Terça, 6 de abril de 2021
Quem é Yaku Perez?
Por Juan Ricthelly*
Vez ou outra na política latino-americana surgem personagens intrigantes, me arrisco que por conta de sua história e contradições, a América Latina talvez seja o local mais propício do mundo para que isso ocorra.
A eleição no Equador nos apresentou mais um desses tantos personagens, que chamou a atenção por suas singularidades e contradições, Yaku Perez é o seu nome.
Muito se falou sobre Yaku, seu programa, suas declarações e posicionamentos. Parte da militância ecossocialista do Brasil se sentiu confusa, pois não era tão fácil conter a empolgação diante da possibilidade de um indígena ser eleito presidente, com uma plataforma repleta de ecologia, bem viver e referências aos povos indígenas.
Por outro lado, era impossível conter o espanto e até mesmo a decepção com alguns posicionamentos e declarações de Yaku, o youtuber Jones Manoel chegou até mesmo a dizer que ele era uma mistura de Eduardo Jorge, com Vera Magalhães e Ernesto Araújo.
Eu pessoalmente não sei o que dizer ainda, e começo a escrever o presente texto com o propósito de analisar essa figura que me desperta curiosidade e sentimentos tão opostos, para isso, vou adotar o seguinte método:
Vou fazer um Raio X do Yaku, primeiramente analisando a sua biografia e história, em segundo plano a sua plataforma política e por último as suas contradições.
Também recomendo a leitura de outro texto que escrevi em 2019 sobre a política do Equador (A LINHA QUE DIVIDE O EQUADOR), acho que vai ser importante para contextualizar o personagem com o cenário.
DE CARLOS RANULFO À YAKU SACHA
Carlos Ranulfo Guartambel nasceu numa família camponesa de origem humilde, no cantão de Cuenca, localizado na província equatoriana de Azuay.
Sua mãe era a responsável por sua educação, e aos cinco anos o matriculou no Colégio Ramón Ulloa de Escaleras, posteriormente, ingressou na Escola de Tarqui e no Colégio Benigno Malo.
Aos treze anos começou a tocar saxofone nas missas, instrumento que se tornou parte de si e uma marca registrada.
Quando completou 15 anos, teve acesso à energia elétrica em sua casa, combinava os estudos e o amor pelos livros, com o cuidado da terra e dos animais, levando desde cedo um contato cotidiano com a natureza, vida no campo e suas dificuldades.
---------------------------------
1 https://www.gamalivre.com.br/2019/10/a-linha-que-divide-o-equador.html
---------------------------------
Em 1990 quando estudava na Universidade de Cuenca, travou a sua primeira batalha pela água, conseguindo expulsar uma mineradora que ameaçava um manancial nas montanhas, a partir disso, a luta pelo acesso à água se tornou parte de sua vida.
Se formou advogado e Doutor em Jurisprudência pela Universidade de Cuenca, tendo adquirido especialidade em Bacias Hidrográficas, Direito Ambiental, Justiça Indígena e mestrado em Direito Penal e Criminologia.
Se converteu em ativista defensor da água e dos povos indígenas, tendo sido presidente da União de Sistemas Comunitários de Água do Azuay (UNAGUA) e Federação de Organizações Indígenas y Camponesas do Azuay (FOA).
Foi eleito Conselheiro pela província de Cuenca de 1996 pelo partido PACHAKUTIK.
Em 2002, no governo Lucio Gutiérrez, liderou as marchas contra a privatização da água, sendo um opositor ferrenho da mineração em Quimsacocha e Río Blanco. Tendo sido acusado de terrorismo em 2011 por fechar estradas como forma de protesto contra a mineração
É autor de 7 livros, alguns traduzidos para dois idiomas:
Introdução ao Direito Parlamentar;
A Assembleia Constituinte; (Microsoft Word - AC reedición.doc (secureservercdn.net)
A Consulta Popular; (Microsoft Word - consulta popular carlos perez.doc (secureservercdn.net))
Consultas Comunitárias no Equador: Direito irrenunciável dos povos indígenas; (Consultas-Comunitarias-en-El-Ecuador-Perez-Guartambel-Yaku-Sacha.pdf (secureservercdn.net)
Água ou Ouro: Kimsacocha, a resistência pela água; (YakuPerez_AGUA-U-ORO.pdf (secureservercdn.net)
A Justiça Indígena; (YakuPerez_Justicia-indigena.pdf (secureservercdn.net))
A Resistência; (La Resistencia (secureservercdn.net)
Foi professor na Universidade de Cuenca, UDA e Universidade Politécnica Salesiana, tendo sido conferencista convidado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos e na Corte de Haya na ONU, sendo palestrante em diversos países e universidades.
Se tornou viúvo em 2012, perdendo a esposa e mãe de suas duas filhas, Ñusta e Asiry. Em 2013 conheceu a jornalista brasileira Manuela Picq, que o procurou para fazer uma entrevista sobre a luta pela água, acabaram percebendo que possuíam uma convergência ideológica que os atraiu, e se casaram numa cerimônia ancestral no Lago Kimsacocha, se tornando companheiros no amor e na luta.
Presidiu a Confederação dos Povos Kichwas do Equador ECUARUNARI durante o triênio 2013/2016.
O ano de 2015 foi politicamente turbulento, o país foi tomado por uma onda de protestos massivos que duraram de junho à dezembro, tendo como motivo inicial a criação de um imposto de 75% sobre as heranças e a taxação do lucro imobiliário, o segundo ponto propulsor dos protestos, foram as reformas constitucionais que possibilitariam a reeleição indefinida de Correa, no meio disso, outros grupos e pautas foram chegando, num processo semelhante a Junho de 2013 no Brasil, o movimento indígena por exemplo, pedia uma reforma agrária que redistribuísse 60% das terras cultiváveis, revogação da Lei das Águas e uma educação intercultural bilíngue, haviam protestos convocados dos neoliberais aos indígenas, sem coesão ou unidade de pautas comuns.

