Quinta, 13 de agosto de 2026
Segurança: Punitivismo já não une os brasileiros
Pesquisa nacional revela: população rechaça o crime, sente-se ameaçada e muda de hábitos. Mas descarta ideias como “bandido bom é bandido morto”, repele o armamento pessoal e defende, por ampla margem, câmeras corporais na polícia
OutrasPalavras Crise Brasileira
Matéria originariamente publicada no OUTRASPALAVRAS de 12/08/2026 às 18:28
O debate sobre a segurança pública no Brasil contemporâneo é frequentemente mediado por um simulacro: a premissa de que o corpo social, sitiado pela violência urbana, clama de forma homogênea pela suspensão das garantias constitucionais e pela institucionalização da letalidade estatal. Esse consenso manufaturado colide frontalmente com a realidade empírica. Sob a ótica da sociologia urbana e da crítica da economia política da violência, investiga-se aqui a clivagem entre o discurso punitivista hegemônico — alavancado nas plataformas digitais e pela extrema-direita — e a racionalidade prática das classes trabalhadoras no espaço urbano. A análise dos dados empíricos da pesquisa nacional inédita do Instituto Sou da Paz em parceria com a Oma Pesquisa (maio de 2026) revela um cenário de alta complexidade sociológica: o medo opera como vetor de expropriação do tempo e confisco do rendimento real, sem, contudo, suprimir a surpreendente racionalidade jurídica que persiste na base da sociedade.
A Escala Espacial do Medo e o Confinamento do Cotidiano
O primeiro aspecto que emerge dos dados diz respeito à dimensão espacial da insegurança. A percepção do risco não é uniforme; ela se reconfigura conforme o sujeito se desloca na malha urbana. A pesquisa capta esse fenômeno por dois indicadores complementares — a sensação de segurança e a percepção de violência —, que se movem em direções opostas conforme a escala, como sistematiza o Infográfico 1. Quanto mais amplo o território considerado, menor a segurança sentida e maior a violência percebida; quanto mais o olhar se aproxima do espaço vivido, o movimento se inverte. São duas faces do mesmo diagnóstico: a cidade enquanto totalidade passou a ser percebida como território hostil, ao passo que o microespaço imediato ainda preserva certo grau de familiaridade e controle.

Essa assimetria espacial explicita que a cidade, enquanto totalidade, passou a ser percebida como um território hostil. Para as classes trabalhadoras, cujas jornadas diárias demandam longos deslocamentos pendulares entre as periferias e os centros das grandes metrópoles, esse diagnóstico assume contornos de uma verdadeira crise estrutural.
A gradação da violência percebida não deve ser lida como um atenuante. Que a rua ainda preserve relativa familiaridade indica apenas que a proximidade com o entorno e com as pessoas reduz parcialmente a percepção de ameaça, sem eliminá-la: mesmo no espaço mais imediato, quase metade da população reconhece a presença da violência. O que a escala revela é que o medo opera de forma difusa e incorporada ao ambiente, e que a cidade como totalidade tornou-se irreversivelmente associada à hostilidade e ao risco. A violência, nesse quadro, é elemento estrutural do cotidiano urbano, moldando percepções e comportamentos ainda quando não se manifesta de forma direta.
O medo atua, fundamentalmente, como um mecanismo de controle social e confinamento do cotidiano — o que Henri Lefebvre já identificava como a expropriação do direito à cidade¹ —, limitando a circulação nos espaços públicos e cerceando as possibilidades de vida coletiva.
A Mobilidade Urbana e a Expropriação do Tempo
O dado mais alarmante da pesquisa sob a ótica do espaço urbano é que 57% da população alterou seus hábitos ou rotinas por medo da violência. Quando decompomos essa variável comportamental, a análise sociológica precisa abandonar a chave puramente psicológica para ingressar na economia política do espaço. O Infográfico 2 detalha como essa alteração se manifesta concretamente: 53% evitam sair à noite; 31% evitam usar o celular na rua; 29% mudaram trajetos para evitar áreas percebidas como perigosas; 13% pararam de frequentar lugares específicos; 9% deixaram de participar de eventos sociais e culturais; e outros 9% passaram a evitar o transporte público.

Esse mapeamento comportamental é decisivo para a análise da expropriação do tempo. O desenho urbano segregado já força as populações de menor renda a longas jornadas de deslocamento. Sob o signo do medo, esse tempo é expandido de forma compulsória. O trabalhador que muda de trajeto para evitar uma área perigosa, que aguarda um horário seguro para sair, que recusa o transporte público e busca alternativas mais caras — está ofertando ao circuito de reprodução urbana um tempo de vida não pago. Essa dilatação do tempo de trânsito, tensionada pela vigilância constante e pela ansiedade, consome as poucas horas que restariam para o descanso, a qualificação ou o convívio social, operando como um mecanismo invisível de espoliação do cotidiano — o que David Harvey nomeia como acumulação por despossessão aplicada ao tempo².
A Violência Cotidiana e o Salário Real Confiscado
Os microdados revelam que os principais catalisadores do medo coletivo estão ancorados na criminalidade comum e patrimonial, que atinge diretamente a circulação urbana. O Infográfico 3 sistematiza essas categorias de risco e seus respectivos índices de menção na pesquisa.

Mas o medo da violência não é apenas antecipação: é, em larga medida, memória recente. Como sistematiza o Infográfico 4, a pesquisa revela que 51% dos entrevistados sofreram algum tipo de violência no último ano — sobretudo no espaço público. Entre as situações mais relatadas estão ver alguém sendo assaltado, presenciar a venda de drogas em via pública, ser vítima de crime na internet, sofrer roubo ou furto e ter o celular levado.

Mais grave ainda é a dimensão do domínio territorial. O Infográfico 5 mostra que 37% da população afirmam que o crime organizado exerce algum grau de controle sobre sua rua, bairro ou região — sendo que 15% dizem que esse controle é total. Apenas 44% negam essa presença. Esses números expõem o que as estatísticas de ocorrência policial frequentemente obscurecem: a violência como experiência vivida e territorializada, não apenas percebida à distância.

O receio do roubo de celular (indicado por 89% dos entrevistados) e o temor do deslocamento a pé forçam a adoção de estratégias privadas de mitigação de risco. É nesse ponto que se delineia o fenômeno do salário real confiscado. Embora o valor nominal da hora vendida no mercado permaneça inalterado pela dinâmica urbana, a sobra final — o rendimento real que efetivamente resta após os custos compulsórios de reprodução da força de trabalho — é severamente corroída.
A necessidade de garantir a integridade física e o trânsito impõe ao trabalhador a internalização de custos privados de segurança: a substituição do trecho a pé pelo transporte por aplicativo em horários críticos, a contratação de seguros para smartphones e cartões, o pagamento de tarifas mais elevadas em rotas alternativas e a taxa compulsória repassada à segurança informal nos territórios (como os serviços de vigilância). Esses gastos não alteram o valor bruto da força de trabalho, mas operam como uma taxa extra de expropriação que drena a capacidade de consumo e a autonomia financeira das famílias trabalhadoras de menor rendimento.
A Resistência da Racionalidade Legal na Base Socioeconômica
A maior contribuição metodológica da pesquisa Sou da Paz/Oma reside na demolição das premissas do populismo penal através do rigor de sua amostragem probabilística domiciliar (1.115 entrevistas presenciais em 40 municípios). Setores demagógicos e algoritmos de engajamento digital há muito sustentam que o rebaixamento civilizatório — sintetizado no aforismo “bandido bom é bandido morto” — tornou-se o desejo majoritário da população. O estudo empírico desidrata essa tese: apenas 20% dos entrevistados chancelam essa perspectiva baseada na eliminação física.
O Infográfico 6 confronta, de forma direta, o discurso punitivista de minoria com a racionalidade institucional que emerge da maioria silenciosa identificada pela pesquisa.

A pesquisa vai além e testa a solidez do consenso punitivista, como ilustra o Infográfico 7. Entre os 39% que declaram apoio ao endurecimento das penas, a maioria permanece inflexível: 58% afirmam que nenhum argumento muda o que pensam. Ainda assim, uma fração relevante se abre ao debate. Diante do argumento de que “o problema não é o tamanho da pena, mas a certeza de que ela será cumprida”, 19% reconsideram — repensando um pouco ou mudando de ideia. E quando ouvem que “mandar para a cadeia, sem ser por crimes graves, pode fortalecer o contato com criminosos mais perigosos”, esse índice sobe para 27%. O dado é metodologicamente precioso: mesmo no núcleo mais conservador, entre um quinto e um quarto do público punitivista se mostra permeável à lógica da efetividade quando o debate sai do slogan e entra no mérito.

Ao estratificar os microdados pelas variáveis de renda familiar e território, constata-se que a recusa da barbárie não é um alinhamento idealista abstrato, mas uma tática pragmática de sobrevivência. Os maiores índices de rejeição ao armamentismo e de exigência pelo devido processo legal concentram-se justamente entre os trabalhadores de menor renda familiar — na faixa de até dois salários mínimos —, para quem a experiência direta da violência urbana é mais próxima e contínua. O movimento inverso confirma a leitura: o apoio ao armamento como saída para a violência cresce conforme a renda — parte de 18% entre quem ganha até 2 salários mínimos, sobe para 24% na faixa intermediária e chega a 26% entre os trabalhadores de maior rendimento (acima de 5 salários). São justamente os estratos mais protegidos da violência cotidiana, e menos expostos à letalidade estatal, que enxergam na arma uma solução — ao passo que quem vive o território sob controle das facções rejeita o armamento em proporção ainda maior (76% na baixa renda, ante 68% no topo).
Essa racionalidade prática manifesta-se em eixos estruturais que a pesquisa documenta com precisão. O apoio massivo de 82% à implementação de câmeras corporais nas polícias — contra apenas 12% que as consideram um entrave — demonstra que a população não enxerga o controle da atividade policial como um obstáculo à eficiência, mas como salvaguarda republicana necessária³. Enquanto 39% se alinham ao discurso retórico do endurecimento penal — a pirotecnia legislativa sem efetividade —, a maioria absoluta de 55% compreende que a solução reside na aplicação rigorosa das leis já existentes. E a ilusão armamentista é rejeitada por 73%, que vinculam diretamente a proliferação de armas ao aumento da violência — com essa mesma maioria compreendendo que o armamento legalizado atua como linha de suprimento para as facções criminosas. Esse dado se aprofunda quando se considera a posse doméstica: 60% são contrários a ter armas em casa, incluindo maioria em todas as regiões do país, com rejeição ainda mais expressiva entre mulheres.
O dado mais revelador sobre a orientação real da opinião pública é o que a pesquisa chama de sincronia de argumentos progressistas, sistematizado no Infográfico 8 a seguir.

Esses números desmontam o mito do Brasil conservador homogêneo em matéria de segurança pública. A maioria das classes trabalhadoras não quer mais armas, mais mortes ou forças policiais descontroladas — exige uma polícia qualificada, tecnologicamente equipada e orientada à produção de provas, não de cadáveres. O trabalhador de menor rendimento compreende, pela experiência prática do seu território, quem são os alvos preferenciais da letalidade estatal e sabe que o armamento desregulado alimenta o mercado ilegal que vitima o seu próprio cotidiano.
A Demanda por Inteligência e Efetividade
Os resultados empíricos da pesquisa redesenham os horizontes analíticos para cientistas políticos, sociólogos e gestores públicos. O Infográfico 9 sintetiza as cinco prioridades identificadas pelo Instituto Sou da Paz como agenda estrutural para a transformação da segurança pública, articuladas aos percentuais que as fundamentam empiricamente.

O chamado clamor punitivista nacional revela-se, sob rigor metodológico, uma narrativa inflacionada por bolhas de opinião e interesses político-eleitorais específicos. As classes trabalhadoras, particularmente as de menor rendimento, embora severamente impactadas pela violência urbana — com 51% tendo sofrido alguma forma de agressão no último ano e 37% convivendo com o controle territorial do crime organizado —, preservam uma surpreendente lucidez institucional.
Há uma maioria silenciosa que rejeita a barbárie como política pública. O que emerge das ruas não é o clamor pela suspensão das garantias fundamentais, mas a exigência de sua plena universalização. O modelo de segurança pública necessário deve ser fundamentado na inteligência, na técnica e na rigorosa responsabilização institucional das polícias. Essa accountability garante que o guardião também seja guardado pela transparência pública — o que torna inegociável a existência de Ouvidorias ativas e autônomas. A paz no espaço urbano jamais será fruto da exceção jurídica; ela só se materializa com a consolidação irrestrita da legalidade e dos direitos civis.
Notas
1 LEFEBVRE, Henri. Le droit à la ville. Paris: Anthropos, 1968. O conceito de direito à cidade designa não apenas o acesso físico ao espaço urbano, mas a possibilidade de participar plenamente da vida coletiva que ele proporciona.
2 HARVEY, David. O novo imperialismo. São Paulo: Loyola, 2004. A acumulação por despossessão nomeia os mecanismos pelos quais o capital retira dos trabalhadores recursos (tempo, renda, espaço) sem contrapartida equivalente.
3 A correlação entre câmeras corporais e redução de violência policial foi documentada em pesquisas do próprio Instituto Sou da Paz e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP, 2024).
FONTE PRIMÁRIA
Instituto Sou da Paz / Oma Pesquisa. Pesquisa Nacional de Segurança Pública — Impacto da Criminalidade: Percepções e Experiências Metropolitanas. Realizada entre novembro e dezembro de 2025 com 1.115 entrevistas presenciais, pessoais e domiciliares em amostragem probabilística em 40 municípios brasileiros. Divulgada em 18 de maio de 2026. · Instituto Sou da Paz (soudapaz.org). Disponível em: https://soudapaz.org/documentos/pesquisa-completa-o-que-pensa-a-populacao-brasileira-sobre-seguranca-publica/
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Tags
armamento, assimetria espacial, capa, classe trabalhadora, espaço urbano, letalidade estatal, mobilidade urbana, racionalidade institucional, rotina, segurança pública, serviços de vigilância, sociologia urbana, transparência pública, violência, Violência urbana
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Matéria originariamente publicada no OUTRASPALAVRAS de 12/08/2026 às 18:28
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