Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Fukushima: as primeiras doenças aparecem

Quarta, 28 de outubro de 2015
O único caso 'oficial' de cancro é só o começo. Investigações indicam que centenas de outros cancros têm sido e serão contraídos pela população local. Por Oliver Tickell, CounterPunch
Fukushima - Foto de Greg Webb/IAEA
O governo japonês declarou pela primeira vez que um trabalhador da central nuclear de Fukushima desenvolveu cancro no processo de descontaminação depois do desastre de 2011.
O homem trabalhou na central danificada por mais de um ano, durante o qual foi exposto a 19.8 msv de radiação, quatro vezes o limite de exposição japonês. Ele está com leucemia.
O ex-gerente de Fukushima, Masao Yoshida, também contraiu cancro no esófago depois do desastre e morreu em 2013 – mas a dona e operadora da central nuclear, Tepco, recusou-se a aceitar a responsabilidade, insistindo que o cancro se desenvolveu muito rápido.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Brasil na contramão

Segunda, 30 de maio de 2011

O governo brasileiro espera ampliar o seu programa nuclear, construindo até o ano de 2030 mais seis novas usinas, que deverão responder por 5% da energia elétrica gerado pelo país. Angra 3, no Rio de Janeiro, já teve liberado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social —BNDES— mais 6 bilhões de reais.

Enquanto isso, a Alemanha deverá fechar todas as suas usinas nucleares até 2022, sendo que oito serão fechadas de imediato. Em 2021 mais seis serão fechadas. Todas as demais deixarão de funcionar um ano depois.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Lei para proibir central nuclear

Quinta, 21 de abril de 2011 
Por Ivan de Carvalho
Há algumas décadas, uma novidade veio contribuir para fortalecer a economia baiana. A Tibrás – Titânio do Brasil S/A, que depois mudou de nome para Millennium Inorganic Chemicals e finalmente entrou em processo de fusão com a Cristal Company, que hoje controlam nove fábricas espalhadas pelo mundo. é uma sujeira, poluindo com substâncias como enxofre, ácido sulfúrico, sulfato ferroso, lindas praias do litoral norte da Bahia, nas proximidades de Salvador.
    A Tibrás instalou-se na Bahia para produzir dióxido de titânio, principalmente porque em outros lugares convenientes não encontrou guarida e o Estado da Bahia estava de braços abertos para o benefício desse expressivo investimento, ainda mais que vinha com o apadrinhamento político do influente general Golbery do Couto e Silva, criador do Serviço Nacional de Informações, o famoso e todo poderoso SNI.
 
    Ora, o que a antiga Tibrás produz é de reconhecida necessidade. Entenda-se: o produto fim. Mas ela opera com enxofre, ácido sulfúrico, sulfato ferroso. Já produziu muito mais poluição do que atualmente o faz, mas, apesar da construção de um emissário submarino para lançar restos químicos mais longe das praias, ainda assim os “efeitos colaterais” continuam muito grandes. Seria excelente se houvesse como obter o produto fim sem despejar na natureza os produtos colaterais que causavam tantos danos e ainda causam muitos.
 
    Não sei, mas talvez isso não seja possível, no estágio atual da ciência e da tecnologia. Então, a ex-Tibrás tinha de instalar-se em algum lugar do mundo. E a Bahia está aqui para essas coisas mesmo, afinal somos um povo hospitaleiro, acolhedor, cordato, estóico, chegando às vezes ao limiar do masoquismo.
 
    Mas o estado que viveu (e ainda vive, mitigada) a experiência da Tibrás não precisa – principalmente depois de uma espécie de reprise do incidente de Chernobyl em Fukushima – de uma usina nuclear.
 
    Esta deve ser a razão que levou o deputado Sandro Régis, do PR, a apresentar, na Assembléia Legislativa, no último dia 6, o Projeto de Lei Nº 19.093/2011, com apenas três artigos: 1º) Fica proibida a construção de central de fissão nuclear no Estado da Bahia; 2º) A central nuclear a que se refere o artigo 1º desta Lei é aquela destinada à geração comercial de eletricidade; 3º) Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
 
   Simples assim. E o deputado mostra, com números, a grande vantagem que seria desistir das usinas nucleares, trocando-as por energia eólica. Mas sua lei jamais entrará em vigor.
 
   Primeiro, porque, ou muito me engano, ou nesta Federação de fantasia que é o Brasil, uma Assembléia Legislativa não tem o poder de legislar sobre construção, no território em que vive o povo que ela representa, de uma usina nuclear. A União, no Brasil, canibalizou os Estados. Desde a origem, mas com seguimento até o estágio vergonhoso a que chegou hoje a nossa não-federação.
 
   Segundo, porque, ainda que o Estado tivesse competência constitucional para editar a lei proposta, a Assembléia não o faria porque, nela, o governador tem maioria esmagadora e o governador tem insistido em trazer uma usina nuclear para a Bahia, mesmo depois que Sergipe, que era candidato, já não quer mais e os governos de Pernambuco e Piauí, também concorrentes, prometem reexaminar a questão. Assim, a Bahia tem grande chance de ser “premiada” com essa “tibrás” mais crescidinha e, se for, a bomba (sem ironia nenhuma) vai para Rodelas ou Chorrochó, nas barrancas do São Francisco, proximidades das barragens de Moxotó e Itaparica, que servem à hidrelétrica de Paulo Afonso.
 
   Bem, independente do risco de centrais nucleares, onde quer que sejam instaladas, a geografia não parece muito estimulante, opte-se por Chorrochó ou Rodelas.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia desta quinta.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

quinta-feira, 17 de março de 2011

A ameaça nuclear pacífica

Quinta, 17 de março
 Por Ivan de Carvalho
    O grande desastre japonês ainda vai ser assunto por muito tempo, mas alguns aspectos evidentemente extrapolam os limites do importante país asiático e têm influência sobre o mundo e sobre o Brasil.

    O aspecto relacionado com a energia nuclear, decorrente do incidente nas usinas de Fukushima, que a cada dia se apresenta mais grave, é um dos que terão influência em nível internacional.

    O efeito principal será, até onde já se pode perceber, o de aumento da resistência à utilização da energia nuclear para geração de energia elétrica. Isto já está ocorrendo na sociedade, principalmente em organizações ligadas à preservação do meio ambiente, mas mesmo os governos ou vários deles não estão conseguindo permanecer imunes à desconfiança das populações de seus países quanto a essa forma de produzir energia elétrica.

    Na Europa, principalmente, e nos Estados Unidos, os governos estão procurando, com maior ou menor empenho, uma sintonia com o sentimento de apreensão dos povos que governam. Isso é até, em parte, uma condição de preservação política desses governos. Eles não podem parecer indiferentes aos riscos óbvios do funcionamento das centrais nucleares existentes e dos programas de construção de novas.

    Então, anunciam uma revisão geral das condições de segurança das usinas em operação nos países que constituem a União Européia e é claro que isso levará a semelhante revisão em todos os países democráticos europeus nos quais existam usinas nucleares. E é claro que os governos dos Estados Unidos e Canadá não poderão ficar fora dessa revisão.

    É evidente também que o incidente nuclear de Fukushima retardará os planos de construção de novas usinas, pelo menos durante o tempo em que serão pesquisados quais os meios possíveis para a redução de riscos a partir da fase de construção.

    Certamente muitos interessados virão com o argumento de que a energia nuclear não é dispensável, sendo, assim, obrigatória a construção de novas usinas, e, quanto aos riscos, a argumentação oficial não será apenas a de que mais cuidados de segurança serão adotados. Já está sendo alegado que a Europa, os Estados Unidos e, digamos, o Brasil, por exemplo (assim como a Rússia, a China, a Índia) não estão no nível de risco japonês de terremotos e maremotos.

    Ainda que verdadeira a alegação, nem por isto é de confiança. Só para lembrar. Não houve terremoto nenhum em Chernobyl, na então União Soviética (Ucrânia), mas houve aí o pior acidente nuclear até hoje registrado. Nos Estados Unidos já houve um acidente nuclear muito grave (quatro pontos numa escala que vai até sete) e eles têm lá a Califórnia, candidata a virar Japão a qualquer momento.

    Índia? Como a placa tectônica do Pacífico pressiona a placa asiática, razão dos terremotos japoneses, a placa tectônica indiana pressiona todo o tempo a placa asiática. Foi basicamente isto que em outras eras fez surgir a cordilheira do Himalaia, a maior e das mais recentes do planeta, da mesma forma que é das mais recentes a cordilheira dos Andes, na América do Sul.

    Não se tem notícia de ondas de dez metros de altura, como a do tsunami recente no Japão, no litoral brasileiro (desde 1.500 D.C.). Mas as duas usinas de Angra dos Reis em funcionamento foram construídas para suportar impacto de onda de até seis metros. Só. A “divisa” entre as placas do Atlântico e da América do Sul não é próxima da costa brasileira, mas...

    Mas quem já foi perguntar a elas o que podem estar aprontando? Ou quem garante que o maremoto não virá de cima, na forma de um corpo celeste de tamanho indesejado caindo no Atlântico?
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia desta quinta.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.