Terça, 20 de janeiro de 2026
IA: A China tem outro projeto
Assumir, até 2030, liderança na nova tecnologia. Empregá-la para transformar a economia e as relações sociais. Apostar em códigos abertos, e no comando público. Quebrar monopólios. Exame da estratégia chinesa, a partir de seus documentos
OutrasPalavras Tecnologia em Disputa
Por James Görgen
Publicado 20/01/2026
Como qualquer observador dos temas digitais está cansado de saber, a inteligência artificial deixou de ser apenas uma tecnologia disruptiva para se tornar o epicentro de uma disputa geopolítica e geoeconômica que redefine as relações de poder no século XXI. Enquanto o mundo observa e os Estados Unidos tentam manter sua liderança, a China executa silenciosamente uma das mais ambiciosas estratégias nacionais da história recente: transformar-se na líder mundial de IA até 2030. Mas o que exatamente o país asiático busca com essa corrida tecnológica? Como veremos, a resposta vai muito além de inovação ou competitividade.
Durante duas décadas após a crise financeira asiática de 1997, a economia global prosperou com base numa sinergia simples: os Estados Unidos dominavam o software, a China fabricava o hardware. Essa complementaridade beneficiou ambos enormemente e impulsionou o crescimento mundial. A partir do primeiro governo Trump, Washington começou a usar a dominância de suas empresas em software para conter a ascensão chinesa, forçando a China a desenvolver substitutos próprios. Com escala, talento e recursos financeiros, o país asiático tem todas as condições para alcançar seus objetivos de autonomia tecnológica. Paradoxalmente, essa pressão americana está motivando a China a impedir justamente a emergência de dominância de sistemas ou plataformas em novas tecnologias como a IA por parte das empresas de tecnologia dos EUA — exatamente o que os investidores ocidentais esperavam conquistar.
Transformação como política de Estado
Em 2017, o governo chinês lançou o documento estratégico “New Generation Artificial Intelligence Development Plan” (AIDP), que estabeleceu marcos ambiciosos e cronologicamente precisos. Em 2020, a ideia principal seria alcançar paridade tecnológica com os líderes globais em IA, tornando a inteligência artificial um novo motor de crescimento econômico para a China.
