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terça-feira, 9 de junho de 2026

Tiro que matou soldado após assalto em Sorocaba (SP) partiu da própria PM, indica perícia

Terça, 9 de junho de 2026


Tiro que matou soldado após assalto em Sorocaba (SP) partiu da própria PM, indica perícia

09/06/2026 5h06 Paulo Batistella

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Investigação já apurava possível “fogo amigo” contra Matheus Almeida Rodrigues, seja de modo acidental ou em tentativa de colegas de forjarem confronto. Vídeo e relatos conflitantes de PMs já derrubavam hipótese de tiroteio com assaltantes

Matheus, ao centro da imagem, foi baleado quando os disparos já haviam cessado | Foto: Reprodução

Uma perícia feita pela Polícia Técnico-Científica indicou que o tiro que matou o soldado Matheus Almeida Rodrigues, de 28 anos, em uma ocorrência em Sorocaba (SP) em abril deste ano, partiu da própria Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP). A descoberta se junta a outras provas do caso de que o policial militar foi morto por “fogo amigo” — resta saber se isso ocorreu de modo acidental ou não.

Confirmada pela Ponte, a informação foi revelada pelo site Metrópoles, segundo o qual a Polícia Civil já investigava se Matheus pode ter sido atingido em uma tentativa dos colegas de forjarem um confronto.

A princípio, o caso era tratado com uma morte decorrente de um suposto confronto com assaltantes que roubaram uma farmácia na cidade naquela ocasião. No entanto, conforme publicou a Ponte, um vídeo da ocorrência registrou que Matheus só foi baleado um minuto depois de colegas policiais terem dado vários disparos contra quatro criminosos em um carro — três deles morreram no local.

Além disso, depoimentos conflitantes dos próprios PMs e de testemunhas rendidas no assalto também se opuseram à hipótese de confronto. Os relatos ainda indicaram que os agentes sabiam que haveria o assalto, mas, ainda assim, optaram por reagir com um tiroteio em vez de terem evitado o crime.

Perícia analisa oito pistolas de PMs, não esclarece de qual delas saiu o tiro

Matheus foi assassinado com um tiro na cabeça. O projétil que o atingiu permaneceu alojado na lateral esquerda do crânio e foi recuperado pela perícia. A análise do objeto indicou haver “elementos sugestivos” de que ele compunha uma “munição para arma de fogo do calibre nominal .40 S&W ou compatível”. Sendo assim, o disparo teria partido de um dos armamentos que eram utilizados naquela ocasião pelos policiais, que portavam pistolas Glock do modelo G22 Gen5 e calibre .40 S&W.

Na versão dos agentes, os assaltantes teriam usado dois revólveres Taurus de calibre .38, diferentes, portanto, do projétil que atingiu Matheus. Entre os policiais ouvidos no caso, nenhum deles levantou a hipótese de que algum criminoso teria tomado uma arma das mãos dos agentes — ou seja, todos os projéteis atribuídos às armas da PMESP só podem ter sido disparados pelos próprios policiais.

A pedido da Polícia Civil, a Polícia Técnico-Científica analisou oito pistolas Glock apreendidas dos policiais, mas não esclareceu de qual delas partiu o tiro que vitimou Matheus. O Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), que já ofereceu denúncia contra o único assaltante sobrevivente do episódio, não solicitou esclarecimentos adicionais sobre a morte do policial ao menos no âmbito dessa investigação. A Corregedoria da Polícia Militar também conduz um inquérito sobre o ocorrido.

Os PMs ouvidos no caso alegaram terem apreendido, além dos dois revólveres .38, uma pistola falsa. Contudo, conforme revelou a Ponte, uma pessoa que trabalha na farmácia relatou ter visto apenas uma arma com os criminosos, sem ter esclarecido se parecia ser verdadeira ou não. Já o único assaltante que sobreviveu ao episódio alegou que o grupo tinha apenas uma arma de brinquedo e que se rendeu.

Anteriormente, a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) comunicou ter afastados os policiais envolvidos do trabalho nas ruas ao menos até a conclusão das investigações.

Como foi a ocorrência e o que disseram as testemunhas

O assalto à farmácia teve início por volta das 1h35 da madrugada do dia 11 de abril de 2026. Na ocasião, dois dos assaltantes renderam a gerente e a fizeram ir até o cofre do estabelecimento. Antes mesmo do crime ser anunciado, ela reconheceu o rosto de um deles, porque ele já havia participado de outro assalto no local em janeiro. A farmácia também já havia sido alvo de outros roubos.

Um terceiro assaltante também entrou na farmácia. Ele rendeu os demais funcionários e se dirigiu a uma geladeira onde eram guardadas canetas emagrecedoras que também foram levadas.

A gerente disse à Polícia Civil que os assaltantes pareciam calmos e já conheciam a operação da farmácia. Ela afirmou ainda que só viu uma arma com os dois assaltantes que a acompanharam. Um deles mantinha a mão disposta como se estivesse armado, mas sem exibir arma alguma. Já uma outra funcionária afirmou à Polícia Civil que o terceiro assaltante também não exibiu arma alguma, embora, em certo momento, tenha ameaçado as vítimas do roubo para que se apressassem.

Os assaltantes saíram da farmácia por volta das 1h48 da madrugada e correram com os itens roubados em direção à Rua André Rodrigues Benavides, no bairro Parque Campolim, onde haviam estacionado um Volkswagen Virtus prata para fugir. A partir desse momento, uma câmera de segurança registrou a chegada de policiais militares, que passaram a atirar contra os criminosos no carro.

Três dos assaltantes morreram baleados, enquanto o quarto deles conseguiu correr para a direção oposta a dos policiais. Esse sobrevivente acabou pego depois e foi outro a depor à Polícia Civil, com um relato que também pôs em xeque a versão dos policiais. Trata-se de um motoboy de 19 anos sem antecedentes criminais. Ele disse que, após manobrar o carro para fugir e ser surpreendido pelos policiais, o grupo tentou se render, mas não houve tempo para isso.

O sobrevivente alegou ainda que o grupo tinha apenas uma arma falsa, a que usaram para render as vítimas na farmácia. “Nós tava com arma de brinquedo. De fogo, não tava.” Nos vídeos da ocorrência obtidos pela Ponte, não é possível ver com clareza os assaltantes armados ou mesmo atirando.




Policiais disseram saber de roubo e deram depoimentos conflitantes

A Polícia Civil ainda ouviu ao menos 11 policiais militares envolvidos na ocorrência. Todos eles assumiram que já tinham previamente a informação de que uma farmácia no bairro Parque Campolim, em Sorocaba, poderia ser alvo de um assalto naquela madrugada. Dois deles ainda relataram saber especificamente qual seria a farmácia, também em função do histórico de assaltos a ela.

As autoridades de segurança também já tinham uma outra importante informação: o Volkswagen Virtus prata usado pelos assaltantes havia sido roubado no dia 3 de abril, em Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo. Naquela data, um motorista de aplicativo registrou um boletim de ocorrência para relatar ter sido vítima do crime. Os criminosos conseguiram, ainda assim, permanecer com o veículo por mais de uma semana, até irem assaltar a farmácia em Sorocaba, a 100 quilômetros de distância.

À Polícia Civil, os policiais militares envolvidos no caso de Sorocaba alegaram que houve um confronto com os assaltantes, com relatos que contrastam entre si e com os vídeos da ocorrência.

Um dos vídeos da ocorrência mostra que a situação foi contida à 1h50min50s. A essa altura, o soldado Matheus sequer estava no local da ocorrência. Somente vinte segundos depois, chegaram mais três viaturas, quando Matheus desembarcou de uma delas. Não havia mais disparos. O soldado caminhou pela calçada até se aproximar do corpo de um dos assaltantes, o motorista, do lado esquerdo do carro.

Momento em que três policiais militares contornam o veículo em direção à parte traseira | Foto: Reprodução

Nesse momento, outros três policiais deram a volta pela traseira do carro e se posicionaram do lado direito dele, na direção oposta a Matheus. Naquela ocasião, um dos assaltantes estava ainda dentro do carro, no banco do passageiro à frente. O vídeo não esclarece se ele já estava morto ou não, mas ao menos é possível ver que, desde o momento em que a situação foi contida, nenhum PM se mostrou ameaçado pelo criminoso que permanecia dentro do veículo, por cerca de 40 segundos.

Esses três policiais estavam entre os que depuseram à Polícia Civil. Eles alegaram que pretendiam supostamente desarmar esse assaltante que ainda permanecia dentro do carro. Disseram também que, quando um deles abriu a porta, o assaltante sentado no veículo reagiu atirando não na direção deles, mas no sentido oposto, para o lado esquerdo, onde estava Matheus.

Depois disso, o assaltante teria se virado em direção aos três policiais e passado a também atirar contra eles. Foi quando teriam reagido e matado esse assaltante. Os três foram questionados se Matheus pode ter sido atingido por um deles, por “fogo amigo”. O primeiro disse acreditar, embora não tivesse certeza, que foi o assaltante quem baleou o soldado. O segundo PM afirmou que “possivelmente foram deles”, os assaltantes, que partiu o tiro que matou o colega. Já o terceiro policial disse que foi “uma situação muito agitada” e que não saberia esclarecer de quem partiu o disparo fatal contra o colega de farda.


Pelo vídeo da ocorrência, não é possível ver essa dinâmica, já que ele mostra apenas o que ocorria do lado esquerdo do carro, e não do direito. Nos instantes anteriores a Matheus ser baleado, após os três PMs terem dado a volta no veículo, é possível ver que, do lado esquerdo, um outro policial se agacha e parece revistar o corpo do motorista, caído na calçada.

Também nesse momento, um segundo policial do lado esquerdo do carro corre para trás de uma viatura, como se visse uma ameaça iminente. Já um terceiro agente sinaliza com as mãos para que Matheus se afaste. Logo em seguida, o soldado é atingido com um tiro na cabeça, à 1h51min49s.

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