Copa do Mundo 2026: quando o jogo também vira vitrine para ultraprocessadosA Copa do Mundo é um dos eventos mais aguardados do planeta. Ela mobiliza torcidas, cria memórias afetivas, movimenta economias e ocupa conversas em todos os cantos. Mas, junto com a paixão pelo futebol, também entra em campo uma disputa menos visível: a das marcas que querem associar seus produtos às emoções despertadas pelo futebol. Nós acompanhamos com atenção como grandes eventos esportivos vêm sendo utilizados para promover produtos ultraprocessados por meio de campanhas publicitárias, patrocínios, influenciadores digitais e ações promocionais que associam consumo, diversão e pertencimento. Quando a emoção vira estratégia de marketingNão é novidade que marcas busquem se conectar às emoções das pessoas. A publicidade sabe que momentos de celebração coletiva geram lembranças duradouras e fortalecem vínculos com produtos e empresas. Durante a Copa do Mundo, essa estratégia ganha ainda mais força. O futebol passa a representar amizade, família, alegria, identidade cultural e orgulho nacional. Nesse cenário, produtos ultraprocessados aparecem frequentemente associados à experiência de torcer, criando uma relação simbólica entre consumo e diversão. O problema é que essa associação pode transmitir mensagens contraditórias. O desempenho esportivo de atletas profissionais está ligado a treinamento, descanso e alimentação adequada. Ainda assim, campanhas publicitárias continuam utilizando o universo esportivo para promover produtos que não fazem parte desse contexto. Futebol, figurinhas e consumoNesta edição da Copa do Mundo FIFA 2026™, uma campanha promocional da Coca-Cola em parceria com a Panini chamou atenção ao vincular figurinhas exclusivas do álbum oficial da competição à compra de refrigerantes. Diante dessa estratégia, acionamos o Procon de Minas Gerais e a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), do Ministério da Justiça, questionando a prática e alertando para seus impactos sobre crianças e adolescentes. A denúncia aponta que 14 figurinhas especiais da coleção só podem ser obtidas por meio da compra de garrafas participantes da promoção. Para nós, a estratégia configura venda casada, prática proibida pelo Código de Defesa do Consumidor, além de associar o consumo de produtos ultraprocessados a uma experiência de forte apelo emocional ligada ao futebol, ao colecionismo e à exclusividade. Completar um álbum de figurinhas faz parte da memória afetiva de muitas famílias brasileiras. Trocar figurinhas na escola, colecionar jogadores e acompanhar cada partida são experiências que atravessam gerações. Justamente por isso, campanhas que utilizam esse universo despertam sentimentos de pertencimento, diversão e identificação com o esporte. Segundo a análise técnica da denúncia, os produtos envolvidos na promoção são classificados como ultraprocessados de acordo com a classificação Nova de alimentos, adotada pelo Guia Alimentar para a População Brasileira. Também foi avaliada a comunicação digital da campanha e foram identificadas mensagens que reforçam a necessidade de adquirir os refrigerantes para acessar as figurinhas especiais. Mais do que uma ação promocional, o caso reacende um debate importante sobre os limites da publicidade associada a produtos ultraprocessados, especialmente quando ela alcança crianças e adolescentes. Ao conectar o desejo de completar uma coleção a produtos de consumo, campanhas como essa mostram como grandes eventos esportivos também podem se transformar em vitrines para estratégias de marketing que merecem atenção. O que o Guia Alimentar nos ensinaO Guia Alimentar para a População Brasileira nos lembra que nossas escolhas alimentares não acontecem isoladamente. Elas são influenciadas por fatores sociais, culturais, econômicos e também pela publicidade. Por isso, compreender como campanhas publicitárias utilizam símbolos culturais, ídolos esportivos e experiências afetivas é uma forma importante de fortalecer escolhas mais conscientes. Nós acreditamos que o debate sobre alimentação saudável e sustentável também passa pela discussão dos ambientes alimentares e das estratégias de marketing que influenciam o consumo. Afinal, tão importante quanto o que colocamos no prato é entender quem está disputando nossa atenção fora dele. Enquanto acompanhamos cada lance da Copa, vale a pena refletir: quais mensagens estão sendo transmitidas junto com o espetáculo esportivo? E como elas impactam nossas escolhas alimentares? Enquanto acompanhamos cada lance da Copa, vale a pena olhar também para o que acontece fora das quatro linhas. Porque, quando futebol, publicidade e consumo entram em campo juntos, entender as estratégias por trás das campanhas também faz parte do jogo. |