O sindicato do crime reage na Câmara
“– Mas quem comeu tudo? Quem?
– Os ratos, doutor, os ratos!”
(“Seminário dos ratos”, Lygia Fagundes Telles)
“– Mas quem comeu tudo? Quem?
– Os ratos, doutor, os ratos!”
(“Seminário dos ratos”, Lygia Fagundes Telles)
Roberto Amaral*
O abuso da quarta-feira (aprovação da urgência do Projeto de Lei da Anistia), que se seguiu ao da terça (aprovação, em dois turnos, da “PEC da Blindagem”), é a primeira perna do abuso seguinte, complemento necessário quando a atual faina legislativa se esmera, entre uma afronta e outra ao projeto de Estado social, em blindar organizações criminosas da mais variada tipologia, infiltradas em instâncias do poder, ameaçando de falência a República.
Essas recentes agressões à dignidade nacional (outras estão por vir, e virão, se não retomarmos o árduo e inadiável trabalho de organização social) dão a justa medida do rés-do-chão político e ético a que pode cair um poder autorreferente, apartado do mundo real e carcomido por interesses que pouco dizem respeito ao interesse público, às necessidades e aos sonhos do país. Caso que é o retrato da Câmara dos Deputados nas últimas legislaturas — não dela toda, decerto, mas da maioria de seus membros: algo como 3/5 do colegiado.
O que se viu na Câmara dos Deputados no calar da noite da última terça-feira, 17/09, não é o fim nem o começo de um enredo a se desenvolver em longos capítulos, como os antigos folhetins dos jornais ou as telenovelas cômico-lacrimosas da atualidade. Nem é tedioso, para ser a um só tempo farsa e tragédia, como tudo que é desagradável na política — e, neste ponto, a contribuição contemporânea é especialmente rica.
O abuso da quarta-feira (aprovação da urgência do Projeto de Lei da Anistia), que se seguiu ao da terça (aprovação, em dois turnos, da “PEC da Blindagem”), é a primeira perna do abuso seguinte, complemento necessário quando a atual faina legislativa se esmera, entre uma afronta e outra ao projeto de Estado social, em blindar organizações criminosas da mais variada tipologia, infiltradas em instâncias do poder, ameaçando de falência a República.
Essas recentes agressões à dignidade nacional (outras estão por vir, e virão, se não retomarmos o árduo e inadiável trabalho de organização social) dão a justa medida do rés-do-chão político e ético a que pode cair um poder autorreferente, apartado do mundo real e carcomido por interesses que pouco dizem respeito ao interesse público, às necessidades e aos sonhos do país. Caso que é o retrato da Câmara dos Deputados nas últimas legislaturas — não dela toda, decerto, mas da maioria de seus membros: algo como 3/5 do colegiado.
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