Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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sábado, 5 de agosto de 2023

Carta aberta ao ministro Flávio Dino

Sábado, 5 de agosto de 2023

Diante das novas brutalidades da polícia contra negros e pobres, em três estados, tomo a liberdade de compartilhar algumas observações e propostas. Ao longo de décadas, acumulei mais derrotas que vitórias. Por isso mesmo, me permito algumas ponderações

OUTRASMÍDIAS
Outras Palavras
CRISE BRASILEIRA
por Rede Estação Democracia
Publicado originalmente em 03/08/2023 às 16:24


Por Luiz Eduardo Soares, na RED

Nem quando, em 1999, ouvi no rádio do carro a notícia de minha morte, nem quando, ainda garoto, ao lado de meu pai, escutei no radinho de pilha a leitura do Ato Institucional número 5, em 13 de dezembro de 1968 -eu ainda não atinava completamente seu alcance devastador-, nem mesmo quando, em 17 de março de 2000, soube pela TV que havia sido exonerado da subsecretaria de segurança do estado do Rio, o que me levaria a fugir com a família para o exílio. Nada disso. O momento mais marcante eu vivi, às 18:44 do dia 30 de outubro de 2022, assistindo à edição especial do Foro de Teresina: as curvas se encontraram, as linhas se cruzaram e o destino do Brasil começava a apontar na direção da vitória sobre o fascismo. Lula ultrapassava Bolsonaro na contagem de votos. Viramos! A comoção que tomou conta da sala, nos abraços enxarcados, nas interjeições embargadas, na alegria feroz e contagiante, nada tinha de ingenuidade quanto aos limites do que seria sensato esperar. Aquilo era nosso culto, o exorcismo em gritos e pranto da abjeção inominável que o bolsonarismo representava. Era nossa forma de louvar a vida, com seus riscos e contradições. O voto do povo trabalhador mais espoliado rasgava o capuz que nos asfixiava. O futuro se abria diante de nós.

Quem for incapaz de se emocionar com a simples lembrança desse instante jamais entenderá o sentido profundo, histórico, complexíssimo da palavra esperança, que frequenta o léxico vulgar e protagoniza toda retórica demagógica, e no entanto é chave para decifrar o enigma da humanidade.

A emoção da noite em que Lula venceu o dragão da maldade para salvar o mundo, eu preciso dela como de pão e água. Preciso dela, apegar-me a ela, para resistir à corrosão ácida do ceticismo, que derruba a energia com que travamos as lutas de todo dia. Mas como não ceder ao desânimo, como não desesperar, como não se render ao imobilismo político quando a notícia que chega por rádio, TV, internet, e nos telefonemas angustiados dos amigos, reporta mais uma chacina policial, mais um banho de sangue promovido por agentes do Estado (agora em São Paulo, logo depois no Rio e na Bahia, e a seguir onde?), supostamente em nome da segurança pública, supostamente em razão da chamada “guerra às drogas” —não há categoria mais cínica e venal, mais repulsiva e estúpida.

O que seria uma guerra às drogas numa sociedade que se embriaga, inundada por mercadorias alcoólicas, patrocinadas por interesses poderosos de mega-corporações capitalistas? Numa sociedade que explora o trabalho e devasta o ambiente, convive com o estupro e autoriza a brutalização, faz circular os mais iníquos mecanismos de acumulação de riquezas e desdenha da acintosa desigualdade, fundada no racismo patriarcal? Uma “guerra” de quase 50 anos que só produziu morte (sobretudo de jovens negros, verdadeiro genocídio) e degradação institucional, sem obter qualquer redução no consumo das substâncias ilícitas ou nos lucros bilionários dos beneficiários da proibição, sem promover qualquer avanço na segurança pública? Guerra que não passa de eufemismo, uma espécie de nome-fantasia, ou genérico, para execuções extra-judiciais em territórios vulneráveis. No caso de Guarujá, visando vingar o torpe assassinato de um colega profissional —sim, é necessário sublinhar que também policiais são vítimas dessa estupidez.

domingo, 2 de janeiro de 2022

No SUS, uma alternativa à “guerra às drogas”

Domingo, 2 de janeiro de 2022


Cresce a compreensão de que a política brasileira para substâncias psicoativas é brutal e desastrosa. Nos CAPS-AD e nas Redes de Atenção Psicossocial há bases para a mudança, diz a assistente social, psicanalista e ativista Fernanda Almeida

OUTRASAÚDE

Publicado no OUTRASAÚDE EM 25/12/2021 —  Atualizado 26/12/2021

Entrevista a Antonio Martins

O Brasil poderá, um dia, livrar-se da “guerra às drogas”? No início de novembro, um estudo internacional conduzido pelo grupo Harm Reduction Consortium [“Consórcio pela Redução de Danos”] apontou a política do país em relação a substâncias psicoativas como a pior, entre 30 nações analisadas – abaixo de México, Indonésia e Uganda. O relatório apontou dois problemas essenciais na conduta do Estado brasileiro. Sua base é a repressão generalizada — cujo foco não são nem as grandes redes de distribuição, nem os consumidores de classe média, mas comunidades onde o comércio das drogas “ilícitas” é feito. E, por se apoiarem num proibicionismo sem nuances, as políticas não dão apoio aos usuários que de fato necessitam de tratamento.

Mais ou menos à mesma época, Fernanda Almeida, trabalhadora de um CAPS-AD —serviço de saúde mental do SUS— e ativista da Reforma Psiquiátrica, foi convidada a ministrar o primeiro encontro de um curso sobre o assunto e atuar como mediadora dos demais olhares e reflexões de profissionais de campos diversos. Desenvolvido e realizado pelo Sesc-SP e com presença de pesquisadores que são referência no debate sobre o tema, o curso Questão Social das Drogas propôs olhares que, ao invés de partirem da proibição, enxergam contextos sociais, políticos, e práticas de atenção e cuidado. Considerou o vasto sofrimento psíquico demonstrado nos dados de saúde mental no Brasil. Percorreu a história da proibição, o racismo e as mudanças de políticas públicas e medidas jurídicas associadas às drogas, além de estratégias de redução de danos e práticas de cuidado à saúde mental. O curso faz parte de uma série de ações do Sesc-SP em torno da Questão Social das Drogas, como a publicação de textos e vídeos, que podem ser encontrados no endereço sescsp.org.br/questaosocial.


Ao falar a Outra Saúde sobre o curso, Fernanda destacou três aspectos abordados durante os dez diálogos que o compuseram. O primeiro é que já existe no SUS um dos elementos para uma nova política brasileira em relação a psicoativos. “O que muitas pessoas não sabem”, lembra ela, “é que existe uma rede potente e consolidada de atendimento e cuidado para as pessoas. Os CAPS-AD, por exemplo, são a porta de entrada para o cuidado em saúde. A partir daí a pessoa pode acessar toda uma rede socioassistencial de apoio, que inclui educação, moradia e cultura, somadas ao acompanhamento psicossocial”. Este sistema complexo, sabe-se, está sob ataque. O governo Bolsonaro tem desviado recursos crescentes para as chamadas “Comunidades Terapêuticas”, que partem de uma lógica primária baseada em confinamento e abstinência indiscriminada. Mas o Brasil pode mudar, em 2022. E é ótimo saber que já há raízes para uma política nova. Existe base e desejo, por parte dos movimentos sociais, para a construção de uma verdadeira e democrática “Nova Política sobre Drogas”.

Ela precisará, é claro, ir muito além dos CAPS-AD. Deverá enfrentar, em especial, o proibicionismo e a repressão. Estas atitudes, lembra Fernanda, não expressam uma “guerra às drogas” —mas “às pessoas”— os mesmos grupos sociais subalternizados durante 520 anos de colonialidade.

Por fim, tratou-se de um tema que para muitos é tabu: o uso adulto dos psicoativos. Eles nem sempre são um problema de Saúde, lembra a ativista. “A dependência química e a devastação que as drogas produzem, em certos casos, na vida das pessoas, têm muito menos a ver com as substâncias e muito mais com a sociabilidade absolutamente compulsiva e consumista”, afirma ela. Em contrapartida, há o uso moderado e prazeroso. “É preciso que a gente se reconheça como usuários de substâncias psicoativas… todos nós, em algum grau, fazemos o uso de substâncias lícitas ou ilícitas. Elas fazem parte da nossa vida”. Uma sociedade madura precisa estar preparada para levar este fato em conta. Fique, na sequência, com a entrevista completa com Fernanda Almeida.


Um estudo internacional divulgado há poucos dias, e coordenado pela rede Harm Reduction Consortium, avaliou que, entre 30 países, o Brasil é o que tem a pior política em relação às drogas psicoativas. O que levou você, trabalhadora de um CAPS-AD, serviço de saúde mental do SUS e ativista da Reforma Psiquiátrica, a aceitar convite do Sesc-SP para mediar as aulas de um curso, em São Paulo, que se propõe a repensar estas políticas?

Foi uma construção coletiva. Sou grata pela oportunidade de ocupar esse espaço oferecido pelo Sesc-SP. As três unidades (Bom Retiro, Carmo, Parque Dom Pedro II) que produziram esse trabalho tão importante —em conjunto com a Gerência de Estudos e Programas Sociais (Gepros)— estão em territórios em que a circulação de usuários é frequente. Nesse sentido, cumprem uma baita função social.

Buscamos uma abordagem que expresse uma práxis possível, quando estamos diante de pessoas que vivenciam o limite da existência, quando descobrem que o “remédio” transformou-se em “veneno” – ou seja, para aquelas cuja dose excessiva transformou o prazer em martírio. Antonio Lancetti, em um texto que eu considero primoroso defende que “para suportar paixões violentas como essas ou mergulhar na biografia de pessoas silenciadas carcerariamente, além de plasticidade psíquica, os terapeutas de CAPS-AD exercitam uma espécie de atletismo afetivo”.

domingo, 27 de outubro de 2019

Guerra contra as drogas

Outubro
27
Guerra contra as drogas

Em 1986, o presidente Ronald Reagan pegou a bandeira que Richard Nixon havia erguido alguns anos antes, e a guerra contra as drogas recebeu um impulso multimilionário.
A partir de então, aumentaram seus lucros os narcotraficantes e os grande bancos que lavam seu dinheiro;
as drogas, mas concentradas, matam o dobro de gente que antes matavam;
a cada semana se inaugura uma nova prisão nos Estados Unidos, porque os drogados se multiplicam na nação que mais drogados tem;
o Afeganistão, país invadido e ocupado pelos Estados Unidos, passou a abastecer quase toda a heroína que o mundo compra;
e a guerra contra as drogas, que fez da Colômbia uma grande base militar norte-americana, está transformando o México num enlouquecido matadouro.

Eduardo Galeano, no livro 'Os filhos dos dias'.
L&PM Editores, 2ª edição, página 339.
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sábado, 26 de outubro de 2019

Guerra a favor das drogas; HSBC: um banco com passado pesado e presente sulfuroso

Sábado, 26 de outubro de 2019
Outubro
26
Guerra a favor das drogas

Depois de vinte anos de tiros de canhão e milhares e milhares de chineses mortos, a rainha Vitória cantou vitória: a China, que proibia as drogas, abriu suas portas ao ópio que os mercadores ingleses vendiam.
Enquanto se incendiavam os palácios imperiais, o príncipe Gong assinou a rendição, em 1860.
Foi um triunfo da liberdade: da liberdade  de comércio.
Eduardo Galeano, no livro 'Os filhos dos dias'.  L&PM Editores, 2ª edição, página 338.

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