Sexta, 1º de janeiro de 20116
Como Washington continua a
alimentar - mesmo após os atentados de Paris - grupos extremistas que
simula combater. Qual o papel da Rússia. Por que a candidatura
presidencial de Bernie Sanders importa. Entrevista a C.J. Polychroniou.
31 de Dezembro, 2015
Noam Chomsky, março de 2015 - Foto do Ministério da Cultura da Argentina/flickr
Entrevista de Noam Chomsky a C.J. Polychroniou*, publicada, em 3 de dezembro de 2015, no Truthout . Tradução de Camila Teicher para Outras Palavras.
A “guerra ao terror” transformou-se agora numa implacável campanha
bélica global. Enquanto isso, as verdadeiras causas do surgimento e da
expansão de organizações assassinas como o Estado Islâmico (EI)
continuam a ser convenientemente ignoradas.
Após o massacre de Paris, em novembro, importantes países ocidentais,
como França e Alemanha, estão a unir-se aos Estados Unidos na luta
contra o terrorismo fundamentalista islâmico. A Rússia também se
prontificou a se juntar ao clube, por ter as suas próprias preocupações
quanto à propagação do fundamentalismo islâmico. Na verdade, os russos
vêm travando a sua própria “guerra ao terror” desde o colapso do Estado
soviético. Paralelamente, alguns dos fortes aliados dos EUA, como a
Arábia Saudita, o Qatar e a Turquia, estão a apoiar direta ou
indiretamente o EI, porém esta realidade também é convenientemente
ignorada pelas forças ocidentais que combatem o terrorismo
internacional. Só a Rússia ousou recentemente classificar a Turquia de
“cúmplice dos terroristas” por ter abatido um caça russo que teria
violado o seu espaço aéreo. (Vale lembrar que os caças turcos violam o
espaço aéreo grego frequentemente há anos: 2.244 vezes somente em 2014.)
A “guerra ao terror” faz sentido? É uma política eficaz? E qual é a
diferença entre a sua fase atual e as duas anteriores, ocorridas durante
os mandatos de Ronald Reagan e George W. Bush? Além disso, quem
realmente beneficia com a “guerra ao terror”? E qual é a relação entre o
complexo militar-industrial americano e a produção da guerra? Noam
Chomsky, crítico mundialmente renomado à política externa dos Estados
Unidos, expôs seus pontos de vista sobre essas questões numa entrevista
exclusiva com C.J. Polychroniou.
Obrigado por conceder esta entrevista. Gostaria de começar
por escutar a sua opinião sobre os últimos acontecimentos na guerra
contra o terrorismo, uma política que vem desde os anos do governo
Reagan e que foi transformada subsequentemente numa doutrina de
“cruzada” [islamofóbica] por George W. Bush, com um custo inestimável de
vidas inocentes e efeitos profundos no direito internacional e na paz
mundial. A guerra contra o terrorismo parece estar a iniciar uma fase
nova e talvez mais perigosa, à medida que outros países entram na briga
com agendas e interesses políticos distintos daqueles dos EUA e de
alguns dos seus aliados. Em primeiro lugar, você concorda com essa
avaliação da evolução da guerra contra o terrorismo e, se sim, quais são
as prováveis consequências económicas, sociais e políticas de uma
guerra global e permanente ao terror, especialmente para as sociedades
ocidentais?
As duas fases da “guerra ao
terror” são bem diferentes, exceto num aspecto crucial. A guerra de
Reagan degenerou rapidamente em conflitos terroristas e homicidas, e
essa é precisamente a razão pela qual foi “desaparecida”
Noam Chomsky: As duas fases da “guerra ao terror”
são bem diferentes, exceto num aspeto crucial. A guerra de Reagan
degenerou rapidamente em conflitos terroristas e homicidas, e essa é
precisamente a razão pela qual foi “desaparecida”. As suas guerras
terroristas tiveram consequências terríveis na América Central, no sul
da África e no Médio Oriente. A América Central, o alvo mais direto, até
hoje não recuperou, e essa é uma das principais razões – raramente
mencionada – para a atual crise de refugiados. O mesmo vale para a
segunda fase, redeclarada por George W. Bush 20 anos depois, em 2001. Os
ataques diretos devastaram grandes regiões e o terror tomou novas
formas, especialmente com a campanha global de execuções (com drones) de
Obama, que rompe novos recordes nos anais do terrorismo e - assim como
outros exercícios similares - provavelmente gera mais terroristas
devotos do que mata suspeitos.