Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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quinta-feira, 1 de junho de 2023

TRANSIÇÃO ENERGÉTICA PARA ONDE? PARA QUÊ?

Quinta, 1º de junho de 2023

Pedro Augusto Pinho*

TRANSIÇÃO ENERGÉTICA PARA ONDE? PARA QUÊ?

 

A man so various, that he seemed to be

Not one, but all mankind's epitome;

Stiff in opinions, always in the wrong,

Was everything by starts and nothing long”.

John Dryden (1631-1700) – “Absalom and Achitophel” (1681).

Um homem tão diverso, que não parecia ser um,

Mas o apanhado de toda a humanidade;

Firme em opiniões sempre erradas,

No começo, impulsivo, no fim, inconstante”.

(na poética tradução da Maria Judith Martins).

 

De uma característica, o neoliberalismo certamente não fugirá, das farsas e falácias, das imprecisões e incorreções que acompanham seus argumentos, astúcias e feitos.

Marco Túlio Cícero, o grande orador romano, político e filósofo, qualificou a História como Mestra da Vida (“magistra vitae”). Porém não o fez para que ela entrasse no Templo dos Deuses, mas para fornecer exemplos, auxiliar, com o já ocorrido, as decisões para o futuro.

As energias caracterizaram as sociedades de seus tempos. A primeira, contida no próprio corpo humano, a do sacrifício físico, da demora a concluir o objetivo, da fragilidade.

Então, usando seu discernimento, sua capacidade de racional, o homem domesticou outros animais, descobriu como produzir o fogo, a se utilizar do fluxo das águas, do vento, e conseguiu muito mais. Foi longe, atravessou mares, disputou terras e alimentos com outros seres vivos.

Tornou-se mais forte, teve menor cansaço e mais gratificações.

Observou, talvez receasse, não fosse variado e inconstante como da satírica poesia de Dryden, que “great wits are to madness near allied” (“grandes inteligências são quase aliadas da loucura”, em “Absalom and Achitophel”).

Porque levou milênios estacionado nestas energias. Mudou a Era, mudaram as sociedades e os poderes, e a energia restava a mesma.

Se estimarmos que a agricultura, talvez a primeira organização do homem na terra, é datada pela maioria dos arqueólogos entre 12.500 a 15.000 anos, e o uso das energias de origem fóssil tem início na Revolução Industrial (1760), veremos quanto tempo o homem levou para dar este salto imenso no sentido de seu conforto e proteção.

Não temos dúvida, a energia condiciona a vida. Mas parece a todos que está aí como o ar; sempre à disposição, sem que fizéssemos qualquer esforço para o usufruir.

Todos achamos normal que tenhamos água gelada e café quente, que iluminemos a casa à noite e usemos aquecedor ou refrigerador do ar. E tudo, rigorosamente tudo, tem a energia que lhe garante o funcionamento otimizado: mais constante, mais garantido e menos oneroso.

Ao descobrir o uso com insumo energético do carvão vegetal, o homem deixou de lado a queima de florestas, ao descobrir o petróleo, substituiu o carvão mineral e o mesmo tenderá a acontecer com a energia nuclear e outras que sejam ainda mais poderosas e econômicas, este é o sentido da História, nossa mestra.

Há, no entanto, um empecilho para este paraíso: o poder. O poder manteve por séculos o homem na ignorância, acreditando em deuses que o poder criava. E nas disputas do poder, guerreavam os adeptos de diferentes deuses.

O poder do capital industrial, que necessita ter, nos homens, consumidores, buscou não apenas os recursos para a grande produção, como alguma distribuição de riquezas ou o Estado protetor, para poder vender seus produtos.

E se levamos milênios para chegar ao carvão mineral, nem bem um século nos separou o carvão mineral do petróleo, e menos tempo, ainda, a energia nuclear do petróleo.

A demografia, a economia e a energia correm juntas. Muita gente, muitos produtos, energias mais eficazes.


A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA

Não fosse originada de poder farsante, o das finanças apátridas, fruto de especulações, crimes e comportamentos reprováveis, unicamente preocupadas em aumentar e concentrar riquezas, sem o esforço produtivo, poderíamos examinar as pretensas qualidades da transição energética como um interesse na humanidade.

E sabemos que, como o poder que a impõe, todos os dados são falsos, toda informação desonesta, em tudo que atua se descobrem erros, não pela imperícia ou ingenuidade ou loucura, mas para enganar, iludir, simular interesses que nunca lhe orientaram.

A transição energética é voltar às fontes de energia anteriores à revolução industrial.

Não mais progresso, o tempo é do retrocesso.

O que nos trouxe o neoliberalismo? A segurança ou a intranquilidade da vida futura? A aposentadoria, a pensão da viúva, ou a insegurança de micro empresário individual (MEI)? O que estamos vendo na outrora evoluída e culta Europa: greves, lixo nas ruas, coletes amarelos, depredações de patrimônios públicos e privados. Num país rebelde e revolucionário ou por toda parte?

Teremos então, não mais a certeza da energia do petróleo, porém a inquietação da energia solar, porque o mês choveu, a safra se perdeu, e o vento foi pouco. Voltaremos a usar pernas e braços para solução dos nossos problemas. É isso avanço ou retrocesso civilizatório?

Em nome de quem? Dos deuses inventados ou dos capitais apátridas?

Energia é assunto muitíssimo sério. Dela depende a produção e a segurança, individual e do Estado Nacional. É com mais ou menos energia que as nações se tornam ricas e poderosas, ou fracas e dependentes.


UM POUCO DO PODER

Tratamos até agora do denominado mundo ocidental e seu poder unipolar. Precisamos conhecê-lo melhor e as outras forças que governam nosso Planeta.

Acreditamos que estas forças, no século XXI, sejam três: (a) unipolar neoliberal financeira, que domina a Europa e suas antigas e mesmo atuais colônias no Continente Americano e na Oceania, chamaremos algumas vezes por “ocidente”; (b) islâmica, que se espalha pelo norte da África, Oriente Médio e avança pela Ásia Ocidental, é a força unida pela religião e suas vertentes, a Europa conheceu algo semelhante na Idade Média, e (c) multipolar.