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(Millôr Fernandes)
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sábado, 9 de dezembro de 2023

ARTIGO —Diplomacia e perseguição a brasileiros durante a ditadura militar chilena

Sábado, 9 de dezembro de 2023

Nos 75 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, artigo trata da realidade visível e oculta no golpe no Chile

Raul Ellwanger
Brasil de Fato | Porto Alegre (RS) | 08 de dezembro de 2023

Os 120 brasileiros da embaixada da Argentina em Santiago foram fichados e fotografados. Em setembro foi feita exposição no Chile - Arquivo pessoal

No dia em que fechei este artigo, faleceu seu personagem mais importante: Henri Kissinger. Ainda menino, com sua família de cidadãos alemães de cultura e religião judaica ameaçada, fugiu para os Estados Unidos (EUA). Nada aprendeu do fulgor humanista que aquela comunidade atingira, simbolizado em Marx, Shoenberg, Kurt Weil e Freud. Numa Síndrome de Estocolmo política, apaixonou-se por seus algozes, adotando e aplicando encarniçadamente (vale o advérbio) os métodos genocidas da facção nazista que havia dominado a Alemanha. Deixou no Chile suas digitais, desde antes, durante e depois do golpe de estado.


Notas inspiradas pelo livro de Roberto Simon: “O Brasil contra a democracia - a ditadura, o golpe no Chile e a guerra fria na América do Sul”. São Paulo : Companhia das Letras, 2012.

1. O livro

Esta obra traz um enfoque muito importante que ajuda a perceber a sincronia articulada entre duas realidades simultâneas e muito unidas que ocorriam no país andino, apesar de pouco perceptível em sua harmonia funcional, como uma bem azeitada e silenciosa dobradiça: a realidade visível e a realidade oculta.

De um lado, a materialidade visível das perseguições realizadas às claras pelos chilenos contra brasileiros, seus sequestros, suas sevícias, suas execuções extrajudiciais, sua carência de proteção diplomática, seu desamparo no abandono das ruas, a expropriação de butins. De outro lado, o velado, sorrateiro e metódico trabalho de vigilância, infiltração, delação, informação, operação violenta, ocultação de documentos e de rastros e indícios, levado adiante pelos funcionários brasileiros. Estas revelações de Simon crescem de significado, quando se sabe como os serviços policialescos e diplomáticos manipulam seus arquivos, inclusive gerando falsos arquivos para ocultar suas operações e confundir as pesquisas.

Gravíssima e destrutiva conduta dos funcionários brasileiros é demonstrada pela obra de Simon, qual seja a omissão do embaixador do Brasil no Chile, Antônio Cândido Câmara Canto e sua equipe, na defesa da integridade de seus conacionais. Esta talvez seja a mais clara, imediata e elementar tarefa da representação de um serviço exterior. Quando as rádios e jornais chilenos concitavam os civis a “entregar brasileiros e cubanos” às assustadas patrulhas que pipocavam pelas ruas, quando isto significava no mínimo graves sevícias e sequestro, e podia chegar à tortura, mutilação, morte e desaparecimento, a omissão de nosso (sim, nosso!) governo era quase uma sentença condenatória. O Bando n°10 cita Theotonio dos Santos.


Abrindo um amplo arco de ilegalidades, vemos desde a denegação de passaporte até a entrega e abandono de milhares de brasileiros à pior sorte, pelo simples fato de serem brasileiros, não pelo cometimento de algum crime, mas por sua raça ou nacionalidade; vemos a presença de militares e policiais brasileiros dentro dos recintos de sequestro e tortura, já suficientemente relatada pelas próprias vítimas; vemos desde a assessoria logística (doação da maricota elétrica) até as aulas dadas para seu eficaz manejo e uso, aulas dadas sobre o corpo de um (ou mais de um) nosso compatriota; vemos os vitimários brasileiros participando na prática da “tortura científica” que os chilenos desconheciam, em especial a “grelha” e o pau-de-arara.

O arco de cumplicidade do regime militar brasileiro abrange desde a preparação do golpe, reconhecimento imediato do novo regime, financiamento imediato, entrega de material bélico e cobertura política internacional, perfazendo um conjunto de delitos políticos. Como detalhe macabro, protagoniza brindes com os generais na happy-hour do mesmo dia do putsch. Mas, sobretudo e dolorosamente, este leque de vilezas se completa com outro da mais intensa vergonha, baixeza humana e miséria moral, qual seja entregar seus concidadãos inermes e desamparados à selvageria alucinada que campeava naqueles dias em todo o país transandino.