“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

AS CARPAS E AS MOEDAS

Quinta, 9 de fevereiro de 2023

AS CARPAS E AS MOEDAS

Longe do contato com seres humanos, protegidas por contenções de cimento que as mantinham reclusas naquele espelho d'água, tendo para si a exclusividade de água permanentemente pura, sem o risco de lhes faltar a sua ração, a vida parecia assegurada por sabe-se lá quantas décadas. 

Encerradas naquele cubículo cimentado, ali onde militares em constante revezamento pareciam afastar qualquer proximidade de estranhos, parecia certo que nenhum risco delas se aproximaria.

Muitas centenas de quilômetros ao sul do Território Yanomami, jamais as águas em que há muitos anos flutuavam poderiam tornar-se impuras. Quem imagina que não sobreviveriam?

Até a pandemia foi uma realidade distante que não atingiu as carpas do Palácio. Aqueles frágeis seres decerto sonhavam com uma vida quase eterna. Nunca poderiam supor que o seu único risco estava nas milhares de moedas que forravam o piso da sua piscina.

Quantos anos se passaram sem que elas despertassem a ambição dos inquilinos do Palácio. Mas há quem não resista a tudo que lembre fortuna. E, se não foram atingidas pelo mercúrio do garimpo ilegal ou pela falta de oxigênio causada pela covid, as carpas do Palácio também não resistiram à falta de respiração que lhes traria a avidez despertada por aquelas moedas com que antes dividiam tão harmoniosamente sua morada.

Fernando Tolentino
Jornalista, administrador.








segunda-feira, 22 de junho de 2020

UM IMENSO BOTECO (ATÉ QUANDO?)

Segunda, 22 de junho de 2020
Conversa com Tolentino
Se você é botequeiro ou já frequentou botecos, mesmo que ocasionalmente, conhece bem o tipo de que vou falar. Afinal, não foram poucas as vezes em que tomou lugar em sua mesa sem que ninguém chamasse. Tomou é a palavra apropriada, pois não raro se sentou em cadeira que viu desocupada, mas que era de um dos amigos que levantou por motivo fortuito, como ir ao toalete e afastar-se para cumprimentar alguém conhecido.

Além de sentar-se, o tal fulano assumia invariavelmente a direção da conversa, sem se importar com o assunto de que o grupo se ocupava. Se os amigos falavam de algum filme, mudava o assunto e falava de uma viagem que teria feito, fechando com um comentário digno de nojo: “Fui num quilombola [assim mesmo, confundindo com quilombo] e o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Acho que nem para procriadores servem mais” Se conversávamos sobre futebol, lá vinha ele com uma notícia de página policial e concluía: "[O policial] entra, resolve o problema e, se matar 10, 15 ou 20, com 10 ou 30 tiros cada um, ele tem que ser condecorado, e não processado.”

Em qualquer conversa, não tomava conhecimento da opinião da turma, trazendo comentários inadmissíveis para muitos e no mínimo desagradáveis para outros, como “quem usa cota está assinando embaixo que é incompetente. Eu não entraria num avião pilotado por um cotista. Nem aceitaria ser operado por um médico cotista”, “eu jamais ia estuprar você porque você não merece”, “um decote daqueles, sozinha na rua à noite e se queixando por ser estuprada”, “se um filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um couro, ele muda o comportamento dele”, “o erro da ditadura foi torturar e não matar", “foram quatro homens. A quinta eu dei uma fraquejada, e veio uma mulher.”

Se alguém perguntava aos outros quem ele era, um ou outro dava uma resposta tão vaga quanto a de achar que tinha estudado em outra turma da sua escola, mas nem sequer sabia o seu nome.

Era o tipo de cara que você encontrava em festas para a qual ele não foi convidado, tomava conhecimento de ter dito a alguém que foi você quem o chamou e, muitas vezes, era visto por você na mesa do próprio dono da casa, dando aquelas mesmas opiniões ou contando piadas impróprias, falando e gargalhando exageradamente alto, ocasionalmente com a boca muito aberta e, talvez até, enquanto ainda mastigava.

“Sabe quem resolveu virar político?” Surge um amigo com a surpresa e a reação é unânime de que não teria qualquer chance, com aquele seu jeito inconveniente. Que nada? De repente, está ele eleito deputado e até com razoável votação. Conclusão: há mais gente como ele entre os eleitores, com aqueles modos que temos como insuportáveis e opiniões absurdas.

Mais atentos à política, percebemos que ele não é o único com tal perfil. Mas vemos também que esses não são levados a sério pelos demais, mesmo porque não produzem nada de aproveitável.

Por isso, só pudemos reagir com zombaria quando o vimos entre os nomes que disputariam uma eleição para nada menos que a Presidência da República. Era demais imaginar que a maioria dos brasileiros tinham aquele tipo de visão do mundo e da política.

Só não nos demos conta de um detalhe. Quantos anos havia em que praticamente a unanimidade da mídia tratava os políticos como se todos fossem um bando de exploradores irresponsáveis, totalmente descomprometidos com os interesses da população.

Ora, se nenhum merecia a confiança do eleitor, tanto fazia votar em um como em outro. Menos, é claro, os que a mídia tinha como inimigos viscerais, os vinculados ao PT, apontados como responsáveis exclusivos em processo de corrupção no qual haviam se envolvido políticos de vários partidos que haviam trocado o apoio parlamentar ao governo liderado pelo PT por cargos que geriam grandes orçamentos públicos.

Pois aquele frequentador repugnante de botecos resolveu apostar no discurso justamente de que ninguém presta, de que governaria sem se misturar com outros políticos e partidos, e trazendo para a pauta justamente aquelas ideias retrógradas. Com elas, atrairia os setores mais atrasados das igrejas evangélicas, justamente os que mais cresciam entre as camadas carentes da população.

Seu inimigo maior? O PT, partido sabidamente comprometido com propostas inclusivas, a superação das condições de marginalização de negros e índios, a defesa das mulheres e dos homossexuais.

Inimigo também dos demais políticos conservadores, conseguiu murchar inicialmente a bola deles todos e, sozinho no ringue contra o PT, acabou atraindo o apoio de todos por gravidade.

O que nenhum deles pode é estranhar que viesse a tratar o Brasil como uma imensa mesa de boteco. Enquanto um grupo ultraliberal tenta governar para ele, destruindo tudo o que foi construído pelo Partido dos Trabalhadores e um tanto mais, dedica-se a disparar baboseiras, com que consegue agradar a claque ligada a igrejas pentecostais que atraiu para si e mais um pedaço da classe média que se horrorizou ao ver o risco de serem ocupados por gente de origem humilde, especialmente os negros, espaços de poder e privilégio que acostumou a ter como privativos de seus filhos.

E lá vem mais um disparate. E outro... e outro. Num crescendo que acaba colocando como projeto o recuo até o regime militar ou algo muito parecido com o que ele foi.

Vale lembrar uma particularidade daquele elemento que invadia os nossos espaços em mesas de boteco que prometiam ser agradáveis antes de sua chegada era que, além disso, invariavelmente se levantava deixando a conta para nós pagarmos.


Fernando Tolentino

Este texto foi publicado originariamente na Página Conversa com Tolentino

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Conversa com Tolentino: Ninguém duvide de Lula, o verdadeiro craque

Terça, 7 de agosto de 2018
Por
Fernando Tolentino


Como eu gostaria que meus filhos e netos pudessem ter visto o que Garrincha era capaz de fazer com a bola nos pés! Ou Pelé, Didi (soberbo!). Nilton Santos. No relacionamento de cada um deles com a bola, não ficava qualquer dúvida de quem mandava em quem. Isso define o craque. Para não recuar tanto no tempo, bastava que meus netos vissem em atividade Gerson, Tostão, Rivelino. Ou mesmo Sócrates, Ronaldinho Gaúcho, Zico. Todos divinos, como tantos outros. 


Se quiserem um bom exemplo, vejam Falcão em uma partida de futebol de salão. O importante não é como a bola chega, o espaço que dispõe para submetê-la ao seu controle, como reagirão os adversários. Interessa o que pretende fazer com ela. O objetivo. Para isso, é preciso surpreender sempre.

Pois imagine quando o juiz nega ao craque o acesso ao treinador, a participação do restante do time em suas jogadas, quando retira o espaço, o uniforme, a chuteira. Impede o diálogo com a arquibancada, rouba até a bola. 

Mesmo assim (acredite!), é possível se impor e, aos 45 minutos, do segundo tempo, antes do apito debochado do juiz uniformizado com as cores do time adversário, quando os narradores de rádio e TV já comemoram o seu isolamento e a sua inevitável derrota, marcar um gol de placa!

Partidos e candidatos batiam cabeça, alguns não viam como completarem as suas chapas, outro era obrigado a improvisar um acompanhante de palanque, todos revelavam total inaptidão para sensibilizar eleitores. 

Eis que surge o fator Lula. Ainda que invisibilizado pela prisão, ele dá um drible inimaginavelmente curto e caminha para a decisão da partida.

Até aí, nunca antes na história deste país, viu-se uma comédia tão grotesca.

Uma fila de pretendentes desfilava pelas manchetes de jornais e TV, exibindo seus falsos dotes e enfrentando a zombaria da população.

A dois meses da eleição, uma dúzia de nomes mal conseguia juntar as intenções apuradas em pesquisas e alcançar um terço das preferências. 

Do outro lado, impõe-se a um homem o mais rigoroso isolamento em seu cubículo. Sem sequer desfrutar direitos concedidos aos traficantes Nem e Marcinho VP, como o de meras entrevistas, há meses sem uma única palavra sua veiculada em canais de TV e rádio. Enquanto isso, em todos os horários de cada dia, jorram impropérios contra ele, insinuações, informações não comprovadas, falsidades nunca desmentidas. Não bastante, repete-se dezenas de vezes diariamente que ele está definitivamente fora da competição.

Mas o placar aponta que a preferência popular vai além de estável, mostra crescimento. O povo se vinga dos seus algozes, repete que não o esqueceu e exige a sua volta. Seus números nas pesquisas se impõem sucessivamente diante da soma de todos os concorrentes.

Na espreita, os inimigos comemoravam a aproximação do momento em que seu nome seria definitivamente alijado, calando o povo e decidindo o jogo contra a sua manifesta vontade. Para essa gente, que importa o povo? Entre eles, certamente comentavam: “Pobre gente. Não sabem que o jogo está decidido. É só chegar a hora de deixar claro que Lula não será candidato. Daí, é a nossa hora de entrar em campo e passar a mão na taça.” 

Pois, ao encerrar-se o prazo para que se anunciasse as candidaturas, explodiu uma notícia alarmante para eles.

Lula resolveu jogar o jogo, mesmo contra todas as evidências de que a ele – e ao povo – só restava perder. Manteve a sua candidatura, como garantia que seria feito, enquanto os eternos donos da política brasileira o ridicularizavam.

De dentro do presídio, veio a orientação do preso político. O PT reafirmou Lula como o seu candidato. E deixou clara a alternativa para se chegar o momento em que resolvam sufocá-lo. Os atônitos adversários viram surgir uma chapa de três nomes, mesmo só havendo duas vagas: Lula, Haddad e Manuela. 

Junto ao nome de Lula, um vice que poderá fazer as regras adaptarem-se às circunstâncias de quem o teme nas urnas e usa para isso o Judiciário. De sobra, atraiu o PCdoB, um partido que está na sua companhia desde a primeira tentativa, no distante 1989, passando pelas quatro vitórias desde 2002. Com ele, um nome que agrega a força da juventude e com o discurso já posto na pré-campanha. Não bastante, apresenta uma dobradinha de nomes que somam à força de Lula no Norte e no Nordeste as representações de regiões em que os seus índices de preferência não são tão altos: São Paulo e Rio Grande do Sul. 

Enfim, em nome de Lula, Haddad e Manuela vão caminhar pelo Brasil, levando o recado de Lula, sendo as suas pernas e as sua voz. Vão convocar as arquibancadas a se erguerem, incorporar a sua energia. 

Os adversários é que vão dizer se Lula estará na chapa ou estará Haddad em seu lugar. Se o nome de Manuela vai aparecer na urna. Não importa qual será a escalação desse time. Os dois serão Lula e têm o papel de levarem o Brasil a gritar em 1º de janeiro, o grito diário de Curitiba: “Bom dia, Presidente Lula.”
Fernando Tolentino

terça-feira, 15 de maio de 2018

A verdade do Plano "B"

Terça, 15 de maio de 2018
Por
Fernando Tolentino
Propor um Plano “B” é simplesmente burrice ou fazer o jogo dos golpistas?
É claro que não estou falando do cidadão comum, aquele que está angustiado com a aproximação da eleição e gostaria de ter logo um quadro definindo. E estou incluindo no conceito de “cidadão comum” o que se interessa por política e a acompanha pela grande mídia.

domingo, 13 de maio de 2018

Alguém esta sempre com você

Domingo, 13 de maio de 2018


Edith Vieira (Didi), minha mãe: quanta saudade!


Por
Fernando Tolentino
É fácil chegar na sala, abrir os braços e envolver a mãe como ela fez com você tantas vezes. Há quem não faça, mas não sabe o que está perdendo.
É simples ligar pra mãe e contar de novo o amor que tem por ela. Ou ir à sua casa e lhe dar o abraço mais gostoso de que tem lembrança. Sabemos que muitos não fazem isso; não sabem como ficariam mais ricos, mais plenos, mais fortes se o fizessem.
Sofrido é não ter como olhar nos olhos da mãe, puxá-la pra junto do corpo e envolver-se com ela como se voltassem a ser um só.
Quem vive isso sabe que teve momentos na vida em que, como agora, não é possível tocá-la, abraçá-la, beijá-la. Mas ela está ali. Está ali como sempre esteve, fosse ou não chamada. Simplesmente porque esta é a primeira coisa que as mães aprendem: estar ali.
Estar junto, como Maria esteve com Jesus.
A mãe é a companhia de quem está inteiramente só.
Na situação extrema de marginalização, convivendo com o medo e a violência em um presídio, sem qualquer acesso ao mundo exterior, a imagem forte para um filho ou uma filha que cumpre pena é a da mãe que continua amando incondicionalmente, esquece os seus desvios e despreza a humilhação das revistas para estar próxima e proporcionar um momento de carinho. Eis a lembrança da mãe como conforto.
É impossível esquecer o primeiro colo, o primeiro cheiro, o calor da pele, a mão firme a conduzir, a presença nos momentos de fragilidade.
Para uns, a mãe foi o primeiro exemplo a seguir. A expressão da coragem, da firmeza para decisões desafiadoras, a sugestão de um caminho. Ou simplesmente o ombro para chorar, a leveza do entendimento de um erro e o estímulo para uma nova decisão.
Por isso, entendo perfeitamente que Lula não está só. Entendo a força do momento em que ele e Leonardo Boff se abraçaram para chorar a saudade de Dona Lindu. A companhia de seus momentos de solidão ou fragilidade é a mesma Dona Lindu que tomou as mãos dele e de seus irmãos e os levou para uma nova vida em São Paulo. E ali os ajudou a cumprirem os seus destinos.
Tão distante desde que a vela de sua vida se apagou, Didi, minha mãe, continua comigo. Sempre.
Estas mulheres estão sempre conosco e merecem um beijo especial neste domingo.
Fernando Tolentino

sábado, 5 de maio de 2018

Três dias com Lula em Curitiba (Diário de Viagem)

Sábado, 5 de maio de 2018
Por Fernando Tolentino
Foi como se já estivéssemos sendo aguardados ali.

Desembarcamos em Curitiba, fizemos uma troca de hotel, almoçamos e rumamos para o Acampamento Marisa Letícia. A ideia era conhecê-lo e, dali, sairmos para o local em que militantes de vários estados brasileiros se reúnem e gritam diariamente em coro um “bom dia” para Lula pela manhã e um “boa noite” ao final do dia. Imaginávamos a força dessa manifestação e entendíamos que, portanto, não poderíamos perdê-la. 

Chegávamos no dia seguinte ao terrível incidente em que dois companheiros foram atingidos por balas de calibre 9mm, um deles com três tiros, ficando em estado grave. A segurança se intensificara, mas explicamos que estávamos em “uma visita” e fomos dispensados do cadastramento e da identificação.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Candidato à Eternidade

Quinta, 26 de abril de 2018
Por
Fernando Tolentino*

Quem foi mesmo o fulano que condenou Nelson Mandela? Quem aí sabe o nome de quem deu o tiro fatal em Che Guevara? Alguém sabe o nome do algoz de Tiradentes? Ou do assassino de Antônio Conselheiro?
Os nomes dos carrascos não merecem mais que o lixo. São meros serviçais.
Muitos sequer conseguem identificar os interesses que defendem. Menos ainda é possível entender o que anima as suas vítimas.
Aos 7 anos, talvez tudo o que Lula poderia ambicionar seria o dia seguinte, a estação seguinte, o ano seguinte. Afinal, na região em que vivia, já havia sido uma exceção por completar um ano, quando as estatísticas mostravam que isso só era possível para uma em cada dez crianças. Com 14 anos, não havia como sonhar mais do que com o dia em que se tornaria um torneiro mecânico. Quando ingressou no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, dez anos depois, dificilmente imaginava chegar à presidência da entidade. Liderando as históricas greves a partir de 1978, ainda relutava em participar de partido político, o que veio a ocorrer em 1979, com a fundação do PT.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Primeiros apontamentos sobre a intervenção

Domingo, 18 de fevereiro de 2018
Por
Fernando Tolentino

O momento ainda está recente para uma análise segura, mas cabe a primeira reflexão.

A direita tem um projeto de país e, com o golpe, criou a oportunidade institucional e midiática de implantá-lo. Desgastou-se tão rapidamente quanto era possível supor, tal o caráter antipopular e antinacional das medidas e os fatos recentes mostraram que está politicamente acuada. E muito antes de completar a implantação do projeto.

Seria ingênuo imaginar que iria simplesmente ajoelhar-se. Fez a sua primeira grande ofensiva, a parte hegemônica da grande mídia à frente.

Enquanto a esquerda comemorava a nada desprezível bofetada da Tuiuti, aproveitando o Carnaval para terminar de desmoralizar a coalisão golpista, inclusive aos olhos do mundo, a direita também se valia do mesmo carnaval para armar o bote.

Passou para a opinião pública a imagem de “guerra civil” no Rio de Janeiro, tendo como vítima a hipersensível classe média, sempre disposta a mergulhar no pânico, ainda mais na presença de um negro, um miserável, alguém que, por si só, já lhe representa uma ameaça. Fui genro de uma mulher que as poucas letras não impediam de esclarecer muito bem como esse raciocínio leva ao racismo. Ela se definia como racista e explicava que “tratamos tão mal os negros e por tanto tempo que só podemos esperar que eles aproveitem a primeira chance para vingar-se”.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Vocês não nos conhecem!

Quinta, 15 de fevereiro de 2018

“Basta estar vivo 
pra ser subversivo
(Ou subservivo.)”

Nesse breve atalho entre o berço, com guarnições de cambraia, hidratante importado para as dobrinhas e colônia francesa para realçar o cheirinho de bebê, imagino que tenha custado muito suor para chegar ao chamado reconhecimento do mérito.

Regras rígidas para não passar a hora das refeições, não sujar o uniforme antes de sair para a escola, só assistir desenhos animados na hora autorizada por mamãe, fazer as lições do dia, chamar a professora de senhora, só brincar com as crianças que os pais autorizassem, não falar com estranhos (muitos menos aceitar balinhas oferecidas por eles), não falar alto durante o culto ou a missa, entender que “é para o seu bem” tudo que lhes foi dito pelos familiares mais velhos.

Tudo isso deve ter sido muito cansativo.

Nem um só dia sem carne (de primeira) ou peixe ou frango ou equivalente. Sem sobremesa. Sem merenda entre as refeições. Nem um ano sem uniforme e sapatos novos. Sem cadernos e livros novos. Jamais um professor que lhe falasse mais alto que o autorizado pelos pais. Férias sem alguma viagem, de jeito nenhum. Talvez mais de uma para a Disney! Festas de aniversário (e noivado) com círculos selecionados de convidados. Nenhuma topada ou mesmo chuva sem a proteção devida. Um Natal sem o presente escolhido, nem pensar!

Como entender o lado de cá?

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Por que Lula incomoda tanto?

Sexta-feira, 19 de janeiro de 2018



Por
Fernando Tolentino

Estou terminando os preparativos de minha viagem a Porto Alegre.

Não poderia deixar de estar na mobilização diante do TRF 4 no momento do julgamento do recurso de Lula.

Fui a São Paulo em fevereiro de 2016 para acompanhar, diante do Fórum da Barra Funda, o depoimento dele e de Dona Marisa, que decisão do Conselho Nacional do Ministério Público suspendeu, tais as irregularidades que haviam sido cometidas.

Fui também, em 3 de maio do ano passado, acompanhar o depoimento de Lula que o juiz Moro adiou em uma semana, tentando se desvencilhar da grande manifestação que brasileiros de todo o País fizeram em Curitiba.

Um caso de idolatria?

Muito longe disso. Trago para explicar a minha dedicação a essa causa o breve texto da amiga (ainda somente virtual) Carla Christina Lemos (hoje, no Facebook). Publicou, perplexa, declaração de Reinaldo Azevedo (“O antipetismo e o antilulismo se tornaram uma profissão de vigaristas”) e, diante de meu comentário, buscou explicar a atitude do jornalista, que assumidamente não tem a menor simpatia pelo PT ou por Lula: “Ele sentiu na pele o que é uma injustiça. Reconheceu que a injustiça que se faz a um é uma ameaça que se faz a todos”.

É uma luta por Justiça, por democracia, pelo Estado de Direito. Sem isso, como crer que deixaremos um Brasil em que nossos filhos, nossos netos, nossos amigos e irmãos de luta poderão confiar na Justiça?

A nova amiga (também virtual) Vera Lopes traz ao conhecimento importante notícia que integrou a sua dissertação de mestrado sobre Canudos:

“Antônio Conselheiro não foi assassinado. Ele morreu de causa natural durante a última expedição militar. Ao fim da batalha, os militares obrigaram os poucos sobreviventes a revelarem o lugar onde Conselheiro estava sepultado. Desenterraram seu cadáver, retiraram sua cabeça e a levaram para o IML, para que o médico Nina Rodrigues, defensor da tese lombrosiana de que as pessoas rebeldes aos sistemas opressores seriam portadoras de anomalias genéticas (loucas de nascença) e isso poderia ser provado pela análise anatômica dos seus cérebros, confirmasse e tal tese e justificasse assim o crime (fraticídio) da República. Um fato, entretanto, é ignorado pela história: Conselheiro foi vítima da perseguição implacável de um juiz, Arlindo Batista Leoni, um intrigueiro caluniador que, de tanto insistir, acabou conseguindo desencadear a guerra e provocou a morte de cerca de 25 mil nordestinos. A história sempre se entrelaça nos seus fatos sociais, se repete, reproduz seus autores, cria novos...”

Afinal, essa é a principal lição de Curitiba. O juiz pode tudo. Se quiser, não precisará de provas para lhe jogar na cadeia. E pelo tempo que desejar.

Negar esse equívoco, lamentavelmente evidente, é uma obrigação do Tribunal Regional Federal da 4ª. Região. Mas, por incrível que pareça, é indispensável estarmos diante dele, os dedos em riste, para que se curve a esse imperativo democrático. Como ouvi ontem em debate com três grandes juristas brasileiros (Marcelo Neves, Beatriz Vargas e Eugênio Aragão), na pior das hipóteses: in dubio pro reo.

Isso até permite concluir que o julgamento do dia 24 não será de Lula (ou pelo menos somente de Lula), mas de Sérgio Moro, pois estará nas mãos dos três desembargadores a tarefa inalienável de concluir que o ex-presidente foi condenado pela exclusiva vontade do juiz paranaense, movido sabe-se lá (ou no mínimo desconfiamos) por que interesses.

LULA MERECE

Isso não quer dizer que minha presença em Porto Alegre não esteja ligada à figura ímpar de Lula. Não só por sua inocência, que até podia ser presumida há uma semana (e já seria motivo para a solidariedade da Nação), mas hoje é comprovada, depois que a juíza Luciana Oliveira, de Brasília, decidiu penhorar em favor de um credor o tal tríplex de Guarujá, propriedade inequívoca da empreiteira OAS.

Não falta quem acompanhe o novo julgamento de Lula – e não são poucos – com um desejo figadal de que seja mantida a sua condenação...

E sem que haja como negar: essa ansiedade não tem qualquer proximidade com o conceito de Justiça. Trata-se da condenação de Lula. E seja lá a que pretexto for.

Trata-se de dar consequência ao seu próprio ódio, nutrido pela ação de Lula enquanto presidente, em que principalmente suscitou uma desorganização no tradicional conceito de classes que, no Brasil, passados quase 130 anos, sobrevive à abolição da escravatura.

A ponto de que empresários prefiram não ter mais faturamento crescente por conta do alargamento do mercado consumidor e se contentem até com o risco do fechamento – ou pelo menos enfraquecimento – do seu negócio. Desde que os seus empregados e os da classe deles percam o direito a consumir produtos e serviços semelhantes aos usados por seus familiares, possam disputar com os seus filhos vagas em universidades, concursos ou até na lotação de aviões. Desde que o “Minha Casa, Minha Vida” não mais esvazie as altas especulativas dos aluguéis. Desde que esses trabalhadores, animados por salários mais compensadores e mais vagas de emprego (ou até as garantias mínimas do seguro desemprego e da “Bolsa Família”) percam a capacidade de se impor nas suas relações trabalhistas. Notadamente nas injustificáveis exigências feitas às empregadas domésticas.

Mas a verdade é que, justamente por tudo isso, milhões de brasileiros desejam ardentemente a absolvição de Lula.

E o querem pelo exato motivo que os outros temem. Por saberem que, nas condições presentes, só com sua eleição terão o Brasil de volta. O Brasil com que sonharam e que chegaram ainda que levemente a experimentar.

Tenho que reconhecer, entretanto, que a figura de Lula, em si, seria capaz de me mobilizar nessa luta.

Qualquer brasileiro que houvesse dedicado a sua vida à política teria ficado satisfeito com a oportunidade de ocupar a Presidência da República. Ainda mais por duas vezes. Nem precisaria ser um brasileiro com o passado de Lula, nascido na roça, criado sem pai em casa, dividindo o trabalho com a mãe e oito irmãos, com instrução primária, o título de torneiro mecânico como único instrumento para lhe garantir um lugar no mercado de empregos de São Paulo.

Lula não foi só um presidente que teve a chance de repetir um mandato. Saiu dele com popularidade acima de 80%. Tornou-se respeitado pelas maiores lideranças políticas do mundo e fez o Brasil mais respeitado por elas e mais queridos por seus povos. Foi reverenciado por boa parte do mundo acadêmico mundial, amealhando mais títulos de doutores honoris causa que qualquer outro brasileiro.

É até difícil entender como esse homem, sobrevivente de um câncer, abre mão de sua aposentadoria para retornar à disputa política, aceitando uma candidatura à Presidência da República, que nada pode lhe dar além de tudo o que conquistou.

Junte a isso o fato de que o risco de voltar a presidir o Brasil levou a que venha a ser lembrado pela História não só por seus feitos, mas pelo que foi obrigado a sofrer nos anos mais recentes. O fato de que a sua vida tornou-se uma sucessão de defesas em um emaranhado de processos judiciais de justificação no mínimo duvidosa. De ter o seu nome anunciado várias vezes por dia como desonesto em todos os principais noticiários de TV e rádio, assim como nas capas de jornais e revistas. De que a paz de toda a sua família tenha sido conturbada, sendo seus filhos objeto de minuciosas investigações, seus netos colocados diante do risco de tratamento desrespeito nas suas escolas e, mais que tudo, perder a mulher que acompanhou e sua vida e suas lutas, delas participando, mas que sucumbiu diante de tanto sofrimento.

Como não amar um homem que, diante de tudo isso, aos 72 anos, olha em outra direção e se percebe como a esperança do seu povo, fazendo questão de colocar-se de novo a seu serviço?

É com esse espírito e essa responsabilidade que estou de partida para Porto Alegre.

Entendo que talvez você não possa ir. Se eu não pudesse estar lá, estaria mobilizado em alguma manifestação, alguma vigília, junto a alguma multidão, mandando esse recado aos juízes de lá. E ao mundo.
Fernando Tolentino

domingo, 14 de janeiro de 2018

PSOL dá um salto de gigante

Domingo, 14 de janeiro de 2018
Por Fernando Tolentino
A melhor notícia dos últimos dias na política veio do PSOL. Embora anunciando que terão a sua própria candidatura à Presidência da República, defendem o direito de Lula a que também concorra ao cargo pelo PT.

A decisão põe o PSOL na mesma linha de combate do PCdoB e do PDT, que não conseguiu ainda atrair para ela o seu provável candidato a presidente Ciro Gomes.

Isso tem um significado muito especial. O PSOL faz também a leitura correta da realidade e rompe o que parecia uma vocação para uma política de gueto, vislumbrando na injustiça contra Lula a possibilidade de levar alguma vantagem eleitoral.

É perfeitamente compreensível que o PSOL lance o seu próprio nome na disputa para presidente da República. Vive a circunstância que levou o PCdoB a fazê-lo, empurrado pelas alterações recentes na legislação eleitoral. Mas há que se entender a lógica do PSOL de ter a campanha eleitoral como o momento mais oportuno para levar à opinião pública, em sua candidatura, as propostas que o fazem se propor como partido político. A nota da direção do PSOL deixa claro o que ela pensa disso: “Uma candidatura radical, popular e que aponte a necessidade de uma alternativa independente dos trabalhadores e trabalhadoras, sem-teto, sem-terra, da juventude e dos estudantes, das mulheres, negros e negras, da população LGBT e todos os oprimidos, sem se furtar ao debate sobre as diferenças de projeto que existem no campo das esquerdas.”

Enfim, acredita que há, nisso, um diferencial com relação ao Partido dos Trabalhadores e outros partidos de esquerda e quer se aproveitar da campanha para tentar provar isso. É um direito insofismável do Partido. E nisso reside parte da justificativa para que se lance na defesa de que Lula esteja na disputa. Se o PT não tiver um candidato forte, qual o contraditório para a sua proposta? Como tentar provar que é diferente?

Há mais do que isso. O PSOL evidencia a percepção de que a tentativa de retirar-se Lula da disputa não é um fato isolado.

Se é possível condenar alguém sem que haja provas, pode-se condenar qualquer um. Basta ser alguém que incomode, que ponha em risco o projeto de classe que está no poder. Com os números apresentados pelos principais institutos de pesquisa, Lula representa hoje a principal evidência desse risco. Vem daí a “necessidade” de eliminá-lo. 

Faltando somente alguns meses para que a campanha eleitoral chegue efetivamente às ruas, os setores que chegaram ao poder com o afastamento arbitrário e injustificável de Dilma Rousseff não conseguem apresentar um só nome que desperte qualquer interesse na opinião pública. A ponto de parte desse segmento considerar a possiblidade de assumir uma candidatura de alto risco, de extrema direita e que, para efeito eleitoral, vomita um discurso de rejeição à política como um todo. Enfim, uma reedição do Fernando Collor de 1989, que foi condenado por seus próprios padrinhos ao longo do mandato que lhe concederam. 

Não tendo quem lançar na disputa, os beneficiários do golpe parlamentar-jurídico-midiático de 2015 tratam de fazer derreter o nome da extrema direita, que chegou a alcançar certa notoriedade, e eliminar o nome de Lula. Alcançaria o sonho de ir às urnas sem uma concorrência real, fazendo um arremedo de eleição, em que só nomes do seu grupo teriam condições concretas de vencer.

Não há dúvidas para o PSOL. Há uma verdadeira ansiedade para condenar Lula, ainda que não haja como justificar isso. Veja que JUSTIFICAR inclui o radical JUS, de justiça. Tudo indica que se pretende confirmar, no dia 24 de janeiro, uma condenação pela propriedade por Lula de um imóvel, mesmo não havendo um só documento que a comprove. Mais grave, com a existência de documentos que demonstram o contrário: o imóvel integra o patrimônio da OAS e foi, por ela, colocado como garantia em negociação com a Caixa Econômica Federal. Às vésperas do julgamento, mais um obstáculo que seria logicamente intransponível para quem quer a condenação. Órgão do próprio Judiciário (2ª. Vara de Execuções e Títulos no Distrito Federal) reconhece formalmente que o imóvel não é de Lula, mas da OAS, ao incluí-lo entre os imóveis da empresa a serem penhorados.

O PSOL abriu os olhos e percebeu que Lula é apenas o nome da vez. O obstáculo do momento. Surja outro e será submetido ao mesmo tratamento.

Percebe finalmente que, embora seja fundamental, a tentativa de afastar Lula da disputa é só uma parte do problema.

Está em jogo o próprio Estado de Direito, a democracia. E são virtuais vítimas da sua destruição todos os que fazem o jogo democrático da luta pela manutenção dos seus direitos e pela conquista de outros tantos. Entre esses, estão organizações populares, assim como militantes do PT, mas também do PSOL e de outros partidos de esquerda.
 
Os golpistas já deixaram claro que não estão dispostos a aceitar limites para alterar a ordem constitucional e o direito de a sociedade se impor diante do poder econômico. A luta deles é para impor uma derrota que veem como definitiva para os setores populares e não querem respeitar o que se lhes coloque na frente como obstáculo ou dificuldade.


Fernando Tolentino 

domingo, 31 de dezembro de 2017

O risco de ter Lula como presidente

Domingo, 31 de dezembro de 2017
Por Fernando Tolentino


“Isto aqui não é o Brasil”, teriam gritado manifestantes argentinos em protestos contra mudanças na Previdência há duas semanas. A provocação foi noticiada por 247, Globo e vários outros meios. Chamou a atenção que os brasileiros não reagiram à palavra de ordem dos “hermanos”, pondo em dúvida a propalada animosidade contra os vizinhos do Sul.


Muitos de nós sabíamos o que eles queriam dizer. Vivemos idênticas adversidades: perda de direitos e esmagamento por uma política neoliberal que só interessa aos grandes interesses econômicos do mundo, à frente os Estados Unidos. Não era uma agressão, mas uma convocação. O sentimento natural entre nós foi o de admiração pelo espírito de luta deles e vergonha por nossa apatia.

Afinal, a revolta nos brasileiros poderia ser maior. Quem impõe o retrocesso lá é um presidente eleito. Aqui, foi alguém que traiu a presidenta com a qual foi eleito, uniu-se aos derrotados na eleição e assumiu o programa deles. 

O método é avassalador. Foi constituída uma decisiva maioria parlamentar, por vezes à base de corrupção aberta e ofuscada pela maioria da mídia, que esteve associada ao golpe e doura o modelo imposto. A tática é tal qual o “fogo de saturação”, quando uma tropa, com hegemonia militar, submete os inimigos a um ataque sucessivo, não lhe dando oportunidade para se reaglutinar. De fato, pode-se criticar tudo na atual composição do Congresso Nacional, mas dificilmente tenha havido época em que deputados e senadores trabalharam tanto. A tal ponto que uma rápida retrospectiva de pouco mais que um ano certamente implicaria em algum esquecimento importante. 

Questionado apenas por uma denodada minoria, o Executivo cortou recursos de diversos programas de atenção aos segmentos populares: Agricultura Familiar; Minha Casa, Minhas Vida; FIES; PróUni; Farmácia Popular; Pronatec; Bolsa Família; a assistência da Previdência Social e tantos outros. Cortou ainda recursos de diversos órgãos, especialmente nas áreas de saúde, cultura e educação, inviabilizando praticamente o funcionamento, por exemplo, das universidades federais.

Itens básicos para a população, como energia elétrica, gás e gasolina têm seus preços puxados violentamente para o alto, em índices muitos superiores à inflação. Enquanto isso, o salário mínimo tem o seu menor reajuste em 24 anos.

Com o apoio do Congresso, aprovou inúmeras matérias, inclusive emendas à Constituição. Impediu a elevação de investimentos públicos acima da inflação durante nada menos que 20 anos; mudou a estrutura curricular do ensino médio, colocando os egressos do ensino público em condição de inferioridade com relação aos do ensino privado; liberou a contratação terceirizada, inclusive no serviço público, com riscos seríssimos para os trabalhadores, total instabilidade no emprego, sua provável subordinação a processo políticos de escolha, desqualificação dos serviços, entre outros malefícios; destruiu o sistema de direitos trabalhistas, conquistados há mais de 70 anos, praticamente impedindo o recurso à Justiça, fragilizando a estrutura sindical ao máximo e estimulando o desemprego, além de permitir que empregados percebam remunerações aberrantemente baixos, insuficientes para sustentar-se e às suas famílias; criou benefícios para empresas que não cumprem as obrigações fiscais e previdenciárias; favoreceu a grilagem no campo; liberou a exploração de petróleo para empresas estrangeiras, aí incluído o Pré-Sal, que permitiria o financiamento das áreas de saúde e educação; privilegiou empresas estrangeiras que vão explorar petróleo no Brasil, dispensando-as de produzir equipamentos no país e ainda dispondo de isenção fiscal para a importação deles.

Junte a isso a entrega de setores estratégicos para o controle estrangeiro, como a Base de Alcântara para os Estados Unidos, e a permissão de manobras militares de tropas norte-americanas na Amazônia
.
Mas o seu maior compromisso com o sistema financeiro que bancou a rasteira na ordem constitucional é a Reforma da Previdência, talvez pior que a imposta aos “Hermanos”. Extingue na prática o direito à aposentadoria para os trabalhadores, empurrando as camadas de maior renda para o sistema privado. De fora, para viabilizar a aprovação e a sustentação do governo ilegítimo, ficam juízes, procuradores do Ministério Público, militares, deputados e senadores.

A demonstração da hegemonia golpista chega ao ponto de o Congresso curvar-se duas vezes diante de acusações comprovadas de corrupção do presidente.
Tem alguma dúvida de que os argentinos estavam com a razão?

UM GOLPE PARA QUEBRAR A RESISTÊNCIA DOS BRASILEIROS

Não é despropositada a sensação de impotência dos brasileiros. Afinal, elegeu um governo, que não escondeu o discurso no palanque, e o viu adotar políticas diversas no primeiro ano de mandato. Ou não foi assim que começou o segundo mandato de Dilma Rousseff? Ainda assim, restava a possibilidade de cobrar o compromisso. O que viu foi o Congresso simplesmente abortar o governo, diante da postura cúmplice do supremo, da colaboração frenética do Tribunal de Contas e do apoio entusiástico de quase todos os veículos de comunicação.

Para dar sustentação a esse golpe, a mídia conseguiu excitar incrivelmente parte das camadas médias e superiores da população, colocando grandes manifestações nas ruas. A motivação foi o discurso duvidoso de alegada corrupção. Essa argumentação que não foi falsa por não existir, mas por não ter vínculos claros com o governo de Dilma ou o de Lula.
O real é uma burocracia que historicamente conspira contra o Estado e o patrimônio público, associada a grandes empresários. Para drenar recursos para o setor privado, conta com a solidariedade dos partidos políticos, inclusive com a “legalidade” do financiamento privado de campanhas. 

Se houve participação de integrantes do Partido dos Trabalhadores, a verdade é que tal burocracia já servia durante décadas aos grandes partidos brasileiros e deles se valia. A tal ponto que esses partidos resistiram tenazmente ao fim do financiamento privado proposto pelo PT e outros partidos de esquerda.

Mas é fato que os governos de Lula e Dilma implantaram uma estrutura de transparência e controle da máquina pública, justamente para inibir essa corrupção. Não bastante, era insofismável a atitude da presidenta Dilma de absoluta intransigência com desvios, de tal forma que nenhuma autoridade denunciada permaneceu no cargo, ainda que as acusações ainda não tivessem sido apuradas.

A presidenta Dilma foi fustigada diariamente por uma imprensa que parecia inclemente diante de suspeitas de corrupção e que tentava incessantemente emplacar no PT a imagem de envolvimento descarado (e exclusivo) com essa apropriação dos recursos públicos. O Tribunal de Contas mostrava-se comprometido com a tentativa de mostrar uma presidenta incapaz de controlar a máquina estatal. A chamada Operação Lava Jato (unindo o juiz Moro, uma tropa de igualmente exibidos procuradores e policiais federais também nada isentos politicamente) trabalhava para dar sustentação às acusações da mídia. O Congresso Nacional cumpria a ameaçava do candidato derrotado Aécio Neves e atravancava o funcionamento do governo, ao mesmo tempo em que a Câmara cumpria uma agenda apelidada pelo seu próprio presidente de “Pautas Bomba”, com a finalidade manifesta de criar obstáculos à ação de governo.

Passado o golpe, o que a população vê é um sistema de poder totalmente azeitado: Executivo, Legislativo, Judiciário e grande mídia articulados no mesmo projeto neoliberal. As massas revoltadas de 2015 recolheram-se e não mais se mostraram incomodadas com a corrupção ou as mudanças impostas pelo governo.

LULA JÁ É PRESIDENTE

No primeiro momento, manifestantes foram às ruas com o Fora Temer e o presidente acabou confinado no rodapé das pesquisas de popularidade. Mas os brasileiros entenderam rapidamente. O Fora Temer dependeria da anulação do “impeachment”, para o que não teriam coragem os ministros do STF. Ou exigiria a aprovação de sucessão com Diretas Já, o que não passaria pelo Congresso. Daí, o afastamento do presidente significaria um tiro na água, a entrega do governo para o presidente da Câmara, não mais que uma imitação barata.

A conclusão foi óbvia. Quem representa o contrário do que o golpe impôs ao País? Quem melhor representa a vitória da eleição de 2014 e dos compromissos levados à campanha? Quem é que o poder instaurado com o golpe é capaz de fazer tudo para que não volte à Presidência?

Esta foi a saída encontrada pelos brasileiros.

A reação foi se espalhando, um pouco timidamente no início, represada por farto noticiário calunioso em todos os horários de rádio e de TV, em praticamente todas as edições impressas de grandes jornais. 

Mas a cada nova sondagem de opinião pública a vontade dos brasileiros foi se cristalizando. De repente, já era impossível dizer que o nome de Lula era apenas uma evocação dos programas sociais para os miseráveis. Os tradicionalmente altos índices de rejeição retraíram-se e, de mais rejeitado, Lula acabou sendo, entre os nomes mais citados pelos entrevistados, o de menor rejeição.
A composição social de seus possíveis eleitores também foi se alterando. O mais recente levantamento do instituto Ipsos mostra uma alavancagem nas classes A e B de 14% para 35% em somente seis meses. De 26% para 42% na mostra da população de nível superior.

Já não é possível desconhecer: Lula cresce entre os que se iludiram com a hipótese de afastamento de Dilma. Ficou claro o que o golpe trouxe e pretende trazer para os brasileiros. Os manifestantes favoráveis ao “impeachment” estão divididos entre os que, envergonhados, apenas se calaram e os que já enxergam Lula como uma esperança. O apoio ao governo ilegítimo ficou restrito a um pequeno grupo que sequer se manifesta.

Não vingou também a pesada e incessante artilharia contra o PT. Em um país sem tradição de voto partidário, o PT é o preferido de quase um em cada cinco brasileiros. Para se ter uma ideia, o segundo partido em ordem de preferência é o PMDB (um eleitor em cada 20 prefere a legenda) e o terceiro é o PSDB, escolhido por um em cada 25.

Cresce ainda a rejeição ao juiz Moro, que assumiu ares de “pop star” e o número de eleitores que assume votar em um nome indicado por Lula caso ele não possa ser candidato.

Tradução: na impossibilidade de mudar imediatamente a tragédia em que foi afundado, o brasileiro escolheu uma “tábua de salvação”, representada por Lula. E o faz não porque represente algo místico, mas justamente por conhecê-lo muito bem.

Já nas ruas, expondo-se à população de diferentes regiões do País, Lula pode até estar representando um papel que algum analista veja como benéfico para os golpistas. Basta que esse observador acredite na capacidade de sublevação das massas do país, pois sua existência como alternativa eleitoral estaria impedindo uma explosão imediata da população.
É como se o brasileiro comum veja Lula como se já fosse o presidente. Faltaria apenas o protocolo: submeter a eleições em que ganhará. É como se entendesse que todo o mal não importa, pois será corrigido por Lula. 

Não é um devaneio. As pesquisas identificam o que postei como ilustração deste artigo, uma mensagem de Whatsapp em que uma amiga brasiliense (saliente-se que Lula tem, na capital do País, os menores índices do Brasil) relata diálogo com famílias em que faz um programa assistencial. Lula figura ivariavelmente como a esperança daquelas pessoas.
Ouvi isso também ontem de um frentista, que concluiu agora o seu curso de Letras e atribui a oportunidade às políticas de Lula e Dilma. Há poucos dias, um desconhecido aproximou-se de mim, ao perceber que eu escutava uma mensagem de política no celular. Ao notar que era simpática a Lula, esperou o áudio terminar e comentou: “Eu voto em Lula de qualquer jeito” e foi adiante com um discurso, que combati: “Dizem que rouba, mas os outros roubam e não olham pelos pobres como ele”. Lembrei que o acusam sem qualquer prova e ele insistiu: “Se provarem, eu voto nele de qualquer jeito.” 

BASTA TER LULA COMO FAVORITO?

O primeiro problema desse amplo sentimento é contar a eleição como ganha. Ainda não há sequer a certeza de que Lula conseguirá concorrer. Isso pode ser superado se Lula, não sendo candidato, oferecer um nome que preencha o seu vazio, espalhando a mesma sensação de confiabilidade.

O segundo – e maior – já foi identificado e denunciado pelo próprio Lula. Não basta ele se eleger. É preciso que tenha uma base no Congresso capaz de ajudá-lo no resgate de tudo o que o golpe vem destruindo e avançar para propostas com as quais vem se comprometendo, uma delas a regulação dos meios de comunicação. Lula recorda que assumiu a Presidência em 2003 com 91 deputados. E é preciso lembrar que a bancada do PT não cresceu nas eleições seguintes, embora contasse com apoio do PCdoB e de políticos progressistas de outras bancadas.

Em seu favor, Lula terá, junto com a eleição para presidente, a renovação de dois terços das vagas de senadores. Se os seus eleitores perceberem a importância de garantir uma maioria consistente no Senado, o seu futuro mandato poderá ser facilitado.
Mas é preciso atenção especial para a eleição de deputados. Os eleitores em geral não costumam votar partidariamente e não é comum a maioria dos eleitos levar em conta a vontade ou interesse de seus eleitores durante os seus mandatos. Em um sistema de votos proporcionais, figuras como Tiririca ou o cantor Sérgio Reis costumam desequilibrar o pleito. Além disso, boa parte dos eleitores privilegia critérios como a indicação de pastores ou o presumido compromisso de candidatos com as suas regiões, em que a participação de vereadores na campanha tem enorme influência. Não bastante, os deputados trataram de alterar as regras eleitorais e, agora, poderão ser eleitos os mais votados entre os lançados por partidos que não alcançarem quociente eleitoral, assim viabilizando a reeleição de muitos deles. Foi ainda benéfica para os deputados mais ricos (ou que representem pessoas com grandes fortunas) a decisão de que o cidadão pode usar até 10% do seu rendimento na campanha.

É preciso usar o tempo que falta até a eleição para deixar claro para o eleitor de Lula que eleição é vista em nossa sociedade como uma forma de enganar os eleitores, levando-os a votarem sempre nos representantes de interesses que não são seus. Esses serão assegurados por uma bancada forte de senadores e deputados para aprovar as propostas de Lula. E é preciso saber como fazer para conseguir fazer isso.

Fernando Tolentino