“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A Era do Obscurantismo e o complexo de vira-lata

Sexta, 21 de agosto de 2026

A Era do Obscurantismo e o complexo de vira-lata

Pela primeira vez em cinco séculos, domínio eurocêntrico está ameaçado. Ocidente resiste, reacende a chama tóxica do racismo e busca submeter a periferia. Brasil pode jogar papel político e simbólico na emergência do Sul Global. Mas as elites preferem a submissão

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Estamos atravessando a mais perigosa situação geopolítica desde a Segunda Guerra Mundial. O brasileiro, que adora se iludir, precisa abrir os olhos urgentemente. Quais são as características marcantes desta fase, cujo início remonta à primeira ou segunda década do século XXI? Creio que podemos destacar quatro pontos:

1) A ascensão e consolidação de um mundo multipolar, marcado pelo rápido progresso da China e de outras nações do Leste da Ásia.

2) O declínio relativo do Ocidente, acelerado por escolhas estratégicas altamente problemáticas dos Estados Unidos (a abertura de uma guerra de três frentes contra a Rússia, a China e o Irã e, desde 2025, uma fragmentação inédita do Ocidente).

3) A relutância, mais do que isso – a recusa terminante do Ocidente de aceitar seu declínio relativo – a ponto de estar disposto a violar todos os princípios, contratos e regras, além de praticar abertamente toda sorte de violência e pirataria. Estados Unidos e aliados mostram-se prontos, como estamos vendo, a realizar operações militares e até mesmo ir à guerra na tentativa de preservar e talvez reverter seu domínio decadente.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Assim a China enfrenta a tempestade de Trump

Segunda, 29 de junho de 2026

Assim a China enfrenta a tempestade de Trump


Planejamento estratégico do país se revelou decisivo em 2026. Enfrentou o choque dos preços do petróleo e construiu relativa blindagem econômica. País já não “esconde a força”: prevê conflito crescente com os EUA, e prepara-se para ele

OUTRASPALAVRAS                         Geopolítica & Guerra
Publicado 29/06/2026

“Subjugar o inimigo sem lutar é o acme da habilidade.”
–Sun Tzu, em A Arte da Guerra

Tomo a visita de 10 dias que fiz a Shanghai como ponto de partida para este artigo. Acabei de chegar e ainda luto com o fuso horário (a viagem de volta foi de 39 horas porta a porta). Assim, o artigo será talvez ainda mais incoerente do que de costume. Mas, enfim, vamos lá.

A China está em pleno processo de redefinição das suas relações com o resto do mundo, com o Ocidente em particular. Nas primeiras três ou quatro décadas do período de reforma e abertura econômica iniciado por Deng Xiaoping em 1979, a China buscava uma “ascensão pacífica” no interior do quadro internacional estabelecido sob a égide dos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial. E foi inicialmente muito bem-sucedida nesse propósito. Evitava sistematicamente confrontações com os Estados Unidos e outras nações, posicionando-se com prudência e paciência estratégicas. Deng adotava como lema uma máxima chinesa clássica – “esconda a força, espere a hora”.

Como representante do Brasil em reuniões dos BRICS, na fase de formação do grupo de 2008 em diante, posso dar o meu testemunho de que os delegados chineses, sem exceção, obedecendo a um comando superior, evitavam a todo custo qualquer linguagem ou iniciativa que fosse mais agressiva em relação ao Ocidente ou que pudesse ser interpretada como tal. A China se posicionava como uma potência reformista – cautelosamente reformista, tanto na retórica como nas propostas. Às vezes, passava-nos a impressão de que dava precedência a um entendimento estratégico com os Estados Unidos – à formação de um G-2, como se dizia na época — mesmo que isso sacrificasse a articulação entre os BRICS.

O G-2 nunca viria a se constituir. Os Estados Unidos preferiram partir para uma política de contenção e confrontação, começando no primeiro mandato de Donald Trump, de 2017 a 2020, continuando com Joe Biden, de 2021 a 2024, e se intensificando de modo dramático no segundo mandato de Trump desde o ano passado.