por TT — publicado 28/08/2026

"Eu fui vítima de feminicídio, sofri queimadura de 2º e 3º graus no meu corpo", relata Maria (nome fictício), 48 anos. Há marcas que desaparecem com o tempo. Outras permanecem no corpo, no espelho e na memória. Para quem conseguiu romper o ciclo de violência doméstica, encontrar proteção pode representar o começo de uma nova vida.
O crime ocorreu em 2019. Maria teve grande parte do corpo queimada pelo ex-companheiro, com quem mantinha relacionamento há um ano e meio, foi socorrida por um vizinho e sobreviveu. Passou 17 dias internada no Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), referência no tratamento de queimados no Distrito Federal, onde fez duas cirurgias.
O agressor foi condenado a 15 anos de prisão. No entanto, as consequências da agressão seguem presentes na vida de Maria. A violência deixou sequelas em seu corpo, que comprometeram o movimento de um de seus braços. As cicatrizes e as lesões provocadas pela violência faziam com que ela recordasse todos os dias parte da história que tentava deixar para trás.
E foi justamente nesse ponto, quando sobreviver precisa dar lugar a recomeçar, que uma parceria do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), por meio da Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do DF (CMVDDF), entrou na vida de Maria.
Justiça para além do processo
O Programa Recomeçar parte de uma compreensão ampliada de proteção às vítimas. Por meio da iniciativa, fruto de uma parceria entre o TJDFT e a Fundação Instituto para o Desenvolvimento do Ensino e Ação Humanitária (IDEAH), são realizadas cirurgias plásticas reparadoras em mulheres, crianças e adolescentes que ficaram com sequelas causadas por atos de violência doméstica e familiar.
"O objetivo é encaminhar essas vítimas para que elas possam receber atendimento pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, por meio da Fundação, encaminhando tanto para hospitais privados como credenciados para análise do meio mais adequado para essa reparação, para que elas possam receber proteção integral, já que a Lei Maria da Penha e a Lei Henry Borel preveem a proteção integral às vítimas decorrentes da violência doméstica familiar", ressalta a juíza coordenadora da CMVDDF, Luciana Rocha.
Os possíveis beneficiários são identificados em processos que tramitam nos Juizados de Violência Doméstica, Tribunais do Júri, Vara Henry Borel e Vara da Infância e da Juventude. Após a identificação e o consentimento da vítima, os(as) juízes(as) encaminham os dados para a CMVDDF ou para a Coordenadoria da Infância e Juventude para inclusão da pessoa no programa.
A partir daí, a Fundação IDEAH orienta sobre os procedimentos no sistema de saúde e encaminha a pessoa para avaliação em rede privada ou serviço credenciado. Durante esse percurso, as vítimas contam ainda com acompanhamento psicossocial realizado pela equipe multidisciplinar da Coordenadoria da Mulher. A proposta é fazer com que a atuação do Judiciário não termine necessariamente com a decisão judicial e alcance a vida que existe depois do processo.

Da sobrevivência ao recomeço
A cirurgia plástica de Maria foi realizada em dezembro de 2023. Cinco cirurgiões voluntários do programa participaram do procedimento. A reparação de sequelas físicas graves resgatou a autoestima da paciente e trouxe a possibilidade de uma nova caminhada para sua vida. "Eu sei que não é fácil, eu sei que é difícil enfrentar isso, mas eu só tenho a agradecer ao Tribunal de Justiça que, através deles, eu consegui fazer a cirurgia reparadora", afirma.
Maria não esqueceu o que aconteceu, mas não deixou a violência definir a sua história. "Vamos lutar mulheres, vamos para frente para acabar com esse índice de feminicídio que está acontecendo no Brasil todo. Cada dia são mulheres morrendo, algumas ficam com sequelas, como eu. Então, é isso, vamos lutar gente. Não perca a esperança, a vida continua para a gente".
O termo de cooperação entre o TJDFT e a Fundação IDEAH foi assinado em abril de 2023. A iniciativa foi reconhecida nacionalmente pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) por meio da conquista do 3º lugar no Prêmio de Responsabilidade Social e de Promoção da Dignidade do Poder Judiciário de 2025. "A premiação revela o nosso grande comprometimento com a política institucional de proteção às vítimas, regulamentada pela Resolução 386/2021 do CNJ", afirma a juíza Luciana Rocha.
Quando a violência deixa de ser invisível
A violência doméstica nem sempre começa com agressão física. Pode começar com humilhação, controle do celular, das roupas ou das amizades, ciúmes excessivos, tentativas de afastar a mulher da família ou ameaças que, pouco a pouco, transformam medo e insegurança em rotina.
Ela se manifesta por meio de um padrão repetitivo conhecido como ciclo da violência, que é estruturado, de modo geral, em três fases principais. Primeiro, cresce a tensão. Depois, acontece a agressão. Em seguida, pode vir uma fase de “lua de mel” com aparente arrependimento, pedidos de desculpas, promessas de mudança e manifestações de afeto. Contudo, a calmaria é temporária e se encerra com o reinício do ciclo, que pode ser ainda mais violento.
Quer saber se você está em um relacionamento abusivo? Acesse questionário produzido pela Coordenadoria da Mulher do TJDFT.
O que aconteceu com Maria ajuda a entender por que reconhecer os primeiros sinais pode ser tão importante para interromper uma trajetória de violência antes que ela se agrave. Medo constante, perda de autonomia, isolamento social, controle excessivo e desvalorização frequente são indícios que exigem atenção.
A 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo Instituto de Pesquisa DataSenado, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência, registra que a maior parte das mulheres que sofreram violência, nos últimos 12 meses, descreve a agressão como recorrente e não pontual. Em 58% dos casos, a violência se prolonga há mais de um ano. Além disso, a maioria das mulheres acredita que as vítimas de agressão denunciam na minoria das vezes (63%) ou não denunciam (23%).
Em 2025, segundo a 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio. Enquanto outras 4.189 sofreram tentativas. Os companheiros e ex-companheiros respondem por 79,8% dos crimes. Além disso, quase dois terços dos feminicídios registrados no Brasil, no último ano, ocorreram dentro da residência da vítima ou do autor.
Os dados reforçam a escalada da violência que acontece dentro de casa de forma, muitas vezes, silenciosa entre quatro paredes. Mas você não precisa passar pelo que Maria passou. Reconhecer os primeiros sinais pode impedir que o ciclo avance. Denunciar e buscar proteção pode interrompê-lo. O espelho pode contar outra história.
CMVDDF
A Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar da Justiça do Distrito Federal (CMVDDF) é uma unidade especializada do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) que oferece apoio às mulheres em situação de violência doméstica e familiar.
A CMVDDF atua por meio de uma abordagem com perspectiva de gênero, a fim de assegurar que cada caso seja tratado de forma eficiente e humanizada. Além disso, realiza campanhas educativas e articula a rede de proteção a fim de garantir a segurança e o bem-estar das mulheres. Para mais informações, acesse a página da CMVDDF.
Ouvidoria para Elas
O TJDFT disponibiliza ainda o Ouvidoria para Elas, um canal seguro, sensível e especializado voltado para o acolhimento, orientação e encaminhamento de mulheres em situação de violência, discriminação ou qualquer violação de direitos. Saiba como acessar o serviço.
A iniciativa está vinculada ao Núcleo de Atendimento à Mulher, unidade responsável pela escuta qualificada e humanizada, com atenção às especificidades de gênero no Tribunal. O Núcleo conta ainda com Guia Prático de Enfrentamento da Violência contra a Mulher. O material está disponível em pdf e áudio.



