“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Domingo e depois

Sexta, 23 de outubro de 2026

Domingo e depois

Quem promove Flávio deseja um nada no comando do país. Uma peça vazia a ponto de oferecer moeda, títulos, empresas públicas, serviços sociais, biomas e territórios. Mas as torrentes de manifestantes abriram fissuras imprevistas no projeto. Bora, Lula! Bora, frente antifascista e antissistêmica para tudo o que virá!

Não é apenas por Flávio, é sobretudo pelo que não é. Quanto pode valer um nada na cadeira presidencial?  A candidatura-tampão do bolsonarismo nasceu com a marca de ter um preço. A soltura de Bolsonaro pai era apenas o valor de face do entreguismo.  Na verdade, o que se oferece em troca é um valor sem face na forma de transações futuras com moeda, títulos, empresas públicas, serviços sociais, biomas e territórios. Uma desconstituinte que desamarre o Estado de obrigações sociais e ambientais e a subordinação econômico-militar do país como área anexa do Império

Como o Brasil detém autonomia real e potencial para travar o projeto super-imperialista norte-americano, nada melhor para Trump que a fulguração de um holograma programável na Presidência da República do maior país da América Latina. A guerra híbrida promovida por agências do Império e por plataformas digitais busca fazer com que as eleições consagrem no segundo turno uma peça oca e insubstancial no centro das cadeias de comando do país.

 

Assim como houve o “dia do fogo”, em 10 de agosto 2019, para sinalizar o vale-tudo nas incorporações de Unidades de Conservação e Terras Indígenas do país, o “Flávio Day”, no dia 05 de outubro de 2026, sinalizou por parte dos mercados um vale-tudo mais amplo, apresentado eufemisticamente como um registro auspicioso de “melhora da percepção do risco fiscal em 2027”.  

Trata-se de um golpe que não cabe em si e que transborda para um processo de esvaziamento a vácuo da combalida democracia brasileira.  O candidato oferece botões de comando neurais postos nele ao dizer: “O maior ajuste fiscal que o Brasil pode fazer é tirar o Lula.” Basta clicar e tirar, retirar, socavar, queimar, enterrar. Reparem que nulidade em pessoa no poder, significa a possibilidade de anular tudo que impeça o poder totalitário dos designers e controladores desse vão infinito.

Depois de ser ungido pela banca como fiel depositário de divinas indulgências, o candidato posa de vidente e descreve o futuro precificado: “Quando eu for presidente, os juros vão cair. Os juros vão cair de uma forma muito rápida…”. Diminuir a intensidade da sabotagem dos mercados sobre as finanças públicas é essência da “mudança” prometida. 

O retorno programado desse esquema foi batizado como “bônus Flávio”. Nos mercados essa mixórdia é tecnificada como cobrança e faturamento do “prêmio de risco”. Primeiro artificializam os riscos inflacionários e fiscais, impondo um viés altista das taxas de juros por meio do mandato “independente” do Banco Central. Após o 1º Turno, foi acionado o efeito da reversão das expectativas antes infladas e os ativos financeiros brasileiros a serem privatizados e internacionalizados foram postos na mesa para o almejado botim.  

Os apostadores desse e nesse banquete são os mesmos que promovem a alavancagem de fluxos financeiros para condicionar o resultado eleitoral. Esse escuso “rali eleitoral” logo precisou de um esteio programático que conferisse tons institucionais à operação. 

Logo brota uma “Carta ao Brasil pela Liberdade e pela Prosperidade” pelas mãos de serviçais operadores dos grandes fundos de investimento dobrando a aposta em colheitas rentistas extraordinárias nos próximos anos. 

A missiva tratou de converter palavras de ordem da Faria Lima em princípios de interesse geral a partir da mitologia da prosperidade. O blefe parte da premissa de que todos humilhados pelas condições objetivas da assimetria de renda e pelas condições subjetivas de incapacidade de pareamento de consumo, ou de ostentação dele, não podem ser outra coisa senão aspirantes ao enriquecimento incondicional. 

Na verdade, seus lemas são ultimatos: 1) com o alvo na mira e com as armas engatilhadas, entoa-se: “Liberdade econômica exige segurança jurídica”. Consumada a execução, profere-se a razão: “A propriedade privada, os contratos e o direito de defesa devem ser respeitados”. 

A burguesia ancorada no Brasil mostra sua cara leviana e despatriada ao clamar pela oficialização do direito absoluto de propriedade, mandando às favas funções sociais, contrapartidas e condicionalidades acopladas. Estamos diante de uma pornográfica normalização e disseminação de um vorcarismo sem Vorcaro, inerente aos grandes grupos financeiros que devem sua grandeza mais à captura de agências públicas e máquinas partidárias do que a inovações tecnológicas e gerenciais.

As torrentes de manifestantes nas ruas e nas redes enfrentam não apenas Flávio mas uma burguesia financeirizada e desaforada incrustrada nos setores dinâmicos do país. Enfrentam Big Techs, BETs e máfias associadas, desafiam Trump e seus cães adestrados no continente e alhures. 

O que está em jogo é perspectiva de uma nação construída pela base ou uma pátria decaída em zona de livre acumulação. 

Mobilizações massivas no Brasil e no mundo abrem imprevistas fissuras no bloco transnacional de poder capitalista. Os momentos viram acontecimentos quando atravessam acordos e contradições intra-capitalistas. Bora Lula, bora frente antifascista e antissistêmica, no domingo e adiante.

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