“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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sexta-feira, 7 de abril de 2023

O Dia do Jornalista (7 de abril) e a 'A censura política nos anos de chumbo'

Sexta, 7 de abril de 2023

O Dia do Jornalista (7 de abril) e a 'A censura política nos anos de chumbo'

Postagem publicada aqui no Blog Gama Livre no dia 8 de abril de 2020. Leia a seguir.

Ontem[hoje], dia 7 de abril, foi[é] o Dia do Jornalista. Hoje, dia 8 de abril, encontrei um artigo reproduzido pelo Blog Gama Livre no dia 31 de março de 2014. "A censura política nos anos de chumbo" é da lavra de Antônio Matos, jornalista, professor universitário e delegado de polícia do Estado da Bahia. A seguir, o artigo.

A censura política nos anos de chumbo

Segunda, 31 de março de 2014
Por Antônio Matos*
A censura política, sofrida pela imprensa brasileira após o golpe militar de 1964, era feita de duas maneiras: ou por meio de bilhetes/notas oficiais e telefonemas do Exército (e, mais tarde, da Polícia Federal), determinando quais os assuntos que deveriam ser noticiados ou com censores/policiais, revisando nas redações todo o material a ser publicado, a chamada censura prévia.
Além disso, havia ainda as ações intimidatórias, como os “convites” para que repórteres, redatores, produtores e editores comparecessem ao comando local da Região Militar do Exército, a fim de prestar esclarecimentos a respeito de notas, matérias e reportagens já publicadas e apontadas, pelos censores, como atentatórias à segurança nacional ou que tivessem provocado prejuízos à imagem das Forças Armadas.
Na Tribuna da Bahia, onde trabalhei desde a Escolinha TB — uma oficina criada por Quintino de Carvalho, para os repórteres que iriam trabalhar no jornal — em 1968, até junho de 1974, acho que a censura foi mais rigorosa do que a exercida pelo governo militar nos outros veículos de comunicação do estado.
Os motivos para isso estavam mais ou menos explicados: embora presidida por um empresário e ex-banqueiro Elmano Castro, a TB tinha como redator-chefe o conceituado jornalista Quintino de Carvalho, com larga experiência no “Jornal do Brasil”, ex-integrante do Partido Comunista Brasileiro e com atuação destacada em “O Momento”, jornal do Partidão na Bahia, diversas vezes empastelado pela polícia estadual, e que circulou em Salvador, de 1945 a 1957.
Quintino, que resgatara, no hoje extinto “Jornal da Bahia”, Misael Peixoto, chefe da diagramação — seu colega em “O Momento” e também antigo filiado ao PCB — comandava uma redação, em sua maioria, formada por esquerdistas de todos os matizes (radicais, atuantes, ideológicos, festivos e simpatizantes), jovens rebeldes e idealistas, basicamente com menos de 25 anos e recrutados nas faculdades de Biblioteconomia e Comunicação e de Direito.
Diante deste ambiente incendiário, cansei de ver, da minha carteira da chefia da Editoria de Esportes, bem em frente ao corredor, notadamente no ano de 1973, a chegada dos temíveis e pouco simpáticos censores, dirigindo-se arrogantemente, ao gabinete do redator-chefe, com as notas — muitas vezes, numa tira fina de papel — que sempre começavam com um vago “de ordem superior” e, em algumas ocasiões, chegavam a fixar o período da proibição.
Quando o assunto tinha a classificação “muito importante” pelos órgãos de repressão, era o próprio superintendente regional da Polícia Federal — no caso da Bahia, o coronel do Exército, Luiz Arthur de Carvalho — quem pessoalmente encaminhava às redações o que estava proibido ou o que deveria ser divulgado.
A censura era indiscriminada: proibia a publicação de uma epidemia de malária no Amazonas, de notícias relacionadas ao aniversário de nascimento do revolucionário russo Lenin, do discurso de um deputado, até a divulgação de uma nova lista de presos políticos apresentada por sequestradores para troca por algum embaixador feito refém. As determinações eram pouco questionadas e sempre atendidas, às vezes até com algum exagero.
A doutrina de Segurança Nacional — desenvolvida na Escola Superior de Guerra (ESG), pelo general Golbery do Couto e Silva — utilizava a repugnante censura sob a alegação de que assim estaria combatendo o comunismo, responsabilizado por uma propaganda subliminar do sexo, do amor livre, da obscenidade, das drogas, por meio da mídia, do teatro, do cinema e da música, para corromper a família e os costumes.
Em defesa também desta injustificável censura à imprensa, Gama e Silva, ministro da Justiça durante o governo Costa e Silva e redator do repressivo Ato Institucional número 5, procurou minimizar a intervenção do Estado na mídia. Usou um eufemismo, ao afirmar que eram apenas orientações para a redação dos noticiários e das publicações “dentro de um clima de respeito à autoridade”.
Felizmente, os tempos são outros. Não existem mais Golbery nem Gama e Silva. A censura política na imprensa — pelo menos, ostensivamente e de modo oficial — é coisa do passado. É bom lembrar que a liberdade da imprensa, inimiga dos ditadores, é fundamental para o desenvolvimento do país, pois incentiva o debate, amplia o acesso às informações e promove a troca de ideias.
*Antônio Matos é jornalista e delegado de polícia na Bahia.
Fonte: Site Política Livre
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Comentário do Gama Livre: A Tribuna da Bahia certamente foi o veículo de comunicação baiano mais censurado pelo golpe de 1964. Trabalhei (eu, Taciano Lemos de Carvalho) lá no início dos anos 70, quando a ditadura e a censura comiam soltas. Quantas vezes todo mundo da Tribuna se mobilizava para distribuir o jornal às bancas de revistas antes que o sistema repressor chegasse para empastelar o jornal na Rua Djalma Dutra, número 121? Além das censuras apontadas pelo autor do artigo acima (Antônio Matos) frequentemente chegavam "ordens" para não falar sobre, por exemplo, a crise do açúcar, a crise do café, a crise na lavoura da cana-de-açúcar. E, muitas vezes, a crise no abastecimento de carne. Ah, seu general Tomé de Souza, ex-superintendente nacional da Sunab, se eu te vejo nos dias de hoje...

quarta-feira, 8 de abril de 2020

O Dia do Jornalista (7 de abril) e a 'A censura política nos anos de chumbo'

Quarta, 8 de abril de 2020
Ontem, dia 7 de abril, foi o Dia do Jornalista. Hoje, dia 8 de abril, encontrei um artigo reproduzido pelo Blog Gama Livre no dia 31 de março de 2014. "A censura política nos anos de chumbo" é da lavra de Antônio Matos, jornalista, professor universitário e delegado de polícia do Estado da Bahia. A seguir, o artigo.

A censura política nos anos de chumbo

Segunda, 31 de março de 2014
Por Antônio Matos*
A censura política, sofrida pela imprensa brasileira após o golpe militar de 1964, era feita de duas maneiras: ou por meio de bilhetes/notas oficiais e telefonemas do Exército (e, mais tarde, da Polícia Federal), determinando quais os assuntos que deveriam ser noticiados ou com censores/policiais, revisando nas redações todo o material a ser publicado, a chamada censura prévia.
Além disso, havia ainda as ações intimidatórias, como os “convites” para que repórteres, redatores, produtores e editores comparecessem ao comando local da Região Militar do Exército, a fim de prestar esclarecimentos a respeito de notas, matérias e reportagens já publicadas e apontadas, pelos censores, como atentatórias à segurança nacional ou que tivessem provocado prejuízos à imagem das Forças Armadas.
Na Tribuna da Bahia, onde trabalhei desde a Escolinha TB – uma oficina criada por Quintino de Carvalho, para os repórteres que iriam trabalhar no jornal – em 1968, até junho de 1974, acho que a censura foi mais rigorosa do que a exercida pelo governo militar nos outros veículos de comunicação do estado.
Os motivos para isso estavam mais ou menos explicados: embora presidida por um empresário e ex-banqueiro Elmano Castro, a TB tinha como redator-chefe o conceituado jornalista Quintino de Carvalho, com larga experiência no “Jornal do Brasil”, ex-integrante do Partido Comunista Brasileiro e com atuação destacada em “O Momento”, jornal do Partidão na Bahia, diversas vezes empastelado pela polícia estadual, e que circulou em Salvador, de 1945 a 1957.
Quintino, que resgatara, no hoje extinto “Jornal da Bahia”, Misael Peixoto, chefe da diagramação – seu colega em “O Momento” e também antigo filiado ao PCB – comandava uma redação, em sua maioria, formada por esquerdistas de todos os matizes (radicais, atuantes, ideológicos, festivos e simpatizantes), jovens rebeldes e idealistas, basicamente com menos de 25 anos e recrutados nas faculdades de Biblioteconomia e Comunicação e de Direito.
Diante deste ambiente incendiário, cansei de ver, da minha carteira da chefia da Editoria de Esportes, bem em frente ao corredor, notadamente no ano de 1973, a chegada dos temíveis e pouco simpáticos censores, dirigindo-se arrogantemente, ao gabinete do redator-chefe, com as notas – muitas vezes, numa tira fina de papel – que sempre começavam com um vago “de ordem superior” e, em algumas ocasiões, chegavam a fixar o período da proibição.
Quando o assunto tinha a classificação “muito importante” pelos órgãos de repressão, era o próprio superintendente regional da Polícia Federal – no caso da Bahia, o coronel do Exército, Luiz Arthur de Carvalho – quem pessoalmente encaminhava às redações o que estava proibido ou o que deveria ser divulgado.
A censura era indiscriminada: proibia a publicação de uma epidemia de malária no Amazonas, de notícias relacionadas ao aniversário de nascimento do revolucionário russo Lenin, do discurso de um deputado, até a divulgação de uma nova lista de presos políticos apresentada por sequestradores para troca por algum embaixador feito refém. As determinações eram pouco questionadas e sempre atendidas, às vezes até com algum exagero.
A doutrina de Segurança Nacional – desenvolvida na Escola Superior de Guerra (ESG), pelo general Golbery do Couto e Silva – utilizava a repugnante censura sob a alegação de que assim estaria combatendo o comunismo, responsabilizado por uma propaganda subliminar do sexo, do amor livre, da obscenidade, das drogas, por meio da mídia, do teatro, do cinema e da música, para corromper a família e os costumes.
Em defesa também desta injustificável censura à imprensa, Gama e Silva, ministro da Justiça durante o governo Costa e Silva e redator do repressivo Ato Institucional número 5, procurou minimizar a intervenção do Estado na mídia. Usou um eufemismo, ao afirmar que eram apenas orientações para a redação dos noticiários e das publicações “dentro de um clima de respeito à autoridade”.
Felizmente, os tempos são outros. Não existem mais Golbery nem Gama e Silva. A censura política na imprensa – pelo menos, ostensivamente e de modo oficial – é coisa do passado. É bom lembrar que a liberdade da imprensa, inimiga dos ditadores, é fundamental para o desenvolvimento do país, pois incentiva o debate, amplia o acesso às informações e promove a troca de ideias.
*Antônio Matos é jornalista e delegado de polícia na Bahia.
Fonte: Site Política Livre

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Comentário do Gama Livre: A Tribuna da Bahia certamente foi o veículo de comunicação baiano mais censurado pelo golpe de 1964. Trabalhei (eu, Taciano Lemos de Carvalho) lá no início dos anos 70, quando a ditadura e a censura comiam soltas. Quantas vezes todo mundo da Tribuna se mobilizava para distribuir o jornal às bancas de revistas antes que o sistema repressor chegasse para empastelar o jornal na Rua Djalma Dutra, número 121? Além das censuras apontadas pelo autor do artigo acima (Antônio Matos) frequentemente chegavam "ordens" para não falar sobre, por exemplo, a crise do açúcar, a crise do café, a crise na lavoura da cana-de-açúcar. E, muitas vezes, a crise no abastecimento de carne. Ah, seu general Tomé de Souza, ex-superitendente nacional da Sunab, se eu te vejo nos dias de hoje...

terça-feira, 4 de abril de 2017

Após sacar R$ 77 milhões escritório de advocacia quer mais R$ 36 milhões; os recursos foram sacados das contas da Petrobras; censura à imprensa

Terça, 4 de abril de 2017
Advogado foi eleito ontem (3/4) pelo Conselho Federal da OAB para integrar o Conselho Nacional de Justiça (CNJ)
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Da Tribuna da Bahia
Depois de ter conseguido sacar, em caráter liminar, das contas da Petrobras R$ 77 milhões para a Federação dos Pescadores e Aquicultores da Bahia, dos quais cerca de R$ 23 milhões só de honorários, relativos a pensionamento a pescadores do Recôncavo, por causa de um derramamento de óleo ocorrido na Baía de Todos-os-Santos em 2009, o escritório de advocacia do baiano André Godinho, eleito ontem pelo Conselho Federal da OAB para integrar o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), está pleiteando mais R$ 36 milhões num outro processo contra a estatal, desta vez em nome da Colônia de Pescadores Z-5.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Diários de escândalos


Domingo, 1 de novembro de 2015
Da Tribuna da Bahia
Por Luiz Holanda
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, apelidado, ironicamente, de “o príncipe dos sociólogos”, resolveu imitar Getúlio Vargas escrevendo alguns diários abrangendo seus oito anos de governo. Que se saiba, Getúlio só escreveu um, enquanto FHC deverá escrever vários. Nos diários escritos, nenhum deles contribui para esclarecer os fatos que registram, a não ser, talvez, em satisfazer o ego dos seus autores.
O primeiro dos atribuídos a FHC em nenhum momento detalha os fatos publicados pela imprensa relacionados à corrupção em seu governo, por muitos considerada igual ou pior à do desgoverno do PT. Nos oito anos de reinado tucano, o que não faltaram foi escândalos, sempre acobertados e mantidos impunes. Logo no início vieram as denúncias de corrupção e tráfico de influências no contrato de 1,4 bilhões de dólares para a criação do sistema de vigilância da Amazônia (SIVAM), que terminou por derrubar um ministro e dois assessores do corrupto governo desse sociólogo.

domingo, 1 de novembro de 2015

Um brasileiro como Ruy já via


Domingo, 1º de novembro de 2015
Excelente artigo publicado na Tribuna da Bahia
Por Paulo Roberto Sampaio
Desconfio que estou virando um brasileiro padrão. Indolente, acomodado, conformado. Posso ser enquadrado num dos muitos personagens da lenda urbana tão bem descrita na obra de Jorge Amado ou fisgado do cotidiano do imortal mestre João Ubaldo Ribeiro. Pouco importa. 
Na essência sinto-me assemelhado àquele descrito por Ruy Barbosa: "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".
Olho à minha volta e vejo muitos com esse perfil. Anestesiados pelo cotidiano de violência, da desonra, da roubalheira desenfreada. Indiferentes. Nada parece indignar mais.
Cheguei a essa conclusão finalizando a edição da primeira página da Tribuna de sábado, após   um inesquecível fim de tarde que entrou pela noite sorvendo da inteligência dessa rara e incansável mulher, a desembargadora federal e magistrada Maria Adna Aguiar, futura presidente do TRT da Bahia, a quem fui entrevistar para nossa página 3 de ontem.
Tinha colocado no alto da página, numa espécie de manchetinha, onde destacava que até o emprego de Papai Noel estava ameaçado. Uma alusão ao desemprego que avança e já colocou 1 milhão e 200 mil brasileiros no olho da rua.  
Dei como manchete principal a perspectiva da Ferrovia Oeste/Leste ficar pelo caminho, servindo, quando muito, para que vague por seus trilhos um trem fantasma a descarrilhar na miragem de um terminal marítimo em Ilhéus que, por enquanto, existe só no papel. Uma Transamazônica nordestina, a ser contemplada com espanto, não pelos índios, mas pelos sertanejos.
Tratei de refletir o desânimo do atacante Kieza, do Bahia, suspenso por 3 jogos, justo ele que parece ser o único que sabe fazer gols no time e assim fui, até que sobrou um espaçozinho no pé da página.
Olhei para as cinco ou seis chamadas que não haviam conseguido espaço na página e, confesso que, com um certo desdém, peguei uma que apontava a nova constatação feita pelo procurador geral da República, Rodrigo Janot, de que o ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, e o PP haviam se lambuzado e farreado até se empanturrar de verdade com a diminuta fortuna de R$ 357 milhões, sugada dos dutos da empresa, que um dia já foi orgulho nacional.
Botei no pé da página e nem texto usei, tamanha insignificância da informação, afinal o que são hoje R$ 357 milhões desviados para bolsos sempre suspeitos e abonados pelos malfeitos com o dinheiro público? 
Fui embora certo do dever cumprido, mas, cá pra nós, remoendo se não havia amorcegado demais a notícia? Se não estava incorporando demais a figura descrita há mais de um século pelo sábio Ruy?
Só me confortei no meio da madrugada, quando acordo invariavelmente para conferir as manchetes e primeiras páginas dos concorrentes e pude constatar que ninguém dera importância ao fato.
Daí, dia seguinte, revendo a página e refletindo sobre o que fizeram com nosso país, sobre o poço de sem-vergonhice que engole nosso Brasil, concluo que o sábio Ruy era, também, um visionário e dele extraio mais umas duas pérolas centenárias, mais atuais do que nunca: 
"Não se deixem enganar pelos cabelos brancos, pois os canalhas também envelhecem", que se encaixa como uma luva pros Pizzolatos, Costas e vários outros cabeças prateadas que se especializaram em assaltar os cofres públicos da maneira mais desavergonhada possível.
E mais uma frase de Ruy, que conclamo você a refletir comigo: "Maior que a tristeza de não haver vencido é a vergonha de não haver lutado".
E me pergunto e te pergunto: será que não estamos sendo passivos, indolentes e tolerantes demais com a sem-vergonhice, o deboche e o acinte dos Dirceus, Costas, Cerverós, Cunhas e portadores de outras alcunhas mais?

terça-feira, 16 de junho de 2015

A lenta agonia e o drama do PT

Terça, 16 de junho de 2015
Da Tribuna da Bahia
Paulo Roberto Sampaio
O congresso do PT realizado na semana passada em Salvador apenas evidenciou o óbvio: o partido está partido. Partido, aliás, ele sempre esteve. Nenhuma outra agremiação política no país possui tantos grupos a disputar internamente o poder quanto o PT. Mas agora está em frangalhos.
Quando um governador é eleito e quer fazer uma gracinha com o partido, esbarra num intrincado quebra-cabeças: quem deve ser o aquinhoado com o mimo, a secretaria ou a posição relevante no governo?
Qualquer que seja o escolhido, duas, três ou até mais facções haverão de torcer o nariz e não se sentirem representadas no cargo. E assim vive o PT.
Mas a situação está se agravando mais e mais. Os escândalos envolvendo integrantes do partido revelam o quanto de apodrecida está sua estrutura e as facilidades criadas por alguns de suas cabeças coroadas para que a corrupção se tornasse uma praga no seu entorno, contaminando a máquina pública.
E como nesse ajuntamento há os sérios e idealistas, que apesar dos pesares ainda creem na estrela do PT e nos seus dogmas, fincados desde a sua criação, um congresso como esse acabou mostrando as entranhas do partido e os conflitos para se reerguer.
A coisa ficou tão grave que no melhor estilo do marido traído que encontra a mulher nos braços de outro no sofá e resolve vender o sofá para se livrar da traição, prevaleceu no congresso baiano a tese de que, com tantos tesoureiros presos ou metidos em confusões, melhor seria extinguir o cargo. Isso enquanto Vaccari era aplaudido entusiasticamente. Entenda esse enredo!
Sem tesoureiro, presume-se, não haverá ninguém acusado de roubalheira nem escândalos envolvendo o partido. Uma solução simplória demais, quando o problema é bem mais complexo. Para financiar seu projeto de poder, dito na primeira eleição de Lula, de 20 anos, o PT (governo federal) foi, pouco a pouco, fazendo todo tipo de aliança.
Aliança política, aliança e acordos inconfessos, com empresários inescrupulosos e daí pra pior. A desculpa era arranjar dinheiro para as campanhas e para financiar o projeto que tinha como ideal um Brasil mais igual para que as classes C e D pudessem sentir o gostinho do consumo saboreado pela classe média.
Era como se os meios justificassem os fins. Perdeu-se o partido ou uma banda dele pelo caminho. Seus tutores maiores tornaram-se tão inocentes diante da corrupção e das falcatruas cometidas por companheiros – dela nada sabendo, sempre – que a estrela vermelha começou a sangrar e a perder seu apelo popular.
Petistas sérios e que trabalham fiéis aos ideais de sua fundação, como o governador Rui Costa, pagam um preço caro. Têm de carregar nas costas uma estrela que pesa mais que uma cruz. Acabam maculados pelos respingos das trapalhadas de um grupelho da pesada. Outros preferem se distanciar, como o faz o senador Walter Pinheiro, na esperança de se livrar da pecha e procurar luz própria.
O documento, intitulado "Mudar o PT para continuar mudando o Brasil" sintetiza o que os verdadeiros petistas esperam poder construir daqui para frente. Agarram-se ao histórico de aliados de vida ilibada, mas a luta será muito difícil.
Ao todo, 33 deputados federais, mais da metade da bancada, assinaram o manifesto. É um sinal claro de que o partido quer mudança. Problema agora é reunir forças, encontrar uma forma de levar a militância às ruas e fazê-la acreditar num sonho que embalou grandes conquistas. Não é impossível, mas será uma dura batalha.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

"O governo está perdido, sem saber o que fazer", diz Pedro Simon


Segunda, 18 de maio de 2015
Da Tribuna da Bahia
Confira entrevista exclusiva à Tribuna da Bahia
por Osvaldo Lyra 

Tribuna da Bahia - O senhor deixou o Senado da República desencantado com a política do País?
Pedro Simon –
Não tinha lógica eu continuar a disputar uma eleição partidária depois de 85 anos de idade. Uma pessoa como eu, que começou a fazer política lá na juventude, na União Nacional dos Estudantes, e fez política eleitoral desde quando fui eleito vereador, em 1959, em Caxias. Eu vi em 62 o golpe que derrubou João Goulart e se instalou uma ditadura de 21 anos. Em um ciclo de 14 generais nomeados presidentes plebiscitários, e eu participava da luta, como o povo brasileiro, que queria a volta da democracia. Hoje nós estamos vivendo em uma plena democracia. Não há perigo para as instituições, mas eu, que vivi toda aquela época, nunca vivi um momento tão dramático como estamos vivendo agora. Perigo de ditadura, de golpe de Estado, não. Mas perigo de uma anarquização e ridicularizarão, sim. Uma juventude olha para nós pior do que olhavam para os militares no tempo da ditadura. Hoje ser político é vergonha. Vamos olhar para onde é que nós vamos. A presidente Dilma não foi falar à TV no dia 1º de Maio com medo do panelaço. Mesmo ela não indo, o PT fez um programa e o panelaço foi em cima do PT quando apareceu a imagem dela. Não sabemos o que está acontecendo e para onde nós vamos. Dilma fez uma campanha de reeleição falando o tempo todo o que iria fazer. Disse que não iria mexer no direito do trabalhador acusando Aécio que, se ele ganhasse, iria fazer isso que ela está fazendo. Ganhou [a eleição] e está fazendo exatamente tudo que ela disse que não ia fazer.
Tribuna – Acredita que a presidente Dilma já se arrependeu de ter assumido o segundo mandato?
Simon –
Pelo menos, ela já abdicou em parte. A parte econômica, que é a parte complexa e difícil, ela entregou para o ministro da Fazenda [Levy Vasconcelos], um homem do PSDB, que está fazendo, com menos sindicância, tudo aquilo que ela dizia que o PSDB quem iria fazer. A parte política é uma piada. Ela entregou a coordenação política para o vice-presidente [Michel Temer], presidente do PMDB. As nomeações estão com ele, e estão saindo ao montão, e nunca, em toda a crise que estamos atravessando, nunca vimos tanto troca-troca de governo, vota e ganha Ministério, vota e ganha cargo, como está acontecendo agora. Estão preenchendo 1º, 2º, 3º e 4º escalões. Estão nomeando Deus e todo mundo para tentar fazer uma maioria no governo, para tentar vencer essas cláusulas diabólicas que foram apresentadas. O governo Dilma está perdido, está sem saber o que fazer. Absolutamente, sem saber o que fazer.

quarta-feira, 18 de março de 2015

"Ainda há juízes em Berlim", menos em Brasília

Quarta, 18 de março de 2015
Da Tribuna da Bahia
por Luiz Holanda
Imortalizada pelo escritor francês François Andriex no conto O MOLEIRO DE SANS-SOUCI, a expressão identifica o episódio envolvendo o rei Frederico II, exemplo de “déspota esclarecido” e um moleiro que residia em um moinho vizinho ao palácio real, na encosta de uma colina, na cidade de Potsdam, perto de Berlim.
O monarca desejava aumentar o castelo, mas viu—se impedido pelo moinho. Resolveu, então, comprá-lo, oferecendo um preço ao moleiro. Este recusou a oferta, alegando que ali estavam os restos mortais do seu pai e que era o lugar onde os seus filhos haveriam de nascer. O rei, então, insistiu, dizendo que, se quisesse, poderia simplesmente tomar-lhe a propriedade.
O moleiro, ao ouvir a ameaça, não demonstrou nenhum medo. Olhou para o monarca e, calmamente, respondeu: “Ainda há juízes em Berlim”. O rei, diante de tanta altivez, desistiu de comprar ou desapropriar o moinho, fato que fez o escritor lamentar o recuou do monarca, dizendo que a desistência imperial atrasara o desenvolvimento da província.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Um certo ar de desilusão em Dilma

Quarta, 11 de fevereiro de 2015

Imagem reproduzida da 1ª página da Tribuna da Bahia, edição de 10/2/2015.
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Paulo Roberto Sampaio — Tribuna da Bahia
Publicada na Tribuna da Bahia em 10/02/2015
Essa é uma regrinha básica que qualquer marqueteiro aprende ainda no curso primário. Se algo não vai bem à sua volta com o governante de plantão, para quem ele vende seus valiosos conselhos, é hora de recorrer a uma agenda positiva. Algo que consiga jogar para debaixo do tapete tudo que de ruim e malcheiroso está a exalar das entranhas do poder.
Estou ávido por conhecer essa fórmula mágica que devem estar preparando para realizar esse milagre no Planalto, mas desconfio muito de sua eficácia.
Vendo a foto da presidente Dilma que publicamos hoje na capa desta edição, concluo que seu grau de preocupação se mistura ao de cansaço, que vem junto com o de apreensão, angústia e, não seria exagero arriscar, de medo. Como tantos elementos podem compor a fisionomia de uma presidente da República, a figura mais poderosa do país, é difícil de explicar. Ou, no caso dela, nem tanto.

A cada dia que passa, a Operação Lava Jato suja mais do que limpa. Gasta a tão preciosa água que está a faltar em milhares de lares brasileiros e consome a também escassa energia, outra que anda prestes a reviver a fase dos apagões.
Tudo que chega ao Planalto e é depositado sobre sua mesa parece escrito por alguém que quer testar sua resistência. Uma espécie de Fradinho, dos bons tempos do irreverente Millôr. Ou que se delicia ao vê-la espumando de ódio com o que lê, pronta a disparar contra o primeiro assessor ou ministro que cruzar à sua frente.
Nesta semana, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, reúne-se com autoridades americanas para pedir colaboração na apuração da Lava Jato. Enquanto Janot gasta seu inglês por lá, as autoridades da área de energia, técnicos à frente, se desdobram por aqui na busca de fórmulas com a finalidade de reduzir o risco de racionamento de energia.
Eles sabem que o relógio corre contra e nesta quinta têm um encontro que, se pudessem, gostariam de evitar. Será uma reunião de avaliação do quadro energético com o ministro Eduardo Braga para discutir medidas para minimizar o risco de racionamento, e sabe quem estará na cabeceira da mesa? Sim, ela, a presidente Dilma Rousseff. Furiosa, cansada de embromação e à espera de soluções.

Uma Dilma cuja popularidade está em queda livre e sem ter muito em quem ou onde se apoiar. Se chega a um dos janelões do Planalto para contemplar a Praça dos Três Poderes, a imagem que lhe vem à mente é de um Congresso que já não lhe inspira a mesma confiança.
Seus aliados, mesmo os mais próximos, parecem atordoados com tanta sujeira misturada com petróleo e podem acabar cedendo às pressões dos  partidos de oposição, que se mobilizam para indicar os membros da temida CPI da Petrobras. E no rastro dela, a tenebrosa palavrinha mágica: impeachment.
Até porque, se já não bastasse a Justiça e a Polícia Federal esmiuçando tudo à sua volta nesse escândalo, muitos apostam que Janot venha a revelar ainda esta semana os nomes de todos os deputados e senadores acusados de corrupção na Lava Jato. Pode salpicar óleo para todo lado.
Para completar, em outra Casa, o ministro Vital do Rêgo, do Tribunal de Contas da União, deve levar ao plenário da Corte a discussão sobre o bloqueio de bens de Graça Foster e outros ex-dirigentes da Petrobras para ressarcir prejuízos da estatal. A amiga ferida pode não reagir bem.
Com uma semana tão azeda, não há clima de Carnaval que faça a Presidente trocar a máscara enfezada dos últimos dias por uma mais amena. Daí, melhor rezar logo para chegar a quarta-feira de cinzas e, com ela, a quaresma, para, quem sabe, se apegando com Cristo e louvando seu sofrimento, as coisas melhorem.

sábado, 1 de novembro de 2014

Bahia: o marketing do desespero e da fé

Sábado, 1º de novembro de 2014
Lembra aquela camisa que o Esporte Clube Bahia, ex-Esquadrão de Aço, jogou recentemente com o Flamengo? Pois ela está de volta. Ressurge num momento bastante emblemático e acho que – apesar do desespero da torcida, do time de segundona e olha que prima ir para a Terceira Divisão como porcaria que está, e do péssimo momento – seu lançamento como caça-níquel é acertado pelo pessoal do Marketing.

A camisa que tem a imagem da fitinha do Senhor do Bonfim, as conhecidas Medidas do Bonfim, tem a cara do torcedor do Bahia: aquele que nos últimos campeonatos e há bastante tempo, está sempre à beira de nervos, na loucura, no desespero e resignado, penitente, pedindo ajuda a Deus, Oxalá e quem mais que venha e sempre de joelhos aos pés do Senhor do Bonfim.

A camisa foi feita, justinha, para que o torcedor possa vestir e subir a Ladeira do Bonfim lascando os joelhos e o tecido apropriado para enxugar lágrimas, chorando pitangas. A camisa custa R$ 170 para quem não é sócio e conhecendo o torcedor do Bahia ele vai comprar uma para ele, outra para a mulher, uma para o filho e uma para o sogro ou cunhado.  

Leia a íntegra

Fonte: Jolivaldo Freitas —Tribuna da Bahia

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Uma tragédia anunciada


Sexta, 6 de junho de 2014
Da Tribuna da Bahia
Da coluna de  Joaci Góes
Aqui mesmo, neste espaço, escrevemos três artigos, entre 2010 e 2011, considerando, como vitória de Pirro, a realização da Copa no Brasil.
As razões do nosso inconformismo eram, essencialmente, as mesmas que levaram multidões às ruas, há precisamente um ano: inversão de prioridades, quando temos questões básicas que clamam por soluções nas áreas de infraestrutura física e social, como rodovias, portos, aeroportos, saneamento básico, segurança pública, saúde e educação.

Acrescentamos, também, naqueles artigos, a quase certeza de que  o momentoso evento daria ensejo ao aumento da bitola do propinoduto para encher as burras das quadrilhas que, desgraçadamente, estão encasteladas no poder. Facilitando as coisas, o Congresso Nacional aprovou, em caráter de urgência, a lei que criou o Regime Diferenciado de Contratação, rapidamente sancionada pelo Planalto, arguidamente, para assegurar a celeridade das obras.

segunda-feira, 31 de março de 2014

A censura política nos anos de chumbo

Segunda, 31 de março de 2014
Por Antônio Matos*
A censura política, sofrida pela imprensa brasileira após o golpe militar de 1964, era feita de duas maneiras: ou por meio de bilhetes/notas oficiais e telefonemas do Exército (e, mais tarde, da Polícia Federal), determinando quais os assuntos que deveriam ser noticiados ou com censores/policiais, revisando nas redações todo o material a ser publicado, a chamada censura prévia.

Além disso, havia ainda as ações intimidatórias, como os “convites” para que repórteres, redatores, produtores e editores comparecessem ao comando local da Região Militar do Exército, a fim de prestar esclarecimentos a respeito de notas, matérias e reportagens já publicadas e apontadas, pelos censores, como atentatórias à segurança nacional ou que tivessem provocado prejuízos à imagem das Forças Armadas.

Na Tribuna da Bahia, onde trabalhei desde a Escolinha TB – uma oficina criada por Quintino de Carvalho, para os repórteres que iriam trabalhar no jornal – em 1968, até junho de 1974, acho que a censura foi mais rigorosa do que a exercida pelo governo militar nos outros veículos de comunicação do estado.

Os motivos para isso estavam mais ou menos explicados: embora presidida por um empresário e ex-banqueiro Elmano Castro, a TB tinha como redator-chefe o conceituado jornalista Quintino de Carvalho, com larga experiência no “Jornal do Brasil”, ex-integrante do Partido Comunista Brasileiro e com atuação destacada em “O Momento”, jornal do Partidão na Bahia, diversas vezes empastelado pela polícia estadual, e que circulou em Salvador, de 1945 a 1957.

Quintino, que resgatara, no hoje extinto “Jornal da Bahia”, Misael Peixoto, chefe da diagramação – seu colega em “O Momento” e também antigo filiado ao PCB – comandava uma redação, em sua maioria, formada por esquerdistas de todos os matizes (radicais, atuantes, ideológicos, festivos e simpatizantes), jovens rebeldes e idealistas, basicamente com menos de 25 anos e recrutados nas faculdades de Biblioteconomia e Comunicação e de Direito.

Diante deste ambiente incendiário, cansei de ver, da minha carteira da chefia da Editoria de Esportes, bem em frente ao corredor, notadamente no ano de 1973, a chegada dos temíveis e pouco simpáticos censores, dirigindo-se arrogantemente, ao gabinete do redator-chefe, com as notas – muitas vezes, numa tira fina de papel – que sempre começavam com um vago “de ordem superior” e, em algumas ocasiões, chegavam a fixar o período da proibição.

Quando o assunto tinha a classificação “muito importante” pelos órgãos de repressão, era o próprio superintendente regional da Polícia Federal – no caso da Bahia, o coronel do Exército, Luiz Arthur de Carvalho – quem pessoalmente encaminhava às redações o que estava proibido ou o que deveria ser divulgado.

A censura era indiscriminada: proibia a publicação de uma epidemia de malária no Amazonas, de notícias relacionadas ao aniversário de nascimento do revolucionário russo Lenin, do discurso de um deputado, até a divulgação de uma nova lista de presos políticos apresentada por sequestradores para troca por algum embaixador feito refém. As determinações eram pouco questionadas e sempre atendidas, às vezes até com algum exagero.

A doutrina de Segurança Nacional – desenvolvida na Escola Superior de Guerra (ESG), pelo general Golbery do Couto e Silva – utilizava a repugnante censura sob a alegação de que assim estaria combatendo o comunismo, responsabilizado por uma propaganda subliminar do sexo, do amor livre, da obscenidade, das drogas, por meio da mídia, do teatro, do cinema e da música, para corromper a família e os costumes.

Em defesa também desta injustificável censura à imprensa, Gama e Silva, ministro da Justiça durante o governo Costa e Silva e redator do repressivo Ato Institucional número 5, procurou minimizar a intervenção do Estado na mídia. Usou um eufemismo, ao afirmar que eram apenas orientações para a redação dos noticiários e das publicações “dentro de um clima de respeito à autoridade”.

Felizmente, os tempos são outros. Não existem mais Golbery nem Gama e Silva. A censura política na imprensa – pelo menos, ostensivamente e de modo oficial – é coisa do passado. É bom lembrar que a liberdade da imprensa, inimiga dos ditadores, é fundamental para o desenvolvimento do país, pois incentiva o debate, amplia o acesso às informações e promove a troca de ideias.

*Antônio Matos é jornalista e delegado de polícia na Bahia.
Fonte: Site Política Livre
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Comentário do Gama Livre: A Tribuna da Bahia certamente foi o veículo de comunicação baiano mais censurado pelo golpe de 1964. Trabalhei (eu, Taciano Lemos de Carvalho) lá no início dos anos 70, quando a ditadura e a censura comiam soltas. Quantas vezes todo mundo da Tribuna se mobilizava para distribuir o jornal às bancas de revistas antes que o sistema repressor chegasse para empastelar o jornal na Rua Djalma Dutra, número 121? Além das censuras apontadas pelo autor do artigo acima (Antônio Matos) frequentemente chegavam "ordens" para não falar sobre, por exemplo, a crise do açúcar, a crise do café, a crise na lavoura da cana-de-açúcar. E, muitas vezes, a crise no abastecimento de carne. Ah, seu general Tomé de Souza, ex-superitendente nacional da Sunab, se eu te vejo nos dias de hoje...

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Hipocrisia ambiental

Sexta, 8 de outubro de 2010
"O Ministério Público Federal determinou, em São Paulo, que fossem libertados os urubus colocados em enorme instalação na bienal paulista. Louvável preocupação, que deveria ser estendida também aos milhões de frangos encarcerados em jaulas minúsculas e sendo engordados para virar belos assados ou ensopados nas mesas brasileiras, aos milhões de bois e vacas presos em pastos para ficarem prontos para o abatedouro, e por aí vai.
Isso me lembra Pitigrilli, no seu Dicionário Anti Loroteiro, citando um autor cujo nome não me recordo e sua definição da natureza: “O campo é um lugar onde as aves passeiam...Cruas.”
(Jornalista Alex Ferraz, na coluna Em Tempo, da Tribuna da Bahia desta sexta)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Problemas da oposição

Quinta, 5 de novembro de 2009
Por Ivan de Carvalho
 A oposição ao governo Lula está com problemas graves a enfrentar quanto à sucessão presidencial.
 Uma das coisas é que há uma forte polêmica nas hostes oposicionistas quanto à capacidade ou não do presidente Lula transferir votos para Dilma Rousseff.
Pois agora quem sai para dirimir a questão é o ex-presidente FHC, considerado uma espécie de oráculo do PSDB, o principal partido da oposição e que vai apresentar candidato a presidente da República, seja o governador paulista José Serra, seja o governador mineiro Aécio Neves.
    Abrindo um parêntesis: claro que o candidato do PSDB não será o único da oposição. Estão em campo pelo menos mais dois. Um deles é o ex-governador do Ceará, ex-ministro e ex-candidato a presidente Ciro Gomes, que promete disputar o cargo hoje ocupado por Lula, representando a legenda do PSB.
Lógico que se concorrer nas urnas com a candidata oficial do governo, Dilma Rousseff, Ciro Gomes estará automaticamente na faixa da oposição, por mais que o negue ou que jure aprovar e apoiar o governo de Lula. Oposicionista envergonhado, sim, poderá ser, mas assim mesmo oposicionista.
O caso da ex-ministra petista do Meio Ambiente, senadora Marina Silva, agora candidata do Partido Verde a presidente, é bem diferente. Ela não está ensaiando a figura teratológica de uma candidatura de oposição governista que Ciro Gomes, do PSB, tenta criar. Marina, apesar de suas origens petistas, tem hoje divergências profundas com o PT, não somente na questão ambiental, mas em outras também fundamentais (por exemplo, o PT é oficialmente a favor da liberação do aborto, Marina é contra). Ela é oposição ostensiva. E no momento busca uma aliança com o Psol, filho rebelde do PT e cuja principal liderança é Heloísa Helena, ex-senadora e ex-candidata a presidente da República. Fecha-se aqui o parêntesis para voltarmos ao principal núcleo da oposição, formado pelo PSDB, pelo Democratas, pelo PPS e provavelmente pelo PTB (que hoje apóia o governo, mas pretende integrar a coligação liderada pelo PSDB.
Bem, como dizíamos, o oráculo FHC proclamou que o presidente Lula tranfere votos, sim. Pois Dilma Rousseff está hoje com 15 por cento das intenções de voto nas pesquisas eleitorais e ela não tinha nada. A questão para FHC é quanto em votos Lula consegue transferir. Ele acha que isso depende de quanta identidade o eleitor identifique entre o presidente e sua candidata. Se o eleitor avaliar que são, por exemplo, água e azeite, o potencial de transferência de votos de Lula pode não ser grande.
O outro grande problema da oposição é o que, pelo menos aparentemente, sugere um ultimato do governador Aécio Neves – ele exige que o PSDB decida até 31 de dezembro se o candidato a presidente é Serra ou ele. Serra não quer isso, quer adiar a decisão para março, mas Aécio ameaça ser candidato a senador e só fazer campanha em Minas se a decisão não for tomada antes do Réveillon. Essa intenção, se concretizada, seria devastadora para a candidatura de Serra.

Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia desta quinta-feira.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Temporada de gafes

Quinta, 14 de outubro de 2009
Por Ivan de Carvalho

 Parece que estamos, aqui na Bahia, imersos em um festival de gafes, de coisas absurdas, mas que mesmo assim acontecem. Parece nunca haver sido mais atual a famosa observação do ex-governador Octávio Mangabeira: “Imagine um absurdo. Na Bahia há precedente”. Diria que pior: se nem mesmo o precedente existe, nós o criamos. Ou, na mais amena das hipóteses, ele é criado. Na Bahia, nem precisa dizer.
    A safra mais recente de absurdos começou com a história do trem. Compraram um trem que não cabia no buraco onde deveria passar. O Estado comprou o trem, a prefeitura de Salvador cavou o buraco. Claro que aí, em tese – se for investigar será certamente possível determinar responsabilidades pela trapalhada – é possível estabelecer uma polêmica a respeito de quem errou, se o Estado ou a prefeitura. O que não suscita dúvida é o fato de que o buraco era mais baixo.
    Passados uns tempos, a população já estava refeita da estupefação e certamente se preparando para uma temporada de sossego quando explode a nova e quase inacreditável trapalhada. Só não é inacreditável porque aconteceu mesmo e foi na Bahia. Um conjunto de residências do programa Minha Casa, financiado pela Caixa Econômica Federal, foi construído e, uma vez pronto, os felizes futuros moradores foram surpreendidos pela espirocada informação de que não poderiam ocupar suas novas residências pois a empresa que as construiu esqueceu – isso mesmo, esqueceu!!! – de construir a rede de esgotos. Mas não há problema: já foi feito um projeto para a implantação da rede de esgotos esquecida, apressou-se a informar uma autoridade.
    Mencionadas autoridades, não convém omitir uma delas, que esteve na Bahia na semana passada. Das mais poderosas, famosas, ultimamente risonhas e, segundo se comenta nos meios políticos, de estilo autoritário, meio ou inteiro para o arrogante. Era o que dela diziam quando era apenas ministra-chefe da Casa Civil e é a imagem que vem buscando desfazer desde que foi lançada pelo presidente Lula como candidata do PT e partidos aliados para sucedê-lo no cargo.
    Coisa estranha. O marqueteiro-consultor do presidente Lula é o jornalista e poderoso publicitário João Santana, que levou dos seus primeiros tempos de jornalismo (na Tribuna da Bahia) o apelido de Patinhas, que foi secretário de Comunicação do prefeito Mário Kertész e que foi chefe da sucursal de O Globo na Bahia, diretor de redação do Jornal da Bahia antes de rumar para Brasília, onde obteve rápida e impressionante ascensão.
    Mas nem todo o gênio de João Santana (não sei quão profundamente está operando na candidatura de Dilma Rousseff, mas de fora é que não está, assessor informal, ainda que eventualmente prefira parecer que não tem, ao menos por enquanto, nada a ver) impediu que a ministra-candidata a presidente cometesse algumas gafes em Salvador.
    Uma delas foi quando, às voltas com as futuras obras da Via Portuária, estranhou o nome Rótula do Abacaxi. Entendeu que abacaxi não é símbolo de nada bom, ninguém gosta, por exemplo, de “descascar o abacaxi”, e então não teve dúvidas: sugeriu a mudança de nome para Rótula da Melancia. Ou ela gosta muito de melancia ou estava preocupada com a popularidade da mulher melancia no momento em que a sua está um pouco em baixa. Alguns políticos importantes que estavam junto parecem não ter gostado, ao ponto de um deles haver sugerido que se rebatizasse o lugar como Rótula do Pepino.
    Mas onde a gafe foi mais profunda e o consultor-marqueteiro, que não podia prever tal coisa, nenhuma utilidade teve foi a respeito das fitas do Senhor do Bonfim. Quiseram colocar uma no pulso dela, ela rejeitou. “Está não, quero esta aqui”, pegando uma fita semelhante, mas que estava amarrada no gradil de metal do adro da Igreja do Bonfim.
    Não sabia que são postas ali por pessoas que já depositaram nelas o seu pedido. A ministra-candidata levou o pedido alheio. Se ela tivesse o Poder do Senhor Jesus, sem problemas...

Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia de hoje.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.

sábado, 10 de outubro de 2009

Dilma, agradecimento e testemunho

Sábado, 10 de outubro de 2009

Por Ivan de Carvalho   

Vamos fazer de conta que sonhei que o governo brasileiro mandou executar sumariamente o ex-presidente de Honduras, Manuel Zelaya, que é “hóspede”, como Lula o qualificou, da embaixada do Brasil naquele país da América Central, país que descuidadamente o nosso presidente situou na América do Sul, cometendo gafe equivalente à de Reagan, que em sua visita ao Brasil referiu-se à Bolívia como o país visitado.
    Mas que têm as duas gafes – de Reagan e de Lula – com isso? Nada. Talvez estejam aí porque, nos sonhos, surgem repentinamente, não dá para saber de onde, coisas que parecem desconectadas da trama básica do sonho. Isso talvez até ocorra porque os sonhos não tenham trama básica.
    Mas, concedamos que haja uma trama básica e que aquelas coisas que caem como que de pára-quedas nos sonhos guardem equivalência com coisas que surgem misteriosamente na realidade, como é o caso de Manuel Zelaya emergir das sombras no portão da embaixada brasileira em Honduras e isso ainda provocar amplos sorrisos, ao invés de “cara de preocupação”, do presidente Lula, do chanceler Celso Amorim e do assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia.
    Bem, mas levantei a hipótese de o governo brasileiro mandar executar sumária e arbitrariamente o ex-presidente Zelaya no pátio de nossa embaixada em Honduras. Seria um crime horrendo, embora Zelaya haja entrado voluntariamente na embaixada, haja pedido para ficar lá, esteja usando a embaixada como seu escritório político, não seja um inocente, mas um indivíduo de maior idade e experiente na política, além de culpado, segundo a Suprema Corte de seu país, de tentar violar a Constituição na cláusula pétrea que proíbe a reeleição e não admite ser alterada.
    Imagine o leitor se não é o governo brasileiro o executor e Zelaya o executado, mas um ser humano absolutamente indefeso e inocente, que não pediu para estar hospedado por nove meses no ventre de sua mãe e que não está fazendo qualquer uso indevido do corpo hospedeiro, este sim, pertencente à pessoa que convidou o “hóspede” a estar lá, ao voluntariamente criar as condições para que esteja. Como seria mais grave o crime do que aquele que se cometeria no pátio da embaixada...
    Mas por que escrevo hoje essas coisas? Porque Dilma Rousseff foi ao Bonfim, pagar promessas, agradecer a veloz cura, declarada por seus médicos, de um câncer muito agressivo, ainda que os médicos geralmente prefiram só declarar definitiva a cura ao fim de um período de cinco anos.  Se tão rápido o puderam fazer, maior motivo tem a ministra e candidata a presidente para agradecer a Deus.
    Bem, há alguns dias, ao deixar o PT, que o suspendeu por insistir na luta contra a descriminalização do aborto, tentando algemar-lhe a consciência, o presidente da “Frente Parlamentar em Defesa da Vida – contra o aborto”, Luiz Bassuma, disse saber que “pessoalmente, Dilma, Serra e Ciro” são a favor da descriminalização. São, “pessoalmente”, mas publicamente nenhum deles teve a coragem de declarar isso ao eleitorado, de abrir o jogo, de tirar a carta da manga e exibi-la. Boca de siri.
    E o que tem isso com a ida de Dilma Rousseff ao Bonfim? Tem isso: ela, na Igreja, assistiu a primeira missa do dia, fez seu silencioso e contrito – mas muito filmado, fotografado e relatado – agradecimento ao Senhor do Bonfim, embora sem receber a hóstia consagrada, tudo isto não sem antes tomar, no adro, um banho de folhas de aroeira que filhos e filhas-de-santo lhe deram, folhas especializadas em “abrir caminhos”, conforme ensina o jornalista Vitor Hugo Soares.
    De “inequívoca origem de esquerda” e “comunista radical”, como escreveu em sua coluna neste jornal Alex Ferraz, com coragem pessoal suficiente para por em gravíssimo risco sua vida em defesa da causa durante o autoritarismo militar, Dilma afinal é agora a filha pródiga, que abandonou os desvios do marxismo (ateu) e voltou à casa do pai. Isto é, do Pai. Como o necessário esclarecimento de Dilma, Serra e Ciro sobre o aborto, esta conversão espetacular de Dilma está à espera de ultrapassar a manifestação sincretista e, para muitos, folclórica do Bonfim e alcançar o nível de um testemunho espiritual público e puro, sem política nem espetáculo, para ciência da nação que ela se propõe a governar.
Este artigo foi publicado originalmente no jornal Tribuna da Bahia de hoje
Ivan de Carvalho é jornalista baiano