Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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terça-feira, 21 de abril de 2020

O DF não pode relaxar o isolamento social por várias razões

Terça, 21 de abril de 2020
Por
Professora Fátima Sousa*



O DF não pode relaxar o isolamento social por várias razões: 

1- O DF precisa apresentar dados que sustentem a evidência de controle da epidemia;
1.1- dados de números de testes por Regiões Administrativas (RA) para verificarmos quantos são negativos e que a sensibilidade da vigilância está boa;
1.2- dados da vigilância de síndrome gripal por RA, ou seja, comportamento de casos de síndrome gripal atendidos nas Unidades de Saúde;
1.3- dados de Síndromes Respiratórias Agudas Graves(SRAG)- casos de síndrome gripal notificados por RA e proporção de casos testados para covid19.

2- Não existe certificação por parte do Ministério da Saúde que o DF está fora do pico epidêmico - (vide sítio transparência covid19)

3- Em nenhum país do mundo as Escolas voltaram a funcionar presencialmente - esse será o último serviço a retornar às atividades “normais”; 

Pelo exposto, o GDF deve seguir cumprindo suas responsabilidades, quanto à proteção da saúde e defesa da vida, a exemplo de:

a) organizar a Rede de Atenção à Saúde, informando quantos leitos e respiradores existem e onde estão;

b) capacitar os profissionais de saúde para casos graves nas UTIs;

c) prover (abastecer) os serviços de saúde - toda a REDE - com Equipamentos de Proteção Individual (EPI), principalmente as Unidades Básicas de Saúde; e 

d) instituir equipes de informação e comunicação de risco - de forma a orientar as populações mais vulneráveis, evitando medo, estresse e outras fragilidades, entre elas, as falsas notícias. 

*Professora Fátima Sousa
Paraibana, 57 anos de vida, 40 anos dedicados a saúde e a gestão pública; 
Professora e pesquisadora da Universidade de Brasília;
Enfermeira Sanitarista, Doutora em Ciências da Saúde, Mestre em Ciências Sociais; 
Doutora Honoris Causa;
Implantou o ‘Saúde da Família’ no Brasil, depois do sucesso na Paraíba e em São Paulo capital; 
Implantou os Agentes Comunitários de Saúde;
Dirigiu a Faculdade de Saúde da UnB: 5 cursos avaliados com nota máxima;
Lutou pela criação do SUS na constituinte de 1988;
Premiada pela Organização Panamericana de Saúde, pelo Ministério da Saúde e pelo Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde.


https://transparenciacovid19.ok.org.br/

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Matam as mulheres no DF e o DESgoverno, cala.

Sexta, 6 de setembro de 2019
Por

Quem não sabe que o feminicídio é o assassinato de mulheres pela condição de ser do gênero feminino? O termo se refere a um crime de ódio, misoginia e menosprezo pela condição feminina ou discriminação de gênero relacionado a uma triste história de dominação da mulher pelo homem. Crime este, muitas vezes estipulado pela impunidade e indiferença da sociedade, do Estado e dos DESgovernos.
No Distrito Federal, dia após dia, matam mulheres em locais públicos e privados. Mesmo com avanços na nossa legislação, como a própria alteração do Código Penal Brasileiro com a lei nº 13.104/15, mais conhecida como Lei do Feminicídio, que incluiu como qualificador do crime de homicídio o feminicídio, ainda somos obrigadas a lidar com a culpabilização por parte das autoridades que deveriam nos proteger.
Fala sério, governador. Lembre-se que a impunidade é um dos efeitos mais graves das mortes das nossas mulheres. Lembre-se que quando o Estado e seus governantes não se responsabilizam, assumem um acordo silencioso de aceitação e cumplicidade com as violências doméstica e pública. Lembre-se, sobretudo, que cabe às instituições do Estado, sejam elas dos Poderes Executivo, Legislativo ou Judiciário, proteger as mulheres e punir os agressores com respostas exemplares na ocorrência desses CRIMES BÁRBAROS.
Não podemos aceitar que os direitos das mulheres sejam arrancados com suas próprias vidas. Em pleno século XXI e na capital da República, não aceitaremos nenhum tipo de agressão, violência ou morte contra as mulheres, pois é inaceitável que continuemos a perdê-las para o descaso e a impunidade. Não é possível que a morte violenta das mulheres seja naturalizada. Precisamos tratar a violência e o feminicídio como barbárie, como situações incomuns, como expressões de práticas cruéis e, coibi-las com toda a força da lei.
Não podemos banalizar o que ocorre nas “praças públicas” do DF. Aqui, mulheres morrem barbaramente todos os dias. Na maioria dos casos, o episódio de violência fatal é precedido por violências anteriores que se perpetuaram até o assassinato e ninguém fez nada. Mais triste e agravante ainda, muitas dessas mortes poderiam ser evitadas se a violência contra nós não fosse banalizada e tolerada, principalmente pelo governo.
Lembre-se, a população elege seus governantes para elaborarem políticas públicas, ações estratégicas de inclusão e acolhimento em resposta às dores relacionadas aos processos de adoecimentos causados pela vida em sociedade e, inclusive, doenças causadas pela simples condição de ser mulher. Além de proteger e fazer cumprir a lei, um bom governo deve atuar com ações preventivas, voltadas à educação e à desconstrução da cultura de violência, principalmente quando inúmeras e vergonhosas vezes, esteja estampada em seu próprio discurso.
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terça-feira, 20 de agosto de 2019

Escola é lugar de pedagogo e não de policiais.

Terça, 20 de agosto de 2019
Por

Um projeto de escola militar não cabe no Distrito Federal, tão pouco em nenhuma escola de países civilizados e que desejam que seu povo conviva, pacificamente, numa coletividade de aprendizagem inclusiva. Exemplos de violência não nos faltam, é verdade, mas os educadores sempre foram moderadores por excelência das questões morais, éticas e físicas que porventura existam no ambiente escolar, restando aos policiais, seu papel de segurança pública, o que já não é pouco.
A ciência da educação demanda conhecimento, formação específica em diversas áreas do saber fazer, assim como se exige da formação militar. Ambas possuem especificidades que, quando corretamente utilizadas em seus devidos ambientes, nos asseguram um ensino promotor da cultura de paz e não violência em suas diferentes expressões, e nesse lugar não cabe autoritarismo nem abuso de poder.
Quando um governante abusa de sua autoridade e age com intolerância às oposições da Câmara Legislativa, frutos das urnas, onde a população depositou seu voto, elegendo assim seus representantes, eis a prova da ausência de temperança, inteligência emocional, zelo à liturgia dos cargos e ao decoro do exercício da função. Pedidos de desculpas às “esquerdalhas”, não caberiam no discurso de um governante coerente e aberto ao diálogo, em particular, no que diz respeito ao mandato do deputado Fábio Félix (PSOL), assistente social, socialista de esquerda, eleito por sua trajetória nos movimentos sociais em defesa dos direitos humanos e da população LGBTQI+. É preciso respeitar o mandato de Fábio Félix e dos demais deputados de esquerda da CLDF, assim reza a democracia em profundidade.
Não basta demitir Secretários. Faz-se necessário assegurar às pastas a eles delegadas, a autonomia do exercício do cargo, que passa, sobretudo, pelo poder dos seus atos e narrativas. Talvez os sentidos contrários às “ordens” recebidas sejam interpretados como um pedido de desligamento do cargo. Na lógica do poder, é preciso recordar para o que nos alerta o filósofo Byung-Chul Han: “quanto mais poderoso for o poder, mais silenciosamente ele atuará. Onde ele precise dar mostras de si, é porque já está enfraquecido”, típico de governantes autoritários, déspotas pouco esclarecidos. Nesse sentido, gritos, nunca são bem-vindos.
Em situações dessa natureza, seria no mínimo razoável que a sociedade do DF defendesse o patrimônio das escolas públicas que vem se instituindo em nossa jovem capital, apesar de governos que entram e saem. Nossas escolas precisam se manter como lugares onde se pratiquem o exercício pedagógico em sua autonomia, a altivez e o exercício pleno da democracia. Nessa tarefa todos devem se envolver, e, portanto, não podemos deixar que governantes hajam inapropriadamente, além da vontade daqueles que o elegeram, e da lei, à qual, por dever de ofício, deveriam ser fieis.
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Fátima Sousa
Paraibana, 57 anos de vida, 40 anos dedicados a saúde e a gestão pública; 
Professora e pesquisadora da Universidade de Brasília;
Enfermeira Sanitarista, Doutora em Ciências da Saúde, Mestre em Ciências Sociais; 
Doutora Honoris Causa;
Implantou o ‘Saúde da Família’ no Brasil, depois do sucesso na Paraíba e em São Paulo capital; 
Implantou os Agentes Comunitários de Saúde;
Dirigiu a Faculdade de Saúde da UnB: 5 cursos avaliados com nota máxima;
Lutou pela criação do SUS na constituinte de 1988;
Premiada pela Organização Panamericana de Saúde, pelo Ministério da Saúde e pelo Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

O governador do DF não sabe que usa o SUS.

Terça, 13 de agosto de 2019
Mais que estarrecedor e triste, é vergonhoso, que manchetes de jornais tragam estampadas as relações tênues entre o púbico e privado na gestão do SUS no DF. Assim, não precisamos procurar por razões adicionais para a verdadeira hecatombe que se abateu sobre a saúde pública, um câncer a fomentar a desesperança, no coração dos poderes da República.
Por

Ao ler o comentário do governador do DF ao dizer “Quando quero atendimento mais rápido levo à rede privada”, publicado pelo Correio Braziliense na edição de 12/08, em se tratando do seu dever de cuidar da saúde de todos os indivíduos, famílias e comunidades da cidade que se colocou a disposição para administrar e prometeu resolver em seis meses os graves problemas de saúde pública (Decreto nº 39.619, de 07/01/2019), é no mínimo estarrecedor.
Estarrecedor, diante de tamanha insensibilidade de um governante que naturaliza ver os hospitais públicos da capital da República mais parecendo cenários de um campo de batalha, com pessoas, idosas ou não, em estado grave, sem atendimento, em corredores e cadeiras, ou muitas vezes devolvidas para casa sem nenhuma atenção, isso quando são atendidas. Mais grave, toma essa situação de desumanidade como narrativa, discurso comum para fazer apologia ao setor privado, indicando ser esse o caminho para a solução dos problemas. Que tristeza!
Tristeza por ver um gestor do Estado, defendendo o mercado, sem conhecimento suficiente, falando meias verdades. De fato, ele e sua família possuem plano de saúde. Esqueceu de dizer que é pago com o dinheiro público. Que desconta em seu imposto de renda todos os anos. Deveria dar exemplo e lutar por recursos para a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS).
Afinal, dispõe de tempo para subir nos palanques, mas não vai ao congresso defender a criação de uma Contribuição sobre as Grandes Transações Financeiras (CGTF), com destinação de 50% para o setor Saúde; o estabelecimento de Contribuição sobre as grandes fortunas, extinção da EC-95/2016, extinção da Desvinculação de Receitas da União (DRU), essa questão diz respeito a seguridade como um todo; e ainda, pela eliminação dos limites de gastos com pessoal para a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) - saúde e educação.
Mas o que esperar de um político cujo partido deu um golpe em 2016 e congelou os gastos com a saúde e a educação por 20 anos (EC/96), acarretando e aprofundando a crise da saúde pública do Distrito Federal?
Estarrecedor e triste, porque é pouco letrado no tocante ao conhecimento das leis que regem o SUS, a constitucional e infraconstitucional, porque se assim não o fosse, saberia que USA o sistema, desde quando vacina seus filhos, se alimenta, ingere bebidas e medicamentos, cosméticos ou diversos produtos, obrigatoriamente, registrados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Além das ações de vigilância sanitária, ambiental, nutricional e saúde do trabalhador. Recorde, se não fossem essas vigilâncias, as indústrias, que tem o lucro como objetivo de mercado, fariam o que bem entendessem.
Saber que o SUS não é apenas o atendimento em hospitais é uma surpresa para grande parte da população, mas, é obrigação dos governantes conhecê-lo em sua integralidade, dar bons exemplos e falar para o povo com a ética da verdade.
Ética essa que passa, necessariamente, pela prestação de contas para a população, que também não sabe exatamente de que forma são realizadas as contratações dos serviços terceirizados da saúde pública. E, por falta de informação, acaba admitindo passivamente o discurso da eficácia, eficiência, efetividade e qualidade de serviços que se quer foram avaliados pelos verdadeiros donos dos recursos públicos.
Mais que estarrecedor e triste, é vergonhoso, que manchetes de jornais tragam estampadas as relações tênues entre o púbico e privado na gestão do SUS no DF. Assim, não precisamos procurar por razões adicionais para a verdadeira hecatombe que se abateu sobre a saúde pública, um câncer a fomentar a desesperança, no coração dos poderes da República.
Uma vergonha que poderia ser evitada, e que deveria gerar profunda indignação e imediata reação em todas as pessoas que se preocupam, assim como eu, com a vida e com a dignidade humanas.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Brasília e seu patrimônio desmoronam.

Segunda, 12 de agosto de 2019
Por

Na condição de Patrimônio Cultural da Humanidade e bem tombado como Patrimônio Histórico Nacional, a responsabilidade pela preservação de Brasília cabe a todos e, em especial, ao poder público, tanto na esfera Federal, quanto local. Tanto é assim, que a Constituição Federal, em seu artigo 216, parágrafo 1º; a Portaria n.º 314, de março de 1990, do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional – IPHAN; e o Decreto n.º 10.829/87 do Governo do Distrito Federal legislam e regulamentam a matéria.
No entanto, Brasília vem sendo constantemente vítima de ataques na sua concepção original, por especuladores e inescrupulosos que tentam apagar o sonho de Juscelino Kubitschek e o traço de Lúcio Costa, consagrado internacionalmente. Fatos dessa natureza não deveriam nos surpreender, mas ao contrário, ainda nos surpreendem e, cada vez mais, nos assustam com o que ainda pode vir por aí, afinal, o atual governo só está começando.
Os últimos exemplos disso estão estampados na imprensa local, com a proposta do Executivo de um Projeto de Lei Complementar – PLC “Lei do SIG”, com a previsão de aumento do gabarito do Setor de Indústrias Gráficas de Brasília. Fica clara a burla ao projeto original de Lúcio Costa, pois ali nunca foi prevista a construção de prédios com mais de 12 metros de altura, nem com percentual de ocupação além de 40% da área, conforme NGB 52/88 do GDF, que regulamenta a ocupação naquele local. O que se quer agora são edificações com ocupação de 100% da área, e altura de 15 metros, além do desvirtuamento da função assentada no Plano de Lúcio Costa que são indústrias gráficas ou pequenos comércios, inclusive agências bancárias para apoio local. Aliás, esta é uma concepção de todo o projeto original do Plano Piloto, onde existem os comércios locais (CLS e CLN).
Deve ficar claro que a área tombada como Patrimônio Cultural da Humanidade é aquela compreendida - a leste, pela margem oriental do Lago Paranoá; a oeste, pela margem ocidental da Estrada Parque Indústria e Abastecimento – EPIA; a sul, pela margem setentrional do ribeirão Riacho Fundo; e ao norte, pela margem meridional do Lago Paranoá e córrego Bananal. Portanto, qualquer alteração que afete a área tombada deverá ter autorização em Lei Federal, com prévia análise do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, de acordo com a Lei Federal n.º 3.751, de 13 de abril de 1960 (Lei Santiago Dantas), ainda em vigor, que dispõe sobre a organização administrativa do Distrito Federal, e estabelece no seu artigo 38: “qualquer alteração no Plano Piloto, a que obedece a urbanização de Brasília, depende de autorização em lei federal”. Isto demonstra a preocupação com a preservação das características urbanísticas e com o conjunto de edificações significativas de Brasília desde o início de sua construção. Assim, qualquer alteração no Setor de Indústrias Gráficas – SIG tem que atender à legislação.
Essa questão da preservação é tão cara ao criador do Plano de Brasília, que já em 1995 ele nos brinda com um texto deveras oportuno para este momento, em que empreendedores, na busca de lucro fácil, tentam agredir o Plano Urbanístico de Brasília. Cito em sua íntegra:
“Pelo que me foi possível perceber, os anseios de reformulação antecipada da proposição urbanística de Brasília, partem principalmente de dois setores que, visando embora a objetivos opostos, paradoxalmente se encontram. Refiro-me aos empreendedores imobiliários interessados em adensar a cidade com o recurso habitual do aumento de gabaritos; e aos arquitetos e urbanistas que, reputando ‘ultrapassados’ os princípios que informaram a concepção da nova capital e a sua intrínseca disciplina arquitetônica, gostariam também de romper o princípio dos gabaritos preestabelecidos, gostariam de jogar com alturas diferentes nas superquadras, aspirando fazer de Brasília uma cidade de feição mais caprichosa, concentrada e dinâmica, ao gosto das experiências agora em voga pelo mundo; - gostariam, em suma, que a cidade não fosse o que é, e sim outra coisa” (COSTA, 1995).
Países civilizados cuidam do seu patrimônio histórico e urbanístico, como se cuidando estivessem de uma pedra preciosa para toda a humanidade. Governos democráticos e futuristas, vislumbram o porvir fundados em estratégias de ações integradas de mobilidade, aproveitamento do solo e bem estar da população. Não se fundam em sinais invertidos, na contramão de um patrimônio, a exemplo do que temos em Brasília. Caso a “Lei do SIG” seja aprovada pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), assistiremos, mais uma vez, assim como na Saúde, a abertura de uma grande avenida à privatização dos bens públicos. Espero que as(os) deputados(as), verdadeiros(as) representantes do povo, saibam cuidar deste patrimônio do Distrito Federal.
No segundo texto da trilogia, convido você à leitura: Por que defender Brasília?
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quarta-feira, 10 de abril de 2019

100 dias que não voltam mais: uma coisa é ganhar, outra é governar.

Quarta, 10 de abril de 2019
Por
E lá se vão os 100 primeiros dias do novo governo do Distrito Federal. Uma conta que fecha o calendário da gestão pública sem nenhuma ação afirmativa à superação das desigualdades sociais e que coloca nossa capital da República na condição da unidade da federação mais desigual, segundo o IBGE (2010). Desigualdade vista a céu aberto em suas diferentes expressões, desde os altos índices de violência urbana, desemprego, ausências de efetivas políticas públicas de segurança, habitação, transporte, alimentação e nutrição (seguras e adequadas), educação, proteção ao meio ambiente, cultura, lazer, acesso e posse de terras públicas. Isso só para falar do conceito ampliado de saúde, assegurado na Constituição Federal de 1988.
Na saúde, foi decretado estado de emergência por seis meses, adiando os problemas e ou criando elementos facilitadores às compras e contratações sem licitações, a exemplo da ampliação de carga horária de efetivo e contratações temporárias. Assim, parecem fáceis, as medidas anunciadas para conter a crise, mais uma vez fadadas ao fracasso.
E o governador, diferente do que falou em campanha, toma o Instituto Hospital de Base (IHB), como “ilha de excelência a ser extensiva para toda a rede assistencial” (palavras dele), e encaminha para Câmara Legislativa do Distrito Federal, em caráter de urgência, o projeto de lei nº 001/2019, que expande o Instituto Hospital de Base (IHBDF) para seis Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e para o Hospital de Santa Maria (HRSM). Tudo isso veio depois dessa “lua de mel” entre os parlamentares de sua base, que foram à disputa por cargos públicos e discussões vãs, pois sequer conheciam a situação do IHB, e muito menos da saúde pública do DF.
O desperdício de potencialidade fecha os meses com a criação de um Comitê que, segundo eles, vai acelerar a retirada da saúde da situação de emergência decretada em janeiro. Enquanto isso, o caos no SUS-DF salta aos olhos, mexe com a alma e “onde eu chorei, qualquer um chora” ao ver a população clamando pelo acesso à saúde que lhe é de direito.  
Na educação, inverte os valores de uma pedagogia criativa, autônoma e emancipadora, por um modelo de “Escola Militarizada”, com o discurso à mudança de “gestão compartilhada”, confundindo a necessidade de segurança nas escolas com coordenação de militares no processo de ensino-aprendizagem. Juntará aos quatro colégios destacados inicialmente, mais 36 estabelecimentos até dezembro do ano em curso, segundo o secretário de Educação, Rafael Parente. O governador fala que até julho de 2019 serão 20 Escolas da Polícia Militar, e mais que esse número, vai dobrar até o final do ano. Confirma ainda que, ao final do seu mandato, 200 escolas militares estarão em curso. Muitas variáveis de confundimento, ruídos, desencontros e pouca educação. Saldo? Os problemas das escolas seguem sem solução.
Na habitação, ao invés de uma proposta que enfrentasse o déficit habitacional de 117 mil unidades para as famílias de baixa renda, manda derrubar as poucas casas existentes, atitude criticada pelo atual governador ao seu antecessor. Fica devedor da elaboração de uma política séria de habitação, segundo as reais necessidades das pessoas por região, integrando as políticas públicas de emprego, renda, trabalho, educação, lazer e cultura, e transporte, não apenas construção de casas sem qualidade de vida.
No transporte, os prenúncios são os mesmos. O povo é surpreendido diante do metro e ônibus, com a impossibilidade de ir e vir, pois seu vale-transporte, não vale. Ao invés de enfrentar os reais problemas de mobilidade no DF, o governador afirma que vai fechar o DFTrans, pois o órgão é 'uma central de corrupção'. Enquanto isso, haja frenesi. A população que deveria ter direito a um transporte seguro e de qualidade, fruto de uma política pública de mobilidade, segue exposta ao cômico desmonte dos órgãos públicos, causado pelos desgovernos, e mais grave, pagando a conta.
Na segurança, fez pirotecnia. Anuncia reajuste para a Polícia Civil. Esqueceu de avisar que os recursos são do Fundo Constitucional do DF, diga-se da União, e, portanto, necessitam ser aprovados pelo Congresso Nacional. Aos demais servidores, não há pagamentos de nenhuma natureza. Direitos adquiridos não tem pressa, podem esperar. Afinal, não tem orçamento; reajuste em nada. Palavras do governador: “não há possibilidade de quitar a 3ª parcela do reajuste para 32 categorias”.
Na cultura, reina inoperância. A Secretaria que deveria apresentar um plano duradouro e sustentável à geração de empregos e renda da cadeia produtiva cultural, sequer ouve os artistas, técnicos e produtores, que já foram mais uma vez às ruas em defesa da nossa Babel cultural, caldeirão de ritmos e celeiro de músicos como somos badalados pelo Brasil e no mundo afora. A Frente Unificada da Cultura seguirá clamando por um projeto estruturante nessas áreas vitais ao bem-viver na cidade.  
Na regularização das terras, nada. Mas sobre o uso da orla em 90 dias, este sim, vai resolver. Afirmou: "Estou fazendo uma análise, porque entendo que aquela sentença, até mesmo por correr em uma vara ambiental, é uma sentença de proteção ao lago e não de abertura para que as pessoas façam o que queiram ali. Da mesma maneira que eu acho que ela não deve ser dos moradores do Lago (Sul e Norte), acho que não deve ser de mais ninguém.” (CB, 13/1). Enquanto isso, espera ao menos que a regularização fundiária rural cumpra suas normativas (Lei Distrital Nº 5.803/2017 e o Decreto Distrital nº 38.125/2017). Melhor, pensem e elaborem um plano para legitimar o direito do produtor rural de ocupar a terra legalmente.
Na alimentação e nutrição (seguras e adequadas), nenhum anúncio. As mais de 40% das mulheres que manejam os processos da Agricultura Familiar, e milhares de outros agricultores aguardam pelo menos o cumprimento da  Lei Federal nº 11.947, de 16 de junho de 2009, que instituiu o PNAE, e que estabelece que 30% do montante repassado pelo Governo Federal deve ser destinado à agricultura familiar.
No meio ambiente, não fez nada. Nessa área, colocou o ex-ministro, que presumia entender das demandas da pasta. E agora José? O que vamos fazer com nossos ecossistemas? O cerrado é nosso. Não queremos ver o filme de mais uma crise hídrica. Proteção da biodiversidade. Tem que se evitar o descuido ambiental.
Na política, improvisou. Foi desde ameaçar processar os deputados distritais que não votassem suas proposituras, passando pela oferta de almoço em cortesia aos parlamentares, e nele anunciar a liberação de R$ 43 milhões em crédito para emendas aos representantes do povo, até confusões públicas por cargos no governo. Adeus ao respeito nas relações republicanas.  
Para não dizer que não falei do setor da economia produtiva. Outro barulho espalha que a turma do Mickey, de Walt Disney, viria morar na capital federal, como condição de gerar emprego e renda. Enquanto isso, cede o lugar para um debate consistente e vital acerca da importância do setor público, com um plano de investimento, tanto na recuperação e ampliação dos equipamentos, como das compras para aquecer a economia local. Além da oportunidade da geopolítica do DF para a integração e o desenvolvimento regional, acelerando as parcerias comerciais com outros estados da Federação. Sem falar na grandeza da nossa capital, na produção do conhecimento, oriundos das Instituições de Ensino e Pesquisa.
O que fará para a potencialização da geração de emprego e renda, a  Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF), o Banco de Brasília (BRB), a Fundação de Ensino e Pesquisa em Ciências da Saúde (Fepecs), e a Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS), uma das melhores escolas de medicina e enfermagem da região? Silêncio dos túmulos.
Qual a lição que fica desses 100 dias que não voltam mais? Uma coisa é ganhar a eleição, outra, é fazer uma gestão pública democrática e participativa. O resto, nós já sabíamos: chega ao Buriti um político despreparado, que reeditou as métricas da velha política, arrogante, autoritário e mais grave, não vem cumprindo as promessas de campanha. Um mandato natimorto. Assim, como falar de saúde, o máximo que podemos dizer é que o DF segue doente e longe de um Estado de bem estar social.
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*Fátima Sousa é professora e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB); Enfermeira Sanitarista; Doutora em Ciências da Saúde; Mestre em Ciências Sociais Doutora Honoris Causa; implantou o 'Saúde da Família' no Brasil, depois; implantou o programa de Agentes Comunitários na Saúde; dirigiu a Faculdade de Saúde da UnB (5 cursos avaliados com nota máxima); lutou pela criação do SUS na constituinte de 1988; foi premiada pela Organização Panamericana de Saúde, pelo Ministério da Saúde e pelo Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde.