Segunda, 22 de junho de 2026
A Alienação na Era do Algoritmo
Marx desvendou o ocultamento das relações de trabalho. Agora, fenômeno assume nova forma. Dispositivos digitais nublam o exercício de poder e captura da riqueza, sugerindo que tudo é fluido e sem atrito – não havendo, portanto, nada a disputar
OUTRASPALAVRAS Tecnologia em Disputa
Publicado 22/06/2026 às 18:19 - Atualizado 22/06/2026 às 18:31
Arte: Yukai Dui
Título original:
A materialidade do invisível: comportamento, poder e alienação no capitalismo algorítmico
O mundo que foi feito para parecer imaterial
Há uma mentira sofisticada na forma como o mundo contemporâneo se apresenta. Tudo parece leve, fluido, imediato. A experiência digital se oferece como transparência. Interfaces sem atrito, respostas instantâneas, caminhos encurtados. A sensação dominante é a de um mundo que se organiza sozinho, como se a materialidade tivesse sido superada.
Mas essa leveza é produzida.
O que se apresenta como imaterial resulta de uma operação histórica concreta. Plataformas, sistemas de recomendação e arquiteturas de interface foram desenhados para reduzir o atrito entre sujeito e mundo. O que desaparece não é apenas o esforço. Desaparece o intervalo em que surgem dúvida, comparação e conflito interno.
Essa operação depende de uma base material densa, retirada do campo da experiência imediata. Infraestrutura técnica, cadeias produtivas, energia, mineração, trabalho distribuído e comando corporativo sustentam aquilo que aparece como fluidez. Nada disso desapareceu. Apenas foi deslocado para fora da percepção.
Marx já havia mostrado que, na forma mercadoria, as relações sociais tendem a aparecer como relações entre coisas. O fetichismo não apaga a materialidade. Ele a reorganiza para ocultar suas determinações. No presente, esse processo se aprofunda. Não é apenas a mercadoria que oculta o trabalho. É a própria experiência que oculta suas condições de produção.
Esse é o deslocamento decisivo. No capitalismo industrial, a alienação podia ser localizada no espaço da produção. Hoje, ela atravessa a forma como o mundo é percebido. Não se trata apenas de esconder o trabalho, mas de organizar a experiência para que essa ocultação nem apareça como problema.
O resultado é um mundo sem resistência aparente. Quando tudo se apresenta como fluxo contínuo, desaparece também a percepção de que há algo a disputar. O mundo deixa de ser vivido como construção histórica e passa a ser experimentado como ambiente dado.
Dar materialidade a esse cenário não significa reduzir a experiência à técnica. Significa revelar que aquilo que parece espontâneo é produzido, que aquilo que parece leve é sustentado por estruturas pesadas e que aquilo que se apresenta como natural é resultado de relações de poder.
Marx no século XXI: resgatar o materialismo contra a névoa digital
Marx no século XXI: resgatar o materialismo contra a névoa digital
Se o mundo se apresenta como leve e imaterial, o gesto teórico necessário não é abandonar Marx, mas retomá-lo sem concessões. Não como referência, mas como método.
O capitalismo não se tornou imaterial. Tornou-se menos visível.
A digitalização da vida social não dissolveu o capital. Ela ampliou seu alcance e refinou suas formas de ocultação. O que mudou não foi a estrutura, mas a aparência. E é precisamente contra essa aparência que o método de Karl Marx mantém sua força.
Marx nunca tomou o mundo por aquilo que ele parece ser. Sua crítica parte de um princípio simples e radical: as formas sociais ocultam as relações que as produzem. A mercadoria não é apenas um objeto. É uma relação social condensada. O fetichismo consiste em fazer essa relação desaparecer na aparência.
O capitalismo algorítmico envolve extração de dados, previsão comportamental, plataformas, propriedade de infraestrutura, publicidade programática, modelos de recomendação e mercados de atenção. No capitalismo algorítmico, portanto, aquele mecanismo descrito por Marx se aprofunda. As relações deixam de aparecer apenas como coisas e passam a aparecer como experiências. A interface substitui o objeto. O fluxo substitui a estrutura. A personalização substitui a determinação. O sujeito não apenas consome. Ele vivencia.
E é justamente aí que a crítica encontra sua maior dificuldade.
Porque o que se interioriza não é apenas o produto, mas a forma social. A experiência aparece como própria, como escolha, como expressão individual. O que desaparece é o fato de que essa experiência foi previamente organizada.
Resgatar o materialismo, aqui, é recolocar o problema em seu terreno real. Por trás da experiência personalizada existem infraestruturas, modelos de negócio, regimes de propriedade e formas de comando. O digital não inaugura um espaço neutro. Ele reorganiza, em nova escala, as mesmas relações de poder.
Mas esse resgate exige deslocamento.
Se a crítica clássica se concentrava na produção industrial, hoje ela precisa acompanhar a expansão do capital para o campo da experiência. Atenção, comunicação, lazer e subjetividade passam a integrar o circuito de valorização. O capital já não se limita à fábrica. Ele estrutura o cotidiano.
É nesse ponto que a leitura de György Lukács ganha atualidade. A reificação não se limita mais ao mundo externo. Ela atravessa o próprio campo da percepção. O que se naturaliza não é apenas a relação social. É a forma de vivê-la.
Resgatar o materialismo, portanto, não é um gesto acadêmico. É uma tomada de posição.
Significa afirmar que, mesmo quando tudo parece fluido, há estrutura.
Mesmo quando tudo parece escolha, há determinação.
Mesmo quando tudo parece experiência, há produção.
Uma produção que não desapareceu. Apenas deixou de ser vista.
Da alienação de primeira ordem à alienação de segunda ordem
A teoria da alienação em Karl Marx continua sendo o ponto de partida, mas já não basta. Na formulação clássica, o trabalhador se torna estranho ao produto, ao processo e a si mesmo. Aquilo que produz se autonomiza e o confronta como força externa. A alienação é material, concreta, localizada.
Essa estrutura permanece. Mas deixou de ser suficiente.
No capitalismo algorítmico, a alienação não começa no produto. Começa antes. Não é apenas o que o sujeito faz que escapa ao seu controle. São as condições sob as quais ele percebe, deseja e decide que passam a ser organizadas por estruturas externas.
É esse deslocamento que define a alienação de segunda ordem.
Se a primeira separava o trabalhador do mundo que produzia, a segunda separa o sujeito das condições pelas quais esse mundo se torna perceptível. A experiência deixa de ser um terreno relativamente aberto e passa a ser estruturada por sistemas que operam antes da consciência. O sujeito continua a agir, mas dentro de um horizonte previamente configurado.
A alienação de segunda ordem pode ser definida como o processo pelo qual sujeitos são separados não apenas dos produtos de sua atividade, mas das condições sociotécnicas que organizam sua percepção, atenção, desejo e decisão.
Essa configuração é técnica e contínua.
Plataformas, algoritmos de recomendação e interfaces adaptativas não apenas exibem conteúdos. Definem relevâncias, antecipam interesses e estabilizam trajetórias. O que aparece e o que desaparece não é contingente. É produzido.
O efeito é direto. O intervalo entre estímulo e resposta é comprimido. A decisão não desaparece, mas é encurtada. A dúvida não é resolvida, é evitada. O mundo se apresenta como sequência de escolhas evidentes.
E é nesse ponto que a alienação se intensifica.
Porque aquilo que se vive como autonomia pode ser a forma mais eficaz de sua limitação. O sujeito escolhe, mas escolhe dentro de um campo estruturado. A liberdade não é suprimida. É enquadrada.
Esse processo retoma, em outra escala, a crítica de Herbert Marcuse à redução da negatividade. A diferença é que, agora, essa redução é operacionalizada. Sistemas ajustam continuamente o ambiente para reduzir o desvio e estabilizar respostas.
A alienação de segunda ordem não substitui a primeira. Ela a aprofunda.
O trabalhador segue separado do produto. Mas agora também se distancia das condições que lhe permitiriam reconhecer essa separação. A consciência deixa de ser apenas espaço de mediação crítica e passa a ser parcialmente integrada ao próprio mecanismo que a limita.
O resultado não é um sujeito vazio. É um sujeito que sente, pensa e decide dentro de um campo progressivamente estruturado por lógicas que não controla e, muitas vezes, nem percebe.
Nomear esse processo é torná-lo visível.
Porque sua força está justamente em não se apresentar como ruptura, mas como continuidade silenciosa da própria experiência cotidiana.
Fricção zero: a ideologia da fluidez como forma de poder
A fricção zero é vendida como progresso. Menos esforço, mais velocidade, decisões mais rápidas. Interfaces que eliminam obstáculos e fazem tudo fluir. A promessa é simples: facilitar a vida.
Mas essa promessa carrega uma operação de poder.
A fricção não é apenas um problema técnico. Ela é condição da experiência. É no atrito que o sujeito hesita, compara, pondera. É no intervalo entre estímulo e resposta que a decisão se forma. Ao eliminar esse intervalo, não se elimina apenas o esforço. Elimina-se a mediação.
No capitalismo algorítmico, a fricção zero deixa de ser escolha de design e se torna princípio organizador. Plataformas antecipam ações, sugerem caminhos e reduzem alternativas. Não apenas facilitam. Orientam.
Esse movimento encontra base no que B. F. Skinner descreveu como controle das contingências. O comportamento não emerge de uma vontade isolada, mas de um ambiente que organiza estímulos e reforços. No capitalismo digital, princípios de modulação comportamental não aparecem como laboratório explícito, mas como arquitetura de contingências incorporada à interface. O reforço continua sendo consequencial, mas passa a ser programado, monitorado e ajustado por sistemas que aprendem com padrões agregados de resposta. No cenário atual, esse ambiente é técnico, dinâmico e continuamente ajustado.
Algoritmos observam, testam e recalibram respostas em tempo real. Os sistemas não eliminam a lógica consequencial do reforço; eles passam a organizar, antecipar e ajustar contingências de reforçamento em tempo real.
A fricção zero é a condição ideal para isso.
Quanto menor o atrito, maior a previsibilidade. Quanto maior a previsibilidade, maior a capacidade de captura. O sujeito sente que segue seu próprio fluxo, mas esse fluxo já foi estruturado.
Essa lógica dialoga com a crítica de Evgeny Morozov ao solucionismo. A redução da complexidade a problemas técnicos elimina o conflito e, com ele, a decisão. Sem conflito, não há política.
O mundo da fricção zero é confortável. As escolhas parecem naturais, os caminhos evidentes. Não há coerção visível. E é justamente aí que o poder se torna mais eficaz. Quando o ambiente conduz, não é necessário impor.
A ideologia da fluidez não afirma que o mundo é sem atrito. Ela produz uma experiência em que o atrito desaparece da superfície, enquanto permanece ativo nas estruturas que a sustentam.
É nesse ambiente que a alienação de segunda ordem se consolida.
Porque, quando o mundo deixa de resistir, o sujeito perde também o ponto a partir do qual poderia questioná-lo.
Metaintermediação algorítmica: quando a mediação passa a organizar o real
A mediação já foi um intervalo. Um espaço entre o sujeito e o mundo, onde a informação era filtrada, enquadrada e transmitida. Havia poder, mas ele podia ser localizado. Era possível apontar o ponto de passagem.
Esse modelo não descreve mais o presente.
Hoje, a mediação deixou de operar apenas sobre conteúdos. Ela passou a organizar o próprio campo em que algo pode aparecer como conteúdo. Não se trata mais de selecionar o que é visto, mas de estruturar as condições do ver.
É isso que define a metaintermediação.
A mudança é de nível. Sistemas algorítmicos não apenas ordenam informações. Eles definem relevâncias, antecipam interesses e ajustam a experiência em tempo real. O que aparece como espontâneo já vem configurado. A experiência não é apenas mediada. É pré-organizada.
O poder, aqui, desloca-se da interpretação para a condição de possibilidade da percepção.
O sujeito não apenas recebe informação. Ele habita um ambiente previamente estruturado, onde certas experiências são reforçadas, outras enfraquecidas e muitas sequer se tornam visíveis. O que não aparece deixa de disputar sentido.
Esse processo aprofunda a reificação descrita por György Lukács. Se antes as relações sociais apareciam como coisas, agora a própria experiência é organizada como objeto. O que se naturaliza não é apenas o mundo externo, mas o próprio modo de percebê-lo.
A metaintermediação atua antes da interpretação. Ela não disputa apenas o sentido do que é visto. Ela define o que pode ser visto. O real não apenas aparece. Ele é, em parte, configurado.
Essa configuração responde a critérios concretos. Modelos baseados em atenção e engajamento exigem previsibilidade. Para isso, reduzem incerteza, eliminam ruído e reforçam padrões. A diversidade da experiência é comprimida em trajetórias mais estáveis e exploráveis.
Nesse sentido, a metaintermediação não apenas reflete o comportamento. Ela o produz.
Ao identificar regularidades e retroalimentá-las, os sistemas consolidam padrões que passam a parecer naturais. O sujeito se reconhece no que vê, sem perceber que esse reconhecimento foi parcialmente construído. A familiaridade não é espontânea. É resultado de ajuste.
As consequências são profundas.
O mundo deixa de ser um campo comum e passa a ser experimentado por meio de diferentes regimes de visibilidade. Não há apenas múltiplas interpretações. Há múltiplos mundos perceptivos. O que é central para uns simplesmente não existe para outros.
A metaintermediação opera, assim, como infraestrutura silenciosa de poder.
Ela não se impõe. Ela se inscreve na forma da experiência.
E é nesse nível que a alienação de segunda ordem se consolida.
Porque, quando as condições de percepção são organizadas externamente, a própria capacidade de reconhecer essa organização se torna limitada.
O sujeito continua a perceber.
Mas percebe dentro de um campo que já foi estruturado.
E é justamente essa estrutura que deixa de ser vista.
Entre contingências e códigos: o tecnobehaviorismo do capitalismo digital
O capitalismo contemporâneo não apenas utiliza o behaviorismo. Ele o operacionaliza. O capitalismo algorítmico incorpora, em escala técnica e econômica, princípios compatíveis com a modulação comportamental: observação contínua, ajuste de contingências, reforçamento intermitente e otimização de respostas.
O que em B. F. Skinner era teoria da modulação do comportamento, aqui se torna infraestrutura técnica orientada à exploração. O princípio é conhecido: o comportamento não nasce de uma vontade isolada, mas da relação entre organismo e ambiente. Estímulos e reforços moldam respostas ao longo do tempo.
No presente, esse ambiente é construído, monitorado e ajustado em escala.
Plataformas funcionam como sistemas de contingência contínua. Cada ação gera dados. Cada dado alimenta modelos. Cada modelo reorganiza o ambiente. O comportamento deixa de ser apenas observado. Ele passa a ser calibrado em tempo real.
O reforço é o eixo.
Curtidas, notificações, recompensas variáveis e recomendações não são detalhes de interface. São dispositivos de modulação. Incentivam repetição, reduzem variação e estabilizam trajetórias. O comportamento é capturado no momento em que ocorre e imediatamente reinserido como dado para orientar sua própria continuidade.
O ciclo não se encerra. Ele se aperfeiçoa.
A diferença em relação ao behaviorismo clássico é decisiva. Em Walden Two, havia uma engenharia comportamental explícita, associada a um projeto social. Aqui, a engenharia é invisível e distribuída, orientada pela lógica da acumulação.
O objetivo não é formar sujeitos. É tornar comportamento explorável.
Atenção, engajamento, permanência e resposta são quantificados, modelados e monetizados. O sujeito não apenas consome. Ele produz dados, alimenta sistemas e se torna alvo de intervenção contínua. Sua vida cotidiana é integrada ao circuito de valorização.
Isso altera a própria experiência.
A distinção entre ação e condicionamento se torna difusa. O sujeito sente que age livremente, mas atua em ambientes projetados para orientar essa ação. A liberdade não desaparece. Ela é moldada.
O tecnobehaviorismo nomeia esse ponto.
Não é apenas o uso de conceitos behavioristas, mas sua incorporação na arquitetura dos sistemas. O comportamento torna-se elemento estrutural da operação técnica. Não é objeto externo. É parte do próprio mecanismo.
É aqui que a alienação de segunda ordem ganha corpo.
Quando o ambiente que molda o comportamento é continuamente ajustado por sistemas que operam fora da consciência, o sujeito passa a agir dentro de um campo que não controla. Ele responde, aprende, se adapta. Mas as condições desse processo permanecem opacas.
O que está em jogo não é apenas o controle do comportamento.
É a captura das condições que o tornam possível.
E essa captura não se apresenta como imposição.
Ela se apresenta como experiência.
A consciência como campo de batalha: guerra híbrida, operações psicológicas e soberania cognitiva
Quando a modulação do comportamento se torna infraestrutura, ela deixa de ser apenas um problema técnico. Torna-se instrumento de poder. Aqui há a conversão de arquiteturas comerciais de engajamento em infraestruturas de influência. Por consequência, essas mesmas infraestruturas são exploradas por atores políticos, econômicos ou militares
O que aparece como otimização da experiência revela, em outra escala, uma disputa permanente pela organização da percepção coletiva. A consciência deixa de ser apenas um domínio individual e passa a operar como território estratégico.
É nesse ponto que a noção de guerra híbrida ganha sentido.
Os conflitos contemporâneos não se limitam ao campo militar. Integram dimensões informacionais, psicológicas, econômicas e tecnológicas. O objetivo não é apenas derrotar o adversário, mas desorganizar sua capacidade de interpretar a realidade e agir sobre ela.
A alienação de segunda ordem se insere exatamente nesse nível.
Se percepção, atenção e decisão são estruturadas por sistemas técnicos, disputar esses sistemas é disputar a própria experiência social. Não se trata apenas de influenciar opiniões. Trata-se de intervir nas condições em que a opinião se forma.
Essa lógica aproxima as plataformas das operações psicológicas.
Tradicionalmente, psyops atuavam de forma localizada, em contextos específicos. Hoje, essa capacidade é incorporada a infraestruturas permanentes, operando em larga escala e com alto grau de personalização. A intervenção deixa de ser episódica. Torna-se contínua.
A fronteira entre guerra e normalidade desaparece.
A modulação da percepção não ocorre apenas em momentos de crise. Ela atravessa o cotidiano. O sujeito não é apenas alvo de campanhas. Ele vive dentro de ambientes que já organizam visibilidade, relevância e circulação.
Esses ambientes não são neutros.
Favorecem estados afetivos que intensificam engajamento e reduzem reflexão. Indignação, medo, pertencimento, urgência. Emoções que estabilizam comportamento e ampliam circulação. O resultado é um campo propício à polarização e à instabilidade interpretativa.
Essa instabilidade não é um acidente.
Ela pode ser operada.
A capacidade de amplificar conflitos, direcionar fluxos e modular percepções cria condições para intervenção estratégica. A desinformação não atua isoladamente. Ela se insere em um ecossistema que já favorece sua propagação. O problema não é apenas o conteúdo falso. É o ambiente que o torna eficaz.
A consciência coletiva passa a ser atravessada por camadas de mediação contínuas.
O sujeito interpreta o mundo a partir de informações já filtradas, priorizadas e organizadas por sistemas que não se apresentam como tal. A autonomia interpretativa não desaparece, mas se torna condicionada.
É aqui que a soberania cognitiva emerge como problema central.
Se perceber e decidir dependem de infraestruturas técnicas, o controle dessas infraestruturas torna-se questão política fundamental. Quem organiza o ambiente organiza o horizonte do possível. Quem define o que aparece define, em parte, o que pode ser pensado.
A alienação de segunda ordem descreve esse cenário com precisão.
Não apenas um fenômeno social, mas uma condição estratégica na qual a própria capacidade de reconhecer a disputa é afetada pelas estruturas que a organizam.
O campo de batalha não está fora.
Ele atravessa a forma como o sujeito percebe o mundo.
Contra o relativismo: materialismo histórico-dialético e realidade objetiva
Diante da complexidade do presente, há uma fuga recorrente: dissolver tudo em linguagem, fluxo ou interpretação. O mundo passa a ser descrito como um campo aberto de significações, sem estrutura, sem determinação, apenas disputa simbólica.
A crítica materialista não nega a dimensão discursiva da realidade social. O problema surge quando o discurso é absolutizado e separado das infraestruturas, relações de propriedade, formas de trabalho e regimes técnicos que condicionam sua circulação.
Essa leitura produz efeitos precisos, geralmente deletérios.
Ela enfraquece a crítica.
Quando tudo é interpretação, nada é estrutura. Quando tudo é discurso, o poder perde forma. A análise se dispersa na superfície e deixa intacto o mecanismo que organiza essa superfície.
O problema não é apenas teórico. É político.
Sem referência à materialidade, a crítica perde direção. Sem estrutura, não há ponto de intervenção. O resultado é uma crítica que descreve o mundo, mas não o confronta.
É nesse ponto que o materialismo histórico-dialético se impõe.
Não como dogma, mas como método rigoroso de apreensão do real. As formas sociais não são apenas construções discursivas. Elas se enraízam em relações materiais, processos históricos e estruturas de poder que operam independentemente da percepção imediata.
No capitalismo algorítmico, isso é incontornável.
Plataformas não são apenas espaços de circulação simbólica. São infraestruturas técnicas, controladas por corporações, organizadas por modelos de negócio e integradas a cadeias globais de produção. Seus efeitos sobre percepção e comportamento não se explicam apenas por narrativas, mas por arquiteturas que estruturam a experiência.
A alienação de segunda ordem poderia ser capturada por leituras relativistas justamente por lidar com percepção e subjetividade. É aqui que o rigor se torna decisivo.
Não se trata de negar a experiência.
Trata-se de recusar sua abstração.
Percepção, atenção e decisão não existem fora de condições. Elas se formam em ambientes estruturados por tecnologia, instituições e interesses. O que parece interno ao sujeito está, em grande medida, ligado a determinações externas.
Reconhecer isso não elimina a singularidade da experiência. Mas impede que ela seja tratada como um campo autônomo, separado da realidade social.
O materialismo não simplifica o mundo. Ele o torna inteligível.
Ele permite articular níveis distintos da realidade sem dissolvê-los em fluxo indistinto. Permite identificar estrutura onde há aparência, determinação onde há escolha e produção onde há experiência.
No presente, essa posição ganha ainda mais importância.
A própria operação das plataformas depende de um ambiente onde a realidade se fragmenta, onde a distinção entre verdadeiro e falso se torna instável e onde tudo parece equivalente. Essa instabilidade não elimina o poder. Ela o torna mais difícil de identificar.
Insistir na materialidade do real, portanto, é um gesto crítico.
Não para negar a multiplicidade da experiência, mas para afirmar que, por trás dela, existem estruturas que organizam, condicionam e limitam o campo do possível.
Sem essa referência, a crítica perde o chão.
E o poder permanece onde sempre esteve.
A subjetividade não é negada: ela é situada historicamente
Afirmar a materialidade do real não implica negar a experiência.
A subjetividade existe. É vivida, sentida, atravessada por dor, prazer, contradição. Há dimensões do vivido que não se deixam capturar plenamente por conceitos. Isso não é um limite da análise. É condição da própria experiência.
Em nossa posição, não se trata de supor sujeitos totalmente determinados, mas de analisar a assimetria entre agência individual e arquiteturas sociotécnicas opacas.
Mas também não é ponto de partida autônomo.
O materialismo histórico-dialético não reduz a subjetividade. Ele a situa. Percepções, emoções e formas de interpretar o mundo não surgem no vazio. Formam-se em condições históricas, atravessadas por tecnologia, instituições e relações de poder.
O sujeito sente de modo singular.
Mas sente dentro de um mundo que organiza, em alguma medida, as condições desse sentir.
Essa distinção é central.
No capitalismo algorítmico, a experiência continua sendo vivida como própria. Mas o ambiente que a sustenta é progressivamente estruturado por sistemas que operam antes da consciência. Estímulos, ritmos e referências são modulados de forma contínua.
O que se sente permanece singular.
O campo em que esse sentimento emerge não é neutro.
Isso não transforma o sujeito em efeito passivo. Mas impede que ele seja pensado como plenamente autônomo. A experiência não é determinada de forma mecânica, mas tampouco é livre de condicionamento.
A ideia de que cada um conhece sua própria dor e seu próprio prazer continua válida.
Mas o que se é não se forma fora da história.
O sujeito se constitui em condições que delimitam o que pode ser vivido, percebido e desejado. A subjetividade não desaparece. Ela se torna terreno de disputa.
De um lado, a experiência vivida em sua singularidade.
De outro, estruturas que organizam essa experiência de forma previsível e explorável.
É nesse ponto que a alienação de segunda ordem se torna precisa.
Ela não afirma que o sujeito deixou de sentir ou pensar. Afirma que as condições sob as quais esse sentir e esse pensar se desenvolvem estão sendo parcialmente capturadas por lógicas externas.
A experiência continua interna.
O ambiente que a molda é cada vez mais organizado.
Situar a subjetividade historicamente é um gesto de rigor.
E também um gesto de limite.
Rigor, porque impede sua naturalização.
Limite, porque reconhece que ela nunca será totalmente apreendida.
É nesse equilíbrio que a análise permanece ancorada no real.
O comportamento como força produtiva e território de exploração
O eixo clássico do capitalismo foi a exploração do trabalho. Esse fundamento permanece, mas já não explica sozinho o presente.
No capitalismo algorítmico, o comportamento torna-se central.
Atenção, tempo de permanência, padrões de interação e trajetórias de navegação deixam de ser apenas efeitos da vida social. Passam a integrar diretamente o processo de valorização.
Não é só consumo.
É produção.
Cada ação gera dados. Esses dados são processados, transformados em modelos e reinseridos no ambiente para orientar novas ações. O comportamento torna-se matéria-prima de sistemas que moldam o próprio comportamento.
O circuito se fecha.
O sujeito participa do processo produtivo de forma contínua, mesmo fora do trabalho formal. O tempo livre é progressivamente integrado à lógica de extração.
O comportamento passa a funcionar como força produtiva.
Não no sentido clássico da produção material, mas como base da geração de valor em sistemas orientados por dados e previsão. O que se produz são padrões. Padrões que permitem antecipar ações, reduzir incerteza e orientar decisões.
A previsão torna-se valor.
Modelos preditivos são ativos estratégicos. Quanto maior a capacidade de prever comportamento, maior a capacidade de intervir sobre ele.
Mas essa exploração depende de uma assimetria.
Os sistemas acumulam informação e ampliam sua capacidade de intervenção. O sujeito participa, mas não controla. Produz, mas não se apropria. Sua atividade é capturada por um circuito que o ultrapassa.
Aqui, a leitura de Karl Marx retorna com força.
O produto da atividade humana se autonomiza e confronta o sujeito como força externa. A diferença é que, agora, esse produto assume a forma de sistemas que aprendem, se ajustam e intervêm.
O comportamento torna-se também território de disputa.
Se é fonte de valor, é alvo de modulação. Não basta observar o que o sujeito faz. É preciso orientar o que ele fará.
A intervenção não se apresenta como imposição. Ela se insere no fluxo da experiência, por meio de sugestões, recomendações e ajustes contínuos.
O resultado é a estabilização de trajetórias.
O sujeito continua a agir.
Mas dentro de um campo previamente modulado.
Produção e modulação tornam-se inseparáveis.
É nesse ponto que a alienação de segunda ordem encontra sua forma mais concreta.
Não apenas pela exploração da atividade.
Mas pela captura das condições que orientam essa atividade.
A materialidade do invisível: infraestrutura, energia, trabalho e comando
A aparência de imaterialidade depende de uma base pesada.
O que se vive como fluxo é sustentado por infraestrutura física, energia e trabalho organizado em escala global. Cabos submarinos, data centers, servidores, cadeias de suprimento, mineração, logística. Nada disso é abstrato. É material, localizado e estratégico.
Há também trabalho.
Engenheiros, operadores, moderadores, trabalhadores que rotulam dados. Uma parte significativa desse trabalho permanece invisível, fragmentada ou deslocada. A interface aparece limpa. A base é complexa e intensiva.
Essa base é organizada por relações de propriedade e comando.
Grandes plataformas concentram infraestrutura, dados e capacidade de processamento. Controlam os meios pelos quais a experiência é mediada. Definem acesso, visibilidade e circulação.
Centralização técnica é centralização de poder.
Nesse ponto, a leitura de Karl Marx se atualiza. Os meios digitais de mediação assumem função análoga aos meios de produção. Quem controla a infraestrutura controla as condições sob as quais comportamento e experiência se organizam.
A superfície parece dispersa.
A estrutura é concentrada.
O sujeito circula por múltiplas interfaces, mas poucos atores definem padrões, regras e critérios de visibilidade. A diversidade da experiência oculta a unidade do comando.
Há também uma dimensão temporal.
Os sistemas operam continuamente. Ajustam fluxos, processam dados, recalibram modelos. A experiência é episódica. A operação é permanente.
Essa dissociação é funcional.
Quanto mais leve e imediata a experiência, menos visíveis se tornam suas condições de produção. A materialidade não desaparece. Ela é deslocada para fora da percepção.
Reconhecê-la é condição de análise.
Não para reduzir o digital à técnica, mas para compreender que essa técnica é organizada por interesses e que ela estrutura a forma como o mundo aparece.
A alienação de segunda ordem encontra aqui seu suporte concreto.
O que se vive como experiência repousa sobre um sistema que tem forma, localização e direção.
E é justamente por isso que pode ser enfrentado.
Conclusão: recuperar a fricção, recuperar a política, recuperar o sujeito
Se o capitalismo algorítmico faz o mundo parecer leve, o primeiro gesto crítico é interromper essa aparência.
Não para negar a experiência.
Para recolocá-la em suas condições.
A alienação de segunda ordem nomeia esse deslocamento. A exploração não incide apenas sobre o trabalho. Ela alcança as condições da consciência. Não se captura apenas o que o sujeito faz. Captura-se o campo a partir do qual ele percebe e decide.
A subjetividade não desaparece.
Ela é organizada.
O problema não está na mediação em si, mas na forma como ela é estruturada. O que está em disputa são as condições da experiência.
Recuperar a fricção torna-se, então, um gesto político.
Fricção como intervalo. Como tempo. Como possibilidade de interromper o fluxo e introduzir mediação. É nesse espaço que a decisão se forma. Sem ele, a ação tende a se reduzir à resposta.
Recuperar a política exige reconhecer que o campo da disputa se ampliou.
Não se limita às instituições. Inclui as infraestruturas que organizam a percepção. A forma como a informação circula, como a visibilidade é distribuída e como os ambientes são construídos torna-se questão central.
É nesse ponto que a soberania cognitiva ganha densidade.
Se perceber e decidir dependem de sistemas técnicos, a autonomia depende das condições que estruturam esses sistemas. Disputar infraestrutura, regulação e modelos de organização deixa de ser questão técnica.
É questão de poder.
Recuperar o sujeito não é idealizá-lo.
É situá-lo.
Um sujeito atravessado por mediações, mas capaz de reconhecê-las e agir a partir desse reconhecimento. A autonomia não é um dado.
É uma construção.
A crítica, portanto, não se encerra na denúncia.
Ela aponta para reconfiguração.
Tornar visíveis as estruturas. Ampliar transparência. Democratizar controle. Reabrir espaços de deliberação.
O capitalismo da fricção zero reduz o intervalo entre estímulo e resposta.
A crítica precisa ampliá-lo.
É nesse intervalo que a consciência se forma.
É nesse intervalo que a política emerge.
É nesse intervalo que o sujeito pode agir.
E é justamente esse intervalo que precisa ser recuperado.
Em última instância, a presente análise abre agendas: a auditoria algorítmica, design com fricção deliberativa, infraestrutura digital pública, transparência de recomendadores, soberania de dados e alfabetização crítica.
Referencias:
FARR, Arnold. Unhappy consciousness, one-dimensionality, and the possibility of social transformation. Disponível em: https://revistas.usp.br/ts/en/article/view/146519. Acesso em: 3 maio 2026.
GARLICK, Steve. Revisiting Marcuse on technology and critical theory. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0896920511421032. Acesso em: 3 maio 2026.
LUKÁCS, György. History and class consciousness: studies in Marxist dialectics. Cambridge, MA: MIT Press, 1971.
MARCUSE, Herbert. Eros and civilization: a philosophical inquiry into Freud. Boston: Beacon Press, 1955.
MARCUSE, Herbert. One-dimensional man: studies in the ideology of advanced industrial society. Boston: Beacon Press, 1964.
MARCUSE, Herbert. Technology, war and fascism. London: Routledge, 1998.
MARX, Karl. Capital: a critique of political economy. Vol. 1. London: Penguin Classics, 1990.
MARX, Karl. Economic and philosophic manuscripts of 1844. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/marx/works/1844/manuscripts/preface.htm. Acesso em: 3 maio 2026.
MOROZOV, Evgeny. To save everything, click here: the folly of technological solutionism. New York: PublicAffairs, 2013.
SKINNER, B. F. Beyond freedom and dignity. New York: Knopf, 1971.
SKINNER, B. F. Science and human behavior. New York: Macmillan, 1953.
SKINNER, B. F. Walden two. New York: Macmillan, 1948.
Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, seja nosso apoiador e fortaleça o jornalismo crítico: apoia.se/outraspalavras
Tags
alienação, capa, capitalismo algorítmico, digitalização da vida, dissociação, experiência digital, fetichismo, fluxo, fricção, fricção zero, interfaces sem atrito, marx, materialidade, materialismo, mercadoria, metaintermediação, mundo contemporâneo, mundo imaterial, névoa digital, plataformas, produto, relações ocultada, tecnobehaviorismo, trabalhador, trabalho escondido
Wagner é doutor em Psicologia. Pesquisador Bolsista Produtividade do CNPq. Pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia - Disputas e Soberania Informacional (INCT - DSI). Coordenador do grupo de pesquisa Avaliação em Bem-estar e Saúde Mental (ABES) e professor nos níveis de graduação e pós-graduação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Leia Também:
O caso Anthropic e quem realmente governa a IA
