Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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sábado, 24 de dezembro de 2016

HÔ, HÔ, HÔ!

Sábado, 24 de dezembro de 2016

Posto a seguir texto publicado em 24 de dezembro de 2013 no jornal Tribuna da Bahia, no Blog Bahia em Pauta, e também aqui no Gama Livre. Da lavra do jornalista Ivan de Carvalho, saudoso irmão do editor deste blog, fala do personagem ocultado do Natal, substituído por um tal de Papai Noel.

Terça, 24 de dezembro de 2013
Por Ivan de Carvalho
Amanhã, 25 de dezembro, é Natal, escolhido por convenção como o dia em que, mesmo tendo sido gerado em Nazaré da Galiléia, nasceu, em Belém da Judéia, Jeoshua, com nome traduzido para o latim de Iesus, posteriormente chamado mundialmente de Jesus ou Jesus Cristo, o fundador da igreja cristã. Por muitos outros nomes ele é também conhecido – e muito conhecido, sem dúvida a pessoa mais conhecida do mundo e da história, ainda que relativa e espantosamente pouco compreendido – mas esta não pretende ser uma nota religiosa.

      Em verdade, a data de 25 de dezembro foi fixada por convenção quando o cristianismo, após pesadas e prolongadas perseguições, não parava de ampliar o número de seus adeptos, o que levou o imperador Constantino a torná-lo a religião oficial do Império Romano. No entanto, não há registro e nem um cálculo preciso a respeito da data em que Jesus nasceu. Os autores dos Evangelhos não se preocuparam (ou preferiram evitar) a data exata, embora citando circunstâncias que certamente balizam um período.

      Não existe um Ano Zero da Era Cristã, ela começa com o Ano I. E hoje a grande maioria dos estudiosos do cristianismo e especialmente do nascimento de Jesus está convicta de que o Filho do Homem (denominação que ele mais gostava de aplicar a si mesmo) nasceu pelo menos quatro anos antes do Ano I e no máximo, sete anos antes. Assim, ao ser crucificado, Jesus não teria apenas 33 anos, mas 37 a 40 anos. (40, na Bíblia, é um dos números repetitivos, ligado a sacrifício, expiação, penitência, preparação; mas não estou tentando relacionar isso com a crucificação de Jesus à eventual idade de 40 anos, coisa que é, hoje, mera hipótese, entre outras).

      O nascimento de Jesus e o cálculo de que teria nascido no Ano I dividiu o tempo de existência da atual civilização. Em quase todo o Ocidente e partes expressivas do Oriente, o tempo da civilização foi divido em duas partes, segunda a segunda a Era Cristã.

A datação convencional do nascimento de Jesus Cristo também estabeleceu outras maneiras de divisão do tempo anterior e posterior a este evento. Antes de Cristo e Depois de Cristo (AC e DC). O tempo depois do nascimento de Cristo também recebe a denominação de Anno Domini (AD).

De algum tempo para cá, muitos (entidades jurídicas e pessoas) vêm substituindo a expressão Era Cristã por Era Comum, por preferirem evitar referências que poderiam ser consideradas religiosas, mas também poderiam ser consideradas apenas tradicionais.

Curioso é que com essa preocupação de importar o laicismo do Estado (onde ele é correto) para instituições privadas e até manifestações pessoais públicas (a manifestação de um apresentador de televisão, por exemplo), passa-se a usar não somente a inexpressiva e vaga expressão “Era Comum” e adota-se como proibição não escrita expressões até não muito tempo tão usadas quando “se Deus quiser”, “fiquem com Deus”, “esteja em paz” ou “Deus o acompanhe”, trocando-as pela anódina e insensível “boa sorte”, que nada acrescenta, nem mesmo sorte.

Bem, voltando mais especificamente ao Natal e passando a outros aspectos a ele relacionados. Nas últimas semanas e muito mais intensamente nos últimos dias as emissoras de televisão (principalmente), mas também outros veículos, divulgaram propaganda ligada ao Natal, quase que exclusivamente com o objetivo de levar o público consumidor a comprar produtos. Presentes para a família toda e tantos amigos quanto possível, além de “árvores de Natal” e produtos para a “ceia de Natal”.

Não vi nestes anúncios, uma vez sequer, referência alguma ao dono da festa. As agências de propaganda poderiam ter sido até menos monótonas, lembrando que ao nascer, Jesus ganhou presentes, ouro, incenso e mirra, levados pelos “reis magos” do Oriente e deixando ao público a especulação de que essa tradição de dar presentes no Natal tem algo a ver com isso, ou se é uma manifestação de alegria com o nascimento do Salvador ou, afinal, mera exploração comercial. Como está, elas fazem parecer que a alternativa acertada é a última, pois Jesus tem sido o personagem ocultado no Natal, substituído por um tal de Papai Noel.

Que saco! Hô, Hô, Hô.
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Ivan de Carvalho foi um jornalista baiano.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A Rede, os bônus e os ônus

Sexta, 24 de janeiro de 2014
Por Ivan de Carvalho
      Inviabilizada legalmente a participação da Rede Sustentabilidade nas eleições deste ano, não há dúvida de que o ingresso de Marina Silva no PSB e a aliança dela com o governador pernambucano Eduardo Campos, presidente nacional deste partido e aspirante a suceder Dilma Rousseff na presidência da República, representou um reforço de máxima importância para a pretensão de Campos. A presunção é de que a ex-ministra, ex-senadora e ex-candidata a presidente nas eleições de 2010 figure na chapa do PSB como candidata a vice-presidente.
      O grande reforço para Eduardo Campos representado pela aliança com Marina (20 milhões de votos no primeiro turno das eleições de 2010) e sua Rede Sustentabilidade, especialmente se for confirmada a expectativa de que a ex-senadora figure na chapa do PSB como candidata a vice- presidente da República, se revela principalmente em dois aspectos.
      Um deles é o de que, até a união Campos-Marina, a candidatura do primeiro parecia não ter o impulso necessário para decolar, seja por ter origem em um Estado do Nordeste que não é um grande colégio eleitoral, seja pela ainda modesta dimensão política do PSB, um partido em franco crescimento, mas que ainda não atingira o tamanho adulto para encarar com chances amplas uma campanha eleitoral.
      A aliança com Marina e a Rede projetou amplamente o PSB e Campos na mídia, dando-lhes um destaque que, até o momento, se mantém. E isto vai dando a Eduardo Campos uma coisa que ele tinha em reduzida escala, o conhecimento do eleitorado. Apesar de o governo e o PT estarem fazendo tudo que podem para limitar o destaque conquistado pela dupla Campos-Marina no debate político e na mídia, o destaque persiste e ganha características de permanência.
      O outro dos aspectos em que se revela o reforço a Campos e ao PSB representada pela aliança com Marina Silva está exatamente no excelente desempenho desta nas eleições de 2010, quando ficou em um terceiro lugar com votação muito acima da imaginada pelos políticos e obrigou Dilma Rousseff a ir lutar por sua eleição em um incômodo segundo turno, enfrentando novamente José Serra.
      No entanto, a aliança com Marina e a Rede não tem oferecido apenas bônus ao PSB e a Eduardo Campos. A Rede e a própria Marina têm providenciado também alguns ônus. O primeiro deles foi acabar com o apoio que Campos já havia praticamente obtido de setores importantes do agronegócio, que seriam uma fonte importante de meios financeiros e apoios políticos para a candidatura do PSB. Marina atacou imediatamente esse apoio do agronegócio, o que foi suficiente para que, também imediatamente, ele fosse retirado.
      O outro ônus está na formação dos palanques regionais. A Rede (supõe-se que com a anuência de Marina) está se opondo abertamente ao apoio do PSB paulista à reeleição do governador tucano Geraldo Alckmin e pretende que os socialistas lancem candidatura própria ao governo. Ocorre que essa candidatura não teria chance de vitória, seria mesmo somente para que não seja dado apoio ao governador do PSDB, uma preocupação de evitar tal “mistura”.
Mas o PSB paulista há anos participa do governo de Geraldo Alckmin e a seção estadual quer fazer a aliança eleitoral. E o PSB nacional, à frente seu presidente e candidato Eduardo Campos, quer uma aproximação com o PSDB, tanto para facilitar a formação de alguns palanques regionais como para um acerto segundo o qual, se Campos for ao segundo turno com Dilma, o socialista ter o apoio do tucano Aécio Neves e vice-versa. Isso interessa, é vital aos dois principais candidatos das oposições ao governo e à sucessão de Dilma Rousseff.
Mas, por incrível que pareça, essa lógica política, válida e praticada em qualquer país democrático do mundo, descontenta a Rede, que parece querer afastar o PSB do PSDB, beneficiando indireta e exatamente o governo, o PT e a candidata Dilma Rousseff.
As dificuldades criadas em São Paulo também estão sendo intensamente ensaiadas em Minas Gerais, estado do candidato tucano a presidente, Aécio Neves, bem como no Rio Grande do Sul, outro colégio eleitoral importante.
Parece que a Rede não sabe ainda o que é prioridade e o que é secundário em política. Se não descobrir, acaba. E não adiantará chorar sobre o leite derramado.
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Este artigo foi publicado originariamente na Tribuna da Bahia desta sexta.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Economia complica

Quarta, 22 de janeiro de 2014
Por Ivan de Carvalho
      O Brasil tem aproveitado as últimas semanas para evoluir nas decepções na área econômica e financeira. O Fundo Monetário Internacional, no que já começa a ameaçar tornar-se uma tradição, acaba de reduzir sua própria previsão de crescimento do Produto Interno Bruto do país para 2014 e 2015.
      No primeiro destes anos o FMI previra crescimento de 2,5 por cento. Agora baixou para 2,3 por cento. Em relação a 2015, a previsão do FMI para o PIB brasileiro era de um crescimento de 3,2 por cento, que acaba de cair para 2,8 por cento.
      Esses números são todos baixos por si mesmos, sejam os que representam as primeiras previsões para 2014 e 2015, sejam os que expressam a revisão do FMI para um crescimento mais baixo. É que nós ficaremos abaixo da média de crescimento econômico mundial, cuja previsão pelo Fundo é de 3,7 por cento para 2014 e 3,9 para 2015.
      Convém lembrar que o FMI está fazendo estimativas agora para um futuro que abrange dois anos e que em ocasiões anteriores – como, aliás, já começou a acontecer agora com as feitas inicialmente para este e o próximo ano – o FMI já fez previsões que tiveram de ser refeitas um tanto tardiamente. E, nos últimos anos, sempre para menos.
      Além dessas mudanças mais recentes nas previsões do FMI para o PIB brasileiro (elas não vão deixar a presidente Dilma Rousseff se apresentar em Davos com tom triunfante, talvez seja obrigada a preferir gabar o país por causa da Copa do Mundo e fazer um aceno sobre as menos próximas Olimpíadas do Rio de Janeiro), outros urubus estão voando no pedaço.
      Tivemos em 2012 um crescimento sem vergonha da economia, a inflação bateu no teto da meta, não o ultrapassando, quase certamente graças à contenção artificial das tarifas públicas e do jogo feito em torno dos preços dos combustíveis. Houve um problema sério com a balança comercial, que foi fortemente deficitária para o Brasil e o “superavit primário não atingiu a meta na realidade, mas somente no papel – a suposta “contabilidade criativa” que está muito mais para manobras declaradas “legais” pelo ministro da Fazenda, mas cujo conjunto representa um perfeito caráter de propaganda enganosa.
       E, apesar da festa oficial sobre o nível de emprego, até nesse item as novidades não são boas. Quando pesquisadas somente seis regiões metropolitanas, o desemprego é inferior a seis por cento, mas quando considerado todo o país o percentual sobe para 7,4 por cento. É bom não esquecer dos critérios esquisitos e muito “convenientes” para o governo que o IBGE utiliza para definir quem está desempregado, o que, naturalmente, ajuda a definir quanta gente está empregada.
      Mas indo a um detalhe importante nessa questão do emprego, o país (não o governo, isso deve ficar sempre muito claro) criou 1,1 milhão de empregos com carteira assinada em 2013, segundo informação do Cadastro Geral de Empregos divulgada ontem pelo Ministério do Trabalho. A quantidade de novas vagas foi 18,6% inferior em relação ao resultado de 2012, quando foram criadas 1,3 milhão de vagas. Mas nem este é o pior aspecto. Na verdade, o resultado de 2013 é o pior desde 2003 e ficou bem abaixo da meta do governo, de criar 1,4 milhão de novos postos de trabalho com carteira assinada.
ARTICULAÇÕES – Dirigentes do PSB e da Rede Sustentabilidade já estão em articulações com o PV e o PPS na Bahia, em um esforço para atrair estes partidos a uma coligação com o PSB, que já tem candidatas ao governo, a senadora Lídice da Mata e ao Senado, a ministra aposentada do STJ e ex-corregedora nacional de Justiça Eliana Calmon. O PV está aliado em Salvador ao governo de ACM Neto, tendo inclusive a vice-prefeita Célia Sacramento. Essa aliança com o prefeito, que é do DEM, no nível municipal, torna delicadas (mas não inviáveis) as articulações do PV com o PSB. Quanto ao PPS, o problema é outro. O partido, nacionalmente, já apoia a candidatura do PSB a presidente. Na Bahia, pode ser diferente, apoiando a outra candidatura de oposição (DEM, PMDB, PSDB, PTN, etc.) ou não, caso em que se aliaria ao PSB. Mas no segundo turno das eleições, o PPS, caso Lídice não esteja no segundo turno, não apoiaria o PT e estaria totalmente livre para apoiar o representante da oposição na segunda fase eleitoral.
Este artigo foi publicado originariamente na Tribuna da Bahia desta quarta.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.
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Comentário do Gama Livre: ainda no “cálculo” da taxa de desemprego, o governo brasileiro também inventou. Adotou o que pode ser denominada de “estatística criativa” (seria mais adequadamente chamada de uma “estatística da fajutice”). Por ela todos os beneficiários do Bolsa Família foram excluídos  do cálculo do desemprego. São considerados como não desempregados, pois passaram a ser enquadrados pelo IBGE na categoria de “trabalhadores desalentados”, isto é, trabalhadores que estão sem emprego e desistiram de procurar uma colocação no mercado de trabalho. Com isso são excluídos da População Economicamente Ativa, e desaparecem do cálculo do desemprego. Uma fajutice das maiores. E bota fajutice nisso.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

PMDB vai ao ataque

Terça, 21 de janeiro de 2014
Por Ivan de Carvalho
      O PMDB está infernizando a presidente Dilma Rousseff, para cuja reeleição a coligação com o PMDB é considerada essencial pelo PT e o apoio efetivo dos peemedebistas nos seus estados é considerado muito importante.
      No momento, o PMDB tem três pendências importantes com o PT e o governo de Dilma Rousseff. Com este, está a questão da participação dos peemedebistas na administração federal. Atualmente, o PMDB tem cinco ministérios, mas, considerando que o número total de ministérios e secretarias com status ministerial atinge a absurda quantidade de 39, o PMDB exige mais um.
      E não quer coisa sem importância. Pleiteou o Ministério de Integração Nacional, devolvido pelo PSB logo depois deste partido resolver lançar candidato próprio a presidente da República, o presidente nacional da legenda e governador de Pernambuco, Eduardo Campos.
      Dilma Rousseff, no entanto, resolveu dar outro destino ao Ministério da Integração Nacional e o PMDB, dissimulando apenas parcialmente a insatisfação, passou a reivindicar a Secretaria Nacional de Portos. Não recebeu uma negativa, mas não foi ainda atendido. A questão continua em aberto, o que não é agradável para o maior aliado do governo do PT.
      As outras duas pendências mais importantes estão no Ceará e Rio de Janeiro. No Ceará, o governador Cid Gomes, que recentemente deixou o PSB e ingressou no Pros, quer indicar um candidato ligado a ele para sua sucessão. O PMDB tem um candidato declarado, praticamente em campanha, o senador Eunício Oliveira. No momento, o Pros de Cid Gomes, o PMDB e o PT são aliados no Ceará. Mas como estão postas as coisas, Pros e PMDB serão adversários. O PMDB não aceita que o PT apoie o candidato de Cid Gomes. Prefere, mais, insiste, que o PT apoie o senador Eunício. Este conta com a cobertura do comando nacional do PMDB, mas o PT não parece ter boa vontade para isso e fica falando que o bom mesmo é que todo o grupo de aliados de hoje continue aliado nas eleições de outubro. É uma maneira de adiar uma decisão ou de adiar revelação de decisão já tomada.
      A pendência no Rio de Janeiro é ainda mais aguda. A crise entre PMDB e PT chegou a um ponto de ebulição. Peemedebistas dizem que o presidente nacional do PT, Rui Falcão, “agrediu” o PMDB no sábado, ao marcar data para romper com o governador Sérgio Cabral, deste partido e com índices de popularidade muito baixos atualmente. Cabral, que ia renunciar ao governo em março, deixando-o a cargo do vice e candidato a governador Fernando Pezão, também do PMDB, resolver antecipar a saída.
      O PMDB do Rio de Janeiro exige que o comando nacional do PT interfira para impedir que o senador petista Lindberg Farias seja candidato a governador, concorrendo com o peemedebista Pezão. Lindberg já lançou a candidatura, tem a solidariedade do PT fluminense e é um candidato muito competitivo. Sua candidatura pode levar o Rio de Janeiro, joia da coroa do PMDB, para o PT. O PMDB fluminense exige que o PT não tenha candidato a governador no Rio de Janeiro.
      Peemedebistas, como o líder do partido na Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, dizem que a situação no Rio e também, de quebra, no Ceará, podem influir no modo como o partido vai se comportar em relação à tentativa de reeleição de Dilma Rousseff para presidente. Radicalizando, ele até sugere, dentre outras, a hipótese do PMDB “mudar de lado”, formalmente, na sucessão presidencial. Mas é claro que isso é praticamente impossível de acontecer.
      No entanto, o PMDB traçou nova política para se relacionar, no aspecto político-eleitoral, com o governo e o PT. A convenção nacional peemedebista, que poderia ser feita em junho, deverá ser antecipada para abril. E nela serão decididas duas condições em troca do apoio à tentativa de reeleição de Rousseff. Uma delas é a liberação total dos diretórios regionais (estaduais) que queiram fechar com a oposição, como o da Bahia, e aliança em estados considerados “estratégicos”, do que são os exemplos mais notórios o Rio de Janeiro e o Ceará. Aliança significando o PT coligar-se com o PMDB, ao qual caberia indicar o candidato a governador.
      Lideranças peemedebistas assinalam que essa questão relacionada com a antecipação da convenção nacional é uma coisa e a participação do PMDB no ministério, onde o partido quer mais uma pasta, é outra coisa.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Prisões, segurança e emoção

Sábado, 18 de janeiro de 2014
Por Ivan de Carvalho
      Enquanto o complexo prisional da Papuda, administrado pelo governo do Distrito Federal, vai, com todas as suas mazelas, surfando na onda da fama proporcionada pelo recolhimento de alguns dos condenados no processo do Mensalão, em dois Estados da Federação ocorrem crises agudas especialmente agudas no sistema penitenciário.
      Um desses Estados é o Maranhão, administrado pela governadora Roseana Sarney, do PMDB e filha do senador José Sarney, que domina a política estadual há décadas. A crise no Maranhão se concentra, agora, no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, onde esta semana já ocorreram duas tentativas de fuga coletiva, apesar do pesado reforço policial posto para supostamente bloquear qualquer ideia de rebelião.
      Mas as fugas e tentativas de fuga, tão comuns no sistema prisional nacional, bem como as costumeiras rebeliões geralmente causadas pela superlotação, mas não só por isto – também por outras condições desumanas que prevalecem na quase totalidade das prisões brasileiras – não representam a essência da crise atual no Complexo Penitenciário de Pedrinhas.
      A verdadeira crise é composta pela existência de facções de presidiários que, de dentro, têm o controle de fato do complexo penitenciário e, além dos meios, a autoridade para comandar a criminalidade do lado de fora. Assim, enquanto dentro do complexo penitenciário presos sofrem torturas medievais ou chinesas e outros são decapitados, do lado de fora os bandidos obedientes aos “comandos internos” incendeiam ônibus para mostrar a inconformidade dos “comandos internos” com uma ou outra medida que lhes desagrade.
      O outro Estado é o Rio Grande do Sul, administrado pelo governador Tarso Genro, do PT e ex-ministro da Justiça. Lá, parece que o silêncio e a solidão das madrugadas são cúmplices da criminalidade interna, dos assassinatos dentro do Presídio Central de Porto Alegre. O juiz da Vara de Execuções Criminais, Sidinei Brziska, que tem uma responsabilidade que não lhe permite dar informações irresponsáveis, afirmou haverem ocorrido 12 assassinatos dentro do presídio no período de 2011 a 2013. O secretário-adjunto da Segurança Pública, Juarez Pinheiro, alegando que ele está se colocando no lugar dos peritos criminais.
      Isto porque o juiz da VEC disse que a morte dos detentos ocorre de madrugada, com indicação de parada cardíaca ou edema pulmonar e presença de cocaína no sangue, em grande quantidade. Ele disse entender que os presos seriam mortos de forma discreta e com uso de artifícios que dissimulam os homicídios, fazendo-os parecer mortes naturais. Isso foi o que indignou o secretário adjunto da Segurança Pública, aparentemente defensor da tese de que as mortes teriam mesmo sido naturais. Em outras palavras: ao invés de atacar o problema, prefere (talvez para “limpar a barra” da sua Secretaria e do próprio governo estadual) atacar quem o denuncia.
      A Corte Interamericana de Direitos Humanos, vinculada à Organização dos Estados Americanos (OEA) – a partir do exame de denúncia feita pela seção gaúcha da OAB, Conselho Regional de Medicina e Conselho Regional de Engenharia e Agronomia, após vistoriarem o presídio em abril de 2012 – pede providências para garantir “a vida e a integridade pessoal dos detentos”, assegurar as condições de higiene e tratamentos médicos adequados, bem como medidas para recuperar o controle de segurança e reduzir o número de presos (por causa da costumeira superlotação).
      Dos muitos casos explosivos em presídios brasileiros vale lembrar o que era e, pelo que era, o que acabou acontecendo no Carandiru, em São Paulo, com aquela chacina dos presos pela PM. Mas se o Carandiru obteve na sua época fama internacional, como ocorre agora (com estardalhaço menor, pelo menos por enquanto) com o Complexo Penitenciário das Pedrinhas e o Presídio Central de Porto Alegre, há uma constatação geral a fazer. O sistema prisional brasileiro está superlotado com uma população de mais de 200 mil presos e há mais de 300 mil mandados de prisão não cumpridos, grande parte deles porque, se cumpridos, não haveria onde por os novos presos – e outra grande parte pela incapacidade do aparelho policial de cumprir os mandados. É essa preocupação das autoridades com a segurança pública que nos deixa, a todos, tão emocionados.
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Este artigo foi publicado originariamente na Tribuna da Bahia deste sábado.
Ivan de Caralho é jornalista baiano.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Onde estão os nervosinhos

Quinta, 16 de janeiro de 2014
Por Ivan de Carvalho
      Por decisão unânime do Comitê de Política Monetária (Copom), a taxa básica de juro, a Selic, teve ontem o seu sétimo aumento consecutivo, numa progressão de alta que agora atingiu 10,5 por cento. Segundo anúncio do Banco Central, a decisão de acrescer 0,50 ponto percentual à taxa, que estava em 10 por cento ao ano não contém viés. Como se sabe, isso significa que a autoridade monetária não dá indicação de tendência para novo aumento, para redução e, como é óbvio, também não garante permanência no percentual alcançado.
      Os especialistas explicam – mas nem seria preciso, na atual conjuntura, que dessem tal explicação – que o Copom vem, com os sete aumentos consecutivos da taxa, tentando conter a inflação, que vem apresentando resistência a um arrefecimento.
Imagem da internet
A elevação da Selic foi avantajada, 0,5 por cento. Isto sugere certo nervosismo da autoridade monetária. Parece que os “nervosinhos” a que se referiu o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao gabar-se de que o governo alcançou o superavit primário que fixara e o ultrapassou em R$ 2 bilhões, não estavam no “mercado” nem entre os adversários políticos do governo, mas dentro do próprio Banco Central.
A gabolice do ministro Mantega se revela um tanto ridícula, não só porque os “nervosinhos” de que falou pejorativamente, apareceram afinal dentro da própria estrutura do governo – embora em área relativamente autônoma, e bota relatividade nisso, o Banco Central – como porque, como todos se recordam, o superavit previsto foi alcançado graças à “contabilidade criativa”, ou mais do que isto, graças a manobras como as feitas com as plataformas de petróleo “exportadas” que não saíram do país e a emissão de ordens de pagamento tão no final de 2013 que o desembolso só poderia ocorrer no início de 2014. Assim, o dinheiro “virou o ano” no caixa do governo, embora já não fosse dele. Mais do que criativa, contabilidade enganosa para fazer propaganda idem.
Voltando à razão do aumento de ontem, de 0,5 ponto percentual na Selic, tenta-se com tal elevação conter o consumo, provocando uma elevação dos juros ao consumidor e assim reduzindo a demanda de produtos e também de certos serviços, o que faria cair o preço deles, ou melhor, reduzindo a intensidade do aumento de preços. O futuro dirá de essa redução da escalada dos preços acontecerá e será efetiva. Isto porque o Executivo federal dificilmente conterá seus gastos em ano de eleições presidenciais, para o Congresso e para os governos e Assembléias Legislativas estaduais. E, quando o governo gasta mais do que tem, fabrica inflação.
De qualquer modo, é certo que a economia já está com um crescimento miudinho e que o aumento da Selic, reduzindo o consumo e elevando os juros para as atividades econômicas, tende a desacelerar ainda mais esse crescimento que assumiu a velocidade dos quelônios terrestres, ou, no popular, dos jabutis.
Quanto à Selic, os especialistas se dividem. Uns acreditam que o percentual se manterá em 10,5 por cento até o fim de 2014 e outros preveem que são prováveis novas altas – concentradas no primeiro semestre –, podendo chegar a 11,25 por cento. Ninguém está fazendo previsão de qualquer redução da Selic este ano.
DE VERDADE – Bem perto do final do seu pontificado, que terminou pela renúncia, o papa Bento XVI resolveu higienizar o Instituto de Obras da Religião, IOR, também conhecido como o Banco Vaticano e do qual havia suspeitas de ocorrência de graves irregularidades altamente patrocinadas. Então, em 16 de fevereiro de 2013, mudou a direção do IOR e nomeou uma comissão de cinco cardeais para supervisionar o instituto e propor reformas que julguem adequadas. Ontem, o Vaticano informou que o papa Francisco substituiu quatro dos cardeais da comissão, entre eles o cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, o italiano Tarcisio Bertone, ex-secretário de Estado do Vaticano, maior autoridade no Vaticano depois do papa e muito criticado por sua gestão na Cúria romana, o indiano Telesphore Toppo e o italiano Domenico Calcagno. Dos cinco só ficou o francês Jean-Louis Tauran. Quatro cardeais foram nomeados para as vagas: o atual secretário de Estado do Vaticano, o italiano Pietro Parolin e um austríaco, um espanhol e um canadense.
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Este artigo foi publicado originariamente na Tribuna de Bahia desta quinta.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Semeadura e colheita

Quarta, 15 de janeiro de 2014

Por Ivan de Carvalho
      Noticia-se que o PT acabou ficando mais murcho do que de início pareceu com os efeitos realizados e os eventuais efeitos futuros de seu ataque à dupla de opositores formada por Eduardo Campos e Marina Silva. O ataque foi no velho estilo da ofensa, da tentativa de desconstruir, desmoralizar e ridicularizar e foi feito mediante editorial no site oficial do PT na Internet.
      Como esse ataque já foi bastante divulgado, creio que vale lembrar apenas que Campos, ex-ministro do governo Lula, atual governador de Pernambuco, presidente nacional do PSB e aspirante à presidência da República em oposição à tentativa de reeleição da petista Dilma Rousseff foi chamado de “tolo” e de “playboy mimado”. Não faço a menor idéia dos fundamentos que levaram o PT ter dele tal juízo.
      Recorda-se, até, que o PT e o próprio Lula andavam tentando iludir Eduardo Campos – que começava a fazer discretos movimentos para tentar viabilizar sua candidatura a presidente em 2014 – com o aceno de que, após o eventual segundo mandato de Dilma Rousseff, o presidente do PSB seria o nome ideal para presidente da República. Isto significaria que nas eleições de 2018 ele deveria ser o melhor candidato para o PT apoiar, embora não fosse do PT.
      Foi aí exatamente que Campos mostrou que não é tolo. Não acreditou na conversa (seu avô, Miguel Arraes, era um político esperto e especialmente desconfiado), não se deixou enganar e então o editorial publicado no site do PT o rotulou precisamente daquilo que este partido desejava que ele fosse e ele provara que não é – tolo. Seria tolo se acreditasse que o PT, estando no comando do governo federal, abrisse mão de seu projeto de poder em 2018 para apoiar alguém de outro partido para presidente da República.
      Se a decepção do PT com a eficácia do desconfiômetro do neto de Arraes explica o qualificativo (ou desqualificativo) de tolo (uma espécie de vingança de menino malcriado), não existe até agora explicação para o xingamento de “playboy mimado”. Então Lula colocara em seu ministério um “playboy mimado”, além de um “tolo” e ainda acenara com um futuro apoio do PT a esse indivíduo para colocá-lo na Presidência da República. Uma coisa totalmente sem sentido.
      Quanto à ex-senadora Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula e ex-candidata a presidente da República pelo PV em 2010, quando surpreendeu ao obter estonteantes 20 milhões de votos, ficando em terceiro lugar e forçando a realização de segundo turno entre Dilma Rousseff e José Serra, foi chamado no tal editorial de “ovo da serpente”.
      Agora estão aí arrependidos com a péssima repercussão do editorial e os “desqualificativos” constantes do editorial e aqui citados desapareceram do site do PT. Em um primeiro momento da reação desfavorável nas redes sociais e na opinião pública, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, tentou levar o problema com uma conversa de “cerca lourenço”, mas depois se viu que não dava. O ataque atabalhoado – um tanto no estilo Irmãos Petralha – a Campos e Marina virou-se contra o próprio PT, pois as vítimas resolveram dar trela, comentar nas redes, chamar a atenção para os termos do editorial, expondo-os no absurdo vazio que representam.
      E o comando petista parece ter se preocupado ainda com os humores do “ovo da serpente”, pois temem que Marina Silva seja impulsionada por esse ataque (e eventualmente outros desse tipo, em outros espaços e ocasiões) a alterar a linha que vem seguindo de trabalhar pela manutenção de certa distância entre o PSB/Rede e o PSDB, o que poderia refletir-se já no primeiro turno das eleições, nas eleições estaduais e na de presidente da República, e também no segundo turno. Pode ser que ela nem faça isso, essa revisão, mas o comando petista está preocupado e, como chegou-se a noticiar ontem, pensa até em pedir desculpas, não a Campos, mas a Marina. A natureza e a física ensinam que toda causa gera um efeito – ou mais de um. A Bíblia ensina que “tudo que semeares, certamente colherás”. O PT plantou seu editorial, agora faz a colheita.

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A colheita para descascar
Imagem da internet
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Este artigo foi publicado originariamente na Tribuna da Bahia desta quarta.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O aborto é racista

Terça, 14 de janeiro de 2014
 Imagem da internet
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Por Ivan de Carvalho
      Na sua mensagem de início de ano aos diplomatas que representam seus países no Vaticano, o papa Francisco fez, ontem, o que foi até aqui a sua mais dura mensagem contra a prática do aborto. Como é de seu caráter, ele não dissimulou o conteúdo com uma embalagem suavizante. Foi direto ao ponto: “Causa horror o simples pensamento de que existam crianças que jamais poderão ver a luz do dia, vítimas do aborto” e do que chamou de uma “cultura do descarte”.
      Desfazendo a impressão equivocada de alguns de que, sem qualquer revisão de sua posição doutrinária absolutamente contrária ao aborto, a Igreja tenderia a reduzir a atenção que dá ao tema, ante muitos outros também de grande importância, o papa Francisco foi incisivo o suficiente para tirar qualquer dúvida quanto à extrema relevância e a enérgica oposição e condenação que ele e a Igreja Católica dão ao tema do aborto. “Infelizmente – disse ele – objetos de descarte não são apenas os alimentos e os bens supérfluos, mas muitas vezes os próprios seres humanos”.
      Em verdade, o papa, no que foi até agora o seu principal documento doutrinário, a exortação apostólica “Evangelii Gaudium” – Alegria do Evangelho –, divulgada em novembro, já afirmara que “a defesa da vida por nascer está intimamente ligada à defesa de qualquer direito humano”. E dessa afirmação não há que pedir explicação alguma, tal sua clareza: quando se nega a um ser humano o direito de nascer, negam-se-lhe juntos todos os outros direitos humanos. Inclusive o direito à ampla defesa e ao “devido processo legal” antes do sacrifício pela pena de morte aplicada antes mesmo do nascimento e sem existência de qualquer delito praticado pelo condenado.
      Nesta questão do aborto, algumas outras coisas não devem deixar de ser lembradas. Certas fundações de atuação mundial, a exemplo, dentre outras, da Fundação Rockfeller, da Fundação MacArthur, da Fundação Ford tem dado indícios muito consistentes – devido aos projetos, entidades e movimentos que financiam generosamente – de que podem estar engajadas em um plano global de redução da população mundial.
      Uma área prioritária para essa redução – já que as mais poderosas fundações dessa natureza têm suas fundações (sem pretensão de trocadilho) nos Estados Unidos – é a América Latina. Outra área, evidentemente, é o território dos próprios Estados Unidos. Claro que essas prioridades não excluem outras partes do mundo. E claro, também, que, além de outros “métodos”, a disseminação da prática do aborto (agora já até com a facilidade da pílula do dia seguinte, que, como o DIU, é abortiva) é um dos instrumentos mais importantes.
      Nos Estados Unidos, desde 1973 o aborto é legalizado até o nono mês de gravidez. Isso significa que a qualquer momento a mulher pode matar o filho que abriga no ventre. Essa facilidade tem estimulado a prática do aborto entre as norte-americanas e também entre imigrantes e um dos fatos essenciais a observar é que a concentração de clínicas de aborto é muito maior em comunidades pobres e de densidade populacional de negros do que em outras. Isto significa que há uma matança bem maior de nascituros pobres e negros. Visto desse prisma, o aborto lá é discriminatório contra os nascituros filhos de mulheres pobres e é também racista. Se descriminalizado no Brasil (como tanto se tenta e como a presidente da República, antes de ser eleita, disse que acha que deve acontecer), o aborto ganharia também significado racista e atingiria mais os nascituros pobres – que são sempre muitos.
      A importância do aborto para o não nascimento do ser humano vivo no ventre materno vem principalmente do fato de que ele é a “solução” quando os outros “métodos” não foram aplicados ou falham. O aborto está para o nascituro assim como a “solução final” que os nazistas tentaram dar aos judeus que levavam para os campos de concentração. No caso dos nazistas, a criminosa e horrenda “solução final” foi largamente aplicada, mas não teve êxito – os nazistas perderam e os judeus estão aí. Creio que se deve fazer todo o esforço possível para impedir que a solução final representada pelo aborto atinja seus objetivos.

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Este artigo foi publicado originariamente na Tribuna da Bahia desta terça.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Sucessão e a família Carneiro

Sexta, 10 de dezembro de 2013
Por Ivan de Carvalho
Tribuna da Bahia
      O apoio do ex-prefeito de Salvador, João Henrique Carneiro, não tem sido requisitado, até onde de se nota, por qual agrupamento de forças políticas disposto a disputar as eleições majoritárias na Bahia e isto não surpreende, pois ele não saiu da prefeitura com uma boa imagem de administrador ou político. Seu apoio seria útil em algumas áreas da periferia, mas esse benefício seria neutralizado, seguramente, pela percepção de um mau desempenho geral, sobretudo no segundo mandato.
No primeiro mandato, foi salvo pela entrada do PMDB em seu governo, com a viabilização de obras e de articulações políticas que resultaram em sua reeleição. Mas depois o prefeito reeleito e o PMDB se desentenderam, os peemedebistas deixaram a administração municipal e esta iniciou uma queda em parafuso que só parou quando o cargo foi transmitido para o novo prefeito, ACM Neto. Ou até se poderia dizer que a queda extrapolou o tempo do segundo mandato de João Henrique, afirmação que encontraria fundamento na rejeição sistemática de suas contas que haviam ficado por votar pela Câmara Municipal.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Alianças eleitorais

Quarta, 8 de janeiro de 2014
Por Ivan de Carvalho
A aliança do PSB com a Rede Sustentabilidade, imediatamente após esta ter negado seu registro partidário pelo Tribunal Superior Eleitoral graças a um golpe cartorial relacionado com as fichas de filiação, surpreendeu o país. Foi a maior surpresa política no Brasil em 2013. E implicou numa mexida importante no cenário da sucessão presidencial.
Ante a negativa do TSE de conceder o registro de partido à Rede, este cenário marchava para um embate de apenas dois contendores – a presidente Dilma Rousseff, do PT, pleiteando a reeleição, o senador Aécio Neves, presidente do PSDB e ex-governador de Minas Gerais, como um dos desafiantes e talvez o presidente do PSB e governador de Pernambuco, Eduardo Campos, como o segundo desafiante, mas, em princípio, numa posição político-eleitoral fraca.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O Mensalão de volta

Terça, 7 de janeiro de 2014

Por Ivan de Carvalho

      O deputado João Paulo Cunha, do PT e ex-presidente da Câmara dos Deputados, um dos condenados no processo do Mensalão, vai se entregar hoje, em Brasília. Segundo seu advogado, não o fez ontem porque ainda não havia o mandado de prisão. O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, relator da Ação Penal 470, indeferiu, ontem, recurso de João Paulo Cunha – sob o fundamento de que não preenchia requisito de admissibilidade e tinha caráter meramente protelatório – e deu por transitada em julgado a Ação Penal 470 em relação às penas de corrupção e peculato (embora ainda não em relação à lavagem de dinheiro, por entender que cabe embargo infringente). Joaquim Barbosa determinou o início das medidas de execução da condenação, vale dizer, a prisão de João Paulo Cunha.

      O fato de este se entregar não pacífica o assunto. O STF decidiu que sua decisão, que automaticamente suprime os direitos políticos dos condenados, implica também na perda do mandato eletivo (no caso, de deputado federal). É, em verdade, o óbvio. Como pode alguém ser detentor de mandato eletivo na estrutura do Estado sem ter direitos políticos, mesmo que fique preso?
Vejamos o estranho caso do deputado Natan Donadon, que condenado por corrupção pelo STF – por causa da malcriação da Mesa da Câmara de não declarar simplesmente, como devia, a perda do mandato – foi submetido a processo na comissão de ética e ao voto secreto no plenário da Câmara sobre a perda ou não de seu mandato e conseguiu preservá-lo. O voto sobre cassação ainda era secreto. A “absolvição” do plenário, movido pelo corporativismo, ligações de amizade e irritações com o STF, fez explodir uma crise. O presidente da Câmara, o peemedebista Henrique Eduardo Alves, percebeu afinal o tamanho do desgaste para a Câmara ante o eleitorado e a sociedade e isso acabou resultando em mudança legislativa que tornou o voto aberto nas votações sobre cassação de mandato (e vetos presidenciais a legislação aprovada pelos congressistas, detalhe importante e que foi muito ruim para a liberdade de atuação do Congresso). O presidente da Câmara convocou o suplente de Donadon e, para completar, providenciou novo processo de cassação contra ele, a ser decidido pelo voto, agora aberto, do plenário. Aí, acabou.
Apesar do tiro pela culatra no caso Donadon, a Câmara (e, supõe-se, também o Senado) não voltou atrás na questão de que o condenado, mesmo sem direitos políticos, só perde o mandato se este for cassado pelo plenário. Mas com o voto aberto, ficou difícil imaginar que o plenário da Câmara, ainda mais na proximidade de eleições, iria preservar mandatos de deputados condenados no Mensalão, o maior escândalo de corrupção da história do Brasil.
Esta foi a razão de três dos condenados que responderiam a processo de cassação – José Genoíno (ex-presidente do PT), Valdemar Costa Neto (ex-presidente e manda-chuva do PR) e Pedro Henry – haverem renunciado para não terem o currículo “manchado” por uma cassação de mandato. Mas no caso de João Paulo Cunha pode ser diferente. Ou não. O ex-presidente da Câmara fez um incisivo discurso em que assegurou que não vai renunciar ao mandato para evitar um processo de cassação.
Ou João Paulo Cunha quer ser vitimado pelo plenário da Casa legislativa que presidiu ou tem excepcional confiança na força do corporativismo. E numa improvável ou pelo menos duvidosa mobilização do seu partido, o PT, para manter – em nome, talvez, da estapafúrdia tese lulista de que o Mensalão foi uma farsa – o mandato parlamentar, ainda que o regime prisional, mesmo semiaberto, não lhe permita exercê-lo e ainda que o presidente da Câmara, como fez no caso Donadon, convoque o suplente. Nesse pé estão as coisas, mas o Congresso está em recesso e há quem imagine que quando voltar a funcionar, no início de fevereiro, ocasião em que seria aberto o processo de cassação do mandato de João Paulo Cunha, este mude de atitude e resolva renunciar para evitar a cassação tão provável.
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Este artigo foi publicado originariamente na Tribuna da Bahia desta terça.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.