Domingo, 14 de junho de 2026
Os juros altos e a desculpa esfarrapada do 0,1%
No momento em que o Banco Central prepara-se para manter ou elevar as taxas mais altas do mundo, vale um pouco de teoria. Por que o remédio é ineficaz contra a inflação vivida pelo Brasil? Como ele agrava a desigualdade e mantém o país em estado de regressão prolongada?
OUTRASPALAVRAS Mercado x Democracia
Matéria originalmente publicada no OUTRASPALAVRAS de 10/06/2026
Imagem: Gary Waters/Ikon Images
Por Luiz Martins de Melo, no Terapia Política
A inflação que afeta o Brasil é impulsionada por turbulências geopolíticas, preços de energia em alta e cadeias de suprimentos frágeis, em vez de excesso de demanda. No entanto, os formuladores de políticas continuam a tratar isso como um problema monetário, confiando em uma ferramenta que não pode abordar as causas subjacentes.
O Banco Central continua com a sua decisão de manter as taxas de juros elevadas como um exercício de prudência. Com a inflação voltando a subir, mesmo com o crescimento desacelerando, a autoridade monetária enfatiza a paciência e a “dependência dos dados” como o caminho responsável — uma abordagem moldada sobretudo por temores persistentes de repique inflacionário.
A pergunta que importa para a sociedade não é por quanto tempo os bancos centrais podem manter as taxas de juros elevadas ou o ritmo do aperto monetário. É se os formuladores de políticas conseguem manter a ficção de que taxas de juros mais altas são uma resposta eficaz, ou até neutra, às pressões inflacionárias que o Brasil enfrenta atualmente.
