Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
Mostrando postagens com marcador fátima sousa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador fátima sousa. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Uma jovem de 63 anos: desafios para ser sustentável e justa, em busca da paz.

Sexta, 21 de abril de 2023

Esperançar porque Brasília é uma cidade ladrilhada de potencialidades. Desde uma rica diversidade cultural, belezas naturais encantadoras e uma história única e inspiradora. A construção da cidade foi um marco histórico para o Brasil, pois representou a concretização de um projeto ousado e moderno que visava o desenvolvimento do país e a integração nacional.

Por Profª. Fátima Sousa* Foto de Ivaldo Cavalcante

No dia 21 de abril, Brasília completa 63 anos de fundação. Nesse período, a capital federal do Brasil passou por diversas transformações e desafios. Hoje, a cidade enfrenta novas questões, como a necessidade de se tornar mais sustentável e justa para todos os seus habitantes.

Uma das grandes preocupações atualmente é o meio ambiente. Brasília tem um papel importante a desempenhar no combate às mudanças climáticas, especialmente por ser uma cidade planejada, que pode servir de modelo para outras cidades do país. Para isso, é necessário investir em transporte público de qualidade, reduzir a emissão de gases poluentes e incentivar práticas sustentáveis em todos os setores da sociedade.

Mas antes de enveredar na prosa, gostaria de compartilhar com vocês uma mensagem de esperança. Sei que muitos são os desafios diários que enfrentamos, incluindo a falta de recursos, oportunidades limitadas e desigualdades sociais. Mas quero lembrá-los que, mesmo diante da realidade que nossas iniquidades sociais, sobretudo depois da pandemia de Covid-19, há sempre motivos para esperançar.

Esperançar porque Brasília é uma cidade ladrilhada de potencialidades. Desde uma rica diversidade cultural, belezas naturais encantadoras e uma história única e inspiradora. A construção da cidade foi um marco histórico para o Brasil, pois representou a concretização de um projeto ousado e moderno que visava o desenvolvimento do país e a integração nacional. Brasília é uma cidade planejada, com uma arquitetura única e uma grande riqueza cultural, representando um importante patrimônio histórico e arquitetônico do país e da humanidade.

quarta-feira, 8 de março de 2023

Por que nos matam ?

Quarta, 8 de março de 2023

Do Blog Brasília, por Chico Sant'Anna

Estamos à mercê do nosso algoz, que poderia ser educado desde sua origem familiar, assim nos ensinou Nelson Mandela.

Por Fátima Sousa*

O feminicídio nunca esteve tão presente entre nós. A grande mídia impressa anuncia nossas mortes todos os dias em suas capas de jornal. De 01 de janeiro até o dia 05 de março, foram 1.357 matérias publicadas em 56 veículos distintos no Brasil, sendo 580 delas em portais de notícias e 387 somente no Distrito Federal. Das 18 capas de jornal falando sobre feminicídio no país, 15 foram no DF, que teve 244 notícias jornalísticas publicadas com esse mesmo conteúdo.

Nas matérias e suas capas de primeira página, o que se pode ler é a denúncia do silêncio intercorrente do Estado em torno da violência que se alastra na sociedade machista, patriarcal e preconceituosa, que se omite a cada grito de socorro velado entre olhares desviados ou apelos desconsiderados. Um Estado onde a banalidade do mal persiste, apesar dos alertas que nos foram dados por Hannah Arendt.

Estamos cada vez mais expostas aos holofotes e nos tornamos as peças mais “badaladas” do cenário de horrores que se tornou o sacrifício de mulheres, em especial, as mais jovens, embora nenhuma de nós escape da “seleção” de nosso gênero pelos algozes mais cruéis na face da terra: aqueles que deveriam ser nossos companheiros, pais de nossos filhos, parceiros de todas as horas. Sim, o sapo nem sempre vira príncipe encantado e nos fazem felizes para sempre. Ele permanece sapo e dos mais venenosos, a nos matar com seu ódio por estarmos vivas. Já nos avisava Cássia “[…] quem sabe o príncipe virou um chato […]”.

Leia a íntegra do artigo

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Fome e insegurança alimentar: “ecos” da pandemia?

Sexta, 17 de junho de 2022

O que vemos é que, progressivamente, a população padece do desemprego e vem empobrecendo. Como se isso não fosse o bastante, é estratosférica a alta dos preços dos alimentos considerados “básicos”, limitando o poder de compra de grande parte da população ou, por vezes, demandando dela a substituição dos alimentos em sua mesa. Assim, sutil e paulatinamente, a insegurança alimentar avança!

Do Blog Brasília, por Chico Sant'Anna
Por Fátima Sousa*

Segundo o “Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil”, lançado recentemente, a incerteza quanto ao acesso aos alimentos e o comprometimento da qualidade da alimentação têm alcançado a casa de 28,0% dos brasileiros. A restrição quantitativa aos alimentos alcança atualmente, de forma avassaladora, mais de 30% dos domicílios, dentre os quais 15,5% têm convivido com a fome. São mais de 33 milhões em situação de fome atualmente no Brasil e 125 milhões de pessoas vivendo diuturnamente com a insegurança alimentar batendo em suas portas.

A que se deve isso? À crise sanitária sem precedentes que vivemos e, sobrepostas a ela, duas crises ainda maiores: política e econômica. As iniquidades da garantia do direito humano a uma alimentação adequada e saudável, expressas pelo acesso desigual e insuficiente a renda, bens e serviços e por políticas públicas ineficazes, que por vezes preterem os que mais necessitam, não somente têm contribuído para o constante perpetuar-se das desigualdades, como também fizeram com que nosso país retornasse ao Mapa da Fome.

E no Distrito Federal?

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Lugar de criança é na escola

Quarta, 1º de junho de 2022

Professora Fátima Sousa*

A Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei (PL) 3.179/2012, que regulamenta o ensino domiciliar no Brasil (homeschooling), em uma tramitação que dispensou previsões regimentais e não passou por comissões, sendo votado em regime de urgência urgentíssima. O projeto de lei altera o sistema educacional brasileiro; a escolarização é colocada no mesmo patamar da educação em casa, situando-se, portanto, na contramão das demandas sociais da educação, solidamente reconhecidas por todas e todos os maiores especialistas em educação do Brasil e do mundo, por mais escolas e pela ampliação do tempo de permanência, sobretudo diante da realidade socioeconômica da maioria das famílias de países em desenvolvimento.

O projeto aprovado fere, também, recomendações da UNESCO e o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) ao permitir que a educação básica seja ofertada, sob decisão e orientação dos pais ou responsáveis, na própria residência, mediante uma “comprovação de aptidão”. Os pais ou responsáveis, assim, seriam transformados em uma espécie de tutores educacionais com obrigação de cumprir componentes curriculares mínimos referentes ao ano escolar da criança. De uma forma que podemos considerar confessional, a base política do projeto exime-se de responsabilidade ao incluir no texto uma alteração do Código Penal para que pais ou responsáveis optantes pela educação domiciliar não incorram em crime de abandono intelectual de seus filhos ou dependentes – “esquecimento” que expõe, quase obscenamente, o desprezo daqueles que elaboraram o projeto e votaram em sua aprovação pela garantia da educação infantil de qualidade.

Ao equiparar o ensino domiciliar ao ensino escolar, o governo demonstra desconhecer que a formação escolar não é apenas cognitiva, de oferta e aquisição de informação. A escola é elemento fundamental no processo de socialização das crianças, por colocá-las em relação com crianças de outras famílias, com outros valores, por fazê-las perceber diferenças e aprender a respeitá-las. Isso, sabe-se bem, precisa começar cedo. O governo desconhece, portanto, que a escola é o espaço primordial da formação cidadã. Ou talvez seja exatamente por isso que pretende enfraquecê-la.

É preciso ainda resguardar o papel da escola como uma instituição central para a rede de proteção de crianças e adolescentes. Nas escolas, através da assistência social fornecida aos estudantes, identifica-se a presença ou não de trabalho infantil, se há ausência de garantias nutricionais, se ocorre violência doméstica, abusos ou agressões sexuais. Com a escolarização faz-se a inserção de estudantes com deficiências, que são acompanhados por profissionais capacitados. É por meio da escola que se podem aplicar programas para o desenvolvimento de habilidades e saberes especiais, a exemplo do Programa Saúde na Escola, que visa a uma educação para a promoção da saúde, o autocuidado e o cuidado de cada um por sua comunidade.

Segundo um recente levantamento do CESOP/Unicamp e do Datafolha, 8 em cada 10 pessoas defendem o direito de frequentar a escola; 78% consideram que os pais não devem ter o direito de tirar seus filhos da escola e ensiná-los em casa. Nove em cada dez pessoas concordam que as crianças devem ter o direito de frequentar a escola mesmo que seus pais não o queiram. Mas nada disso importa aos defensores do homeschooling, os quais cinicamente usam o termo inglês para dar um ar de internacionalidade à proposta, ao tempo que afirmam tratar-se de um modelo já aceito como opção em muitos países desenvolvidos. Omitem, contudo, que nesses países o que se fez antes foi garantir escola em tempo integral para todas as crianças, e que na maioria deles o homeschooling representa raras exceções, rigorosamente avaliadas por um sistema competente.

Remover as crianças da escola em sua primeira fase de aquisição de conhecimentos é privá-las de interações fundamentais vividas na escola para seu desenvolvimento cognitivo e relacional, com graves consequências futuras. Mas parecem ser exatamente tais consequências o que busca mais essa ferramenta ideológica do atual governo, que em seu apagar das luzes se apressa em “urgência urgentíssima” para deixar mais um triste legado.

O projeto representa o desfecho de um governo que desde as primeiras semanas atuou para destruir um já fragilizado sistema educacional brasileiro, congelando salários de professores, perseguindo aqueles que se insurgiam contra os desmandos, subtraindo direitos, reduzindo de forma nunca vista no período democrático os investimentos em educação. Do ponto de vista de seus fundamentos, o projeto serve como declaração de ignorância da ciência educacional e como declaração política explícita da intenção de transformar o país em um reservatório humano de mão de obra inculta, barata, acrítica e submissa.

Não haverá outra eleição como esta. Será o ano da superação de um flagelo político que se abateu sobre nossa história. Para isso, será preciso eleger para o corpo legislativo candidatas e candidatos sensíveis e compromissados com uma educação pública de qualidade e que tenham também grande capacidade de articulação e mediação. Pois não sairemos deste lodaçal de obscurantismo sem construir um amplo pacto social, com um profundo estudo das possibilidades de financiamento e envolvimento de todos os setores da sociedade, públicos ou privados, para que, enfim, toda e cada criança brasileira tenha a chance de vivenciar a riqueza que a educação escolar, e só ela, é capaz de oferecer. Lugar de criança é na escola.

===============

*Fátima Sousa

Paraibana, mais de 40 anos dedicados a saúde e a gestão pública; 
Professora e pesquisadora da Universidade de Brasília;
Enfermeira Sanitarista, Doutora em Ciências da Saúde, Mestre em Ciências Sociais; 
Doutora Honoris Causa;
Implantou o ‘Saúde da Família’ no Brasil, depois do sucesso na Paraíba e em São Paulo capital; 
Implantou os Agentes Comunitários de Saúde;
Dirigiu a Faculdade de Saúde da UnB: 5 cursos avaliados com nota máxima;
Lutou pela criação do SUS na constituinte de 1988;
Premiada pela Organização Panamericana de Saúde, pelo Ministério da Saúde e pelo Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde.

terça-feira, 15 de março de 2022

Nós, funcionários públicos, não podemos pagar mais essa conta.

Terça, 15 de março de 2022

Professoara Fátima Sousa*
Em mais uma demonstração do desprezo que sente pela educação e por aquelas e aqueles que se dedicam ao ofício de transmitir conhecimento, o presidente da República sancionou, no último dia 09, lei que confisca tempo de serviço de professores das redes públicas em todo o Brasil.

A lei complementar 191/22 de autoria do deputado Guilherme Derrite (PP-SP) torna o período do isolamento social entre maio de 2020 a dezembro de 2021, inexistente para fins dos planos de carreira e obtenção de direitos tais como licença-prêmio e outros benefícios ou adicionais. A lei atinge também os demais funcionários públicos.

Segundo o governo, a exceção feita aos servidores da segurança, militares e profissionais das áreas de saúde, foi em reconhecimento pelo trabalho na linha de frente de combate à pandemia. Este argumento que buscar trazer à medida algum sentido de justiça, não passa de uma falácia cujo verdadeiro propósito é reafirmar o desrespeito sistemático contra o funcionalismo público dentro desse projeto de Estado Mínimo, dedicado ao obscurantismo, à dilapidação de nossas riquezas, à destruição de nossos ecossistemas e de nossas políticas sociais.

A medida despreza o trabalho remoto do funcionalismo, que, durante o período a que se refere a lei, teve que fazer mais gastos pessoais para se manter conectado às redes virtuais, enquanto as repartições públicas faziam uma economia de energia e insumos, nunca antes registrada no país. No caso das professoras e professores especificamente, o governo desconhece, como é próprio ao seu desinteresse pelo saber, que os professores e professoras continuaram trabalhando, selecionando temas que podiam ser veiculados de forma alternativa, escrevendo tarefas em cartazes nas praças e esquinas de bairro, corrigindo cadernos entregues em suas casas, fazendo parcerias com rádios e TVs comunitárias para transmitir conteúdos, buscando apoios para distribuição de equipamentos e acesso a internet.

Vale ainda destacar que, segundo o censo escolar de 2020, 96,4% dos docentes do ensino fundamental são mulheres, que culturalmente em nosso país, tem dupla jornada de trabalho, e muitas delas chefiam famílias monoparentais. A medida atinge também esse viés de gênero que esse governo nega peremptoriamente, apesar de considerar as mulheres “praticamente integradas à sociedade”, como disse o presidente em seu discurso de 8 de março.

E as professoras e professores fizeram tudo isso, sob o estresse dos que conheciam a fome que assolava muitas das famílias, sem que as crianças pudessem aceder à merenda escolar, e diante da omissão de um governo que desprezou as políticas sociais emergenciais e queria servir restos de comida à população. Professoras e professores sofrendo o estresse por conhecer o contexto de violência e abuso sexual de muitas crianças em seus lares, muitas vezes as principais causas dos atrasos de desenvolvimento cognitivo que tornam o ensino infantil um trabalho ainda mais árduo.

Importantes juristas já tem se manifestado em declarar a inconstitucionalidade de mais essa lei sancionada. Você, professora e professor, e o funcionalismo público em geral, procurem seus sindicatos, é importante mover uma grande e conjunta ação contra mais esse absurdo e provar nos tribunais a sua inconstitucionalidade.

Mas o episódio nos mostra também, a importância de neste ano elegermos um presidente e uma câmara federal capazes de barrar o avanço desse projeto de destruição nacional. Vamos juntos professoras e professores desse país, mais uma vez lutar contra esse absurdo, pois vivemos o tempo em que é preciso, como disse o poeta, defender o óbvio.

===========
*Fátima Sousa
Paraibana, quatro décadas da sua vida dedicados a saúde e a gestão pública;
Professora e pesquisadora da Universidade de Brasília;
Enfermeira Sanitarista, Doutora em Ciências da Saúde, Mestre em Ciências Sociais;
Doutora Honoris Causa;
Implantou o ‘Saúde da Família’ no Brasil, depois do sucesso na Paraíba e em São Paulo capital;
Implantou os Agentes Comunitários de Saúde;
Dirigiu a Faculdade de Saúde da UnB: 5 cursos avaliados com nota máxima;
Lutou pela criação do SUS na constituinte de 1988;
Premiada pela Organização Panamericana de Saúde, pelo Ministério da Saúde e pelo Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde.

terça-feira, 6 de abril de 2021

É preciso dizer NÃO ao Projeto de Lei 948/2021 que libera a compra de vacinas pelo setor privado. Não ao 'Camarote Vip' de vacina

 Terça, 6 de abril de 2021

4.195 brasileiros morreram de covid-19 nas últimas 24 horas 



Foto do perfil de profatimasousa

É preciso dizer NÃO, veementemente, à PL 948/2021 que libera a compra de vacinas pelo setor privado. A casa do povo não pode ajudar no descontrole dessa triste pandemia, muito menos ampliar as mortes e as desigualdades sociais. Contra o fura-fila das vacinas, pelo fim dos privilégios dessas elites gananciosas.

==============
Fátima Sousa
40 anos dedicados a saúde e a gestão pública; 
Professora e pesquisadora da Universidade de Brasília;
Enfermeira Sanitarista, Doutora em Ciências da Saúde, Mestre em Ciências Sociais; 
Doutora Honoris Causa;
Implantou o ‘Saúde da Família’ no Brasil, depois do sucesso na Paraíba e em São Paulo capital; 
Implantou os Agentes Comunitários de Saúde;
Dirigiu a Faculdade de Saúde da UnB: 5 cursos avaliados com nota máxima;
Lutou pela criação do SUS na constituinte de 1988;
Premiada pela Organização Panamericana de Saúde, pelo Ministério da Saúde e pelo Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Os sonhos não envelhecem

 Quinta, 19 de novembro de 2020

Por

Professora Fátima Sousa*

A esperança reacendida em nossos corações pelos resultados das eleições municipais deste ano, nos mostra que é tempo de florescer.

Defensores(as) dos direitos de mulheres, pretos e pretas, LGBTQIA+, indígenas, dentre outras populações deixadas em escanteio em nosso país, assumem agora espaços de poder para trabalhar pelos verdadeiros interesses da população brasileira. Um aumento ainda pequeno – 1,5%, mas de grande relevância em comparação a 2016, este ano, 12,2% dos municípios brasileiros terão mulheres como gestoras e ainda podem ter mais cinco após o segundo turno.

Há ainda a vitória de 15 pessoas transexuais e travestis eleitas vereadoras, democraticamente e com recordes de votos, para demonstrar que além de sair do ideário marginalizado, ocuparão espaços que outrora pareciam absurdamente distante no país que mais mata pessoas transexuais e travestis no mundo.

As lentes ampliadas das urnas nos apontam para representantes declaradamente LGBTQIA+, um número que chega a mais de 60. Essas e esses vereadores vão representar milhares daquelas e daqueles que sabem o quanto esses locais de fala e poder são significativos a essa parcela da população.

Tivemos ainda o sopro da esperança ao saber que candidatos, cujas bandeiras eram a retirada de direitos sociais e o desmonte das políticas públicas, foram derrotados. Derrotados por um povo que se recusa a voltar a ser escravizado e exterminado pela falta de garantia a direitos e a políticas públicas contra o racismo, genocídio, feminicídio. É tempo de florescer. E floresceremos juntamente com todas essas sementes plantadas nos centros de poder do Brasil.

=============

*Fátima Sousa
Paraibana, 57 anos de vida, 40 anos dedicados a saúde e a gestão pública; 
Professora e pesquisadora da Universidade de Brasília;
Enfermeira Sanitarista, Doutora em Ciências da Saúde, Mestre em Ciências Sociais; 
Doutora Honoris Causa;
Implantou o ‘Saúde da Família’ no Brasil, depois do sucesso na Paraíba e em São Paulo capital; 
Implantou os Agentes Comunitários de Saúde;
Dirigiu a Faculdade de Saúde da UnB: 5 cursos avaliados com nota máxima;
Lutou pela criação do SUS na constituinte de 1988;
Premiada pela Organização Panamericana de Saúde, pelo Ministério da Saúde e pelo Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Atenção Primária à Saúde e o SUS, a cavalaria da privatização.

 Terça, 27 de outubro de 2020

Por

Professora Fátima Sousa*

Há mais de quatro décadas o intitulado Movimento da Reforma Sanitária Brasileira (MRSB), vem disputando a universalidade do direito à saúde, oficializado com a Constituição Federal de 1988 e a criação do Sistema Único de Saúde (SUS). Este, que nos seus 32 anos, vem edificando o acesso a todos os bens e serviços de saúde, nos 5.570 municípios do país, apesar dos seus desafios.

Desde o início do século XX[i], diversos foram os ciclos de tentativas à mudança do modo de organização dos Sistemas Locais de Saúde (SILOS), por meio da Atenção Primaria à Saúde (APS), quase sempre limitados as ações seletivas, simplificadas, e denominadas por muitos de “medicina pobre para pobre”. Ciclo modificado com as Estratégias de Agentes Comunitários (1991) e Saúde da Família (1994), que ao longo de suas institucionalizações colocam-se como prioridade na coordenação da atenção à saúde e ordenação das Redes Integradas, tendo em sua base estruturante a Atenção Básica à Saúde (ABS)/(APS).

Muitas foram suas conquistas: redução das iniquidades em diversos territórios assistenciais vazios, desde o campo às cidades; ampliação do acesso de forma humanizada, acolhedora e vinculatória; diminuição dos principais agravos do mundo da pobreza, criação de emprego e geração de renda. Resultados registrados pelas renomadas instituições de pesquisa, pela gestão do SUS e referendado pela população, quando sente a satisfação de ser cuidada pelas equipes da Estratégia de Saúde da Família (ESF).

Não é surpresa o desfinanciamento dessas estratégias e de outras políticas públicas, que reafirmem os direitos de cidadania como um bem civilizatório, e o dever do Estado de prover, produzir, gerir e regular a distribuição das riquezas destinadas à proteção social, e não o atravessamento do mercantilismo do setor saúde. 

Alguns ainda pedem explicações ao tomarem conhecimento da publicação do Decreto no 10.530, publicado em 27/10/2020, em sua edição 206, seção 1, página 3 e que Dispõe sobre a qualificação da política de fomento ao setor de atenção primária à saúde no âmbito do Programa de Parcerias de Investimentos da Presidência da República, para fins de elaboração de estudos de alternativas de parcerias com a iniciativa privada”.

A esse fato juntam-se tantos outros rumo à expansão privatista em curso do SUS. A repercussão? A conivência, indiferença, pior, o silêncio dos túmulos, ou vozes que, ao defendermos o SUS, somos considerados “alarmistas”. Para sair desse lugar comum é preciso falar à população as razões pelas quais os empresários do complexo médico-industrial cobiçam tanto o maior Sistema de Saúde do mundo, e cotidiamente, operam para seu desmonte. Mais grave, orquestrado pelos palácios dos desgovernos.

Aqueles que editam a Emenda Constitucional (EC) 95/ 2016, cuja consequência é a perda de investimentos na ordem de R$ 22,5 bilhões, o que significa, na prática, a desvinculação do gasto mínimo de 15% da receita da União com a Saúde. E mais, o valor investido por pessoa, que chegou a R$ 595 em 2014, passou a ser de R$ 555, em 2020

Aqueles que autodeclaram desconhcer o SUS, passam a vendê-lo. Melhor, delegar sua negociação ao livre mercado que sempre almejou enriquecer às custas das doenças societárias e biológicas das pessoas.

Será que a história se replete? Foi na XIII Conferência Nacional de saúde, marco da construção dos valores, princípios e diretrizes do SUS, que eles se retiraram do plenário e nos provocou a encontrá-los no Congresso Nacional. Afinal, lá se encontravam e ainda se encontram, seus financiados, com raríssimas e honrosas exceções. Assim, o Centrão cravou naaorta, do recém-criado SUS, no artigo 199 da CF/88: A assistência à saúde é livre à iniciativa privada”. Em nome desse artigo, esquecem que sua participação no SUS deve ser regulada pelo Estado, omisso, é bem verdade, e de forma complementar, não suplementar.

A preferência é dada às entidades filantrópicas e sem fins lucrativos, as quais são isentas de pagar impostos. O § 3º veta a entrada no país de empresas de capital estrangeiro. O governo Dilma sanciona o artigo 143 da Medida Provisória 656/2014, abrindo o livre comércio. Uma festa para o Conselho de Administração da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), que viu na medida a permissão para a concentração de poucas empresas comprando serviços de laboratórios, radiologia, hospitais e formando grandes monopólios e, ao mesmo tempo, tentando criar, seguros, planos de saúde que não asseguram a integralidade e a qualidade do atendimento

Penso que a melhor pergunta é porque o Ministério da Saúde transferiu sua responsabilidade de financiar a APS, resolveu vendê-la para o Ministério da Economia, o todo poderoso (criado mediante a fusão dos ministérios da Fazenda, do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, da Indústria, Comércio Exterior e Serviços e parte do Ministério do Trabalho). Qual concepção de atenção primária está sendo anunciada pelo Ministério no âmbito do Programa de Parcerias de Investimentos da Presidência da República - PPI?

Agora a APS, vira a menina dos olhos? Não, a porteira ja está escancarada, há anos. O anunciado “novo financiamento da APS” abriu alas para a Medida Provisória n. 890, que criou a Agência para o Desenvolvimento da APS (ADAPS), com atribuição de prestação direta da APS por meio da contratação de prestadores privados, entre outras medidas. Muitas são as vozes que bradam: “universalidade é coisa do século XX”, portanto “ultrapassada”.

Assim, repito, não há saída fora da política. Logo, passou da ora de reedificarmos os pilares de uma sociedade que defenda a vida acima dos lucros, que defenda um modelo de estado de bem-estar com garantias de direitos e não privilégios de mercados. Uma sociedade inclusiva, justa e solidária. Tarefa essa que não se faz, assistindo a banda passar, ou afirmando que a reforma prividenciária, trabalhista, administrativa, atinge somente a nova geração. Porque sabemos todas (os) que a política de ajustes fiscais expressas na Lei de Responsabilidade Fiscal, no Teto dos Gastos e na Regra de Ouro precisam ser revogadas, do contrário seguiremos assistindo a ampliação do Estado de mal-estar-social.

Esses males já conhecemos. Se não agirmos, seremos portadores de tantos outros vírus que vem desnudando as crises mais desumanas dessa nação, fruto de capitalismo perverso e desmedido em sua sede de enriquecimento às custas das dores e mortes da nossa gente.

É urgente não perdemos nenhuma oportunidade para reversão desse quadro, sendo ousados, criativos e comprometidos com um outro modelo de estado: firme, presente, responsivel e cuidador das expectativas, sonhos e esperanças de cada indivíduo, família e comunidade brasileira. Só assim evitaremos que a Atenção Primária à Saúde e o SUS entrem de vez na cavalaria da privatização. 

[i] 1924, Geraldo de Paula Souza criou um Centro de Saúde, na tentativa de organizar as ações básicas de saúde.

===========

*Fátima Sousa
Paraibana, 57 anos de vida, 40 anos dedicados a saúde e a gestão pública; 
Professora e pesquisadora da Universidade de Brasília;
Enfermeira Sanitarista, Doutora em Ciências da Saúde, Mestre em Ciências Sociais; 
Doutora Honoris Causa;
Implantou o ‘Saúde da Família’ no Brasil, depois do sucesso na Paraíba e em São Paulo capital; 
Implantou os Agentes Comunitários de Saúde;
Dirigiu a Faculdade de Saúde da UnB: 5 cursos avaliados com nota máxima;
Lutou pela criação do SUS na constituinte de 1988;
Premiada pela Organização Panamericana de Saúde, pelo Ministério da Saúde e pelo Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Renda Brasil e os 27 programas sociais que rolam ladeira abaixo

Terça, 1º de setembro de 2020
Por
Professora Fátima Sousa*

Enquanto isso... a “riqueza” fica ainda mais rica.
Há décadas o Brasil e diversos países do globo (principalmente, mas não apenas os subdesenvolvidos) vivem em disputa entre os modelos e tamanho do Estado. De um lado, os ultraliberais defendem estruturas político-econômicas de redução dos gastos públicos, privatização de estatais, reforma trabalhista, previdenciária, ou seja, afirmam que os mercados seriam capazes de se ajustar por conta própria, com livre concorrência, no processo de autorregulação dos ciclos econômicos. Por outro, estão osque advogam a necessidade de intervenção do Estado na economia como formulador, regulador e fiscalizador das políticas públicas, sobretudo como protetor dos condicionantes e determinantes na qualidade de vida e saúde de um país.
É o intitulado “Estado de bem-estar social”, aquele que administra as situações-problema de sua nação, que se faz presente, fortemente, nas políticas públicas, à proteção social e às prestações de bens e serviços de saúde, educação, segurança, habitação, alimentação, emprego, trabalho, sobretudo, redistribuição de renda, bens considerados direitos sociais.
Portanto, proteger as pessoas significa colocar as riquezas produzidas no país, pelas trabalhadoras e trabalhadores, ao seu próprio bem-viver, ao bem-estar que respeite suas condições humanas, principalmente na grave crise da COVID-19, que coloca em risco a saúde e vida de toda a população.
Assim, a população deseja, ao invés de reformas, receber mais proteção social para enfrentar a instabilidade dos ditos “empregos”, na verdade dos desempregos, e sobretudo, da falta de esperança de ingressar no mundo do trabalho com direitos e segurança trabalhistas, em tempos de desregularização das relações no mundo do trabalho. Nesse momento, os empresários deveriam se preocupar mais com a proteção da saúde dos trabalhadores e com a prevenção, controle e combate à pandemia COVID-19 e outros agravos que ainda acometem o pais, do que com os lucros ou superfaturamentos com os produtos essenciais.  Por sua vez, os que trabalham no setor informal, ou por conta própria e não podem trabalhar em casa, precisam de incentivos econômicos e fiscais para cuidarem de sua saúde.
E é nessa conjuntura de múltiplas crises, que o governo, de forma populista, “anuncia” a criação do Renda Brasil, um “novo programa social” que, segundo os noticiários, ampliaria o benefício do Bolsa Família, de R$ 193 para R$ 250, conjugado com a ampliação do número de famílias beneficiadas de cerca de R$ 14 milhões para 15 milhões, gerando uma despesa extra de R$ 15,77 bilhões/ano, ou seja, acima do espaço fiscal existente. 
O que não se diz é que para não “furar” o teto de gastos, a chamada EC 95/2016, que congelou os gastos públicos por 20 anos, e pela qual lutamos pela sua extinção há quatro anos, serão eliminadas despesas, como 27 programas e benefícios da área social. Entre eles o abono salarial que é destinado a quem ganha até dois salários mínimos. O programa farmácia popular, que dá acesso gratuito e universal a medicamentos para hipertensão, diabetes, asma, o que gera, inclusive, uma economia indireta representativa nos gastos das famílias com sua saúde. O salário família, que paga ao trabalhador de baixa renda que possui filhos menores de 14 anos. O seguro defeso, que paga aos pescadores artesanais durante o período de reprodução dos peixes, época em que a pesca é proibida.
O que assistimos é que o governo deseja tirar dos pobres para dar aos miseráveis, ao invés de tirar dos mais ricos. É preciso entender que essa equação no fecha, NÃO SOMA, mas sim MULTIPLICA as desigualdades quando a extinção da inserção do imposto de renda não vai atingir as grandes empresas, fortunas, os mais ricos, os representantes das grandes riquezas do sistema da especulação financeira, os grandes varejistas. Porque não se mexe nos grandes poderosos.
Preferem atingir as classes B e C, cuja única dedução do imposto de renda refere-se às despesas com saúde, educação, nesse caso com valor limitado de R$ 3.561,00. O que o governo pretende fazer é aumentar o lençol, tirando a coberta de quem há décadas já passa frio e não daqueles que tem um “guarda roupas” lotado de peças quentinhas. Medidas como essa não resolvem os problemas estruturais e crônicos do país, ao lado do racismo, a histórica, perversa, desumana e inaceitável desigualdade social.
Assim, é necessário seguirmos lutando pela revogação da EC 95/2016, que congela os gastos com as políticas sociais. Por trás da aprovação dessa lei se apresenta um programa de privatização, concentração de renda e exclusão social; devemos lutar, sobretudo, pela adoção da renda mínima básica universal para a população. É preciso optar pela tributação das grandes fortunas, e pela redistribuição da riqueza nacional para quem mais necessita.
Sigamos defendendo que os investimentos nas políticas públicas seja o único e certo caminho. Pois muitos são os descaminhos de governos que teimam em não gerir o Estado de Bem-Estar Social a serviço de sua gente. Logo, não pode haver mais espaços para novas desigualdades, cujas veias extrapolaram os limites do humano. Faz-se necessário um Estado solidário, cuja prioridade em seu povo esteja sempre à frente do poder, do consumo destemido e do egoísmo dos lucros exacerbados.
Espero que esta pandemia-epidemia não abra ainda mais as veias das históricas desigualdades sociais, mas que seja uma oportunidade para que a elite brasileira compreenda de vez que o crescimento e desenvolvimento econômico não podem preterir da garantia dos direitos humanos de cada pessoa, nos mais diferentes territórios dos municípios e estados do pais. 
Por isso, não cabem medidas populistas, e sim, a reafirmação do Estado como protagonista da superação das dores da pobreza, miséria e mortes que sangram o mapa do Brasil.
“Chega! Pânico, Morte, Dor e Desgraça”.
Que pais é esse? Eu me pergunto.

===========
*Fátima Sousa
Paraibana, 57 anos de vida, 40 anos dedicados a saúde e a gestão pública; 
Professora e pesquisadora da Universidade de Brasília;
Enfermeira Sanitarista, Doutora em Ciências da Saúde, Mestre em Ciências Sociais; 
Doutora Honoris Causa;
Implantou o ‘Saúde da Família’ no Brasil, depois do sucesso na Paraíba e em São Paulo capital; 
Implantou os Agentes Comunitários de Saúde;
Dirigiu a Faculdade de Saúde da UnB: 5 cursos avaliados com nota máxima;
Lutou pela criação do SUS na constituinte de 1988;
Premiada pela Organização Panamericana de Saúde, pelo Ministério da Saúde e pelo Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Mais um calar de vozes assombra os corredores já vazios da UnB

Sexta, 10 de julho de 2020
Professora Fátima Sousa*

Quem de nós não está sentindo falta das cores, das vozes e arrastar de cadeiras, encantos mais diversos e alegres que invadem as salas, pátios, gramados e corredores da nossa UnB? Levante a mão quem estiver na contramão do desejo de reencontrar colegas docentes, técnicos(as) administrativos(as) e nossos(as) estudantes para o bom diálogo regado aos cafezinhos dos nossos Amarelinhos.
Tal qual Darcy, que se dizia “Faminto de fazimentos”, e, como ele, apaixonada pela UnB, revelo-me saudosa do frenesi da nossa vida cotidiana do ensino, pesquisa, extensão e gestão no melhor dos fazeres dialógicos e democráticos de uma Universidade como a nossa: criada para criar, não para ditar regras sem ouvir sua própria comunidade, ainda mais num estado pandêmico e de incertezas que vivemos.
Ainda quando mal estamos conseguindo nos adaptar aos decretos que os governos federal e distrital nos anunciam com liberações desmedidas e nada planejadas para o retorno de atividades presenciais, colocando vidas em risco; enquanto as famílias ainda vivem seus lutos; as mulheres seguem em múltiplas jornadas; e muitos(as) ainda se aglomeram no mesmo espaço dividindo computadores, celulares, salas e quartos.
Apesar de todos os problemas de exclusão que já conhecemos, o retorno remoto anunciado pelo Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão (CEPE) para o dia 17 de agosto na UnB, tem um calendário singular. Os (As) estudantes tem de escolher manter as disciplinas até o dia 20 de julho, sendo que as unidades têm até o dia 22 de julho para definirem quais disciplinas serão ofertadas no modo remoto. Vai ser confirmação de matrícula com bola de cristal e sem reestruturação real de oferta.
Não me queiram repetitiva, mas já se passaram 119 dias e permanecemos desconhecendo as reais situações das potencialidades e limites de nossa comunidade frente as iniciativas concretas para uma retomada segura, tão pouco remotamente. Ao contrário, somos pegas(as) de surpresa a cada reunião do CEPE, que apresenta posições pouco democráticas e nada dialógicas de negociação junto à comunidade. E mais, retarda a apresentação de informações importantes à tomada de decisão, a exemplo da pesquisa social sobre a qual, até o momento, pouco sabemos.
O que sabemos, é que nos trouxeram uma data de retomada remota sem antes sequer ter discutido, com seriedade e profundidade, as condições para que ninguém fique pra trás. São estudantes que merecem um ensino de qualidade, docentes que precisam ter segurança para trabalhar num formato emergencial e técnicos(as) que também precisam se adaptar ao novo cenário. Cada passo dado em nossa UnB, cada decisão tomada deve ser democrática e inclusiva, aos moldes da transparência e do respeito à comunidade que a ela dá vida.
Soubemos pela imprensa que não retornaremos de forma presencial este ano. Por formação na Saúde Pública, óbvio que não concordo com irresponsabilidades das que foram aventadas pelo GDF. No entanto, não podemos encarar as dificuldades de milhares de estudantes, discentes e técnicos(as) como se um problema menor fosse. Somos maiores que nossas dificuldades, é bem verdade. Inclusive pode ser uma oportunidade para nos refazermos, mas tenhamos cuidado com o contexto de mal estar psicossocial, inabilidades tecnológicas e a exclusão digital que pairam entre nós. Tenhamos em mente que uma instituição é feita por pessoas e estas, sabem reconhecer quem está ao lado delas, no momento em que mais necessitam ter voz.
===========
*Fátima Sousa
Paraibana, 57 anos de vida, 40 anos dedicados a saúde e a gestão pública; 
Professora e pesquisadora da Universidade de Brasília;
Enfermeira Sanitarista, Doutora em Ciências da Saúde, Mestre em Ciências Sociais; 
Doutora Honoris Causa;
Implantou o ‘Saúde da Família’ no Brasil, depois do sucesso na Paraíba e em São Paulo capital; 
Implantou os Agentes Comunitários de Saúde;
Dirigiu a Faculdade de Saúde da UnB: 5 cursos avaliados com nota máxima;
Lutou pela criação do SUS na constituinte de 1988;
Premiada pela Organização Panamericana de Saúde, pelo Ministério da Saúde e pelo Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

A democracia na UnB não pode ser interrompida novamente

Sexta, 12 de junho de 2020
Por
Professora Fátima Sousa*

Como se não bastasse a gravíssima pandemia que já matou mais de 40 mil pessoas no pais e contaminou outras 780 mil, sem falar nas dores, sofrimentos de todas as ordens que tem abatido nossa população, dia sim dia não nos chegam “surpresas” que insistem em abalar a autonomia das universidades e institutos federais brasileiros e ameaçarem nossos princípios democráticos.

Com a grave ameaça da Medida Provisória 979, devemos ficar em alerta pois vimos que o governo federal deseja seguir seu projeto de acabar com a educação superior e manter o acesso às universidades para poucos. E vem fazendo isso desde que assumiu o Brasil, cortando o orçamento em mais de 30%, deixando as universidades e institutos federais sem financeiro para pagamento de água, luz, manutenção e aquisição de materiais, comprometendo e inviabilizando a vida acadêmica de qualidade, princípio orientador ao seu funcionamento. Refiro-me à despesa de custeio, pois investimentos, não estão entre as prioridades da atual gestão do país.

Preferem valer-se da lamentável situação sanitária que nos assola, para, na calada da noite, covardemente, atentarem contra um dos maiores patrimônios do povo brasileiro: sua democracia. Seguem no desejo de desconfigurar o pensamento plural e livre das Instituições de Ensino Superior, não priorizando as bolsas para a área de ciências sociais e humanas, entre outras ações descabidas de cortes sucessivos à ciência brasileira.

De fato, a ignorância que permeia esse governo é atrevida. Segue sem o cuidado de verificar que a autonomia das Universidades Públicas não pode ser ferida. Não se trata de opinião, está escrito e consagrado no texto de nossa Lei Maior, em seu artigo 207, para que as universidades realmente possam cumprir, de modo autônomo e independente, a sua verdadeira, relevante e indispensável finalidade: formar cidadãos éticos comprometidos com a construção de uma sociedade mais justa, pautada nos valores da democracia e da paz. Logo, essa MP já nasceu inconstitucional.

Em boa hora e penso que atendendo aos mais de 88 mil cidadãos que se manifestaram na consulta pública do Senado Federal e ainda às inúmeras pessoas que, assim como muitos(as) de nós, posicionaram-se nas mídias sociais para dizerem NÃO àquela que seria mais uma atrocidade que abateria a toda comunidade universitária brasileira, os presidentes do Senado e da Câmara posicionaram-se do mesmo modo contra à MP que foi mais uma tentativa indevida de intervenção nas Universidades e Institutos Federais.

Pensam que estamos desatentos durante a pandemia? Saibam que não. Estamos falando de uma universidade que permanece na ativa, com seus docentes, estudantes e técnicos administrativos atuando em mais de centenas de projetos, pesquisas, reuniões, contribuindo neste momento de crise sanitária, apoiando gestores e profissionais da saúde, a sociedade, e ajudando a construir um país em seu projeto civilizatório.

Abrir mão da autonomia à escolha dos nossos dirigentes é dizer não à legitimidade daquelas(es) que devem nos representar nas instâncias gestoras das nossas universidades. Faz-se necessário entender que o processo de consulta à comunidade acadêmica é fundamental para dar legitimidade e aprofundar a democracia, para que possamos seguir em frente com os projetos que representam as necessidades da sociedade brasileira.

Nossa UnB não vai abrir mão dos seus valores expressos em seu projeto original o qual seguimos construindo a cada semestre:  a ciência, como forma de conhecimento confiável ao lado de outras formas de saberes e práticas humanizadoras; o diálogo em termos de igualdade com os povos que tem suas diversas cores e faces; a tolerância e a compreensão para com as mais diversas formas de manifestação de pensamento e de crença.

A UnB fará, sim, sua consulta à comunidade acadêmica, reafirmando que não permitirá ser interrompida outra vez. Não estamos mais em 1964-65. Aquela época de prisão, demissão, expulsões e decisões no subterrâneo das salas fechadas, cartas secretas ou verdades escondidas fazem parte de um passado que nunca mais queremos revisitar. Não vamos partir o futuro da UnB que queremos seguir construindo, muito menos desistir, nem deixar interromper aquele ímpeto inicial em promover as condições de acessibilidade e a construção de um ambiente de trabalho e estudo inclusivos, respeitosos, solidários, colaborativos, no exercício pleno da democracia e autonomia da nossa UnB.


===========
*Fátima Sousa
Paraibana, 57 anos de vida, 40 anos dedicados a saúde e a gestão pública; 
Professora e pesquisadora da Universidade de Brasília;
Enfermeira Sanitarista, Doutora em Ciências da Saúde, Mestre em Ciências Sociais; 
Doutora Honoris Causa;
Implantou o ‘Saúde da Família’ no Brasil, depois do sucesso na Paraíba e em São Paulo capital; 
Implantou os Agentes Comunitários de Saúde;
Dirigiu a Faculdade de Saúde da UnB: 5 cursos avaliados com nota máxima;
Lutou pela criação do SUS na constituinte de 1988;
Premiada pela Organização Panamericana de Saúde, pelo Ministério da Saúde e pelo Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Universidade: a democracia ameaçada

Segunda, 8 de junho de 2020


Tomo emprestado o título do livro organizado pelos professores Waldir Rampinelli, Valdir Alvim e Gilmar Rodrigues[I], da Universidade Federal de Santa Catarina, de que recomendo leitura, não só por se tratar de uma obra cujos autores nos instigam a pensar o cotidiano da vida universitária, mas pelo imbricamento dos 14 artigos que nos convocam fortemente a nos preocupar com a ruptura do discurso e da prática democrática no interior da instituição chamada universidade, que por princípio deveria ser o berço do exercício, em profundidade, da democracia como bem civilizatório.
A defesa compromissada com um ensino que se inspira nas ideias filosóficas de John Dewey (1852-1952), segundo quem a democracia e a liberdade de pensamento são instrumentos vitais à maturação emocional e intelectual das crianças, vale mais ainda para os(as) adultos(as). Estes(as) devem ficar atentos(as) para que seus atos, em exercício do poder delegado, não coloquem embaixo do tapete as formas instituídas de democracia.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Os fios que tecem o pensamento educativo em tempos de pandemia: um encontro consigo mesmo

Quinta, 4 de junho de 2020
Por
Professora Fátima Sousa*


O que significa educar em um tempo para o qual não estamos preparados(as)? Um tempo cujo relógio nos arrasta avassaladoramente, entre suas horas, minutos e segundos, sem que tenhamos fôlego para sequer imaginar que um dia iríamos vivê-lo? Estou entre aquelas pessoas que, até então, jamais haviam se deparado com a possibilidade de uma situação em que viéssemos a conviver com determinados tipos de privações, a exemplo do confinamento em nossas próprias casas, mas mantendo-nos em determinadas atividades – teletrabalho, acompanhamento escolar remoto de filhos(as) – e fugindo da desinformação, em uma conjuntura absolutamente atípica e entristecedora, que nos causa estranheza frente aos novos modos de convivência com os quais nos deparamos durante a pandemia do Covid-19.
Nesse sentido, devemos dialogar exaustivamente sobre os desafios que estamos enfrentando para manter as nossas antigas tarefas e as novas que surgiram, bem como as perspectivas que alimentávamos quanto ao pensamento educativo que nos norteava e que hoje se redesenha em linhas e traços nem sempre firmes e retos. A situação da pandemia tem sido marcada por inúmeros problemas que têm proporcionado mudanças na lógica em que estávamos inseridos(as) socialmente.
Enquanto isso, o país agoniza pela desgraça das mais de 33 mil mortes por coronavírus e das violências domésticas que invadem as residências, pela falta de trabalho, renda e abrigo, pelas desigualdades sociais das diversas ordens e ainda pela ansiedade, pelo stress e pelas incertezas alojadas entre os(as) milhares de jovens que estão fora das salas de aula tradicionais e que sequer conseguem alimentar a esperança de nelas adentrarem, em especial nas salas das universidades públicas. E os(as) que nelas estão não sabem ainda ao certo como manter sua formação em andamento nesse modelo de aprendizagem que ainda desconhecemos – refiro-me aos(às) estudantes e seus(suas) professores(as).
É em momentos assim que brotam aos nossos olhos as 47 milhões de pessoas que seguem desconectadas entre as classes D e E, segundo nos aponta a recente pesquisa TIC Domicílios de 2019, realizada no território nacional entre outubro de 2019 e março de 2020 e lançada no último dia 26 de maio. Vale ainda observarmos os 72% de indivíduos que não possuem habilidades com o uso do computador, 37% que não têm onde usar a internet e outros 45% que não a utilizam por ser muito cara ao seu orçamento, afora os que não possuem sequer ambiência para estudar.
No cenário de isolamento social – não de afastamento do trabalho, que agora é remoto e em casa, como vimos, apenas para uma parcela de trabalhadores(as) – é que os reencontros têm acontecido: os reencontros entre as famílias, com os afazeres domésticos rotineiros, com as fragilidades advindas da pandemia e o reencontro consigo mesmo. Foucault[i] (2010, p. 6) nos diria que “é preciso que te ocupes contigo mesmo, que não te esqueças de ti mesmo, que tenhas cuidado contigo mesmo”. Nessa parada dos ponteiros do relógio de nossas vidas, observamos o tempo em câmera lenta quando comparado com as nossas rotinas passadas. O que antes era velado pelas ausências agora exige cautela pela presença constante e nem sempre desprovida de afazeres mediados por tecnologias as mais diversas, muitas das quais ainda não dominamos.
O Covid-19 nos colocou cara a cara com as nossas fragilidades e limitações e com problemas de natureza pública e privada. Estamos na posição vertical que nos coloca diante da certeza de que, a qualquer momento, podemos nos contaminar, adoecer e até morrer, não importando a classe social, ainda que saibamos que a mais atingida é a que historicamente vem sendo excluída de viver e trabalhar em territórios saudáveis.
Mesmo isoladas(os) em nossas casas e trabalhando muito, talvez até mais do que trabalhávamos antes, temos exercitado a superação constante de nossos limites, involuntariamente, algo que Mandela experimentou em sua vida no cárcere: sem muros ou defesas (MATEUS, 2014).[ii] Se sairemos melhores ou piores dessa experiência ainda não sabemos. O que dominamos, por ora, é a complexa certeza de que precisamos nos refazer nesses reencontros, para nos defrontarmos com a pós-pandemia.
Permitam-me refletir sobre esses desafios que nos aguardam na pós-pandemia em duas dimensões: a primeira é a nossa necessária e urgente autoeducação, ou podemos chamá-la de “educação de si mesmo”; enquanto a segunda é a educação do outro, em especial das centenas de jovens que nos aguardam na retomada de nossas atividades, mesmo que ainda desconheçamos quando e como. A nossa rotina de educar, o nosso trabalho pedagógico educativo com estudantes, colegas de docência e de gestão técnica na rotina das nossas universidades também precisará de reorganização de todas as partes, pois as vidas ainda seguirão em recuperação das graves crises sociais, políticas, econômicas e institucionais em curso.
As métricas científicas depuraram-se e ganharam visibilidade e força frente à urgência do invisível, mas também precisam retornar aos laboratórios agora reformuladas por imposição das tecnologias que moderam o ensino e a aprendizagem de professores(as) que não criaram disciplinas para a modalidade à distância, que não tiveram seus conteúdos adaptados a tempo e cujas habilidades ainda não foram testadas para esse fim, em particular nos cursos extremamente presenciais.
É óbvio que o ensino à distância é uma saudável realidade que aporta aos processos educativos. É uma grandiosa contribuição, mas apenas quando em seu nascedouro estão contidas as bases sólidas do planejamento de conteúdos, do desenho instrucional necessário ao bom desempenho do material a ser levado aos(às) estudantes via ambientes virtuais de aprendizagem previamente constituídos, sem arremedos e sem os referidos custos/benefícios que “enriquecem outros modelos de educação”.
Precisamos urgentemente compreender que a formação de profissionais está em cena e que o resgate dos nossos espaços sociais, humanizados e coletivos faz-se necessário para que o aprendizado venha a ocorrer nas duas dimensões às quais me referi anteriormente. Urgente se faz nos reeducarmos para educarmos intensamente aqueles(as) que aguardam por nós, mas também os(as) que anseiam por juntar-se a nós na utopia das trocas do aprender a conhecer, a fazer, a viver com os outros e a ser para além do virtual.
No tempo chamado agora, em que somos obrigados(as) a nos recompor na situação adversa de isolamentos, de problemas, de doenças que nos acontecem e sobre as quais não temos nenhum controle, também se faz necessário que reflitamos sobre as coisas consideradas positivas para as nossas vidas, o que somos e seremos capazes de produzir a partir desse evento sanitário e quais exemplos serão fixados no tempo de renovação dos valores hoje vistos à distância, mas que em breve, muito em breve, estarão diante de nós, sem intermediários, sem dispositivos de acionar ou não a câmera ou o microfone das inúmeras salas virtuais as quais temos visitado nos últimos meses.
“Vou manter nossa promessa: nunca, jamais, em quaisquer circunstâncias, falaremos alguma coisa imprópria sobre o outro...” (MANDELA, 2010, p. 20)[iii]
[i] FOUCAULT, M. História da sexualidadeo cuidado de si. 10 ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985.
[ii] MATEUS, A. Mandela – a construção de um homem. Lisboa: Oficina do Livro, 2012.
[iii] MANDELA, N. Conversas que tive comigo. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.
===========
*Fátima Sousa
Paraibana, 57 anos de vida, 40 anos dedicados a saúde e a gestão pública; 
Professora e pesquisadora da Universidade de Brasília;
Enfermeira Sanitarista, Doutora em Ciências da Saúde, Mestre em Ciências Sociais; 
Doutora Honoris Causa;
Implantou o ‘Saúde da Família’ no Brasil, depois do sucesso na Paraíba e em São Paulo capital; 
Implantou os Agentes Comunitários de Saúde;
Dirigiu a Faculdade de Saúde da UnB: 5 cursos avaliados com nota máxima;
Lutou pela criação do SUS na constituinte de 1988;
Premiada pela Organização Panamericana de Saúde, pelo Ministério da Saúde e pelo Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde.