REENCONTRAR A ESPERANÇA, RECONSTRUIR O BRASIL – Revisitando Brasil: País do Futuro, de Stefan Zweig
Felipe Maruf Quintas[1]
Cada vez menos, nas últimas décadas, refere-se ao Brasil como “país do futuro”. A indiferença, senão hostilidade, à questão nacional, com a renúncia aos projetos de Nação subjacentes, privou nosso País do horizonte histórico no qual é possível encaminhar a ação coletiva rumo ao futuro.
A dilapidação das bases materiais e culturais do Brasil e o apagamento da memória coletiva, em nome do livre-mercado e da globalização cosmopolita, privam os brasileiros das condições básicas para a sua atuação soberana na História, condenando-os à falta de esperança e, portanto, à supressão do futuro.
Urge, assim, retomar a leitura de Brasil: País do Futuro (1941)[2], do escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942). Um dos romancistas mais celebrados do mundo ainda em vida, desde a década de 1920, Zweig fugiu do nazismo em 1934. Trasladou-se primeiro para a Inglaterra, depois para os EUA e, finalmente, para o Brasil, após três viagens para cá entre 1940 e 1941. Suicidou-se em Petrópolis, desesperado ao tomar conhecimento de uma então recente vitória do III Reich que, em sua mente, selava a vitória do nazismo. Como seria bom ele ter esperado mais um ano!
O autor, de profunda formação humanista, não buscou conhecer o Brasil apenas superficialmente, como seria de esperar de um turista. Sem dúvida, abundam observações episódicas e de minudências várias, principalmente nos capítulos destinados a Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Recife. A riqueza descritiva perfilada pelo autor constitui vasto material para historiadores, antropólogos, folcloristas, arquitetos e curiosos sobre a vida social no Brasil no final da década de 1930 e início da de 1940.
Zweig também debruçou-se sobre a história, a economia e a civilização do País, dedicando longas seções para cada um desses itens, de maneira a compreendê-lo com percuciência e, assim, ampliar seu raio de visão. O ensaio em questão contém as reflexões de Zweig acerca da Nação brasileira e suas imensas potencialidades. A obra, assim, não se resume a um diário de viagens, mas delineia-se como um tratado sobre o Brasil e um manifesto de declamação da grandeza brasileira e de chamado à ação política dos brasileiros para que nosso País realize as promessas que lhe são intrínsecas.
Desse modo, o deslumbramento do austríaco em relação ao Brasil não foi um mero impressionismo de um viajante forâneo quanto a uma realidade considerada exótica e pitoresca, mas, sim, o entendimento do Brasil como uma civilização alternativa e superior à ocidental, em particular a europeia, flagelada pelo nazifascismo, pelo racismo e pela guerra. Os países europeus pertenciam a um passado que se destruía sob o peso dos seus limites e contradições, enquanto o Brasil seria o país do futuro, destinado, pelas suas gente, imensidão e riquezas, a irradiar o porvir da humanidade.
