‘Era um trabalhador com sonhos’: pedreiro morto pela PM no Rio comprou casa própria há um mês
Da Ponte Jornalismo
01/06/2026 1h06 Samara Oliveira, do jornal O Catarinão, e Paulo Batistella
Marcelo da Cruz Silva estava empolgado com mudança e reformava imóvel que pretendia pagar aos poucos. Ele e o vizinho, o ajudante de obras Edivan Felipe de Assis, foram mortos por policiais quando iam trabalhar em uma construção
Marcelo da Cruz Silva (à esquerda) e Edivan Felipe de Assis (à direita) foram mortos pela PMERJ | Foto: Reprodução
O pedreiro Marcelo da Cruz Silva, um homem negro de 41 anos, estava empolgado com uma obra recente: a da própria casa. Há cerca de um mês, ele havia se mudado com a companheira para um imóvel que conseguiram comprar no Jardim Catarina, um bairro de São Gonçalo, município da região metropolitana do Rio de Janeiro. A ideia era reformar o novo lar aos poucos, no mesmo ritmo em que pretendia pagar pela nova conquista.
Não houve tempo para Marcelo ver a própria casa do jeito que sonhava. Na manhã da última quarta-feira (27/5), quando se deslocava de moto para trabalhar em uma outra obra no bairro onde sempre viveu, ele foi morto a tiros pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ).
“Ele era um trabalhador, um cara cheio de sonhos, não fazia mal para ninguém”, afirmou, à Ponte, um familiar de Marcelo. “Ele não teve direito de se defender.”
Na ocasião, o ajudante de obras Edivan Felipe de Assis, um homem também negro de 46 anos, que o acompanhava na garupa da moto, foi outra vítima assassinada a tiros pela PMERJ. Os dois haviam se tornado vizinhos mais próximos há pouco tempo, quando Marcelo se mudou para a nova casa e passou a chamar Edivan, dono de um bar na região, para fazer “bicos” com ele em construções.
Assassinatos sem ao menos tentativa de abordagem revoltou vizinhos
Os trabalhadores foram baleados por policiais do 7º Batalhão de Polícia Militar (BPM), de São Gonçalo. O caso ocorreu por volta das 7h da manhã, na Avenida Doutor Albino Imparato, uma das mais movimentadas do bairro, na região da Ipuca, comunidade que integra o Jardim Catarina.
Eles levavam consigo, além de marmitas, ferramentas de trabalho, que, na noite anterior, Marcelo havia ido buscar na casa da mãe, uma vendedora ambulante conhecida no bairro como “Maria do Milho”. Já os policiais envolvidos no caso estariam no local para prestar apoio a funcionários de uma operadora de telefonia que faziam reparos na região.
A alegação inicial dos policiais foi de que teriam “confundido” uma dessas ferramentas de Marcelo com uma arma de fogo. O relato de vizinhos, no entanto, é de que os dois trabalhadores teriam sido baleados antes mesmo de qualquer tentativa de abordagem ou negativa de parada, sem que tivesse existido, portanto, uma ameaça que obrigasse os agentes a atirar em legítima defesa.
Em função disso, logo após o ocorrido, os vizinhos passaram a se juntar em torno dos corpos das vítimas, indignados com a situação e preocupados com que a cena fosse alterada pelos policiais antes de qualquer perícia. Marcelo e Edivan morreram na hora, sem que houvesse tempo para socorrê-los.
Ainda na manhã dos assassinatos, a vizinhança fez um protesto na região, ocasião em que tentou bloquear a rodovia BR-101, em um trecho da via que atravessa o bairro. Algumas pessoas tentaram tomar um ônibus para usá-lo de barricada. Os policiais reprimiram os manifestantes com tiros de balas de borracha.
O corpo de Marcelo foi sepultado na quinta (28/5), enquanto o de Edivan foi enterrado na sexta (29/5) — à Ponte, a família do ajudante de obras afirmou não estar em condições de se manifestar sobre o caso.
Região é historicamente negligenciada pelo poder público
A região da Ipuca, onde ambos viviam, tem cerca de 9 mil moradores. Mesmo assim, o território convive com falta de água, coleta de lixo precária, ruas sem asfalto e com transporte público insuficiente. O que as famílias conhecem bem são as operações policiais constantes no bairro.
É uma rotina: pela manhã, moradores da Ipuca costumam se comunicar entre si para saber se podem levar os filhos para a escola e seguir para o trabalho, em função da insegurança causada pelas operações. A mesma coisa acontece na volta para casa.
“Só entram aqui para atirar. No ano todo, a criança só vai [para a escola] metade do tempo que tem para estudar, porque não consegue ir. Toda semana tem que estar faltando à escola duas ou três vezes por causa de operação”, disse um morador.
A sensação de abandono ainda costuma virar luto por vizinhos e familiares ao final de cada operação. “Já sofremos com o descaso dos governantes, que não fazem nada pelo nosso bairro. Aí a gente acorda e recebe notícias como essa, que dói demais o nosso coração”, afirmou uma outra pessoa do bairro sobre os assassinatos de Marcelo e Edivan.
“A gente suporta lama, buracos, falta de saneamento, mas o que torna o lugar pior é isso aí que aconteceu hoje e já aconteceu outras vezes, de outros inocentes perdendo a vida”, afirmou ainda.
De acordo com o Instituto Fogo Cruzado, até a última sexta-feira (29/5), a região metropolitana do Rio de Janeiro teve 367 pessoas baleadas em ações policiais neste ano, entre as quais 181 morreram. O número de atingidos equivale a 52,5% do total de baleados no Grande Rio em 2026, que é de 698 vítimas.
Polícia aguarda imagens de câmeras, e MPRJ não responde sobre prisão
Em nota à Ponte, a Polícia Civil fluminense (PCERJ) comunicou que as armas dos policiais militares envolvidos nas mortes de Marcelo e Edivan foram apreendidas para serem submetidas a uma perícia. As imagens das câmeras corporais dos agentes presentes na ocasião também foram solicitadas.
A investigação é feita pela Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSG). “Outras testemunhas também foram ouvidas, e diligências seguem em andamento para o completo esclarecimento dos fatos”, escreveu a Polícia Civil no comunicado.
À TV Globo, a tenente-coronel Claudia Moraes afirmou, na condição de porta-voz da PMERJ, que os policiais foram afastados do trabalho operacional nas ruas.
Em nota à Ponte, a PMERJ comunicou que também conduz um procedimento próprio, o que, eventualmente, poderá responsabilizar os agentes na esfera administrativa e militar. A corporação afirmou ainda lamentar as mortes de Marcelo e Edivan e alegou que “preza pela transparência de suas ações colaborando integralmente com as investigações do caso”.
A Ponte ainda buscou o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), que tem a atribuição constitucional de exercer o controle externo das polícias fluminenses. A reportagem questionou, entre outras coisas, se foi solicitada a prisão preventiva dos policiais que mataram Marcelo e Edivan.
Em resposta, o MPRJ limitou-se a dizer que instaurou um procedimento próprio sobre o caso e que também acompanha as investigações da Polícia Civil e da Polícia Militar.
Leia a íntegra do que diz a PMERJ
A Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar informa que , de acordo com o comando do 7º BPM (São Gonçalo), um procedimento apuratório segue em curso para averiguar todas as circunstâncias na qual policiais militares atingiram dois homens em uma motocicleta, durante ocupação na localidade de Ipuca, na manhã desta quarta-feira (27/05).
O local foi isolado e a Delegacia de Homicídios da região foi acionada.
A Corporação lamenta a morte do Marcelo da Cruz Silva e do Edivan Felipe de Assis e ressalta que preza pela transparência de suas ações colaborando integralmente com as investigações do caso.
Leia a íntegra do que diz a PCERJ
A investigação está em andamento na Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSG). Os policiais militares envolvidos na ocorrência já prestaram depoimento na unidade, e suas armas foram apreendidas para confronto balístico. As imagens das câmeras corporais foram requisitadas. Outras testemunhas também foram ouvidas, e diligências seguem em andamento para o completo esclarecimento dos fatos.
Leia a íntegra do que diz o MPRJ
O Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (GAESP/MPRJ) informa que instaurou procedimento para acompanhar a apuração das circunstâncias da morte de dois homens, ocorrida na manhã desta quarta-feira (27/05), no bairro Jardim Catarina, em São Gonçalo. O procedimento será distribuído a uma das Promotorias de Justiça de Investigação Penal Especializada do Núcleo Niterói e São Gonçalo, no âmbito do controle externo da atividade policial.
O caso foi comunicado ao plantão de monitoramento do GAESP/MPRJ, conforme previsto na ADPF 635, e um promotor de Justiça foi ao IML para acompanhar o exame de necropsia. O grupo também acompanha o inquérito instaurado na Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo (DHNSG).
Paralelamente, a Promotoria de Auditoria Militar informou que também requisitou as imagens das câmeras corporais de todos os policiais militares envolvidos, bem como demais informações para a Corregedoria da Polícia Militar (CGPM) para análise.
Esta reportagem foi feita em parceria com O Catarinão.
Já que Tamo junto até aqui…
Que tal entrar de vez para o time da Ponte? Você sabe que o nosso trabalho incomoda muita gente. Não por acaso, somos vítimas constantes de ataques, que já até colocaram o nosso site fora do ar. Justamente por isso nunca fez tanto sentido pedir ajuda para quem tá junto, pra quem defende a Ponte e a luta por justiça: você.
Com o Tamo Junto, você ajuda a manter a Ponte de pé com uma contribuição mensal ou anual. Também passa a participar ativamente do dia a dia do jornal, com acesso aos bastidores da nossa redação e matérias como a que você acabou de ler.
Acesse: ponte.colabore.com/tamojunto.
Todo jornalismo tem um lado. Ajude quem está do seu.Ajude
Inscrever-se
Mais Lidas
ponte newsletter
Ponte nas redes




