Mesas antidemocráticas e destruição de direitos
O debate a respeito do tema foi embrulhado pela defesa da dita “proporcionalidade constitucional” para compor as mesas. Uma meia-verdade que embute uma mentira, a serviço da “normalização” da convivência com os golpistas.
A senadora Gleisi Hoffman (CNB), contrária à negociação por se recusar a esquecer a deposição de Dilma pelos golpistas, exemplificou que o regimento do Senado fala de “proporcionalidade na medida do possível”. Do mesmo modo que na Câmara, pois diz a Constituição que: “assegurada, tanto quanto possível, a representação proporcional dos partidos” (art. 58).
Quer dizer, não garante nada e remete a tortuosas negociações, onde a todo o momento podem se formar “blocos parlamentares” suplantando o PT, que tem a segunda bancada na Câmara e terceira no Senado, numa votação que é individual e secreta, por cima dos próprios partidos. Daí, a solução de votar em Maia e Eunício, para tentar assim garantir “proporcionalidade”.
Mais uma demonstração, na verdade, do caráter antidemocrático e corrupto destas instituições. Que confirma, como se necessário fosse, a atualidade da luta por uma Constituinte Soberana para estabelecer, de fato, a democracia, começando por uma reforma política nas instituições representativas (voto proporcional e em lista, abolição do Senado etc.).
Em termos práticos, a defesa da democracia, agora, é manter a independência sem conciliação com os golpistas para “ocupação de espaços” na mesa. Nem, muito menos, para “minorar a reforma da Previdência”, como justificou o líder na Câmara, Zaratini, na defesa da proposta.
Zaratini foi cobrado por Markus Sokol, que dividiu com Lindbergh a defesa do projeto da deputada Margarida Salomão, ali derrotado: “Não queremos ‘minorar’ a reforma, nós, junto com os sindicatos e o povo, queremos barrar a reforma da Previdência. Mas isso não se faz com cargos na mesa. Isso se pode fazer do lado de fora, nas ruas e em greve, e daí para dentro do parlamento. Aí não há mesa que resista”.
“Faltam nove letras: f-o-r-a-t-e-m-e-r”
Menos notada, foi a resolução de conjuntura do DN, aprovada por mandato a uma comissão composta por membros da CNB e Muda PT para fundirem os seus textos.
A Resolução não fala Fora Temer. Fala coisas certas, aliás, como também fala a resolução de Rui Falcão; denuncia as medidas do governo e até fala no seu fim, em algum lugar… mas ambas não fala o necessário:
- Voto em golpista, não!
- Fora Temer!
É grave. O mesmo Diretório Nacional que buscou acordo com os golpistas, aprovou uma resolução sem Fora Temer pela primeira vez desde o começo do golpe. “Faltam 9 letras, f-o-r-a-t-e-m-e-r, nos dois projetos”, ainda levantou Sokol no DN, mas não foi levado em conta na comissão. Novos tempos?
O risco é o PT repetir o PCdoB, especialista em “ocupar espaços” em qualquer governo de qualquer partido… Por que não na mesa?
No dia 30, seu Comitê Político reafirmou o acordo com Maia e Eunício que tem “abertura para se comprometer com diretrizes apresentadas (pelo PCdoB)”. Quem acredita que os líderes do golpe que rasgaram a Constituição e os regimentos das duas casas vão agora respeitar um “compromisso” ou “diretriz” democrática? Mas o PCdoB de origem stalinista é assim. O risco é o PT, com origem independente do stalinismo e da social-democracia, cair no buraco sem fundo dessa política burocrática que pode aleijar um partido de massas.
É o que está em jogo quando concluímos este artigo. O futuro do PT depende da reação da sua militância. É no que apostamos, junto com todos que lutam pela Reconstrução do PT.
João Alfredo Luna
Artigo originalmente publicado na edição nº 801 do jornal O Trabalho de 3 de fevereiro de 2017.