Domingo, 28 de agosto de 2016
Em perspectiva histórica, esta cruzada em favor da austeridade e contra o déficit público atua como espécie de reforma moral em meio a crise. Era preciso - sabe a classe dominante - manufaturar a opinião pública favorável as políticas de austeridade iniciadas por Dilma e agora em fase avançada de consolidação com Temer.
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Em perspectiva histórica, esta cruzada em favor da austeridade e contra o déficit público atua como espécie de reforma moral em meio a crise. Era preciso - sabe a classe dominante - manufaturar a opinião pública favorável as políticas de austeridade iniciadas por Dilma e agora em fase avançada de consolidação com Temer.
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Do Blog "O Real Não Se Vê"
Análise da conjuntura e crítica das ideias na América Latina
Por Nildo Ouriques — Professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais, Presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos (A Lei de Bronze Como Lei Moral
Não
poucas vezes a consciência ingenua dos homens é governada por leis de
bronze. Leis de bronze são consideradas não somente eternas mas também
inflexíveis. Guiados por semelhante crença, eles julgam suficiente a
adoção de uma lei qualquer para transformar o mundo ou criar garantias
contra as paixões inerentes a vida, sempre avessa a disciplina dos
poderes. A experiência ensina que as leis de bronze se assemelham aos postulados
morais, razão pela qual a consideração de que "um país não pode gastar
mais do que arrecada" equivale ao mandamento sagrado "não
matar", "não roubar" ou "não desejar a mulher do
próximo". A violação das regras morais tal como o desrespeito às leis de
bronze implicam em condenação sumária, castigos severos ou ainda o inferno.
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| O pecado original e a expulsão do paraíso - Michelangello |
O
fascínio que certas leis de bronze exercem na cabeça dos
homens e a eficácia que eventualmente podem adquirir na vida social,
tampouco resiste ao confronto com o real. Neste sentido, as leis de
bronze
quando exibem sua solidez, cumprem funções ideológicas, ou seja, cumprem
funções de legitimação de determinada política ou contribuem com o
processo de
dominação em seu conjunto. Mas jamais serão eternas.
A lei da responsabilidade fiscal é de bronze
A Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) é a principal lei de bronze em
uso na sociedade brasileira. Em consequência, a legitimação político-social
para o processo de destituição da presidente Dilma apareceu inicialmente sob a
forma jurídica de crime de responsabilidade cometido contra a lei fiscal,
obrigação de zelo absoluto de todo governante realmente preocupado com a sorte
republicana. A imprensa e os políticos da ordem insistem que as "pedaladas
fiscais" constituem crime de responsabilidade, a despeito dos pareceres
técnicos em favor da presidente Dilma no senado. A questão não é técnica,
obviamente; de resto, sabemos que política e verdade raramente coincidem. A
oposição tucana apelou à LRF consciente do golpe certeiro contra a legitimidade
da presidente mas também porque inauguraria nova cruzada moral em
favor da valiosa lei de bronze: nenhum governante pode produzir déficits, pois
estes seriam, especialmente em tempos de crise, muito nocivos para o Estado e
para o bem estar social da população.
Em perspectiva histórica, esta cruzada em favor da austeridade e
contra o déficit público atua como espécie de reforma moral em
meio a crise. Era preciso - sabe a classe dominante - manufaturar a
opinião
pública favorável as políticas de austeridade iniciadas por Dilma e
agora em
fase avançada de consolidação com Temer. Neste tempo turbulento, toda
economia
de recursos é necessária, razão pela qual os já minguados programas
sociais
antes motivo de orgulho dos petistas representam luxo porque, como
acredita o homem
comum, "a vida não esta fácil para ninguém". A maior parte das
pessoas julga que a crise afeta a todos negativamente e nem nos piores
pesadelos podem supor a crise como aquela oportunidade extraordinária
para os capitalistas acumular fortunas e/ou criar condições para
conquistar maior riqueza e poder.
Portanto, a destituição da presidente Dilma cumpre objetivos imediatos e
estratégicos. No curto prazo, justifica o supressão de muitos direitos dos
trabalhadores. No longo, impulsionado pela força da reforma moral, abre tempo
de experimentação burguesa contra a ampliação do horizonte político nacional,
exatamente quando aos olhos de milhões de pessoas o sistema político se revela
miserável, intragável. Enfim, a reforma moral em curso limita toda política no
país à enfadonha administração competente da crise no momento
em que milhões recusam com asco o fazer político burguês.
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| Ao povo, a austeridade permanente |
Na exaustão do sistema político emerge a figura e
evidencia-se a função de Temer. Nada mais afeito à crise que um político com o
perfil do golpista. Temer é perfeito porque "chegou lá" pelas mãos
generosas do pragmatismo petista, aquele mesmo pragmatismo considerado até bem
pouco tempo não grave limitação política ou submissão à correlação de forças
supostamente desfavorável para avançar em direção de reformas radicais em favor
do povo mas, ao contrário, um pragmatismo então considerado pedra angular da
astucia e da inteligencia lulista pretensamente capaz de agradar proletários e
burgueses em favor de alguns trocados para as classes subalternas. Ademais,
Temer é a quinta-essência burlesca do bacharel oitocentista, misto de
discurso e gesto antiquado, mas disponível à política de modernização de todas
as frações do capital e disposto a seguir com enorme convicção para o lixo da
história com direito a aposentadoria de presidente sem culpa no cartório. Ele
próprio talvez não saiba, mas ao menos suspeita que ao tocar no teto, tocou
também no fundo.


