Domingo, 30 de agosto de 2026
Conversa com Edmilson Costa, candidato à presidência pelo PCB
Do Monitor Mercantil
O Monitor Mercantil está publicando pelo Jorge Priori as “Conversas” com candidatos de esquerda que não encontram espaço na imprensa. Já foram publicadas com Edmilson Costa (PCB) e Hertz Dias (PSTU).
Conversa com Edmilson Costa, candidato à presidência pelo PCB
Segundo Edmilson Costa, candidato do PCB à Presidência, o Brasil precisa romper com o ciclo de políticas neoliberais que vem desde o início da década de 90.

Conversamos com Edmilson Costa, candidato à Presidência da República pelo PCB (Partido Comunista Brasileiro), sobre suas ideias e o Plano de Governo Construir o Poder Popular, rumo ao Socialismo. Edmilson tem 76 anos, nasceu em Pedreiras, Maranhão, e é doutor em economia pela Unicamp.
Quais são as principais propostas do seu Plano de Governo?
Antes de tudo, eu gostaria de dizer que a nossa candidatura foi lançada em uma conjuntura muito desigual e desafiadora. Desigual porque as classes dominantes brasileiras sempre procuraram afastar o povo das decisões econômicas e políticas, reproduzindo a velha ordem que privilegia os ricos e poderosos. Desafiadora porque o imperialismo em decadência está se tornando muito mais agressivo, violando as leis que ele próprio criou, invadindo países etc.
Portanto, como a nossa candidatura foi lançada em uma conjuntura adversa, nós vamos colocar a política no posto de comando, ou seja, nós vamos debater um conjunto de temas que as outras candidaturas não querem ou não podem colocar em debate em função de suas identidades de classe ou das suas alianças políticas.
Por exemplo, nós vamos colocar em debate a revogação de toda a legislação neoliberal, que foi implementada desde o início da década de 90, e um conjunto de reformas estruturais, especialmente nas áreas econômicas e trabalhista, como a implantação da jornada de 30 horas sem redução dos salários e o fim da escala 6 por 1; a nacionalização e estatização do sistema financeiro e a retomada para o patrimônio público de todas as empresas que foram privatizadas; a recomposição do poder de compra do salário mínimo, de forma a que, no prazo de 5 anos, ele chegue ao patamar do salário do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), e a revogação das Leis que tratam da Responsabilidade Fiscal e do Arcabouço Fiscal, que serão substituídas pela Lei de Responsabilidade Social, cujo objetivo será garantir os recursos para que possamos realizar as reformas profundas que estamos propondo. Por fim, nós vamos colocar, quer dizer, já estamos colocando em debate a nova Lei Geral de Comunicações que vai quebrar e transformar os monopólios em cooperativas de trabalhadores.
Qual a sua avaliação sobre a situação econômica do Brasil?
O Brasil é um país muito rico, que tem terra e água em abundância, sol o ano inteiro, todas as matérias-primas necessárias ao processo de desenvolvimento e uma biodiversidade enorme, mas, infelizmente, a maioria da sua população é pobre. Desde de, pelo menos, o início da década de 90, o conjunto de governos aplicou uma política neoliberal com uma pequena diferença: enquanto alguns aplicaram melhor uma política social de compensação, outros foram mais radicais com os trabalhadores.
Nesse período, o Brasil passou a conviver com um processo de desindustrialização. Por exemplo, entre 1947 a 1980, o Brasil cresceu, em média, 7% ao ano, sendo que de 1991 a 2025, o crescimento anual foi de apenas 2,5% em média. Outro ponto é que, nesse período, o Brasil se tornou um país urbano, com mais de 80% da sua população passando a viver em cidades, especialmente as grandes metrópoles. Como o crescimento apresentado desde o início da década de 90 é medíocre, ele não tem como dar conta da situação social do país.
Como o neoliberalismo devastou o mundo do trabalho com contra-reformas sociais, trabalhistas e previdenciárias, além de degradar os serviços públicos, o nosso povo passou a ter uma situação social cada vez mais dramática. Para que você tenha uma ideia, cerca de 40 milhões de trabalhadores estão na informalidade, vivendo em uma situação de precariedade muito grande, já que eles não têm direitos trabalhistas como férias, 13º salário e descanso semanal remunerado.
Com relação aos trabalhadores que estão nas plataformas, cerca de 8 milhões, além de eles não possuírem nenhum dos direitos trabalhistas, eles são obrigados a trabalhar, 10, 12, às vezes, 14 horas por dia para ganhar uma remuneração muito pequena. Isso faz com que o nosso país, do ponto de vista social, viva em uma situação muito grave.
Na outra ponta, nós temos os donos do agronegócio, a burguesia industrial, os banqueiros e rentistas ganhando rios de dinheiro às custas do povo trabalhador. Ou seja, enquanto uma pequena faixa da população vive de forma nababesca, a grande maioria vive em uma situação dramática, com a precarização do trabalho, baixos salários e serviços públicos precários.
Qual a sua avaliação sobre o funcionamento do Estado brasileiro?
Ao longo da nossa história, o Estado brasileiro sempre buscou privilegiar os ricos e milionários, afastando o povo das decisões econômicas e políticas, sendo que nesta eleição não será diferente. É só observar que o próprio Estado e os meios de comunicação estão privilegiando as candidaturas da ordem e da conciliação, enquanto as candidaturas que representam, do ponto de vista ideológico, os trabalhadores, estão afastadas dos meios de comunicação, além de não possuírem poder econômico e legislativo.
Nós queremos fazer uma reforma profunda do Estado brasileiro, de forma a transformar as maiorias sociais em maiorias políticas. Isso porque, depois de uma eleição, as maiorias sociais são transformadas em minorias políticas no Congresso Nacional. É por isso que nós estamos propondo a constituição de uma assembleia constituinte que tenha 50% dos constituintes eleitos pelo voto universal e 50% pelos movimentos populares, sociais e da juventude. Com isso, as maiorias sociais serão transformadas em maiorias políticas, o que hoje é quase impossível.
Nós também propomos a extinção do Senado, que é uma casa conservadora, e a sua substituição por um parlamento unicameral, que será eleito com os mesmos critérios da assembleia constituinte.
Para completar esse processo, nós estamos propondo a instituição dos conselhos populares, eleitos nos locais de trabalho, moradia e estudo, que serão instrumentos permanentes de participação popular.
Qual a sua avaliação sobre o sistema educacional brasileiro?
No geral, nós não podemos dizer que o Brasil possui uma educação de qualidade. Isso porque o país não possui verbas suficientes para ter escolas integrais onde os alunos possam passar o dia inteiro estudando matérias específicas e tendo outras atividades e convivência social. No que se refere ao ensino superior, o quadro é mais dramático, já que 2/3 das universidades brasileiras são privadas, sendo que a maioria dessas instituições proporcionam um ensino de péssima qualidade, funcionando, praticamente, como fábricas de diplomas.
É por isso que propomos a estatização de todo o sistema universitário privado para que ele seja reorganizado, tenha condições de proporcionar uma educação de qualidade e que essa educação seja estendida para todos os seus alunos, da mesma forma como ocorre nas universidades públicas, que possuem uma educação muito boa apesar dos problemas de verba que afetam suas operações, pesquisas e extensões.
Nós também propomos a generalização dos institutos federais em todas as regiões, com o objetivo de formar técnicos para servir tanto ao desenvolvimento local quanto o desenvolvimento nacional, sempre levando em conta a interiorização e as especificidades regionais; a realização de um programa de valorização dos professores, com melhores salários e mais oportunidades de qualificação, e uma campanha de alfabetização cujo objetivo será a erradicação do analfabetismo no Brasil.
Qual a visão do PCB sobre o atual governo Lula?
O Governo Lula cumpriu um papel importante no que se refere à derrota do governo Bolsonaro, que era tipicamente um governo genocida em relação ao povo brasileiro. No entanto, o presidente Lula não cumpriu com muitas das suas promessas de campanha, como a revogação da Reforma Trabalhista, a revisão da Reforma Previdenciária e a colocação dos ricos no Imposto de Renda e dos pobres no orçamento. Mesmo que o Governo Lula tenha tido algumas melhoras no que se refere às políticas de compensação social, ele não enfrentou os problemas estruturais da sociedade brasileira que fazem com que a maioria da população tenha que viver na pobreza.
Para que esses problemas possam ser enfrentados, é preciso que haja um conjunto de mudanças nas áreas econômica, social, trabalhista, educacional e de saúde. Além disso, para que um governo possa se dizer efetivamente popular, ele tem que ser popular do ponto de vista prático, e não apenas retórico. O PCB lançou uma candidatura justamente para marcar posição e mostrar à população que existe uma alternativa além das políticas tradicionais que sempre aparecem no período eleitoral.
O que te motivou a se lançar candidato à presidência da República?
Bem, eu não sou candidato de mim mesmo, e sim de uma organização política chamada Partido Comunista Brasileiro. Ou seja, a minha candidatura foi uma decisão de um coletivo partidário nacional, que avaliou, através da sua direção nacional, a necessidade de lançar uma candidatura à presidência da República para demarcar o nosso campo, fazer uma disputa política e colocar aos trabalhadores um conjunto de propostas que as outras candidaturas não tem condições de fazer em função das suas identidades de classe e das suas alianças políticas.
Como eu sou um militante veterano da causa trabalhista e da revolução brasileira, o que me motiva a tocar essa tarefa é o fato de poder fazer a disputa política e mostrar aos trabalhadores que existe uma alternativa ao que normalmente aparece na política tradicional. Isso porque, na nossa visão, a população brasileira está cansada da velha política e dos políticos que no período eleitoral prometem o paraíso, mas que dão uma banana para o povo quando a eleição acaba. Como nós não podemos conviver com isso eternamente, é preciso que haja uma alternativa que realmente rompa com a velha política.
Considerando a nossa conversa, você gostaria de acrescentar algum ponto à sua entrevista?
Nós não falamos sobre a transformação que vamos realizar na política internacional. Diante da agressividade do imperialismo, a nossa candidatura propõe o fortalecimento de todos os processos de integração, tanto regionais quanto internacionais, a reafirmação da soberania de todos os povos e a prestação ativa de solidariedade à Palestina, Venezuela, Irã e, especialmente, Cuba, já que, nesse momento, uma derrota de Cuba seria tão grave para os trabalhadores quanto foi a derrota da União Soviética.
Na minha opinião, é um absurdo o presidente Lula não ter mandado petróleo, remédios e alimentos para ajudar a população cubana, sendo que a nossa solidariedade será militante.
Nós vamos lutar pela construção de uma ordem econômica onde todos os países possam conviver de maneira fraterna e que seja mutuamente vantajosa, em contraposição à ordem econômica através da qual o imperialismo quer impor os seus interesses ao resto do mundo.

