Terça, 22 de novembro de 2011
Da Veja
Parlamentar que solicitou ao governo dados
sobre os funcionários de confiança e descobriu que há mais de 23.000
deles, critica inchaço da máquina pública
Gabriel Castro
José Antônio Reguffe: ataques ao inchaço da máquina pública
(Gustavo Lima/Agência Câmara)
"Uma boa parcela dos cargos comissionados está mais preocupada em atender o político que o indicou do que o contribuinte"
A edição de VEJA desta semana mostra o tamanho do loteamento da máquina
pública no país. São exatos 23.579 cargos de comissão, ocupados sem a
necessidade de concurso público. Os dados foram fornecidos pelo
Ministério do Planejamento depois do pedido do deputado José Antonio
Reguffe (PDT-DF). A Inglaterra, por exemplo, tem 300 cargos
comissionados. No Chile são 600. Na França, 4.000. O excesso só comprova
aquilo que se sabia há tempos: os espaços na Esplanada são usados como
moeda de troca pelo governo. Eleito com a maior votação percentual da
Câmara, Reguffe tem enfrentado uma cruzada quase solitária pela redução
da máquina pública. Antes que alguém questionasse, ele tratou de enxugar
a estrutura do próprio gabinete: dos 25 comissionados que poderia
nomear, indicou 9. O deputado também defende que seu partido entregue os
cargos do Ministério do Trabalho para poder atuar com independência.
Reguffe conversou com o site de VEJA.
Os cargos de confiança são mesmo necessários? Alguns cargos
devem ser comissionados sim, como chefe de gabinete e assessor direto.
Mas há um excesso desses cargos na máquina pública e isso não segue os
interesses do contribuinte. Há muitos postos, uma imensidão, que são
ocupados por pessoas sem qualificação técnica para exercê-los. O que tem
que valer não é a filiação partidária e sim a qualificação técnica e
moral do indicado.
Seria preciso mexer em uma estrutura consolidada há anos. É
preciso mudar a forma de ocupação dos cargos públicos. De um lado,
temos que reduzir bruscamente o número de cargos comissionados. A França
tem 4.000. Os Estados Unidos, 8.000. Aqui, 23.579. Países como a
Alemanha têm 500 cargos, apenas. É preciso também que se criem planos de
carreira que motivem o servidor concursado, porque muitos deles são
extremamente competentes, mas estão desmotivados. É necessário que
exista formas de ascensão profissional, como bônus de desempenho, para
que esses servidores tenham motivação dentro do serviço público.
O alto número de comissionados é um indicativo do tamanho da máquina movida pela corrupção? É
importante que nós tenhamos um estado que cumpra seu papel, que é a
devolução de serviços públicos de qualidade ao cidadão. É claro que
existem exceções, mas boa parcela dos cargos comissionados está mais
preocupada em atender o político que o indicou do que o contribuinte,
que é a finalidade. Esses cargos deveriam ser reduzidos bruscamente
porque muitos são escolhidos apenas pela filiação partidária do indicado
e não pela qualificação técnica. A presidente Dilma, que está me
surpreendendo positivamente nesse início de governo, tem a chance de
fazer esse gesto corajoso e fazer um corte brutal, exigindo critérios
mais rigorosos para a ocupação desses cargos.
Há quem diga que, por ser um país gigantesco, o Brasil realmente precisaria dessa quantidade de cargos comissionados. Os
Estados Unidos são maiores do que o Brasil e têm muito menos cargos.
Não justifica. Isso não é só no governo federal. Os governos locais e as
prefeituras repetem isso. Preferem nomear cargos comissionados para
garantir o quinhão a cada político em vez de buscar pessoas qualificadas
para servir a sociedade, que deveria ser o correto. Quando era deputado
distrital, pedi ao governo local o número de cargos comissionados. Na
época, eram 15.553. Mais do que o triplo da França.
Para resolver isso, não seria preciso mudar primeiro a lógica das alianças partidárias? Os
ministérios e os órgãos públicos não podem ser propriedade de um
partido político. Eles pertencem à sociedade e ao contribuinte, a quem
deveriam servir e prestar contas. Não são propriedades dos partidos
políticos, são propriedade da sociedade.
O senhor defende, então, que o PDT entregue o Ministério do Trabalho? Na
minha concepção, o partido deveria adotar uma posição de independência,
elogiando o que é certo e criticando o que está errado. O PDT daria uma
melhor contribuição para o país estando nessa posição, sem cargos.
Quando você não tem cargos no governo, seu elogio tem mais autoridade e,
sua crítica, mais legitimidade. Na minha concepção, o partido deveria
adotar uma postura de independência – que, aliás, é como eu ajo no meu
mandato. Um parlamentar que vota sempre sim ou sempre não só porque
aquilo vai beneficiar ou prejudicar o governo não tem a menor
consciência do que é a sua responsabilidade.
Isso vale para o PDT? Vale para todos. Passa para a
sociedade a impressão de que a política é um grande balcão de negócios.
Política tem que ser um debate de ideias, de convencimento. É muito mais
do que brigar por cargos no governo e liberação de emendas. O estado
gasta muito com as atividades-meio e pouco com as atividades-fim.
Educação, saúde e segurança pública: é para isso que serve o governo.
Hoje, 91% do que o estado arrecada é gasto com o custeio da própria
máquina. Sobra muito pouco para investimento. Temos 38 ministérios. Na
década de 1960, eram 12.