“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Wendy Brown: Há vida após o capitalismo tardio

Quinta, 24 de setembro de 2026

Wendy Brown: Há vida após o capitalismo tardio

A filósofa que desconstruiu o neoliberalismo sustenta, em entrevista: ao romper as ideias de solidariedade e do Comum, o capital reabriu o mundo ao inferno do fascismo. Mas o declínio de Trump mostra: não vale a pena desertar da política

OutrasPalavras                         Pós-Capitalismo
Publicado em 24/09/2026


Wendy Brown, em entrevista a Thiago Gama

E se a extrema direita não fosse o contrário do neoliberalismo, e sim o seu produto mais acabado? A pergunta atravessa a obra de Wendy Brown, para quem o neoliberalismo nunca foi apenas um receituário econômico: é uma razão de governo social que conduz condutas, refaz instituições e fabrica um sujeito à imagem do homo oeconomicus, alguém que já não sente falta daquilo que perdeu.

Sua obra está traduzida em mais de vinte idiomas. “Undoing the Demos: Neoliberalism’s Stealth Revolution (Nova York: Zone Books, 2015) passa de onze mil citações no Google Acadêmico; In the Ruins of Neoliberalism” (Nova York: Columbia University Press, 2019) chegou ao Brasil como “Nas ruínas do neoliberalismo” (São Paulo: Politeia, 2019); e “Nihilistic Times: Thinking with Max Weber” (Cambridge: Harvard University Press, 2023) nasceu das Tanner Lectures que ela deu em Yale. Entrou nos programas de disciplina da USP e da UFRJ, e o capítulo de “Undoing the Demos” que circula em português, numa revista da UFPR, é justamente aquele em que ela cobra do filósofo francês que leu o neoliberalismo como arte de governar o termo que faltava: o homem político.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

América Latina: a ultradireita tem projeto?

Segunda, 21 de setembro de 2026

América Latina: a ultradireita tem projeto? 

Ela governa quase toda a região. Mas, quando se volta a falar em soberania, propõe um neoliberalismo mofado e recolonial. Espera em vão por capital externo. Não mobiliza esperanças, mas rancor. É frágil, desde que surja horizonte de justiça social

OutrasPalavras                               Direita Assanhada

Por  

Arte: policypress.cy

Por Álvaro García Linera, em Other News | Tradução: Antonio Martins

Uma onda reacionária varre a América Latina. Com exceção do México e Brasil (as duas maiores potências da região), Uruguai e Guatemala, os demais países (Argentina, Chile, Colômbia, Bolívia, Peru, Equador, Paraguai, El Salvador, Honduras, Panamá, etc.) elegeram governos autoritários de extrema-direita. Isso ocorreu no segundo turno das eleições, por uma margem estreita, mas esses governos estão no poder e expressam um sentimento de ressentimento e agressividade política anti-igualitária, forte em parcelas da população.

Não estamos lidando com a direita liberal tradicional ou “republicana” que caracterizou o neoliberalismo triunfante da década de 1980. Naquela época, ele procurava ser o porta-estandarte de um destino universal e final para a humanidade, centrado no livre mercado, na globalização, no multiculturalismo e no Estado mínimo.

A extrema-direita de hoje não promete um futuro de paz mundial baseada nos mercados, mas sim uma purga apocalíptica dos ateus que se opõem às hierarquias “naturais” do empregador sobre empregado, do homem sobre mulher, da branquitude sobre todas as outras etnias e do rico sobre o pobre. Mais do que uma utopia, o que ela ostenta é uma “guerra santa” contra o comunismo, contra os imigrantes, contra os direitos e os bens públicos. Para a extrema-direita, não há paraíso a alcançar, apenas as brasas de um Armagedom onde purificar os desvios de uma humanidade corrompida por aspirações de igualdade.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

A Foreign Affairs e o retorno da (nunca abandonada) questão nacional

Segunda, 9 de dezembro de 2019
Do Portal Bonifácio*


08/12/2019
Os meios acadêmicos norte-americanos despertam para a atualidade e a importância da questão nacional.

Há menos de 30 anos, os centros liberais celebravam triunfalmente a vitória, tida como definitiva, do cosmopolitismo globalizado sobre o nacionalismo e decretavam a “questão nacional” como algo superado de uma vez por todas no caldeirão (ou, de maneira “cosmopolita”, melting pot)da globalização. Ideólogos liberais canônicos no período, como Francis Fukuyama e Kenichi Ohmae, vislumbravam a tendência irreversível de substituição das nações pelo “mercado mundial” e do nacionalismo pelo individualismo competitivo característico das principais metrópoles capitalistas. Finalmente o mundo seria uma “aldeia global”, com os países deixando de lado suas diferentes e históricas construções políticas, linguísticas, religiosas e culturais, passando a ser todos “nova-iorquinos”, nascidos ou não em Nova Iorque, bem-vindos ou não em Nova Iorque.

Contudo, em 2019, o cenário assume contornos muito diferentes. O globalismo é contestado não apenas por grande parte das sociedades, seja dos próprios países centrais ou fora deles, mas também, cada vez mais, pela própria elite política e intelectual desses países.

Napoleão Bonaparte: projetou o poder militar e os valores da França burguesa para a Europa e para o mundo.

O consenso anti-nacional, apresentado como condição inescapável do presente e do futuro, tornou-se passado, e os debates sobre a importância da Nação são reacendidos. Manifestação disso é a edição de Março/Abril de 2019 da renomada revista estadunidense Foreign Affairs, tradicional porta-voz dos setores oficiais dos EUA. O tema não deixa margem para dúvidas: O Novo Nacionalismo. Os punhos cerrados e anônimos na capa deixam claro o principal agente nacionalista: o povo, reduzido à condição de massa indiferenciada, bem ao gosto do pensamento que fundou e governa os EUA. Não admira que o termo “populista”, com forte carga depreciativa no establishment acadêmico estadunidense, frequentemente utilizado para rotular os líderes e os grupos políticos que mobilizam o sentimento nacionalista de grande parte das sociedades.

Depois do Brexit, da eleição de Donald Trump, do soerguimento de países francamente nacionalistas como Rússia, China e Índia e da sobrevivência de regimes de fato nacionais como os de Cuba, Venezuela, Irã e Coreia do Norte, torna-se impossível a qualquer observador manter as ilusões “pós-nacionais” que se sucederam à queda do Muro de Berlim. Setores consideráveis da “elite do poder” dos EUA e do bloco econômico-militar norte-atlântico como um todo descobrem que, apesar das suas veleidades universalistas, os sentimentos morais das sociedades continuam inclinando-se para as suas respectivas nações. Se o andar de cima dos centros capitalistas define a si próprio como o filósofo escocês David Hume (1711-1776) definia os acionistas das grandes empresas – “homens, sem ligação com o Estado, que podem usufruir de sua renda em qualquer parte do globo onde decidam residir, que naturalmente ocultar-se-ão na capital ou em grandes cidades”[2] – o povo, necessariamente, insere-se material e afetivamente em comunidades nacionais específicas. Enquanto o corpo editorial da Foreign Affairs enxerga o retorno do nacionalismo como uma “vingança” e procura destrinchar esse fenômeno inesperado (ao menos para a elite do poder dos EUA), as sociedades, seja no centro ou na periferia do mundo, tendem a compreender o nacionalismo como um âmbito de pertencimento comum maior e mais sólido que os caprichos liberais, quer sejam econômicos ou culturais.