Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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sábado, 30 de abril de 2022

As rondas da memória

  Abril

30

As rondas da memória
Nesta tarde do ano de 1977, se reuniram pela primeira vez catorze mães de filhos desaparecidos.
Desde então buscaram juntas, juntas bateram nas portas que não se abriam:
— Todas por todas — diziam.
E diziam:
— Todos são nossos filhos.
Milhares e milhares de filhos tinham sido devorados pela ditadura militar argentina e mais de quinhentas crianças haviam sido distribuídas como prendas de guerra, e nenhuma palavra era dita pelos jornais, pelas rádios, pelos canais de televisão.
Alguns meses depois da primeira reunião, três daquelas mães, Azucena Villaflor, Esther Ballestrino e Maria Eugenia Ponce também desapareceram, como seus filhos, e como eles foram torturadas e assassinadas.
Mas a caminhada das quintas-feiras, ninguém mais conseguiu parar. Os lenços brancos davam voltas e mais voltas pela Plaza de Mayo e pelo mapa do mundo.

    Eduardo Galeano, no livro Os filhos dos dias (Um calendário histórico sobre a humanidade), L&PM Editores, 2012, página 144.

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Saiba mais acessando: 
MÃES DA PRAÇA DE MAIO NA ARGENTINA: 42 (44) ANOS DE MATERNIDADE POLÍTICA

Na Argentina, falar da ditadura e dos militares que a conduziram é motivo de desonra

O túmulo dos ditadores que ninguém quer recordar  (Repúdio da sociedade argentina aos crimes dos militares faz com que as famílias dos governantes tenham vergonha de se associar a eles. Até os corpos se perdem no esquecimento)

A regra de sangue da Operação Condor, a aliança mortífera das ditaduras do Cone Sul   (A Operação Condor, aliança entre Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia, permitiu a troca de informações e livre trânsito para perseguir, torturar e matar opositores da ditadura no continente)

Argentina, o primeiro país a condenar os chefes da Operação Condor   (Um tribunal comprova o pacto das ditaduras latino-americanas para assassinar dissidentes)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Outras crianças roubadas

Fevereiro
15 
Outras crianças roubadas

— O marxismo é a máxima forma de patologia mental — havia sentenciado o coronel Antonio Vallejo Nájera, psiquiatra supremo na Espanha do generalíssimo Francisco Franco.
Ele havia estudado, nas prisões, as mães republicanas, e havia comprovado que elas tinham instintos criminosos.
Para defender a pureza da raça ibérica, ameaçada pela degeneração marxista e pela criminalidade materna, milhares de crianças recém-nascidas ou muito pequenas, filhas de pais republicanos, foram sequestradas e arrojadas aos braços das famílias devotas da  cruz e da espada.
Quem foram essas crianças? Quem são, tantos anos depois?
Não se sabe.
A ditadura franquista inventou documentos falsos, que apagaram suas pistas , e aplicou a lei do esquecimento: roubou as crianças e roubou a memória.

Eduardo Galeano. Livro ‘Os filhos dos dias’. L&PM Editores. 2ª ed. Página 63
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Leia também: Crianças Roubadas