“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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quinta-feira, 15 de maio de 2014

Ivan de Carvalho, jornalista baiano que foi colaborador do Gama Livre e do melhor site blog da Bahia (o Bahia em Pauta), terá prêmio de jornalismo em seu nome

Quinta, 15 de maio de 2014
 Do metro1.com.br (Bahia) 
Ivan de Carvalho será homenageado através de prêmio de jornalismo
Ivan de Carvalho será homenageado através de prêmio de jornalismo
Foto: Tribuna da Bahia/Divulgação
O jornalista e articulista político Ivan Lemos de Carvalho, falecido no último dia 6 de maio, será homenageado através do prêmio de jornalismo e acesso à Justiça, oferecido pela Associação dos Defensores Públicos do Estado da Bahia (Adep/BA), em parceria com a Ouvidoria da Defensoria Pública da Bahia. O prêmio inédito vai contemplar as melhores reportagens de TV, impresso, rádio e Internet (sites e blogs) e contemplará os três melhores trabalhos em cada categoria, com valor em dinheiro, tablete e troféu. Regulamento e ficha de inscrição estão disponíveis no site www.adepbahia.com.br 
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O lançamento do prêmio será amanhã, sexta (16/5).

domingo, 11 de maio de 2014

Missa do jornalista político da Bahia Ivan de Carvalho

Domingo, 11 de maio de 2014
Foto:  Divulgaçāo Tribuna da Bahia e metro1. com.br
Nesta terça-feira (13/5) às 19h30 será celebrada a missa de Sétimo Dia pela alma do jornalista baiano Ivan de Carvalho na igreja Nossa Senhora Aparecida, no Largo do Imbuí, Salvador.

O jornalista Ivan Lemos de Carvalho foi colaborador deste Blog Gama Livre, e era irmão querido do seu editor. Trabalhava na Tribuna da Bahia desde antes de 21 de outubro de 1969 (primeiro dia de circulação da TB), um jornal que revolucionou o jornalismo no estado. Editor de política por muitos anos, depois de aposentado continuou colaborando como articulista político do jornal.

Foi chefe da sucursal baiana do Jornal do Brasil, numa época em que o jornal carioca era considerado o de maior prestígio entre todos os do país. Por um período foi chefe do escritório baiano da antiga Agência Nacional, hoje Empresa Brasileira de Comunicações (EBC). Assumiu a Secretaria Extraordinária de Informação e Divulgação da prefeitura de Salvador na gestão do prefeito Fernando Wilson de Magalhães. Desde 1991 trabalhava, como jornalista, na Assembléia Legislativa da Bahia.

Ivan de Carvalho morreu no último dia 6, e foi sepultado na tarde do dia 7 de maio.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Senadora Lídice da Mata fala da morte de Ivan de Carvalho e destaca papel do colunista político da Tribuna da Bahia e Bahia em Pauta na imprensa em pronunciamento no Senado; Autoridades lamentam a morte do jornalista político

Quinta, 8 de maio de 2014





    Lídice da Mata (PSB) fala no Senado da morte do jornalista Ivan de Carvalho, do programa da TV Senado sobre municípios premiados e do centenário do arquiteto baiano Diógenes Rebouças, cujos projetos revitalizaram Salvadoe e várias cidades brasileiras.
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    Irmão do editor do Gama Livre, Ivan de Carvalho tinha seus artigos também reproduzidos neste blog de Brasília. (Taciano)
    Ivan morreu na noite do dia 6 e seu corpo foi enterrado ontem (7/4), no cemitério Jardim da Saudade, Salvador.

Leia também:  Autoridades lamentam morte de Ivan de Carvalho

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Morre Ivan de Carvalho, o colunista político que deixa a Bahia sem uma de suas referências maiores e melhores no jornalismo

Quarta, 7 de maio de 2014
Do Blog Bahia em Pauta

Ivan e o editor do BP em foto de outubro de 2013

Ivan de Carvalho, Adeus
Vitor Hugo Soares
Morreu ontem a noite, no Hospital da Bahia, Ivan Lemos de Carvalho, ou simplesmente Ivan de Carvalho, como ele assinava há décadas a coluna política que escrevia diariamente para a Tribuna da Bahia, publicada também no Bahia em Pauta desde a fundação deste site blog.
O BP perde um esteio generoso, um guia seguro e uma âncora firme e resistente como o Carvalho do seu nome. A Bahia perde o seu jornalista político brilhante, culto, inteligente e capaz de se renovar a cada dia, na abordagem de temas no seu universo inesgotável de assuntos. Do dia a dia dos bastidores da política partidária e do poder na Bahia e no Brasil, aos discos voadores, os OVNIS, tema que ele dominava como poucos.
Tudo com informações fartas, texto atraente e cativante, éticos, críticos e não raramente autocríticos. Temperados sempre com fartas doses de bom humor, uma marca de Ivan, pessoal e profissionalmente falando.
O agravamento geral de antigos e novos problemas cardíacos e pulmonares, na saúde já delicada, apontava para o triste desenlace deste dia de luto e pesar do jornalismo baiano e nacional, pois Ivan de Carvalho ocupou, também, durante um período, a chefia da sucursal do Jornal do Brasil, em Salvador, onde trabalhava também este editor do Bahia em Pauta.
Aí foi sedimentada a forte amizade pessoal nascida na Faculdade de Direito da UFBA, fortalecida em muitos anos de batente de imprensa e convívio intenso, respeito e admiração intelectual. Ultimamente, até o seu mais recente internamento, os contatos por telefone eram praticamente diários, não raro madrugada adentro.
O prenúncio da partida veio através do telefonema de sua Célia, a amada, corajosa e leal companheira até o último suspiro, comunicando o estado crítico de Ivan.


Por volta das 22h chegou o e-mail de Taciano de Carvalho, editor do Blog Gama Livre, em Brasília, que vai transcrito na integra nesta madrugada de despedida:

"Vitor,
Meu irmão Ivan Lemos de Carvalho, seu amigo, acaba de partir na noite desta terça, 6 de maio de 2014. Estava internado desde o dia 26 de maio no Hospital da Bahia. O enterro será no Jardim da Saudade às 15h30. Está previsto o corpo chegar ao cemitério às 10h30".

Abraço,
Taciano Lemos de Carvalho


Na hora da morte, um viva à vida e ao exemplo de Ivan de Carvalho.
(Vitor Hugo Soares, editor, em nome de todos os que pensam e fazem o BP e em memória de seu cronista político maior)
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Links incluídos às17h10:
Leia ainda:
Prefeito de Salvador, ACM Neto, lamenta a morte do jornalista político Ivan de Carvalho


quarta-feira, 25 de julho de 2012

Uma boa decisão


Quarta, 25 de julho de 2012
Por Ivan de Carvalho
O governo da Bahia ainda pode recorrer da decisão, mas, pelo menos por enquanto, está condenado a pagar uma indenização de R$ 100 mil e pensão vitalícia no valor de quatro salários mínimos – cerca de R$ 2,5 mil, atualmente – a uma jovem de 15 anos que, aos três anos de idade, foi infectada pelo vírus HIV ao tomar uma transfusão de sangue no Hospital Geral Roberto Santos, em Salvador, para combater uma anemia. É presumível que o sangue não havia sido testado em relação à presença de anticorpus para o HIV.

             Ora, esse teste deveria ser – já há doze anos atrás, quando a transfusão de sangue contaminado ocorreu – obrigatório e rigorosamente efetuado no então chamado Hemocentro estadual e o próprio hospital estadual não deveria usar o sangue sem o certificado de que fora submetido ao teste anti-AIDS, além de alguns outros exames laboratoriais indispensáveis.

            A sentença condenatória foi prolatada ontem pelo desembargador Salomão Resedá e outros três colegas da 4ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça da Bahia, conforme revelou a assessoria de comunicação do tribunal. É possível questionar valores. O Brasil tem uma tradição de minimizar as indenizações de danos, mais ainda quando se tratam de danos morais.

            Embora seja significativo, o valor da indenização, fixado em R$ 100 mil reais, é modesto, diria insuficiente, pois, embora possa estar apenas visando à compensação dos danos morais (não conheço o processo em detalhes), supondo-se, portanto, que os danos materiais seriam cobertos pela pensão vitalícia de quatro salários mínimos.

            A indenização de R$ 100 mil é insuficiente para cobrir os danos morais. Uma pessoa que vem desde os três anos de idade enfrentando a AIDS e todas as suas consequências e continuará nesta mesma aflição até o último dia de sua vida ou, na melhor das hipóteses (ressalvados milagres), até que a cura da AIDS seja descoberta e resolva efetivamente o seu problema.

            Quanto aos danos materiais, eles incluem a aquisição de medicamentos que, eventualmente, sejam necessários ou convenientes sob o aspecto médico e o Estado não forneça à cobertura da diferença do que a pessoa poderia ser e fazer se não houvesse sido contaminada com o vírus e do que ela puder fazer apesar dele. Note-se que, tanto no caso da indenização quanto no da pensão vitalícia, o Estado não teria dificuldade em dispender os valores estabelecidos nem valores expressivamente mais altos. Na opinião deste repórter, valores mais altos seriam mais adequados.

            No entanto, não se tem aqui qualquer propósito de censurar aspectos da decisão judicial, muito ao contrário, escrevo como um humilde estímulo a que outros prejudicados pelos serviços de saúde, seja públicos ou privados, por erros evitáveis que sejam cometidos e efetivamente prejudiquem a saúde das pessoas. O sistema privado de saúde será um alvo fácil devido às falhas que, com raras exceções, apresenta, mas é evidente que o ponto crítico está na assistência prestada pelo SUS em unidades de saúde públicas e privadas.

            A decisão da 4ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça da Bahia é um alento para as pessoas que se sintam prejudicadas ou para suas famílias. Também para que o Ministério Público se mova em relação a isto. Talvez, se tais ações se tornarem uma rotina, um hábito no caso em que haja verdadeira justificativa, o Estado passe a cuidar melhor da saúde das pessoas, cumprindo o dever a que o obriga a Constituição e o permitindo que o cidadão desfrute do direito que lhe dá a Carta Magna.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia desta quarta.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Tudo sob controle

Segunda, 23 de julho de 2012 
Por Ivan de Carvalho
O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro divulgou, em obediência a decisão do presidente do STF, Carlos Ayres Britto, no site do tribunal fluminense, a remuneração individualizada dos servidores do Judiciário estadual, inclusive os magistrados.

            Mas a Associação dos Magistrados de lá obteve depois liminar, no Tribunal Regional Federal da 2ª Região, sustando a divulgação, em relação aos magistrados. Então, a lista foi suprimida ainda na manhã do mesmo dia em que havia sido publicada, a sexta-feira. O presidente do TJ-RJ espera apenas que seja cassada essa liminar para voltar a publicar a remuneração individualizada dos magistrados.

Ele acata, mas discorda do entendimento do STF e alega que o decreto 7.724/2012, ao regulamentar a Lei de Acesso à Informação, determinando a publicação individualizada da remuneração dos servidores públicos, violou o princípio constitucional da inviolabilidade da intimidade, da honra, da vida privada e da imagem das pessoas.

Bem, não pretendo analisar esta questão, apenas assinalar o entendimento de que, em referência à remuneração de servidores públicos, a sociedade, por intermédio do Estado, é que paga e não há nenhuma inconstitucionalidade em os cidadãos-contribuintes saberem quanto estão pagando e a quem. Como o patrão que, no setor privado, sabe quanto paga a cada um de seus empregados.

O que pretendo é mostrar que essa questão causou e ainda continua a causar grande polêmica e questionamentos judiciais, enquanto algo realmente perigoso, ofensivo à privacidade e eventualmente danoso a outras garantias constitucionais, passa batido, sem nenhum questionamento no STF. Trata-se do Sistema Nacional de Identificação Automática de Veículos, o SNIAV, com seus chips de rastreamento por radiofrequência, oficialmente chamados de “placas eletrônicas”. Os chips serão obrigatórios para todos os veículos automotores terrestres (carros, motos, etc.) e podem ser impostos – como na Bahia, segundo aviso do Detran – por cada Estado e pelo Distrito Federal já a partir deste mês, caso a unidade federada queira, mas serão obrigatórios em todo o país a partir de 2014.

Tudo isto foi criado com base na Resolução 212 do Conselho Nacional de Trânsito, que inventou por os chips nos veículos. Alegou basear-se nas atribuições que lhe são conferidas pelo Código de Trânsito Brasileiro e pelo Decreto nº 4.711, de 2003, que trata da coordenação do Sistema Nacional de Trânsito. O artigo 114 do CTB atribui ao Contran dispor sobre a identificação dos veículos. Mas não passando por cima de alguma garantia constitucional, como a da privacidade. No entanto, além de Renavan, cadastro nacional, placas, número de chassis, o Contran inventou impor os chips, que rastreiam os veículos e, naturalmente, quem estiver neles. Principalmente o proprietário. Os objetivos prioritários (não os únicos) são arrecadatórios (IPVA, licenciamento, multas) e de facilitação de cobrança dos pedágios, inclusive urbanos. Estranho que nem o Ministério Público nem a Ordem dos Advogados arguiu inconstitucionalidade perante o STF. Ainda está em tempo. Mas certamente não há muito tempo.

É que vai se formando uma densa cultura de vigilância e monitoramento da população. E isso acostuma as pessoas (que passam a ver como “normal” o que é absurdo) e vicia o poder. Parece que, sem conseguir controle sobre os infratores, bandidos entre eles, o Estado (os governos) está partindo para monitorar e controlar os que cumprem a lei. E para estabelecer a regra de que, não estando monitarado, controlado, é bandido. No caso do chip veicular, punições e embaraços para o proprietário do veículo que estiver sem ele.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia desta segunda.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

PT põe barbas de molho

Quinta, 28 de junho de 2012 
Por Ivan de Carvalho
Sobre a escolha do sucessor do prefeito de Salvador, João Henrique, existiam duas presunções aceitas sem maiores polêmicas: haveria segundo turno nas eleições e nele o candidato do PT, Nelson Pelegrino, apoiado por uma ampla aliança partidária, estaria presente.

            A primeira dessas presunções continua existindo, apesar da desistência de alguns partidos em lançarem candidatos, portanto criando facilidade, ainda que apenas teoricamente, para que o pleito não seja levado a uma decisão no segundo turno.

            Assim é que o PP, que tinha como candidato o deputado federal e ex-chefe da Casa Civil do prefeito João Henrique, João Leão, desistiu da candidatura própria para apoiar o candidato do PT, Pelegrino e indicar o vice em sua chapa, José Mattos, recém- saído da Secretaria Municipal de Tranportes e Infraestrutura. Foi aí que o prefeito João Henrique, do PP, numa estonteante manobra que surpreendeu o PT e o próprio PP, liberou o PTN – que, com o deputado João Carlos Bacelar, presidente deste partido, comanda a Secretaria Municipal de Educação – para apoiar a candidatura do democrata ACM Neto e viajou em missão oficial seguida de férias. Um ambiente de barata voa se instalou no PT e no PP.

            Então, o PT entendeu que o prefeito não apoiaria Pelegrino e que, assim, já não interessava o vice a ser indicado pelo PP. Pelo contrário, melhor seria que o PP voltasse a ter o deputado João Leão como candidato a prefeito. A candidatura foi reposta. Mas faltava o dinheiro para a campanha de Leão. Na terça-feira, o PP ficou sabendo que o prefeito João Henrique não tinha meios de ajudar o caixa da campanha. Então o PP resolveu jogar a toalha e voltar a ficar sem candidato e apoiar o do PT, mas sem indicar-lhe o vice, já que perdera o cacife para isso – e o cacife do PP, no caso, era o apoio discretíssimo do prefeito João Henrique a Pelegrino.

            Sem o prefeito, com ACM Neto ganhando o apoio do PTN, que em Salvador tem força eleitoral expressiva, e montando uma aliança de peso reconhecido, enquanto surgiam indícios precisos de crescimento da candidatura peemedebista do radialista e ex-prefeito Mário Kertész, o sinal de alarme acendeu-se no PT. Insinuava-se, melhor dizendo, insinua-se como consistente, ou pelo menos factível, a hipótese de um segundo turno em que o petista Pelegrino não esteja presente. Uma disputa entre ACM Neto e Mário Kertész – o inferno do PT.

            Intensificaram-se as articulações. O PSB da senadora Lídice da Mata acabou com o zum-zum-zum em torno de sua hipotética candidatura e anunciou que apoia Pelegrino. O deputado Capitão Tadeu Fernandes, que queria porque queria ser candidato a prefeito pelo PSB foi solenemente ignorado. O PSC de Eliel Martins foi rapidamente atraído à mesma coligação, onde o PR do senador César Borges, apesar de todos os percalços internos por causa dessa decisão, já se incluíra, atendendo a convites irrecusáveis.

            Até ontem, fortíssima era a pressão para que o PC do B – que desde o começo dizia que dessa vez não ia ter pra ninguém e que lançaria candidatura própria à prefeitura, a da deputada Alice Portugal – aderisse. O partido já dava claros sinais de rendição, ante as fortes motivações apresentadas para uma aliança com os comunistas pelo governador, segundo o presidente estadual, deputado Daniel Almeida. As motivações, não reveladas, são óbvias: três candidaturas aptas a irem ao segundo turno deixarão uma delas fora do segundo turno. O PT faz o que pode para que não seja a dele.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Mensalão, herança maldita

Quarta, 30 de maio de 2012
Por Ivan de Carvalho
Pouco está faltando para o Brasil político mergulhar em um ensaio geral do Apocalypse.


Não bastava a perspectiva, que vai ganhando características de certeza, de que o julgamento do Mensalão, com seus atuais 36 réus, se verifique ainda neste ano de eleições, ao contrário do que desesperadamente desejam os réus e seus padrinhos políticos. O fato de ser este um ano de eleições não era o elemento principal da torcida e do ingente esforço que vem sendo feito para empurrar o julgamento para o ano que vem.

Afinal, 2013 é bem mais perto de 2014 e as eleições de 2014, para deputados estaduais e federais, um terço do Senado Federal, governadores e presidente da República, com seus respectivos vices, são incomparavelmente mais importantes. Assim, eleitoralmente, o julgamento do Mensalão este ano talvez seja muito menos inconveniente para o entorno político dos mensaleiros do que em 2013. Pois que se somente no ano que vem se realizar, a lembrança do caso estará bem mais viva quando acontecerem as eleições de 2014.

Importante a nação entender que a grande vantagem de empurrar o julgamento para 2013 é jurídica. Os crimes de penas menos pesadas prescreverão e os acusados por eles – nos casos em que não tiverem de responder também a crimes com penas de prisão mais longas – nem serão julgados. As acusações contra eles cairão na preliminar da prescrição. O que mais se busca, portanto, com o retardamento do julgamento é a impunidade. Que poderia ser talvez melhor servida com a aposentadoria compulsória de dois ministros e sua substituição por dois novos.

Ora, para desviar o foco do julgamento do Mensalão, o governismo decidiu criar a CPMI do Cachoeira, para investigar um tema que a Polícia Federal investigara exaustiva, mas não completamente. Claro que a oposição apoiou a CPI. Mas o governo cuidou de manter absoluto controle da comissão parlamentar mista de inquérito, no comando e na composição.

Apesar disso, e ainda de resistir à convocação de três governadores apontados como envolvidos com o personagem principal, Carlinhos Cachoeira, a CPMI foi obrigada pelos fatos a tomar o freio nos dentes e quebrar o sigilo da Delta Construções em âmbito nacional. A Delta é a empresa líder das obras do PAC, programa lançado no segundo mandato de Lula e que continua no atual governo. É a primeira complicação importante para o governismo na CPI.

Bem, como parte do ensaio geral a que me referi nas primeiras linhas, houve o estonteante e estupefaciente encontro de Lula, Nelson Jobim e do ministro Gilmar Mendes, do STF, seguido das denúncias gravíssimas feitas por Mendes, entre outros, ao presidente do STF, ao procurador geral da República e à revista Veja. Evidentemente contestadas. O leitor quer mais arranca-rabo no ensaio geral? Pois tem. Segundo Gilmar, Lula estava espalhando boatos sobre uma viagem sua à Alemanha. Ontem ele exibiu documentos aos jornalistas e deu explicações detalhadas, sugerindo ainda que os jornalistas buscassem outras no STF.

Ah, no Rio Grande do Sul um procurador da República, Manuel Pastana, por iniciativa própria, encaminhou representação à Procuradoria Geral da República, pretendendo que Lula seja responsabilizado criminalmente pelo Mensalão. Ontem já começava na rede petista na internet uma guerra contra o procurador Pastana.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia desta quarta.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

sábado, 19 de maio de 2012

Informação e privacidade

Sábado, 19 de maio de 2012
Por Ivan de Carvalho
Está em vigor a lei que garante o direito dos cidadãos à informação em poder do Estado, ressalvados os casos legalmente previstos de informações classificadas como sigilosas por prazo que não pode exceder a 25 anos.
             
            Mas, logo entrou em vigor a lei, esta semana, um curioso debate se estabeleceu. A maioria das atenções se voltou para a questão de definir – como se já não fosse óbvio – se o valor da remuneração dos servidores públicos, desde o auxiliar de escritório até o presidente da República, deve ser excluído do direito da cidadania à informação.

            Estranho é que haja surgido essa polêmica, que logo se tornou uma coisa barulhenta. Os que se opõem à disponibilização de tal informação alegam, em uníssono, que se trata de uma invasão da privacidade do servidor. O argumento é insustentável, por não haver aí um assunto privado, mas público.

            Afinal, a população é que, na qualidade de contribuinte de tributos – impostos diretos e indiretos, taxas, contribuições e empréstimos compulsórios – fornece ao Estado o dinheiro com que este paga seus servidores. Assim, o povo, que paga todos os servidores públicos tem o direito público de saber qual a remuneração de cada servidor público.

Por causa dessa lógica evidente, de aplicação obrigatória em um país democrático, é que, por exemplo, o acesso à remuneração de todos os funcionários da Casa Branca, como lembraram algumas notícias divulgadas esta semana no Brasil, é franqueado a todos os cidadãos, estão no site da sede do Poder Executivo dos Estados Unidos da América. Sem que ninguém alegue que isto é invasão de privacidade, mesmo em um país em que a privacidade ainda é (não tanto como antes do atentado do World Trade Center) muito valorizada. Invasão de privacidade haveria caso se tentasse saber o que os servidores públicos, individualmente, fazem com o seu salário. Mas a nova lei brasileira não prevê isso.

Bem, apesar de tudo o Senado Federal decidiu que manteria sigilo sobre a remuneração de seus servidores e a Câmara dos Deputados estava animadíssima para fazer o mesmo. Sob fortes protestos, o Senado anunciou que irá “reexaminar” a questão e a Câmara, que nada havia anunciado, está na moita, esperando pela decisão do Senado e do Supremo Tribunal Federal. O pleno do STF vai decidir se a publicação individualizada de salários de servidores públicos respeita ou não a Constituição, informou ontem o jornal O Estado de S. Paulo. O STF reconheceu “repercussão geral” em um recurso movido pelo município de São Paulo contra decisão da Justiça paulista, que mandou excluir do site De Olho nas Contas, da prefeitura, os dados relacionados a uma servidora. O STF, no passado, já decidiu que a remuneração bruta dos servidores, os cargos e as funções deles são informações de interesse coletivo ou geral.

Espera-se que o STF mantenha agora a mesma posição, “preço que se paga pela opção por uma carreira pública no seio de um Estado republicano”, segundo disse na ocasião o atual presidente do STF, ministro Carlos Ayres Brito. Ontem, o ministro-chefe da Controladoria Geral da União, Jorge Hage, defendeu a divulgação detalhada dos salários dos servidores do Executivo federal. E disse que esta é também a posição da presidente Dilma Rousseff. Espera-se que a informação disponível inclua os penduricalhos, entre outros, os jetons pela participação em conselhos.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia deste sábado.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Não matarás

Sexta, 27 de abril de 2012
Por Ivan de Carvalho
Após uma articulação de deputados católicos e evangélicos, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara federal aprovou por unanimidade, na quarta-feira, uma proposta de emenda constitucional (PEC) extremamente polêmica e, na verdade, perigosa até mesmo para o exercício do regime democrático e o sistema de harmônica independência dos três Poderes.

            No entanto, a decisão da CCJ da Câmara dos Deputados é, declaradamente, uma resposta à também polêmica e não menos perigosa decisão do Supremo Tribunal Federal, que autoriza (criando uma exceção que não existe no Código Penal) o “aborto de fetos anencefálicos”.  Com isto, o STF faz o Estado brasileiro renunciar, parcialmente, à tutela do direito à vida e, pior ainda do que isso, autoriza a execução de seres humanos em fase fetal e com deficiência cerebral grave, a popularmente chamada anencefalia, que deveria chamar-se meroencefalia, pois não há ausência de cérebro, mas existência de apenas uma parte do cérebro.

            A proposta seguirá para uma comissão especial. Para transformar-se em emenda constitucional, o caminho é longo. Depois da comissão especial, a proposta precisa ser aprovada pelo plenário da Câmara com os votos de três quintos dos deputados (308 votos), em dois turnos de votação. Depois, terá ainda que ir ao Senado, onde o processo será repetido. Só após isto seria promulgada.

            É praticamente certo que a PEC não chegará a se tornar uma emenda constitucional. Caso chegasse, provavelmente o Supremo Tribunal Federal, em defesa própria e do sistema jurídico, iria declarar a inconstitucionalidade da emenda constitucional que permitiria ao Congresso sustar decisões do STF e do Executivo. Na verdade, seria normal e até conveniente que isto pudesse ser feito em relação a certos tipos de decisões do Executivo, mas quando se trata de decisão legislativa para sustar diretamente uma decisão do STF, haveria uma subversão impensável do sistema jurídico nacional. O que caberia ao Congresso seria mudar a lei, inviabilizando a decisão do STF, como já fez antes, no caso da verticalização das coligações, por exemplo.

            No entanto, a PEC aprovada pela CCJ da Câmara dos Deputados traz o benefício de formalizar um debate que precisa ser feito com urgência no país. Pois o STF, por grande maioria (oito votos contra dois), simplesmente legislou – inventou uma norma de direito positivo, prerrogativa exclusiva do legislador –, acrescentando às duas antigas e já polêmicas exceções feitas pelo Código Penal Brasileiro ao crime de aborto, mais uma, que não existia e desafia princípios constitucionais, o maior deles o direito à vida. Abre-se aí a porta para a eugenia, prática repugnante e multimilenar, com recente manifestação no regime nazista. Uma fatia, mais outra fatia, mais outra fatia... e vai o salame todo.

Seguindo na mesma linha, ou direção apontada pelo STF, pode-se considerar a advertência feita na 50ª Assembléia Geral da CNBB pelo bispo de Camaçari, Dom João Carlos Petrini, presidente da Comissão Episcopal e Pastoral para a vida e Família. Ele disse que a decisão do STF leva à conclusão, por exemplo, de que “quem incomoda pode ser eliminado”.

É mais ou menos isso. A mãe não está gostando, joga fora. Não importa se o lixo descartado é hospede e não parte do corpo da mãe – e que não pediu para ser gerado, mas, desde o momento que foi, é um ser humano e não qualquer outro ser ou parte de outro.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia desta sexta.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

quarta-feira, 23 de março de 2011

A epidemia de dengue

Quarta, 23 de março de 2011 
Por Ivan de Carvalho
    O Brasil está a um passo de registrar uma epidemia de dengue, já com perspectivas ameaçadoras na Bahia, segundo anunciou ontem a Secretaria de Saúde do Estado, ao relatar quais as providências que vêm sendo e serão adotadas e pedir a atenção e uma atitude ativa da população para o combate ao mosquito transmissor.

    O país já está, digamos, acostumado com os tipos 1,2 e 3 de vírus da dengue, mas há três décadas não foi encontrado no país o tipo 4, que a novidade emergente. As pessoas ficam imunes ao tipo ou tipos de vírus da dengue que já as afetaram, mas não têm seu sistema imunitário preparado para um tipo desconhecido por seu organismo.

  Este é o caso do vírus tipo 4, que assim não encontra na população brasileira (e baiana) um freio imunitário e por isto mesmo pode levar a uma situação epidêmica desse tipo de dengue. O complicador é que se uma pessoa já teve a doença com um dos outros três tipos de vírus da dengue, a contaminação pelo tipo 4 pode levar à forma mais grave da doença, a dengue hemorrágica. Esta mistura de uma dengue antecedente com uma nova, causada pelo vírus do tipo 4, pode levar à forma mais grave da doença, a dengue hemorrágica, não raro fatal.

   Esta é a ameaça que terá de ser enfrentada na Bahia. Em Salvador já foram detectados dois casos de dengue tipo 4, mas a doença não assumiu forma grave nestes casos, presumindo-se que as pessoas afetadas não experimentaram antes outro tipo de vírus da dengue.

   No entanto, independente do vírus tipo 4, já foram confirmados (não significa, portanto, que não hajam ocorrido outros) na Bahia este ano 28 casos de dengue hemorrágica, tendo três dos infectados morrido. Um em Jequié, outro em Porto Seguro e outro em Madre Deus. O número total de casos notificados no ano passado até o dia 12 de março foi de 11.679, enquanto este ano, no mesmo período, foram notificados 9.584 casos de dengue.

   Houve, portanto, uma ligeira queda do total notificado, mas a emergência do tipo 4, para o qual a população não tem imunidade, representa alto risco de um aumento exponencial dos casos. Isto, somado ao risco já explicado de contágio de pessoas que já experimentaram outro tipo de vírus da dengue e, portanto, da multiplicação de casos de dengue hemorrágica.

    Há ainda um outro fator desfavorável começando a se manifestar no país. O mosquito transmissor, o aedes aegypti, já começa a se adaptar às condições e costumes brasileiros. Ele só punha os ovos e gerava prole em água limpa. Agora, já começa a conviver com águas sujas. Já foram encontradas larvas até em água de esgoto (não foi na Bahia). Se (ou quando) essa mutação evolutiva se generalizar entre os mosquitos, nós dançamos, enquanto eles voam.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia desta quarta.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.
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Mosquito da dengue.         Foto: Fiocruz

terça-feira, 22 de março de 2011

Um partido polivalente

Terça, 22 de março de 2011 
Por Ivan de Carvalho
O novo Partido Social Democrático (PSD), depois de lançado com bastante força na Bahia no domingo, foi ontem lançado em São Paulo, estado que pode ser considerado como seu berço e onde a criação da nova legenda significou, na prática, a extinção do DEM.

    De fato, não ficou praticamente coisa alguma do Democratas em São Paulo. Migrou deste partido para o PSD o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, que era a principal liderança política do DEM no estado e deixa a prefeitura em 2012. Kassab não via esta legenda como adequada a uma candidatura sua a governador de São Paulo em 2014. Considerava o DEM desgastado popularmente e assim inapropriado para dar-lhe sustentação na disputada pelo governo paulista.

    Mas não só isto. Tinha razões para temer não encontrar espaço e estímulo no DEM, depois que o grupo do ex-senador Jorge Bornhausen perdeu a disputa pelo controle nacional da legenda antes mesmo de travar uma batalha final na eleição para o comando partidário.

    Além de Kassab, trocaram o DEM pelo PSD em São Paulo o vice-governador Afif Domingos, importante liderança política e o ex-governador Cláudio Lembo, além de outros políticos com e sem mandato. O DEM certamente vai reagir da maneira esperada e, aliás, já anunciada pelo deputado baiano ACM Neto, líder da bancada democrata na Câmara dos Deputados – intervindo na seção estadual paulista. É que os componentes da atual direção do DEM paulista são naturalmente aliados do prefeito Kassab e de Afif Domingos.

    Assim, o que o DEM vai tentar é, afastando os atuais dirigentes da seção paulista, abrir espaço para uma reconstituição da legenda no maior colégio eleitoral do país. Uma reconstituição a partir do nada ou, para não correr o risco do pessimismo, do quase nada.

    No nascimento, o PSD, como declaravam ontem seus fundadores no ato político realizado na Assembléia Legislativa de São Paulo, busca se situar como um partido “independente”. Continuará, como fazia a maioria paulista de seus integrantes ainda quando no DEM, apoiando o governo tucano de Geraldo Alckmin em São Paulo, enquanto se coloca, como disse Kassab, “à disposição da presidente Dilma Roussef”. Para apoiar “quando for necessário” e “fiscalizar” sempre que esta ação seja adequada.

    É uma definição verbalmente complexa, mas não difícil de entender se forem consideradas as origens da nova legenda, a ser integrada por políticos de variada origem, alguns porque imaginam este novo partido como permanente, outros por quererem, através dele, fazer uma ponte para atravessar o fosso representado pelas normas e jurisprudência a respeito da fidelidade partidária.

   Um partido assim formado não tem condições de, logo de início, enunciar um rumo muito definido. Surge, então, esse discurso de independente, pronto a fixar posições de apoio ou “fiscalização” – pois não se quis, sequer, falar “crítica” – à medida que se deparar com cada fato em seu caminho. O PSD põe um rosto de polivalente. Mas sem dúvida que há no novo partido uma tendência dominante de aproximação com o governo federal.

   No caso da Bahia, não há cuidados com as aparências. O rumo está claro. Não há dúvida de que a seção estadual, liderada pelo vice-governador Otto Alencar, apoiará decididamente o governo Jaques Wagner e dará toda a contribuição que puder à base de sustentação da presidente Dilma Roussef. Aliás, o governador seguramente está muito feliz com a entrada em cena desse novo partido na Bahia.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia desta terça.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O bem nascido PSD

Segunda, 21 de março de 2011 
Por Ivan de Carvalho
    O lançamento, ontem, na Bahia, do novo partido, o PSD, foi um evento que atingiu plenamente seus objetivos políticos. Portanto, um êxito. O partido estará, na Bahia, sob a liderança do vice-governador Otto Alencar, que certamente participará, pela importância que a sessão baiana terá neste projeto político, do núcleo de comando nacional da nova legenda.

    Resolveram seus criadores adotar o nome de Partido Social Democrático e a sigla PSD (desistindo da denominação inicialmente imaginada, PDB, supostamente porque não soava bem). PSD pode soar bem e não deve ser feita confusão com PDS, a última mutação da Arena e último partido-base do regime autoritário iniciado em 1964.

    Mas sabe, quem tenha o tempo suficiente de estrada ou haja estudado a história dos partidos no Brasil a partir da democratização que se seguiu à deposição de Getúlio Vargas com o fim da ditadura do Estado Novo (acontecimento decorrente do fim da Segunda Guerra Mundial), que PSD e Partido Social Democrático não são uma sigla e uma denominação criativas.

    Copiou-se, na nomenclatura, o PSD, criado como um braço do getulismo pós-ditadura para atuar junto a parte da classe média urbana e da aristocracia e classe média rurais, bem como junto às elites industriais e comerciais. Pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) o getulismo alcançava os operários e o controle de grande parte dos sindicatos de empregados.

    Não seria muito exato sugerir, como já se tem feito, que o novo PSD diferia do antigo partido extinto pelo segundo Ato Institucional por ser, o novo, abrigo para políticos de diferentes origens ou inclinações políticas. Até porque os quadros do PSD de outrora tinham espectro muito amplo, incluindo desde comunistas até adeptos de ditaduras do tipo latino-americano, fascistas e um ou outro cripto-nazista (espécime muito raros, este último, inclusive porque Hitler perdera a guerra). O PSD foi até 1965 quase que o “partido-ônibus” que o MDB e principalmente, depois, o PMDB seria, na sua fase gloriosa, ainda sob o comando de Ulysses Guimarães.

   Se comparados os dois PSD, o extinto e o que está em criação, até que este último deverá ter uma composição política mais coerente ou, na pior das hipóteses, menos incoerente. Mas buscar coerência no quadro partidário brasileiro atualmente é quase tão difícil quanto procurar agulha em palheiro. Encontra-se, mas como exceção, principalmente em micropartidos e, talvez, no PC do B, que não é micro, mas é mínimo.
De qualquer modo, o líder principal do novo PSD na Bahia, Otto Alencar, no evento de ontem, que contou com a presença do prefeito paulistano Gilberto Kassab (este e Afif Domingos, vice-governador de São Paulo, estarão lançando o partido nacionalmente hoje, com evento na capital paulista), adiantou que “o nosso estatuto terá um parágrafo permitindo que deixe a legenda sem problemas todo filiado que se julgar desconfortável”. Naturalmente, está embutida aí a preocupação de dar segurança a políticos que queiram se filiar, mas ainda tenham dúvidas quanto à viabilidade do novo partido.

   Seja como for, a norma estatutária anunciada por Otto Alencar, quando concretizada, fará soprar um pouco de liberdade no sistema imposto recentemente, em que, em nome do fortalecimento dos partidos e da fidelidade partidária, estão sendo transformados, os filiados e principalmente os políticos com mandato, numa espécie de escravos de seus partidos. Há escravidão de vários tipos. Esta é a escravidão partidária.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia desta segunda.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

sexta-feira, 18 de março de 2011

A reforma que está vindo

Sexta, 18 de março de 2011 
Por Ivan de Carvalho
    Na Comissão de Reforma Política do Senado, recentemente criada, começa timidamente a se objetivar a por tantos anos falada e há tanto tempo não feita reforma política.
    Ainda há uma grande dúvida sobre se será feita uma reforma de verdade ou se serão pinçados apenas alguns pontos para alteração da legislação.
    É que uma mudança verdadeira do sistema eleitoral, que seria o cerne de uma reforma política para valer, seria a troca, nas eleições proporcionais, do sistema de voto proporcional pelo distrital.
   Esta alteração, por si mesma, teria efeitos tão amplos no cenário político que praticamente dispensaria a maior parte de outras mudanças. Uma rearrumação da política brasileira ocorreria espontaneamente e seria mais profunda que tudo o que pode resultar das demais mudanças que estão sendo ensaiadas.
   Mas a adoção do voto distrital, embora tenha alguns defensores (doutrinariamente, o PSDB é a favor), não acontecerá e isto tem a lógica mais simples possível. Os deputados federais, os estaduais e os vereadores foram eleitos pelo sistema proporcional. Eles não vão abrir mão do instrumento que lhes tem dado seus mandatos. A Câmara dos Deputados não aprovará isto.
   Poderia, claro, aprovar e determinar o início da vigência somente a partir, por exemplo, da próxima década, mas nem isso vai acontecer. O voto distrital não é uma coisa levada a sério no debate em curso sobre a reforma política.
   Então, inventa-se um tal “distritão”, em que cada unidade federada (a Bahia, por exemplo) seria um “distrito”, apenas porque isto pode, eventualmente, abrir espaço para certas mudanças miúdas que interessam aos que estão decidindo sobre a reforma, ou à maioria deles, não necessariamente à sociedade brasileira.
   Por enquanto, a Comissão de Reforma Política do Senado aprovou o fim das reeleições de presidente, governadores e prefeitos (mas não para os que já estão nos cargos) e o alongamento de cada mandato, aí, para cinco anos.
   O PT, além de pontos como o financiamento público de campanha, a fidelidade partidária rígida e o fim das coligações nas eleições proporcionais, está defendendo encarniçadamente a votação, nas eleições proporcionais, em listas partidárias fechadas (formadas por candidatos, na ordem que for determinada por cada partido).
   Isto, a pretexto de “fortalecer os partidos”. Esta suposta necessidade de “fortalecer os partidos” tornou-se uma espécie de dogma no Brasil e vem sendo repetida como um mantra entre os políticos. O Judiciário já adotou o dogma, objetivado em várias de suas decisões, principalmente as relacionadas com a fidelidade partidária, o entendimento de que “o mandato pertence ao partido”, o que está gerando o corolário (que surpreendeu o Congresso) de que, ao contrário do que historicamente sempre ocorreu, o suplente que assume o mandato não deve ser o que se qualificara pela coligação, mas o do partido.
   Mas o “voto em lista” tem dois grandes defeitos, que deveriam ser suficientes para sepultar a infeliz idéia: retira do eleitor a liberdade de escolher os seus candidatos para mandatos de eleição proporcional e estabelece uma evidente ditadura dos partidos. Uma ditadura que se exercerá tanto internamente (dentro de cada partido, sobre seus candidatos e correntes) como dos partidos sobre os eleitores.
   E quem é que nos garante que fortalecer os partidos, ainda mais tanto assim, será bom para o país? Pode ser bom para o poder de um partido ou mais de um sobre o Estado e a nação, mas não, quase certamente, para estes. Nem para os eleitores, que ficam enfraquecidos. Mas talvez seja isto mesmo que se quer...
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

quinta-feira, 17 de março de 2011

A ameaça nuclear pacífica

Quinta, 17 de março
 Por Ivan de Carvalho
    O grande desastre japonês ainda vai ser assunto por muito tempo, mas alguns aspectos evidentemente extrapolam os limites do importante país asiático e têm influência sobre o mundo e sobre o Brasil.

    O aspecto relacionado com a energia nuclear, decorrente do incidente nas usinas de Fukushima, que a cada dia se apresenta mais grave, é um dos que terão influência em nível internacional.

    O efeito principal será, até onde já se pode perceber, o de aumento da resistência à utilização da energia nuclear para geração de energia elétrica. Isto já está ocorrendo na sociedade, principalmente em organizações ligadas à preservação do meio ambiente, mas mesmo os governos ou vários deles não estão conseguindo permanecer imunes à desconfiança das populações de seus países quanto a essa forma de produzir energia elétrica.

    Na Europa, principalmente, e nos Estados Unidos, os governos estão procurando, com maior ou menor empenho, uma sintonia com o sentimento de apreensão dos povos que governam. Isso é até, em parte, uma condição de preservação política desses governos. Eles não podem parecer indiferentes aos riscos óbvios do funcionamento das centrais nucleares existentes e dos programas de construção de novas.

    Então, anunciam uma revisão geral das condições de segurança das usinas em operação nos países que constituem a União Européia e é claro que isso levará a semelhante revisão em todos os países democráticos europeus nos quais existam usinas nucleares. E é claro que os governos dos Estados Unidos e Canadá não poderão ficar fora dessa revisão.

    É evidente também que o incidente nuclear de Fukushima retardará os planos de construção de novas usinas, pelo menos durante o tempo em que serão pesquisados quais os meios possíveis para a redução de riscos a partir da fase de construção.

    Certamente muitos interessados virão com o argumento de que a energia nuclear não é dispensável, sendo, assim, obrigatória a construção de novas usinas, e, quanto aos riscos, a argumentação oficial não será apenas a de que mais cuidados de segurança serão adotados. Já está sendo alegado que a Europa, os Estados Unidos e, digamos, o Brasil, por exemplo (assim como a Rússia, a China, a Índia) não estão no nível de risco japonês de terremotos e maremotos.

    Ainda que verdadeira a alegação, nem por isto é de confiança. Só para lembrar. Não houve terremoto nenhum em Chernobyl, na então União Soviética (Ucrânia), mas houve aí o pior acidente nuclear até hoje registrado. Nos Estados Unidos já houve um acidente nuclear muito grave (quatro pontos numa escala que vai até sete) e eles têm lá a Califórnia, candidata a virar Japão a qualquer momento.

    Índia? Como a placa tectônica do Pacífico pressiona a placa asiática, razão dos terremotos japoneses, a placa tectônica indiana pressiona todo o tempo a placa asiática. Foi basicamente isto que em outras eras fez surgir a cordilheira do Himalaia, a maior e das mais recentes do planeta, da mesma forma que é das mais recentes a cordilheira dos Andes, na América do Sul.

    Não se tem notícia de ondas de dez metros de altura, como a do tsunami recente no Japão, no litoral brasileiro (desde 1.500 D.C.). Mas as duas usinas de Angra dos Reis em funcionamento foram construídas para suportar impacto de onda de até seis metros. Só. A “divisa” entre as placas do Atlântico e da América do Sul não é próxima da costa brasileira, mas...

    Mas quem já foi perguntar a elas o que podem estar aprontando? Ou quem garante que o maremoto não virá de cima, na forma de um corpo celeste de tamanho indesejado caindo no Atlântico?
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia desta quinta.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Uma proposta de risco

Quarta, 16 de março de 2011 
Por Ivan de Carvalho
    Entre algumas decisões relevantes que a Assembléia Legislativa deverá ou poderá ser chamada a tomar está a relacionada com uma proposta de emenda constitucional apresentada pela deputada Luiza Maia, do PT, que extingue o voto secreto no Legislativo baiano.
    A aprovação desta proposta de emenda à Constituição do Estado da Bahia significará uma mudança pioneira no Direito Constitucional brasileiro. Até agora, nenhuma assembléia legislativa fez isso, embora algumas câmaras municipais, sim. Tal mudança é defendida por diversos setores no país, que a querem adotada pelo Congresso Nacional, como a defendem no momento na Bahia, já que aqui está posta a oportunidade.
   Argumentos favoráveis a ela têm sido desenvolvidos e há alguns realmente respeitáveis, pelo que representam e por suas intenções, mas também existem argumentos contrários, que são não somente respeitáveis como também fortíssimos, tanto pelo que representam quanto pelas intenções, mas principalmente pelos riscos que a extinção do voto secreto no âmbito do Poder Legislativo poderá trazer.
   Em audiência pública sobre o assunto, realizada ontem na Assembléia Legislativa da Bahia, quando os convidados foram unânimes em apoiar a proposta de emenda da deputada Luiza Maia, sustentou-se que o voto secreto nos parlamentos justificava-se sob o recente regime autoritário, não mais agora, quando são outras as circunstâncias políticas e o país vive sob regime democrático.
   Ora, circunstâncias e conjunturas políticas mudam. Não creio que a deputada Luiza Maia possa garantir o futuro. Nem ela, nem seu partido, nem os partidos aliados do seu, nem as oposições, hoje tão fragilizadas na Bahia como no país. Mas este não é o ponto central, até porque quando deixa de haver o regime democrático, nem sempre parlamentos continuam funcionando, seja ou não com voto secreto.
   A questão essencial é outra e está posta sob regime democrático mesmo. Em um regime democrático, em muitas questões, parlamentares devem e no Brasil realmente votam a descoberto. É o caso da aprovação de emendas constitucionais, leis complementares e ordinárias e algumas outras decisões.
   Mas quando a votação representa um julgamento de pessoas (impeachment, cassação de mandatos de parlamentares ou outras punições) ou uma avaliação sobre a adequação de pessoas a determinadas funções ou exercício de certos cargos (conselheiros de tribunais de contas, chefe da autoridade olímpica, ministros de tribunais superiores, desembargadores, eleição das Mesas Diretoras das próprias casas legislativas, bem como eleição de presidente da República, governador, prefeito, em certas circunstâncias, entre outros casos), pretende-se que o parlamentar vote de acordo com sua consciência, visando ao bem comum, livre de pressões políticas, sociais e de constrangimentos pessoais. Esta é a expectativa e há quem as atenda, como há quem não as atenda.
   Extinguir o voto secreto para os casos citados, assim como, por exemplo, para a votação de vetos do chefe do Poder Executivo a projetos de lei aprovados no Legislativo, significará expor o parlamentar a máxima pressão externa sobre sua consciência cívica, caso tenha uma. De modo que, por conta dos que se presume que não a têm, pretende-se retirar dos demais o direito de tê-la. E a obrigação de seguir a direção das pressões ou constrangimentos.
   Se o Legislativo aprovar a extinção do voto secreto em nome da transparência, estará, em nome desta, manejando a pá com que poderá estar cavando a própria sepultura.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia desta quarta.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

terça-feira, 15 de março de 2011

Sarney lustra biografia

Terça, 15 de março de 2011 
Por Ivan de Carvalho
    Sei não, acredite quem quiser, pode ser, pode não ser, mas que parece, parece.
    O presidente do Senado e do Congresso e ex-presidente da República, José Sarney, já de idade avançada, pode estar sob a influência de uma desconfiança do PT.

O PT, cada vez mais experiente em política, já contabiliza a hipótese de morte como fator político. No caso de Sarney, houve problemas recentes de saúde que reforçaram um pouco a hipótese. E, assim, o PT não quis a primeira secretaria do Senado, cargo mais importante da Mesa Diretora depois da presidência.

   O PT preferiu colocar a senadora petista Marta Suplicy na primeira vice-presidência. Assim, no caso de morte do atual presidente do Senado e do Congresso Nacional, o PT assume este cargo de comando. Não corre o risco de vê-lo cair nas mãos do PSDB.

   Desconfio que o senador Sarney pode estar sob alguma influência dessa preocupação petista e há poucos dias descobriu-se e noticiou-se que o setor de comunicação do Senado Federal tem pronta uma peça de homenagem ao presidente da Casa, mas com o tempo dos verbos no passado. Uma peça, portanto, que seria divulgada somente depois do, como dizem alguns, seu passamento.

   Sob tal pressuposta influência, o Marimbondo de Fogo do Maranhão dá a impressão de que começou a lustrar sua alentada biografia. Uma das coisas nessa direção o senador Sarney revelou ontem. Vai levar a reunião da Mesa Diretora do Senado proposta de uma resolução para alterar, em ponto essencial, o rito de tramitação das medidas provisórias.

   O presidente do Senado se insurge contra o fato de a Câmara dos Deputados dar sempre a palavra final sobre as medidas provisórias, leis que são antes de serem (assinadas pelo ou pela presidente da República, valem a partir da publicação e são enviadas, já em pleno vigor, ao Congresso, onde podem ser aprovadas, modificadas ou rejeitadas), mas já terão produzido efeitos, frequentemente irreversíveis.

   Bem, a MP é discutida e votada primeiro na Câmara. Digamos que esta aprove com ou sem alterações.Vai daí para o Senado, onde também é discutida e votada. Se o Senado a rejeita ou altera, ou rejeita alterações feitas na Câmara, a MP volta para esta Casa do Congresso, onde os deputados dão a palavra final, derrubando as decisões do Senado.

   Sarney acha que isto “foge um pouco” ao espírito do nosso sistema legislativo. E defenderá que só seja aprovado o que for aprovado nas duas Casas. O que não receber aprovação de ambas estará rejeitado.

   Assim, não teria porque uma MP, depois de passar pela Câmara e pelo Senado, voltar à Câmara. Velha raposa tentando revalorizar o Senado, onde está e que preside, mas, nas circunstâncias políticas do Brasil de hoje, uma boa proposta. “Se uma proposta não for aprovada em uma casa, não pode ser aprovada somente na outra” e se transformar em lei, defende Sarney, tentando quebrar uma velha, mas nem por isto adequada, tradição brasileira.

  Outro lustro na biografia, o senador Sarney começou a dar também ontem. Afirmou que o risco de uma catástrofe nuclear no Japão após o tsunami e os terremotos que começaram na sexta-feira deve suscitar no Brasil um debate sobre os riscos da energia atômica. Ele lembrou também o grande desastre nuclear de Chernobyl. Opinou, entretanto, que é um debate a ser feito “por técnicos, não por políticos”.

   O chamado a um debate sobre a pretendida construção de mais centrais nucleares no Brasil, onde duas já funcionam, é importante. Mas não é um debate só para técnicos. É para toda a sociedade, inclusive para os políticos.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia desta terça.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

sexta-feira, 11 de março de 2011

A Líbia e a primavera árabe

Sexta, 11 de março de 2011 
Por Ivan de Carvalho
    Existe, aparentemente, um grave risco de que a chamada “primavera árabe” perca o rumo a partir do que está acontecendo na Líbia, onde o regime ditatorial de Muammar Gaddafi demonstra potencial que pode ser suficiente para vencer a rebelião de grande parte da população do país, incluindo praticamente a totalidade da população da região leste.

    A perda de rumo da “primavera árabe” poderá vir exatamente pela derrota do movimento em um dos países em que eclodiu com mais força. A derrota dos rebeldes ali poderá ser um anticlímax, desestimulante para movimentos rebeldes ou simplesmente de oposição em várias outras autocracias árabes e muçulmanas não árabes, sendo destas últimas o exemplo principal o do Irã.

    Já são duas semanas de protestos e conflitos sérios na Líbia, milhares de feridos e, a depender das fontes, com suas estimativas díspares e de difícil verificação, centenas ou até dois mil mortos. O movimento rebelde chegou a dominar completamente todo o leste do país, iniciando até com êxito incursões a cidades e localidades menores do Oeste, inclusive conseguindo o controle de uma cidade de média importância a apenas 50 quilômetros da capital, Trípoli.

    A região de Trípoli é a base física, militar e demográfica em que se sustentam Muammar Gaddafi e seu regime, nessa fase que está sendo considerada de quase guerra civil. Aliás não vejo muita razão para o “quase”. Nessa região residem 2,2 milhões do total de menos de sete milhões de habitantes da Líbia (excluídos da conta os estrangeiros que trabalham ou trabalhavam lá).

    O problema da rebelião é que o regime de Gaddafi foi apanhado de surpresa, não teve tempo de reagir e perdeu terreno, mas duas semanas depois de iniciados os conflitos o ditador parece já ter conseguido reorganizar razoavelmente suas forças, inclusive também fazendo largo uso de mercenários tão bem pagos quanto bem treinados e armados para o combate.

    O regime no poder tem o controle absoluto do espaço aéreo e o está usando para bombardear objetivos estratégicos e cidades controladas pelos rebeldes. Esta semana passou a usar também embarcações de guerra para bombardear as costas com artilharia. Nessas condições, como deixava entrever o noticiário de ontem, o movimento rebelde começa a perder terreno na área militar e geográfica.

    O esforço político e diplomático que os Estados Unidos, a União Européia, a OTAN e a ONU realizam para impedir um massacre dos rebeldes e tentar forçar a queda do regime poderia ser eficaz se fosse longo o prazo que esses quatro agentes citados têm atingir seus objetivos.

    Mas o prazo é curto. Muito curto. Pode ser de apenas mais alguns dias, poucos dias. E a OTAN declarou-se, ontem, preparada para agir, mas advertiu que, para qualquer ação militar, precisa de uma autorização expressa da ONU.

     E a ação militar sobre a qual mais se tem falado é o de estabelecimento de uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia. O que exige bombardeios prévios para destruição das defesas antiaéreas.

    Os rebeldes acham insuficiente a “zona de exclusão aérea”. Eles pedem que os Estados Unidos ou a OTAN bombardeiem instalações militares do regime e aeroportos, para acabar com a superioridade militar de Gaddafi.

    Ora, na ONU só quem pode dar tal autorização é o Conselho de Segurança e, neste, a Rússia e a China, que têm direito de veto, estão contra a autorização de qualquer ação militar. Aí, pela OTAN, parou. Restaria uma ação unilateral dos Estados Unidos e talvez Reino Unido. Mas não farão isto, nem fornecerão armamento e munição, nem eles nem a própria OTAN, sem saber antes com quem estão tratando. Quando e se ficarem prontos, talvez já não haja com quem tratar.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia desta sexta.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Para começar a Quaresma

Quarta, 9 de março de 2011
 Por Ivan de Carvalho
         Estava eu emergindo à força das exigências carnavalescas, para mim já bem pesadas, com o objetivo de procurar um assunto que pudesse reiniciar a rotina de um repórter de política. Mas para ser lido numa quarta-feira de Cinzas, dia em que os leitores foliões – e são eles uma alta percentagem do total – dividem suas atenções entre a ressaca, as saudades da festa e até, em casos que creio sejam bem mais raros, o arrependimento pelos excessos que podem prejudicar o corpo ou a alma.

            Buscava, assim, assuntos leves, que não acrescentassem severidade ao já severo por natureza início da Quaresma. Li em algum lugar, por exemplo, que a linha 4 do metrô carioca – que, em função das Olimpíadas de 2016, ligará Ipanema, bairro da zona Sul do Rio à Barra, na zona Norte, complicou: a altura dos trens, já comprados, impedirá que passem pelos três túneis do trajeto. O Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, que critica o projeto e seu alto custo, estuda o problema. Não é um “assunto leve”, pelo peso que terá no bolso dos contribuintes, mas é uma curtição.

            Senti uma forte impressão de déjà vu. Já pudemos curtir algo semelhante aqui em Salvador. Lembrei da impressionante capacidade de observação do ex-governador baiano Octávio Mangabeira. Ele garantia: “Pense um absurdo qualquer. Na Bahia tem precedente”. Pois é, ele morreu faz tempo, sua constatação continua atual. Talvez seja imortal.

            Outra pessoa de quem me lembrei, não tão importante quanto Octávio Mangabeira, mas que em compensação ainda não morreu, pelo contrário, está vivíssima, foi o líder do governo na Câmara dos Deputados, Cândido Vaccareza, do PT paulista. Se aquela história de Rei Momo estivesse ainda dando ibope, o Vaccareza certamente poderia reivindicar, com absoluto êxito, o título e o trono.

Afinal, ele sugeriu que estará bem empregado o dinheiro da Bolsa Família se o chefe da família beneficiária pegar a grana que sai do bolso de quase todos os brasileiros para ajudar os mais pobres entre eles (e são tantos, esses mais pobres do que os numerosíssimos pobres) se for empregado na compra de cachaça. Sustenta o líder do governo que isso ajudaria a economia brasileira, mas, como notou o blog Gama Livre, o potencial do conselho era bem mais o de resultar numa “bebedeira geral neste carnaval”.

Talvez, ao contrário do que na semana passada acreditei haver demonstrado neste espaço, o mal não seja tanto a cachaça, apesar dos seus “efeitos colaterais” pessoais, sociais e econômicos. Afinal, Jesus ensinou que “o mal não é o que entra pela boca do homem, mas o que sai da boca do homem”. Se Ele quisesse individualizar a crítica – o que não era do seu estilo nem da sua natureza – poderia ter dito “da boca do Vaccareza”.

É verdade que o Vaccareza ainda não estava disponível, mas Jesus sabia de coisas futuras, sabia que ele nasceria um dia, seria eleito deputado no Brasil e se tornaria líder do governo Dilma Rousseff, quando daria ao povo “abaixo da linha da pobreza” conselhos sobre como gastar o dinheiro do Bolsa Família comprando cachaça e “ajudar a economia”.
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Este artigo foi publicado na Tribuna da Bahia desta quarta-feira de cinzas.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Do carnaval e das bebidas


Sexta, 4 de março de 2011
 Por Ivan de Carvalho
 Então governador, Antonio Carlos Magalhães editou decreto instituindo cinco dias de carnaval oficial na Bahia, estabelecendo o maior dos feriadões do país, de sexta a terça-feira. Hoje é o primeiro dia. E como durante o carnaval muito pouca gente se interessa por política, o melhor é evitar o assunto.

    Interessa-se por este assunto apenas um razoável número de políticos. Alguns deles, poucos, supondo que os cargos que exercem, do tipo governador, prefeito, entre outros menos vistosos, praticamente lhes impõe comparecer a camarotes oficiais e até a outros, de famosos. Aí se divertem, alguns, outros não, bebem alguns, outros (raros) não, e cumprem o inalienável dever de acenar para a multidão alucinada pelo som dos trios elétricos.

    A outra categoria dos políticos que comparecem aos camarotes não vai lá para ser vista pelos foliões. Poucos os reconhecem, para sorte e sossego deles, e a maioria nem os conhece, mas para gerar comentários, pequenas notícias na mídia e afrescalhadas especulações do tipo “fulano ficou um tempão no camarote do governador”, ou “cicrano estava de braços e abraços com o prefeito” ou “ele está bombando, o ministro beltrano ficou mais de três horas no camarote dele”. Bem, deixa prá lá. Isso já está virando comentário sobre política e não é a intenção.

    A intenção é falar sobre bebidas, assunto de interesse evidente no primeiro dia do nosso carnaval oficial por decreto. Não tem muito a ver com carnaval o Bolsa Família, mas a cachaça tem, segundo revelação do líder do governo na Câmara dos Deputados, Cândido Vaccareza, do PT paulista. A propósito do reajuste do valor do Bolsa Família, disse na terça-feira que o reajuste é positivo mesmo se o dinheiro for usado para comprar cachaça, pois isto será uma forma de “ajudar a economia”.

    Que borracho! Não sei se mais o ministro ou o beneficiário do Bolsa Família que gastar o benefício no malefício da cachaça. Dá ressaca, enjôo, náuseas, bafo de onça, dor de cabeça, úlcera gástrica, cirrose, pancreatite, problemas cardíacos, mata neurônios, multiplica por 30 o risco de câncer na boca e garganta se o borracho for também fumante, além de outros males que, se tentasse citar todos, não caberiam neste espaço. E com isso acarreta altos custos à economia, com ausências ao trabalho e desembolsos do SUS e da Previdência Social.

    Assim, o dinheiro do Bolsa Família, se gasto em cachaça, não “ajuda a economia”. Pode ajudar os plantadores de cana-de-açucar, os donos de alambiques, os comerciantes de bebidas alcoólicas, mas prejudicará a economia em seu conjunto e os que tentarem ajudá-la da maneira ensinada por Vaccareza. Eu até sugiro à presidente Dilma Rousseff que troque imediatamente de líder do governo na Câmara. Dizer besteira não é a única maneira de bajular.

    Quanto ao pessoal que prefere cerveja ou os inocentes refrigerantes, uma pesquisa feita por especialistas americanos e britânicos com 2.500 pessoas e publicada na revista Hypertension afirma que beber mais de 335 ml por dia de bebidas com gás (cerveja e refrigerantes são gaseificados) ou sucos de fruta contendo açúcar é o suficiente para desequilibrar a pressão arterial. As razões ainda são incertas, mas os pesquisadores acreditam que o excesso de açúcar no sangue prejudica o tônus dos vasos sanguíneos e desequilibra os níveis de sal no organismo. A hipertensão é o principal dos fatores de risco para acidentes cardio-vasculares e para acidentes vasculares cerebrais.

    Portanto, e ainda que só por cinco dias (ou seis, ou sete), cuidado com o copo.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia desta sexta.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.