Diante das novas brutalidades da polícia contra negros e pobres, em três estados, tomo a liberdade de compartilhar algumas observações e propostas. Ao longo de décadas, acumulei mais derrotas que vitórias. Por isso mesmo, me permito algumas ponderações
OUTRASMÍDIAS
Outras Palavras
CRISE BRASILEIRApor Rede Estação Democracia
Publicado originalmente em 03/08/2023 às 16:24

Por Luiz Eduardo Soares, na RED
Nem quando, em 1999, ouvi no rádio do carro a notícia de minha morte, nem quando, ainda garoto, ao lado de meu pai, escutei no radinho de pilha a leitura do Ato Institucional número 5, em 13 de dezembro de 1968 -eu ainda não atinava completamente seu alcance devastador-, nem mesmo quando, em 17 de março de 2000, soube pela TV que havia sido exonerado da subsecretaria de segurança do estado do Rio, o que me levaria a fugir com a família para o exílio. Nada disso. O momento mais marcante eu vivi, às 18:44 do dia 30 de outubro de 2022, assistindo à edição especial do Foro de Teresina: as curvas se encontraram, as linhas se cruzaram e o destino do Brasil começava a apontar na direção da vitória sobre o fascismo. Lula ultrapassava Bolsonaro na contagem de votos. Viramos! A comoção que tomou conta da sala, nos abraços enxarcados, nas interjeições embargadas, na alegria feroz e contagiante, nada tinha de ingenuidade quanto aos limites do que seria sensato esperar. Aquilo era nosso culto, o exorcismo em gritos e pranto da abjeção inominável que o bolsonarismo representava. Era nossa forma de louvar a vida, com seus riscos e contradições. O voto do povo trabalhador mais espoliado rasgava o capuz que nos asfixiava. O futuro se abria diante de nós.
Quem for incapaz de se emocionar com a simples lembrança desse instante jamais entenderá o sentido profundo, histórico, complexíssimo da palavra esperança, que frequenta o léxico vulgar e protagoniza toda retórica demagógica, e no entanto é chave para decifrar o enigma da humanidade.
A emoção da noite em que Lula venceu o dragão da maldade para salvar o mundo, eu preciso dela como de pão e água. Preciso dela, apegar-me a ela, para resistir à corrosão ácida do ceticismo, que derruba a energia com que travamos as lutas de todo dia. Mas como não ceder ao desânimo, como não desesperar, como não se render ao imobilismo político quando a notícia que chega por rádio, TV, internet, e nos telefonemas angustiados dos amigos, reporta mais uma chacina policial, mais um banho de sangue promovido por agentes do Estado (agora em São Paulo, logo depois no Rio e na Bahia, e a seguir onde?), supostamente em nome da segurança pública, supostamente em razão da chamada “guerra às drogas” —não há categoria mais cínica e venal, mais repulsiva e estúpida.
O que seria uma guerra às drogas numa sociedade que se embriaga, inundada por mercadorias alcoólicas, patrocinadas por interesses poderosos de mega-corporações capitalistas? Numa sociedade que explora o trabalho e devasta o ambiente, convive com o estupro e autoriza a brutalização, faz circular os mais iníquos mecanismos de acumulação de riquezas e desdenha da acintosa desigualdade, fundada no racismo patriarcal? Uma “guerra” de quase 50 anos que só produziu morte (sobretudo de jovens negros, verdadeiro genocídio) e degradação institucional, sem obter qualquer redução no consumo das substâncias ilícitas ou nos lucros bilionários dos beneficiários da proibição, sem promover qualquer avanço na segurança pública? Guerra que não passa de eufemismo, uma espécie de nome-fantasia, ou genérico, para execuções extra-judiciais em territórios vulneráveis. No caso de Guarujá, visando vingar o torpe assassinato de um colega profissional —sim, é necessário sublinhar que também policiais são vítimas dessa estupidez.


