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segunda-feira, 7 de agosto de 2023

O que falta para a vacinação dar certo

Segunda, 7 de agosto de 2023

Foto: Alexandre Macieira/Prefeitura do Rio

Mesmo no caminho certo, ministério não consegue dar tração ao Movimento Nacional de Imunização. É hora de diversificar estratégias por territórios, levar a vacina às residências, incluir as escolas e informar a população para combater fake news

OUTRASAÚDE                                                                                 SUS


Publicado originalmente no site OutraSaúde 07/08/2023

Carla Domingues em entrevista a Gabriel Brito

Primeira iniciativa do ministério da Saúde, a retomada do Programa Nacional de Imunização segue em seu esforço de retomar as altas taxas de cobertura vacinal que um dia o Brasil já sustentou. Mas, como mostra o ritmo de imunização, a tarefa está mais difícil do que antes. Há dois motivos principais, explicou a epidemiologista Carla Domingues, ex-coordenadora do PNI, em entrevista do final de 2022 ao Outra Saúde. Um deles é o negacionismo, que ganhou tração no governo Bolsonaro, em especial após a pandemia. Outro, também importante, é o fato de que a atual geração de pais é a primeira completamente vacinada – e que, por isso mesmo, desconhece o significado de doenças como varíola, difteria ou rubéola. A percepção do risco é muito menos clara.

“A situação do Brasil é muito preocupante, porque em algumas vacinas estamos com índice até mais baixo do que em 2022“, alertou ela, em nova entrevista. “Temos de buscar um pacto nacional, com envolvimento de governadores, prefeitos e principalmente o presidente da República. Penso que a ação do ministério da Saúde, ao buscar parcerias no setor privado, ainda é muito tímida. Nesse ritmo, não vamos recuperar as taxas de cobertura vacinal tão cedo”, avalia.

Em sua visão, o ministério da Saúde, apesar de agir na direção correta, ainda é tímido na execução de estratégias de esclarecimento sobre a importância e promoção das vacinações em si. A epidemiologista acredita ser hora de apertar o passo na diversificação de estratégias de vacinação, que não podem apenas repetir antigas campanhas, uma vez que a dinâmica da sociedade mudou.

“Para cada localidade temos de pensar numa estratégia”, ensina. “No município de 2 mil, 3 mil habitantes não tem sentido falar em posto de vacinação funcionando no horário noturno, no final de semana. Possivelmente, ir à casa das pessoas é mais fácil. Já uma cidade como São Paulo, precisa de posto funcionando de noite e postos volantes, que vão no metrô, em um shopping. Portanto, temos de identificar, de acordo com a realidade local, como funcionam os postos de vacinação, como vive a população, quais as dificuldades dessa população em ser vacinada e criar estratégias locais para buscar a elevação da cobertura vacinal”, diz Domingues, que inclui as escolas como parte essencial da estratégia.

De toda forma, não basta só a ação do governo. De acordo com a entrevistada, a ministra Nísia Trindade está correta em convocar a sociedade para um esforço coletivo. Foi com engajamento de diversas instituições e representações da sociedade civil que o Brasil conseguiu elevar sua cobertura vacinal e erradicar doenças, como a poliomielite, que agora ameaçam retornar.

E, diante dos estragos do movimento antivacina, é necessário dar educação científica as pessoas e combater a “hesitação vacinal”, como tem sido chamada por especialistas. Explicar os efeitos históricos positivos da vacinação e também os efeitos de um sistema de saúde sobrecarregado por doenças que poderiam ser evitadas. Pois tomar uma vacina de covid, por exemplo, e evitar uma internação também significa agilizar uma consulta para um tratamento de câncer ou liberar um quarto de UTI para quadros de enfermidades imprevisíveis.

“A vacina, junto com a água potável e os antibióticos, mudou completamente a expectativa de vida da população brasileira. Na década de 1950, tínhamos uma mortalidade em torno de 50 anos. Hoje, nós estamos perto de 80 anos. A vacina tem um papel fundamental nisso. A gente tinha uma mortalidade infantil várias vezes maior que a atual, que está em 12 para cada mil nascidos vivos. Com certeza as vacinas tiveram um papel preponderante no aumento da expectativa de vida da população brasileira e na diminuição da mortalidade infantil. Precisamos comunicar a população”, exemplificou.

Quanto ao movimento negacionista, Carla Domingues concorda com Nísia a respeito de sua responsabilização pelas sequelas geradas por sua desinformação. Isto é, o Brasil precisa criminalizar aqueles que promoveram uma onda de desinformação causadora de muitas mortes.

“É muito sério deixar uma população com insegurança para se vacinar. Criar ou disseminar fake news merece responsabilização. Qualquer pessoa que dissemina e principalmente cria fake news tem de ser responsabilizada, é muito sério. Mais ainda quando se trata de profissionais de saúde. Essas pessoas têm de ser responsabilizadas”.

Leia a entrevista completa com Carla Domingues

Como tem observado o Programa Nacional de Imunizações em 2023 e a abordagem do novo governo?

Felizmente, vemos um esforço de priorização da vacinação. O programa agora tem um diretor que está tentando resgatar as coberturas vacinais, mas ainda é um trabalho incipiente. Nós precisamos ter uma postura mais firme para resgatar as coberturas. A situação do Brasil é muito preocupante, porque em algumas vacinas estamos com índice até mais baixo do que 2022. Temos de buscar um pacto nacional, com envolvimento de governadores, prefeitos e principalmente o presidente da República. Penso que a ação do ministério da Saúde, ao buscar parcerias no setor privado, ainda é muito tímida. Nesse ritmo, não vamos recuperar as taxas de cobertura vacinal tão cedo.

Como o ministério poderia melhorar sua estratégia de promoção da vacinação?

Em primeiro lugar, precisamos voltar a ter campanhas publicitárias esclarecendo porque existe um programa de vacinação, qual a importância das vacinas e, principalmente, qual o risco de não termos altas coberturas vacinais, em especial nas crianças, que nascem sem nenhuma proteção de qualquer doença. Crianças são o grupo mais vulnerável, com riscos de elevação inclusive da mortalidade infantil no Brasil a partir do possível o retorno de doenças como pólio, difteria, coqueluche, aumento da meningite, rotavírus…

Precisamos mostrar à população porque devemos vacinar as nossas crianças e principalmente completar o esquema vacinal. Não adianta começar o esquema e não terminar. Cada vacina tem um esquema, algumas de duas, três doses, outras tem reforços feitos ao longo da vida, especialmente até os quatro anos de idade. Precisamos de todas as crianças com sua caderneta de vacinação completa.

Temos, hoje, uma geração de pais que não conhece certas doenças justamente porque foi imunizada na infância. Assim, essas doenças deixaram de acontecer no país e começamos a achar que vacina não é importante, já que as doenças não aparecem mais. No entanto, devemos mostrar aos pais e mães que se deixarmos nossas crianças sem vacinas não só a mortalidade infantil pode aumentar como as doenças podem causar sequelas irreversíveis, como cegueira, surdez, problemas de desenvolvimento neurológico, paralisia infantil, coisas que afetam o desenvolvimento das crianças ao longo da vida. Há uma enorme quantidade de doenças se a gente não vacinar nossas crianças.

A comunicação é estratégica e não estamos vendo essa mobilização em torno de falar da importância da vacina, tentar trazer esses pais para os postos de vacinação. Outra questão importante é que há uma dificuldade muito grande de muitos pais que querem levar os seus filhos para vacinar, mas não conseguem comparecer aos postos de saúde porque eles funcionam em horário muito limitado. Nós temos uma geração de pais que estão desempregados ou no mercado informal. Assim, se só tiver o posto de vacinação funcionando de 8 às 11:30 horas e das 14 às 16 horas, esses pais não conseguirão ir ao posto de vacinação.

Temos de criar condições de facilitar a vacinação, seja com postos volantes que facilitem a ida da vacina a essa criança, a esse pai, seja através de horários estendidos, com alguns postos funcionando no horário noturno, no final de semana. Vimos como isso funcionou na campanha de covid. Com horário limitado para vacinação, não vamos recuperar as coberturas vacinais. E hoje temos um Programa de Saúde da Família, muitos municípios têm 100% de cobertura. Ele precisa ser envolvido, ajudar a buscar essas cadernetas de vacinação, identificar quais são as crianças que estão com a caderneta incompleta e criar condições para que sejam vacinadas.

Por fim, devemos envolver a escola. Precisamos que toda criança que frequente a escola esteja com a sua caderneta de vacinação. Podemos ter duas estratégias, seja criando condições para que os profissionais de saúde avaliem a caderneta de vacinação, possam identificar e facilitar o comparecimento da criança ao posto de vacinação ou fazer com que a vacinação chegue ao ambiente escolar. Para cada localidade temos de pensar numa estratégia. No município de 2 mil, 3 mil habitantes não tem sentido falar em posto de vacinação funcionando no horário noturno, no final de semana. Possivelmente, ir à casa das pessoas é mais fácil. Já uma cidade como São Paulo, precisa de posto funcionando de noite e postos volantes, que vão no metrô, em um shopping. Portanto, temos de identificar, de acordo com a realidade local, como funcionam os postos de vacinação, como vive a população, quais as dificuldades dessa população em ser vacinada e criar estratégias locais para buscar a elevação da cobertura vacinal.

O que pensa da afirmação da ministra da Saúde, Nísia Trindade, ao mencionar que a retomada de taxas vacinais desejáveis são também uma responsabilidade da sociedade, que deve fazer um movimento nesse sentido? O que isso revela do contexto brasileiro?

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Dossiê Pandemia vê o SUS diante da chantagem dos mercados

Segunda, 28 de novembro de 2022


Dossiê Pandemia vê o SUS diante da chantagem dos mercados

Documento lançado na semana passada pela Abrasco [Associação Brasileira de Saúde Coletiva] reúne análises de dezenas de pesquisadores e debate legados e perspectivas da crise sanitária. Em suas páginas, fica clara a incompatibilidade entre saúde pública e neoliberalismo

OUTRASAÚDE
Publicado 28/11/2022

Após reunir milhares de pessoas em centenas de oficinas, debates e apresentações de pesquisas, o 13º Congresso da Associação Brasileira de Saúde Coletiva entrega uma relevante contribuição a toda a sociedade. Trata-se do Dossiê Abrasco da Pandemia de Covid-19, documento escrito em conjunto por dezenas de pesquisadores e profissionais do campo da saúde, dividido em três partes que somam 315 páginas.

“O Dossiê sobre a covid-19 nos chega em um momento decisivo para debatermos os legados e as perspectivas da pandemia. Ao mobilizar seus associados, que atuam nas várias disciplinas da Saúde Coletiva, a Abrasco nos apresenta uma análise técnica e política que é, ao mesmo tempo, profunda e abrangente. Uma reflexão fundamental para aprendermos com o passado e nos prepararmos melhor para as emergências sanitárias do futuro”, afirma Nísia Trindade Lima, presidente da Fiocruz, na apresentação do documento.

O Dossiê se divide em três grandes capítulos, que se desenvolvem em subtemas associados. São eles: 1) A emergência da covid-19 em um país desigual e injusto; 2) A gestão da pandemia no Brasil em toda sua complexidade; 3) Lições aprendidas e desafios pós-pandemia.

O estudo conecta a realidade brasileira com a mundial, ao destacar que mesmo nos países líderes do capitalismo, os sistemas de saúde não estiveram à altura das necessidades impostas pela pandemia. E o motivo é um só: a “razão de mundo” neoliberal que hegemoniza as relações políticas, sociais e econômicas globais. São décadas de desmonte do chamado bem-estar social.

“Uma análise da Organização Mundial de Saúde (OMS), referente ao período imediatamente anterior à pandemia, registrou que os países apresentavam como principais fragilidades: insuficiência das ações de vigilância, monitoramento e gerenciamento de risco; ausência ou inadequação da comunicação de risco; inexistência de uma rede global de vigilância genômica; deficiências dos sistemas nacionais de saúde em relação à assistência aos infectados e aos enfermos, incluindo a proteção dos trabalhadores de saúde; incapacidade de assegurar a provisão adequada de medicamentos, equipamentos e insumos, destacando-se o acesso equitativo a vacinas”, informa o dossiê.

Dessa forma, a pandemia apenas pôs a nu o reflexo de um modelo de governança global que prioriza formas pouco produtivas, ambientalmente destrutivas e até fictícias de acumulação privada de capital, dentro do qual os Estados são meros balcões de negócios onde oligarquias colocam a vida a serviço dos movimentos e instintos dos mercados financeiros. Não à toa um país como a Espanha se depara com fuga de médicos e imensas manifestações em favor do sistema público de saúde.

No Brasil não é diferente e, mesmo quando estamos diante de um razoável acordo social em favor de aumento dos investimentos no SUS, o cerco ideológico neoliberal, desproporcionalmente amplificado pela mídia empresarial, continua a tentar impor condições que em nada se referem às necessidades objetivas dos usuários de serviços de saúde.

É evidente que o contexto específico brasileiro, que enfrentou a pandemia sob a administração de um neofascista que combateu as posições respaldadas pela ciência com afinco, ampliou as nossas adversidades. Morreu-se muito acima da média no Brasil de Bolsonaro, Pazuello e uma classe médica politicamente alinhada. Mas ainda há pandemia e neoliberalismo em nosso cotidiano. O vírus não desapareceu. A ditadura dos mercados tampouco. Como é consenso no campo da saúde, devemos também nos preparar para novas epidemias globais.

“O combate à covid-19 requer o aprofundamento da democracia e de relações virtuosas entre direitos individuais e coletivos, esses últimos de reconhecimento tardio, mas de importância crucial para o futuro da humanidade. De fato, só será possível construir projetos orientados por mais equidade, justiça e cidadania ao fortalecer a dimensão política das relações sociais. São esses valores que devem orientar o esforço interdisciplinar e as consequentes respostas a serem dadas frente à crise sanitária, econômica, social e humanitária que abalou o mundo neste início de século XXI”, sintetiza o documento.

Não se trata de meros apontamentos ideologicamente motivados, como costumam atacar os teóricos neoliberais a respeito de tudo que contrarie seus objetivos privatistas. “São os principais autores e autoras da Saúde Coletiva no Brasil. São muitas vozes, que tratam dos legados e perspectivas para tratarmos emergências catastróficas como esta que ainda vivemos”, completa Rômulo Paes, vice-presidente da Abrasco e editor do dossiê.

Você pode acessar por aqui o Dossiê Abrasco da Pandemia de Covid-19.

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Fonte:  OUTRASAÚDE