Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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segunda-feira, 15 de maio de 2017

Que amanhã não seja outro nome de hoje

Maio 15

Que amanhã não seja outro nome de hoje

No ano de 2011, milhares de jovens, despojados de suas casas e de seus empregos, ocuparam as praças e as ruas de várias cidades da Espanha.
E a indignação se disseminou. A boa saúde acabou sendo mais contagiosas que as pestes, e as vozes dos indignados atravessaram as fronteiras desenhadas nos mapas. Assim ecoaram pelo mundo.

Disseram para a gente "já pra rua", e aqui estamos.
Apague a televisão e ligue a rua.
Chamam de crise, mas é roubo.
Não falta dinheiro: sobra ladrões.
O mercado governa. Eu não votei nele.
Eles decidem pela gente, sem a gente.
Aluga-se escravo econômico.
Estou procurando meus direitos. Alguém viu por aí?
Se não deixam a gente sonhar, não vamos deixá-los dormir. 
 
                                    Eduardo Galeano, no livro Os filhos dos dias (Um calendário histórico sobre a humanidade), Editora L& PM, 2012, página 161

domingo, 15 de maio de 2016

Que amanhã não seja outro nome de hoje

Maio 15



Que amanhã não seja

outro nome de hoje



No ano de 2011, milhares de jovens, despojados de suas casas e de seus empregos, ocuparam as praças e as ruas de várias cidades da Espanha.

E a indignação se disseminou. A boa saúde acabou sendo mais contagiosas que as pestes, e as vozes dos indignados atravessaram as fronteiras desenhadas nos mapas. Assim ecoaram pelo mundo.

Disseram para a gente "já pra rua", e aqui estamos.

Apague a televisão e ligue a rua.

Chamam de crise, mas é roubo.

Não falta dinheiro: sobra ladrões.

O mercado governa. Eu não votei nele.

Eles decidem pela gente, sem a gente.

Aluga-se escravo econômico.

Estou procurando meus direitos. Alguém viu por aí?

Se não deixam a gente sonhar, não vamos deixá-los dormir. 
                                    Eduardo Galeano, no livro Os filhos dos dias (Um calendário histórico sobre a humanidade), Editora L& PM, 2012, página 161

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Organizando a Indignação

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Terça, 11 de novembro de 2014
Os sismos causados pelo movimento dos Indignados espanhóis ameaçam transformar-se num terremoto político devastador para o neoliberalismo. Artigo de Ruy Braga, publicado no blogue da Boitempo.
10 de Novembro, 2014
Foto retirada do facebook de Pablo Iglesias.

Os sismos causados pelo movimento dos Indignados espanhóis ameaçam transformar-se num terramoto político devastador para o neoliberalismo. De acordo com uma sondagem divulgada na última semana pelo jornal El País, o Podemos, partido recém-criado pela aliança entre o jovem precariado espanhol e intelectuais de esquerda, alcança 28% das intenções de voto nas eleições legislativas de novembro de 2015. Este resultado coloca-o a dois pontos à frente do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e oito à frente do Partido Popular (PP) do atual primeiro-ministro, o conservador Mariano Rajoy. Apenas para efeitos comparativos, nas eleições legislativas de maio de 2011, o PP havia conquistado 45% dos votos…

Herdeiro da auto-mobilização da juventude e dos trabalhadores precarizados, o Podemos coroa a indignação social de toda uma geração de jovens espanhóis que, apesar dos seus diplomas, agoniza entre o subemprego e a exclusão social. Apoiando-se na crítica a um sistema plasmado por políticas austeritárias impostas pela Troika (isto é, a Comissão Europeia, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu), os Indignados insurgiram-se contra o regime bipartidário (PP/PSOE) que há trinta e dois anos domina o país. E conquistaram uma rara vitória organizativa através de um modelo de ação coletiva cujo eixo gravita em torno da ocupação de espaços públicos e da organização de assembleias populares.

Além de potencializar a defesa radical dos direitos sociais da cidadania sob fogo cerrado da Troika, este método favoreceu a resistência às formas tradicionais de cooptação política. Mesmo quando certa desmobilização se abateu sobre a onda de ocupações iniciada em 15 de maio de 2011, o movimento soube-se reaglutinar em torno de coletivos dedicados a inúmeros temas sociais aos quais se somaram intelectuais e ativistas da Esquerda Anticapitalista (um pequeno agrupamento de origem trotskista). Estavam lançadas as bases para um projeto cujos 8% dos votos na eleição europeia de 11 de março deste ano já haviam surpreendido muita gente.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Indignados, ocupar a política!

Sexta, 18 de maio de 2012


Por Marcello Barra
Ocupar a política é uma necessidade para combater a corrupção e a criminalização do movimento social, crescente na crise do capital. Ocupar é o contraponto ao “invadir” que a mídia (burguesa) tanto gosta, estigmatizando e criminalizando os lutadores que não aceitam a desigualdade e as injustiças.

Ocupar esteve originalmente conectado a locais físicos. Entretanto, o Occupy Wall Street deu um salto duplo por trazer o significado de ocupar a rua e ocupar o coração do sistema financeiro. Ocupar tornou-se o desestabilizador da ordem no centro do capitalismo, quando indignados tomaram a famosa Wall Street, sede da Bolsa homônima e de grandes bancos, que representam o sistema financeiro norte-americano. E, como é base do Império estadunidense, é o coração do sistema mundial.

A economia já havia quebrado na crise de 2007/2008, artistas já haviam produzido filmes instigantes como Trabalho interno (Inside job) e Margin call, faltava, entretanto, o fato social e político. O Muro de Berlim do capitalismo caiu com o Occupy, que tomou de assalto a falsa democracia (democracia de 1%). Portanto, a ação de massas criava outra política.

A campanha de Obama de 2008 gestou o Occupy nos EUA. Setores radicalizados deram um salto na experiência de uso das redes sociais da campanha de Obama em 2008 para escancararem as contradições do sistema capitalista sobre a vida cotidiana.

No Brasil, a prisão do rapper Emicida ao pôr o dedo na ferida, quando protestava contra políticos e a repressão policial à população, é estarrecedora. E, pior, não é um acontecimento fortuito: vem na sequência da prisão de Rita Lee por combater a violência policial a usuários de maconha durante show dela com a presença de Marcelo Déda/PT, governador de Sergipe, que defendeu publicamente a prisão da cantora.

Rasga-se a constituição ao ceifar a liberdade de expressão e garantias fundamentais. Na verdade, mostra-se a verdadeira natureza da lei: a serviço de 1% contra os 99%, a serviço dos Cachoeiras e banqueiros, políticos corruptos e empresas transnacionais.

A história recente de Brasília deve ser estudada para se entender a importância de se ocupar na cidade-sede do Estado brasileiro. Os estudantes indignados com a gestão do reitor Timothy Mulholland ocuparam a reitoria da UnB e derrubaram esta figura triste para a universidade brasileira, que hoje só encontra par com o tucano João Grandino Rodas, da USP.

O movimento cresceu e pautou a vida política de Brasília, ao ocupar a Câmara Legislativa do DF e protagonizar o Fora Arruda e Toda Máfia!, que levou à queda do PÓ, o Paulo Otávio, e Wilson Lima. O retrocesso se deu com a eleição indireta de um governador biônico, Rogério Rosso/PMDB, com o voto do PT, que indicou um nome e votou noutro, num acordão para terminar tudo em pizza, com Arruda desfrutando livre e impunemente o que faturou no governo.

A luta de classes, desde sua formulação nas bases racionais do materialismo dialético, é internacional, quando Marx conclamou: "Trabalhadores de todos os países, uni-vos". Este chamado tem sido bem apreendido pelos socialistas. Os indignados são hoje a vanguarda da luta mundial, são o setor mais avançado rumo à democracia real. Não se trata mais apenas de ocupar um local físico, mas a atividade humana que lida diretamente com a possibilidade de mudança: a política.

Nos dias de hoje...
Não ponha o dedo na nossa ferida.
...
Cai o rei de Espadas
Cai o rei de Ouros
Cai o rei de Paus
Cai, não fica nada. (Cartomante – Ivan Lins, 1978)

Sarkozy já caiu na França. Na Grécia, caiu o PASOK (PT delles), caiu o Nova Democracia (PSDB), ficou um vazio de poder. O partido considerado vencedor, Syriza, é uma coalizão de esquerda anticapitalista e já cresceu quase 10%, chegando a 25,5% das intenções de voto, e está em primeiro lugar para a próxima eleição, que deverá ocorrer em junho. Alexis Tspiras, líder do Syryza, é o mais indicado nas pesquisas de opinião para primeiro-ministro, com 19%.

Quando se indignar e pôr o dedo na ferida é crime, só resta aos indignados ocuparem a política!

por Marcello Barra - sociólogo - para O MIRACULOSO