubaram o ditador teimoso. O ditador foi lançado borda a fora a fim de salvar a ditadura.


Mas como se pode explicar o júbilo do povo egípcio se aquilo que se verificou no Egipto foi na sua essência um golpe de estado militar? Uma resposta directa parece ser que a maioria dos egípcios pensa do exército como uma instituição nacional e uma força para o bem. Talvez ainda o vejam como o exército de Gamal Abdel Nasser. Contudo, há uma outra explicação possível para considerar um golpe militar como uma revolução. Os egípcios reduziram as expectativas do que uma revolução genuína poderia alcançar ao mero acto de expulsar Mubarak. Isto por sua vez poderia ser explicado por trinta anos de domínio brutal que destruíram estruturas organizacionais de grupos de oposição, encarcerando e eliminado líderes potenciais. O levantamento de dezoito dias no Egipto sofreu com a ausência de uma liderança forte e carismática. Também deixou de produzir uma no decorrer dos acontecimentos. O levantamento também foi carente de formas organizacionais vastas e efectivas.

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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O tremor das múmias


Segunda, 14 de fevereiro de 2011
Por Ivan de Carvalho
É notório que a quase despercebida queda do regime autoritário da Tunísia ante protestos populares detonou as manifestações bem maiores, demoradas e intensas que, no Egito, derrubaram o autoritarismo de 30 anos de Hosni Mubarak.

   Mas antes dele estiveram no poder o regime autoritário de Anwar El-Sadat, benfeitor da humanidade por ter compreendido a importância de um acordo de paz com Israel e criado as condições para que a Jordânia também fizesse o seu.

    Mas antes de Sadat estivera no poder o tresloucado visionário e autoritário Gamal Abdel Nasser, que fundou uma tal de República Árabe Unida – ente que em seus delírios políticos de grandeza deveria reunir alguns países árabes e que ficou restrita mesmo ao Egito.

   Sadat deflagrara uma guerra, em 1973, para recuperar perdas e ganhar apoio popular e moral que lhe desse condições de fazer a paz sem humilhações, o que concretizou em 1979.

   Gamal Abdel Nasser, com um bloqueio ao Golfo de Akaba, essencial para Israel, dera partida, em 1967, à guerra que humilhou o Egito e deu a Israel a oportunidade de ocupar o deserto do Sinai, a margem oriental do Canal de Suez (o que levou à interrupção, imposta pelo Egito, da importante ligação marítima), a Cisjordânia (as bíblicas Judéia e Samaria), anexar Jerusalém e, temporariamente, a própria Cisjordânia, e ocupar da Síria as Colinas de Golan. Nasser, com sua autoritária fúria anti-hebraica, configurou o problema que o mundo não está conseguindo resolver. E, eu aposto, não resolverá naturalmente.

   O leitor poderá ir recuando ao passado e alcançará o tempo dos faraós sem encontrar pelo caminho um só momento em que o Egito haja desfrutado de um momento democrático. Antes das pirâmides, no entanto, não sei e, se alguém sabe, não conta.

   Mas tem a mídia dado conta de preocupações em vários países árabes com embrionários protestos ou simplesmente com a hipótese de surgirem protestos contra os governos autoritários das nações árabes. Todas elas têm governos autoritários. Também algumas nações muçulmanas não árabes que vivem sob ditaduras (todas vivem nessas condições, salvo a Turquia e, concedamos, o Paquistão) têm dado sinais de preocupação.

   Mas não é isso que mais me chama a atenção e sim os cuidados e não-me-toques de nações totalitárias ditas comunistas com a informação que chega (ou que impedem chegar) a seus cidadãos, desculpem, escravos, sobre os acontecimentos no Egito. Até que dá para dizer que desta vez, apesar dos filmes em contrário, as múmias é que estão assustadas. E avaliam que já não são elas o veículo da maldição, mas a Internet.

   Parecem temer alguma espécie de cotejo, de comparação, de identificação entre o regime egípcio e seus regimes e principalmente entre o que aconteceu no Egito e o que eventualmente poderia acontecer nesses países trementes à idéia de liberdade. Temendo que se estabelecesse na cabeça dos chineses um paralelismo entre a Praça Tahrir e a Praça da Paz Celestial, o regime chinês tirou a palavra Egito da rede mundial de computadores. Até dois dias atrás (não sei como está hoje), o internauta que buscava a palavra Egito deparava com uma resposta padrão a sua pesquisa: “Não será mostrado”.

  Já em Cuba, a televisão estatal (não há outra) anunciou com uma extraordinária economia de tempo e de palavras – com as quais Fidel Castro foi tão perdulário – o fim do regime de 30 anos de Mubarak. Parecia haver pressa para passar ao assunto seguinte.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna de Bahia desta segunda.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

O fim de Mubarak

Sábado, 12 de fevereiro de 2011 
Por Ivan de Carvalho
    Escrevendo numa sexta-feira sob a influência de um resto de gripe e para um leitor que só hoje, um sábado, dia de flanar, poderá ser alcançado, tentarei pegar leve pela segunda vez esta semana (na primeira vez, foi só por conta da gripe, então forte). Mas está aí a renúncia de Hosni Mubarak. E há que tratar disto.

    Quando eu era criança, vivia na cidade de Itiúba, na região do Sisal, nordeste baiano. As alternativas rotineiras de lazer noturno para a população da pequena cidade eram mínimas. O Cine Itiúba, de Humberto Pinto de Carvalho, exibia filmes duas noites por semana. O salão da Rádio Cultural de Itiúba, onde jovens podiam dançar todas as noites. O Bar Central, de Carlos Pires, e o Bar de Zé Dantas, para os biriteiros e os jogadores de sinuca ou bilhar. A parada de cinco a dez minutos do trem de passageiros da Ferrovia Federal Leste Brasileiro, quatro noites por semana. O namoro besta pelas beiradas da Avenida Getúlio Vargas, depois Lomanto Júnior e ainda mais tarde, Getúlio Vargas outra vez. E os namoros furtivos que só Deus e o Diabo e alguns privilegiados (não eu, que droga) sabiam onde aconteciam.

    Assim, a chegada de um circo na cidade era uma festa. E certa vez armou-se na Praça Nova (que não existe mais, porque a prefeitura deu ao Banco do Brasil, que a ocupou com uma agência e casas para seus funcionários) o Circo de Pedro Coruja. Isso foi tempos antes do Circo Molambo, que não vem ao caso.
A principal atração do Circo de Pedro Coruja era Maria Pureza, uma dançarina de rumba. Mas ela não vem ao caso também. Só entrou nessas linhas porque dançava de biquíni, naqueles tempos, no interior brabo, um espanto e um arraso, muitas madames furiosas, falando mal pelos cantos, mas sem dar bandeira para os maridos, assíduos freqüentadores do circo.

   A segunda maior atração do Circo de Pedro Coruja era uma peça teatral. Ou circense, sei lá. Uma pessoa morrera. Mulher, se lembro. Seu fantasma passava lépido, envolto em lençol branco como compete a fantasmas, em frente ao fundo negro do cenário. O mistério era se a morte teria sido natural ou um homicídio. Na peça, questionava-se do começo ao fim se ocorrera “morte matada” ou “morte morrida”. Não recordo a alternativa vencedora.

   Mas, e Mubarak? Na quinta-feira, quando eram imensas as pressões para que renunciasse, quando o comando militar reuniu-se pela primeira vez sem sua presença – ele era o comandante-em-chefe das Forças Armadas – ele foi à TV no fim da noite (o que mostra a dificuldade de sua decisão) e, imitando Dom Pedro I, disse ao povo que ficaria. Implicitamente, anunciou que morreria, mas de “morte morrida”. Em setembro, como prevê a Constituição, o país elegeria outro presidente. Mubarak não se candidataria (seu filho também não) e passaria o cargo ao sucessor eleito. Mas desde logo transferiria poderes ao vice-presidente, Omar Suleiman. Talvez pensasse em ficar na presidência quase que só como uma figura decorativa, para dar uma impressão de preservação do Estado e da ordem.

   No entanto, a força das manifestações populares de rejeição, a pressão internacional, a preocupação dos militares em não se indisporem com a população, a pressão final dos Estados Unidos (não querem as coisas fora de controle) junto aos militares egípcios por intermédio do Pentágono, tudo isso levou Mubarak a capitular. Levou-o ontem, horas depois do discurso da véspera, à renúncia, à “morte matada”.

   Ante o que ocorre no Egito, impõe-se outro dilema: nascerá a democracia no país dos faraós ou morrerá a paz no Oriente Médio – e, sabe Deus, no mundo? Os próximos anos, nos 22 países árabes e nos 57 muçulmanos, deverão dar a resposta.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia deste sábado.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Washington e as revoltas árabes: Sacrificar ditadores para salvar o estado

Quinta, 10 de fevereiro de 2011

por James Petras

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O ponto essencial é que Washington, após várias de décadas de profundo envolvimento nas estruturas de estado das ditaduras árabes, desde a Tunísia até o Marrocos, Egipto, Iémen, Líbano, Arábia Saudita e Autoridade Palestina, está a tentar reorientar as suas políticas para incorporar e/ou enxertar políticos liberais-eleitorais nas configurações de poder existentes.


Enquanto a maior parte dos comentadores e jornalistas despejam toneladas de tinta acerca dos "dilemas" da potência estado-unidense, com a novidade dos acontecimentos egípcios e dos pronunciamentos políticos diários de Washington, há amplos precedentes históricos que são essenciais para entender a direcção estratégica das políticas de Obama

Antecedentes históricos
A política externa dos EUA tem um longo historial de instalação, financiamento, armamento e apoio a regimes ditatoriais os quais suportam suas políticas e interesses imperiais ao mesmo tempo que mantêm controle sobre o seu povo.
No passado, presidentes republicanos e democratas trabalharam em estreito contacto durante mais de 30 anos com a ditadura Trujillo na República Dominicana; instalaram o autocrático regime Diem no Vietname pré-revolucionário na década de 1950; colaboraram com duas gerações da família Somoza em regimes de terror na Nicarágua; financiaram e promoveram os golpes militares em Cuba de 1953, no Brasil em 1964, no Chile em 1973 e na Argetina em 1976 e os subsequentes regimes repressivos. Quando levantamentos populares desafiaram estas ditaduras apoiadas pelos EUA e uma revolução social e política parecia provável ter êxito, Washington respondeu com uma política de três caminhos: publicamente a criticar as violações de direitos humanos e a advogar reformas democráticas; privadamente a assinalar a continuidade de apoio ao governante; e em terceiro lugar, a procurar uma alternativa de elite que pudesse substituir o dirigente e preservar o aparelho de estado, o sistema económico e apoiar os interesses imperiais estratégicos dos EUA.
Para os EUA não há relacionamentos estratégicos, apenas interesses imperiais permanentes, a preservação do estado cliente. As ditaduras assumem que o seu relacionamento com Washington é estratégico: daí o choque e horror quando são sacrificadas para salvar o aparelho de estado. Temendo a revolução, Washington tem tido clientes déspotas relutantes, pouco desejosos de se afastarem, assassinados (Trujillo e Diem). Para alguns são proporcionados santuários no exterior (Somoza, Batista), outros são pressionados à partilha de poder (Pinochet) ou nomeados académicos visitantes em Harvard, Georgetown ou algum outro posto académico "prestigioso".
O cálculo de Washington sobre quando rearranjar o regime baseia-se numa estimativa da capacidade do ditador para aguentar o levantamento político, a força e lealdade das forças armadas e a disponibilidade de uma substituição acomodatícia. O risco de esperar demasiado, de colagem ao ditador, é que radicaliza o levantamento: a mudança decorrente varre para longe tanto o regime como o aparelho de estado, transformando um levantamento político numa revolução social. Tal "erro de cálculo" verificou-se em 1959 no avanço da revolução cubana, quando Washington ficou ao lado de Batista e não foi capaz de apresentar uma alternativa de coligação pró-EUA viável e ligada ao velho aparelho de estado. Um erro de cálculo semelhante verificou-se na Nicarágua, quando o presidente Carter, enquanto criticava Somoza, manteve o curso e permaneceu passivo quando o regime era derrubado e as forças revolucionárias destruíam as forças militares treinadas pelos EUA e Israel, a polícia secreta, o aparelho de inteligência, avançaram na nacionalização de propriedade dos EUA e desenvolveram uma política externa independente.
Washington movimentou-se com maior iniciativa na América Latina da década de 1980. Promoveu transições eleitorais negociadas que substituíram ditadores por políticos neoliberais flexíveis, os quais comprometeram-se a preservar o aparelho de estado existente, defender as elites privilegiadas externas e internas e apoiar políticas regionais e internacionais dos EUA.

Lições do passado e políticas do presente
Obama tem sido extremamente hesitante na remoção de Mubarak por várias razões, mesmo quando o movimento cresce em números e o sentimento anti-Washington aprofunda-se. A Casa Branca tem muitos clientes por toda a parte do mundo – incluindo Honduras, México, Indonésia, Jordânia e Argélia – que acreditam terem um relacionamento estratégico com Washington e perderiam confiança no seu futuro se Mubarak fosse jogado fora.
Em segundo lugar, as altamente influentes organizações pro-Israel nos EUA (AIPAC, os presidentes das principais organizações judias americanas) e o seu exército de escribas mobilizaram líderes do Congresso para pressionar a Casa Branca a continuar a apoiar Mubarak, pois Israel é o primeiro beneficiário de um ditador que está à garganta do egípcios (e palestinos) e aos pés do estado judeu.
Em consequência o regime Obama tem-se movido vagarosamente, sob o temor e a pressão do crescente movimento popular egípcio. Ele procura uma fórmula política alternativa que remova Mubarak, retenha e fortaleça o poder político do aparelho de estado e incorpore uma alternativa eleitoral civil como meio de desmobilizar e des-radicalizar o vasto movimento popular.
O principal obstáculo para remover Mubarak é que um sector importante do aparelho de estado, especialmente os 325 mil membros das Forças Centrais de Segurança e os 60 mil da Guarda Nacional estão directamente sob a alçada do Ministério do Interior e de Mubarak. Em segundo lugar, os generais de topo do Exército (468.500 membros) sustentaram Mubarak durante 30 anos e enriqueceram-se através do seu controle sobre muitas companhias lucrativas num vasto conjunto de sectores. Eles não apoiarão qualquer "coligação" civil que ponha em causa seus privilégios económicos e o seu poder de estabelecer os parâmetros políticos de qualquer sistema eleitoral. O comandante supremo dos militares egípcios é um antigo cliente dos EUA e um colaborador aquiescente de Israel.
Obama é resolutamente favorável a colaborar e a assegurar a preservação destes corpos repressivos. Mas também precisa convencê-los a substituir Mubarak e levar em conta um novo regime que possa neutralizar o movimento de massa que cada vez mais se opõe à hegemonia dos EUA e à subserviência a Israel. Obama fará todo o necessário para manter a coesão do estado e esvaziar quaisquer aberturas que possam levar a um movimento de massa – alianças de soldados que poderiam converter o levantamento numa revolução.
Washington abriu conversações com os sectores liberais e clericais mais conservadores do movimento anti-Mubarak. A princípio tentou convencê-los a negociar com Mubarak – uma posição beco sem saída que foi rejeitada por todos os sectores da oposição, desde o topo até à base. Obama tentou então vender uma falsa "promessa" de Mubarak de que não concorreria às eleições, daqui a nove meses.
O movimento e seus líderes também rejeitaram aquela proposta. Assim Obama levantou a retórica de "mudanças imediatas" mas sem quaisquer medidas substantivas que a apoiassem. Para convencer Obama da sua contínua base de poder, Mubarak enviou a sua formidável polícia secreta de gangster-lumpen para tomar violentamente as ruas ao movimento. Um teste de força: o Exército ficou ao lado, o assalto elevou a aposta de uma guerra civil, com consequências radicais. Washington e a UE pressionaram o regime Mubarak a recuar – por agora. Mas a imagem de militares pró-democracia foi empanada, pois mortos e feridos multiplicaram-se aos milhares.
À medida que a pressão do movimento se intensifica, Obama pressionada em sentidos opostos por um lado pelo lobby Mubarak-Israel e o seus apoiantes no Congresso e por outro por conselheiros com discernimento a apelarem para seguir as práticas do passado e movimentar-se decisivamente para sacrificar o regime a fim de salvar o estado enquanto a opção liberal-clerical ainda está sobre a mesa.
Mas Obama hesita e, como um crustáceo cauteloso, move-se de lado e para trás, acreditando que a sua própria retórica grandiloquente substitui a acção... esperando que mais cedo ou mais tarde o levantamento acabe por cessar com um mubarakismo sem Mubarak: um regime capaz de desmobilizar os movimentos populares e desejoso de promover eleições que resultem em responsáveis eleitos que sigam a linha geral do seu antecessor.
No entanto, há muitas incertezas num rearranjo político: uma cidadania democrática, 83% desfavorável a Washington, possuirá a experiência de luta e liberdade para clamar por um realinhamento da política, especialmente para cessar de ser um polícia impondo o bloqueio israelense de Gaza e dando apoio a fantoches dos EUA na África do Norte, Líbano, Iémen, Jordânia e Arábia Saudita. Em segundo lugar, eleições livres abrirão o debate a aumentarão a pressão por maior despesa social, a expropriação dos 70 mil milhões de dólares do império do clã Mubarak e os capitalistas de compadrio que pilham a economia. As massas exigirão uma redistribuição da despesa pública do super inchado aparelho repressivo para emprego produtivo, gerador de emprego. Uma abertura política limitada pode levar a um segundo round, no qual novos conflitos sociais e políticos dividirão as forças anti-Mubarak, um conflito entre os advogados da social-democracia e os apoiantes de elite eleitoralismo neoliberal. O momento anti-ditatorial é apenas a primeira fase de uma luta prolongada rumo à emancipação definitiva não apenas do Egipto como de todo o mundo árabe. O resultado depende da medida em que as massas desenvolverão a sua própria organização e líderes independentes.
07/Fevereiro/2011


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Egipto: Operação de inteligência encoberta de Washington

Terça, 8 de fevereiro de 2011

por Michel Chossudovsky

Frank G. Wisner II. Um misterioso enviado americano, o diplomata aposentado Frank G. Wisner II, foi enviado às pressas para o Cairo em 31 de Janeiro no momento do movimento de protesto para reuniões de alto nível com Hosni Mubarak.

Frank G. e Hosni eram amigos próximos, amizade que remonta ao fim da década de 1980 quando Frank G. Wisner foi embaixador no Egipto (1986-1991).

Wisner actuou como embaixador na altura da Guerra do Golfo. Ele desempenhou um papel chave na negociação do acordo de 1991, o qual comprometeu o Egipto não só a participar na Guerra do Golfo contra o Iraque como também a preparar um conjunto de reformas macroeconómicas devastadoras sob a orientação do FMI.

Este acordo de 1991 foi ditado directamente por Washington e instrumentado através da Embaixada dos EUA no Cairo.

Frank G. Wisner foi enviado ao Egipto a pedido explícito do presidente Obama "para negociar uma resolução para o movimento de protesto".

As suas discussões com o presidente do Egipto foram um prelúdio para o discurso de Mubarak na terça-feira 1 de Fevereiro , no qual confirmou que não renunciaria como presidente até a efectivação de novas eleições previstas pra o fim de 2011. Numa declaração pública, Wisner confirmou que deveria ser permitido a Mubarak permanecer no posto. A Casa Branca a seguir clarificou que isto não era um reflexo da política dos EUA e que a declaração de Wisner era feita a título individual.

As reuniões a portas fechadas entre Wisner e Mubarak fizeram parte de uma agenda da inteligência. Washington não tinha intenção de pressionar rumo a uma resolução do movimento de protesto. A sua prioridade era a mudança de regime. O mandato de Wisner era instruir Mubarak a não renunciar, contribuindo dessa forma para desencadear uma atmosfera de caos social e incerteza, sem mencionar a deliberada desestabilização do sistema monetário do Egipto resultante dos milhares de milhões de dólares de fuga de capitais.

Frank G. Wisner II não é um diplomata americano comum. Ele é membro de uma bem conhecida família da CIA, filho de um dos mais notórios espiões dos EUA, o falecido Frank Gardiner Wisner (1909-1965).

O seu pai dirigiu o OSS (Office of Strategic Services) no Sudeste da Europa durante a Segunda Guerra Mundial. Depois da guerra, ele foi posto como responsável de um certo número de operações de inteligência que sob muitos aspectos estabeleceram o modus operandi da CIA. As suas responsabilidades incluem entre outras coisas propaganda, sabotagem, desinformação através dos media, etc. Foi ele o arquitecto da Operação Mockingbird, um programa da CIA que consistiu em infiltrar os media tanto dos EUA como do estrangeiro.

Em 1952, Wisner tornou-se chefe do Directorado de Planos da CIA, com Richard Helms como seu chefe de operações. (Ver Frank Wisner – Wikipedia , a enciclopédia livre) . Também foi o cérebro por trás do golpe promovido pela CIA que derrubou o governo de Mohammed Mossadegh no Irão, abrindo caminho para a instalação de Mohammad Reza Shah Palavi como "Imperador" e chefe de estado fantoche.
07/Fevereiro/2011
The CRG grants permission to cross-post original Global Research articles on community internet sites as long as the text & title are not modified. The source and the author's copyright must be displayed. For publication of Global Research articles in print or other forms including commercial internet sites, contact: crgeditor@yahoo.com
Global Research Articles by Michel Chossudovsky


  • Ver também: CIA: Frank G. Wisner est arrivé au Caire

    O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=23113


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • Governo Mubarak proíbe entrada de jornalistas na praça onde ocorrem manifestações

    Terça, 8 de fevereiro de 2011
    Da Agência Brasil com informações da  Agência Lusa

    O Ministério da Informação do Egito determinou que a partir de hoje (8) será controlada a entrada de jornalistas na Praça Tahrir – epicentro das manifestações há 15 dias no Cairo –, onde há protestos pela saída do presidente egípcio, Hosni Mubarak.

    Militares que vigiam a principal entrada da praça, na Ponte Qasr Al Nil, têm ordem para proibir a entrada dos profissionais de imprensa, seguindo orientações do Serviço de Informações do Estado – vinculado ao Ministério da Informação.

    Segundo o governo Mubarak, a medida é para garantir segurança aos profissionais de imprensa e não é uma censura. De acordo com a organização não governamental Jornalistas Sem Fronteiras, nos últimos dias 75 profissionais sofreram limitações ao trabalho no Egito.

    Os partidos de oposição organizaram, a partir de hoje, uma série de protestos como meio de pressionar Mubarak a abrir mão do poder. Muitos manifestantes decidiram, nos últimos dias, instalar barracas e dormir na Praça Tahrir. As filas para entrar no local aumentam na hora do almoço e no fim do expediente de trabalho.

    sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

    A complicada queda de um ditador

    Sexta, 4 de janeiro de 2011 
    Por Ivan de Carvalho
    Em política, poucas coisas são tão gratificantes quanto a queda de um ditador. Isto não elimina o fato de que política é uma coisa muito complicada nem a possibilidade do que, intrinsecamente, é um acontecimento desejável, resultar, logo dobrada a esquina, em uma situação mais tormentosa ainda que a eliminada.

                Pouco depois de iniciados os protestos populares no Egito contra o governo de 30 anos (mandatos sucessivos obtidos em eleições controladas) do presidente-ditador Hosni Mubarak, escrevi sobre o assunto neste espaço, assinalando que uma das hipóteses que se abriam com a possibilidade do fim da Era Mubarak seria a de que a mudança política no Egito – a mais populosa nação árabe e limítrofe de Israel, o que a torna um elemento crítico para a paz na região e no planeta – poderia resultar numa instabilidade político-militar e diplomática de grande amplitude. E de agravamento progressivo, mas acelerado, vale a pena acrescentar agora.

                No momento, o que era, quando fiz a mencionada abordagem do tema, uma possibilidade, já se tornou uma certeza – logo chegará ao fim a Era Mubarak, iniciada em seguida ao assassinato do ex-presidente egípcio Anwar Sadat, que deflagrou uma guerra contra Israel e não a venceu, mas ganhou posição na opinião pública árabe para ser capaz de assinar um acordo de paz com este país, atraindo para acordo semelhante a Jordânia (outro país essencial no conflito regional por ser também limítrofe de Israel).

                A questão urgente neste momento não é quantos e quais erros (foram muitos) cometeu Mubarak no poder. Ele vai sair e a história resolverá isso algum dia, bem como julgará a importância que teve no processo de manutenção do que, tenho certeza, é um estado de paz provisória na região. Uma paz destinada a ser profunda e totalmente quebrada em futuro talvez não distante. É o resultado da rebelião, é se ela levará ao fim da paz.

                Entre as muitas questões envolvidas nos acontecimentos que se desdobram agora no Egito (com os gigantescos protestos de rua e os não menos intensos conflitos entre contestadores e simpatizantes de Mubarak), duas me parecem as mais importantes. Uma, a questão dos direitos humanos, uma ferida profunda na sociedade egípcia e, aliás, não raro com muito mais intensidade, em todos os países árabes e na quase totalidade dos países, incluindo não árabes, nos quais prevalece a religião islâmica.

    No Egito, as instituições islâmicas não têm responsabilidade por isto, como não tinham no Iraque e não têm na Turquia, no Cazaquistão ou mesmo no Paquistão. Mas têm tudo a ver – não a doutrina do Corão, mas as instituições que orbitam em torno dele e o interpretam à sua própria maneira e à dos seus interesses – com regimes absurdos como o que domina o Irã ou o que dominou o Afeganistão no tempo dos talibãs. E muito a ver com o que acontece na Líbia, no Sudão e em dezenas de outros países asiáticos e africanos.

    A outra questão: o grande perigo que há no Egito de agora é que, depois do anúncio de Mubarak de que terminará seu mandato em setembro e não buscará outro e das garantias de seu governo de que o filho dele, Gamal, não será candidato à sucessão do pai e de que de setembro poderá até haver uma antecipação da mudança para agosto, a mobilização de oposição sinta-se forte o suficiente (já vem dando sinal dessa crença) para transformar em realidade o grito de “Mubarak, saia já”.

    Então, não haveria clima para preparar uma “transição ordenada”, mas para uma revolução talvez incontrolável, na qual os manifestantes insatisfeitos com a falta de empregos, a desigualdade social e a economia decadente podem ser instrumentalizados por facções políticas e religiosas que, no poder, cuidariam de por em prática o que têm na cabeça – incendiar o mundo árabe e mais algumas nações islâmicas contra Israel, que, suspeita-se, tem cerca de 200 bombas nucleares.

    Então...
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    Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia desta sexta.
    Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

    terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

    Eu apóio o povo egípcio. http://www.avaaz.org/apoieoegito  Junte-se a nós.

    sábado, 29 de janeiro de 2011

    A crise no Egito e a paz

     Sábado,  29 de janeiro de 2011 
    Por Ivan de Carvalho
    O Egito, literalmente, pega fogo. Edifícios, veículos, especialmente veículos policiais. Mas o fogo principal está principalmente na mente das pessoas, as que protestam contra o regime do presidente Hosni Mubarak e as que integram sua estrutura de poder ou são a favor de seu governo.
     
        Este segundo tipo de fogo alastra-se, além das fronteiras do Egito, para todo o Oriente Próximo, que as pessoas e os meios de comunicação insistem e continuam insistindo em chamar de Oriente Médio.
     
        Até ontem, além do toque de recolher, o governo egípcio produziu o apagão dos celulares e da Internet (não havia o sinal nem para uma coisa nem para a outra) e proibiu a mídia clássica (jornais e emissoras de rádio e televisão). A intenção era a de não permitir a articulação dos protestos e impedir que a população tomasse conhecimento dos que acontecessem e de outros fatos incômodos ao governo. Assim, eliminou-se provisoriamente a possibilidade de liberdade de expressão – mas os protestos continuaram.
     
       O regime chefiado pelo presidente Hosni Mubarak é autoritário e um dos mais estáveis da região. E o Egito é o alvo mais cobiçado dos radicais islâmicos. O discurso dos que desde a terça-feira protestam nas ruas contra o governo egípcio é o de exigirem, além de melhores condições econômicas, um regime democrático, em que a liberdade tenha o lugar que lhe cabe e haja justiça social.
     
            O discurso é correto. É, aliás, aquele discurso ideal que algumas vezes é realizado em parte e raríssimas vezes no todo. E com certeza também é sincero da parte de muitos que o fazem. Mas não de todos ou, talvez, nem mesmo sequer da maioria. Os valores democráticos não são, infelizmente, um elemento relevante da cultura árabe, com exceção – há tempos atrás, hoje já não dá para dizer a mesma coisa, depois que a Síria violentou o país – do Líbano.
     
        Grande parte da oposição a Mubarak é articulada por pessoas bem mais autoritárias do que ele e certamente muito mais mal intencionadas. Essas pessoas, usando a demogagia em suas várias facetas, inclusive e, no caso, com insistência, uma distorcida argumentação religiosa, conseguem atrair multidões e dominá-las, como ocorre hoje no Irã e como ocorreu há não muito tempo no Afeganistão dos talibãs, dois países muçulmanos, ainda que não árabes.
     
        O que acontece agora no Egito é crucial para o curso e o desfecho do conflito entre Israel, de um lado, e os palestinos e outros nações árabes, do outro lado. O Egito de Mubarak tem sido – depois do acordo de paz que fez com os hebreus o então presidente egípcio Anwar el-Sadat, por isto assassinado, após a guerra árabe-israelense de 1973 e do qual participa ainda a Jordânia – uma âncora da paz na região, que a Síria, o Irã, o Hamas, o Hizbollah e outros atores tentam incendiar.
     
        Fechando o dia, ontem, sob a irresistível pressão dos fatos, Mubarak fez um pronunciamento em que prometeu assegurar ao Egito mais democracia, melhorar a economia e começar tudo isso demitindo e substituindo todos os seus ministros. Será suficiente esta promessa?
     
        O que vai acontecer no Egito e, também por causa disso, na região e no mundo? Em minha trevosa ignorância e sem saber o que prevê a CIA, melhor ir buscar informação na Bíblia, onde o Senhor, pelo profeta Isaías, fala ao povo de Israel: “De nada valerá buscardes o auxílio do Egito, porque não haverá paz; e Israel deve confiar apenas no Senhor”.
        Meu Deus...
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    Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia deste sábado.
    Ivan de Carvalho é jornalista baiano.