“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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quinta-feira, 3 de junho de 2021

Só a mobilização popular enterrará o bolsonarismo

Quinta, 3 de junho de 2021


Consideram-se justas e consequentes as linhas políticas, e as palavras de ordem delas decorrentes, na medida em que atendem ao dado momento do processo social; este, por definição, é um movimento, um fazer-se e refazer-se, como as ondas do mar, que nunca são as mesmas. Não há, pois, coerência tática quando mantemos vigentes palavras de ordem, que, embora originalmente corretas, se apresentam num determinado momento como inadequadas em face do quadro de realidade mutante. Por consequência, não deve ser vista como contraditória ou incoerente, por si, a mudança de linha cuja correção atende a exigência de uma nova realidade política. Contrariamente, não mudar, em tal caso, equivaleria a confundir a forma com o conteúdo, a aparência com o real, ter o hábito pelo monge. A coerência que a História reclama não é de ordem formal, estática, posto que diz respeito à fidelidade de objetivos (e eficiência de meios), a interdependência entre princípios e fins. Em síntese: se muda a conjuntura, necessariamente há de mudar o caráter e o modus da intervenção do sujeito social.

Ao agente político, individual ou coletivo, cabe, sempre, escolher, tomar decisões, frequentemente em face de diversas alternativas, nem todas satisfatórias, contraditórias ou auto excludentes. Não há fórmulas nem réguas para medir a melhor opção. Em face de qualquer cenário há sempre prós e contras, há sempre riscos. Para decifrar a esfinge nem sempre estão preparadas as estruturas partidárias; muitas, paquidérmicas, custam a se adaptar à nova situação, e, assim, se prendem a palavras de ordem, que, se antes poderiam ser justas, no momento seguinte estão desatualizadas. A concentração de todas as expectativas de avanço do movimento popular nos eventuais resultados de um processo eleitoral futuro, ainda que relativamente próximo mas cujas condições de disputa são, hoje, aliás, desconhecidas, deixou de ser a estratégia mais correta das forças democráticas, as quais não podem deixar livre o campo para as operações do grande adversário, que, por sinal, logrou avanços nas pegadas de nosso recuo tático.