“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Dilma foi mesmo apelar à Corte de Direitos Humanos cuja decisão sobre os mortos do Araguaia ela esnobou

Quarta, 10 de agosto de 2016
Do Blogue Náufrago da Utopia
Por Celso Lungaretti
No final de junho, quando esta besteirinha estava sendo cogitada por Dilma Rousseff e os trapalhões que a assessoram, já a fulminei... quero dizer, comentei.


Como nunca perderá dinheiro quem apostar na falta de discernimento e de simancol dessa gente, eis que a ridicularia parece mesmo ter sido consumada, conforme notícia que o UOL acaba de colocar no ar:
"Deputados federais do PT anunciaram nesta 4ª feira (10) que recorreram à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA contra o processo de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff, que tramita no Senado. 
Em uma petição protocolada na última 3ª feira (9) junto à Comissão, em Washington, os deputados pediram que Dilma volte à Presidência da República e que o processo de impeachment que tramita no Senado seja suspenso, em caráter liminar, até que a comissão se posicione sobre o assunto.".
 
Se a comissão decidisse fazer o que lhe é pedido, o que aconteceria? Ela passaria a bola para a Corte Interamericana e esta poderia lançar um documento tão contundente como este:
 
"Os crimes de desaparecimento forçado, de execução sumária extrajudicial e de tortura perpetrados sistematicamente pelo Estado para reprimir a Guerrilha do Araguaia são exemplos acabados de crime de lesa-humanidade. Como tal merecem tratamento diferenciado, isto é, seu julgamento não pode ser obstado pelo decurso do tempo, como a prescrição, ou por dispositivos normativos de anistia. 
...a jurisprudência, o costume e a doutrina internacionais consagram que nenhuma lei ou norma de direito interno, tais como as disposições acerca da anistia, as normas de prescrição e outras excludentes de punibilidade, deve impedir que um Estado cumpra a sua obrigação inalienável de punir os crimes de lesa-humanidade... 
 ...só assim se entrará em um novo período de respeito aos direitos da pessoa, contribuindo para acabar com o círculo de impunidade no Brasil".
 
Trata-se de um trecho da decisão da corte determinando que o Brasil esclarecesse de vez o destino que os carrascos da ditadura militar deram aos restos mortais dos guerrilheiros executados em massa no Araguaia, entregando-os às famílias e punindo os responsáveis.

E reiterando o entendimento inequívoco do Direito internacional, no sentido de ser nula qualquer anistia que uma ditadura conceda aos seus esbirros em plena vigência do arbítrio, como uma espécie de habeas corpus preventivo para que eles permaneçam impunes após a redemocratização.

O que fez o Supremo Tribunal Federal (o qual, em abril daquele mesmo ano, havia tomado uma das mais vergonhosas e aberrantes decisões de toda a sua história, ao avalizar a auto-anistia dos torturadores)? Nada. Ignorou.

O presidente Lula também ignorou, mas tinha a desculpa de estar em finzinho de mandato.

Quando Dilma, ex-guerrilheira, antiga torturada, tomou posse, os defensores dos direitos humanos esfregaram as mãos de euforia: "Agora vai!".

Não foi. Fez exatamente como o STF e o Lula: ignorou.
Mas, como um bom truque de propaganda sempre convence os que querem ser convencidos (e muito mais aqueles cujos interesses mesquinhos recomendam a adoção de uma postura subserviente ao poder), Dilma criou uma Comissão da Verdade engana-trouxas, para que todos os holofotes se voltassem na sua direção e passasse a segundo plano, depois fosse esquecida, a pusilanimidade com relação aos mortos do Araguaia.

Uma Comissão da Verdade à qual ela jamais deu os meios para impor-se sobre aqueles que tudo faziam para manter a verdade sob sete palmos de terra, a ponto até de duas testemunhas importantes terem sido assassinadas e tudo haver ficado por isto mesmo.

Pois bem, é a esta mesma Corte por ela esnobada que Dilma e seus defensores foram agora pedir um salva-vidas.

Mesmo que a jogada desse certo, o Senado e o STF poderiam responder que, escudados nos precedentes do Lula e da Dilma, desconsiderariam tal intervenção...

sábado, 9 de julho de 2016

Mamulengos e a Lava Jato: STF pede urgência à PF na investigação sobre boneco de Leewandowski e levanta poeira no ar que pode embaçar visões e desviar atenções

Sábado, 9 de julho de 2016
Do Blog Bahia em Pauta

Boneco de Lewandowski na Paulista:STF quer PF no caso..


…e o goleiro Luna preso em São Paulo:
“sou inocente disso aí”.

Do artigo Prisão de Luna, defesa de Dilma e o boneco de Lawandowski, publicado hoje (9/7) pelo jornalista Vitor Hugo Soares em seu Bahia em Pauta, citando parte da defesa da presidente à Comissão do Impeachment. Texto da defesa lido 'meio à moda maçante dos bêbados de comício ou de fim de festa' por seu advogado na comissão do impeachment:


“O destino sempre me reservou grandes desafios. Alguns pareciam intransponíveis, mas eu consegui vencê-los. Já sofri a dor indizível da tortura, já passei pela dor aflitiva da doença e hoje sofro a dor igualmente inominável da injustiça”, recorda Dilma, pela voz de Cardozo. Alho misturado com bugalhos. A fé e os princípios da juventude, a entrega ideológica no combate a um tempo de sombras e arbítrio ou, mais recentemente, a luta contra infortúnios da saúde, são agora, tristemente, utilizados como salvo conduto da mandatária de um governo fracassado e de um partido corrompido, cercados de suspeitas e graves acusações por todos os lados – a partir do seu fundador e guia -, praticamente sem saída.

Leia aqui a íntegra do artigo 

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Dilma ainda pode, como Vargas, evitar a apoteose do inimigo. E nem precisará pagar com a vida

Sexta, 15 de abril de 2016
Do Blogue Náufrago da Utopia
Por Celso Lungaretti

Depois de uma canhestra e infrutífera tentativa de salvar-se do impeachment anunciado no tapetão do Supremo Tribunal Federal, nada mais resta a Dilma Rousseff afora a perspectiva de ter (pelo menos) dois terços dos deputados federais decidindo que ela faz jus ao impedimento. Era um placar negativo difícil de atingir. Ela conseguiu. Um fenômeno.

Qual a chance de, no Senado, ela não ser depois fulminada por maioria simples? Nenhuma. Zero. Game over.

Ainda assim, Dilma parece disposta a continuar esperneando até o mais amargo fim, para depois ser clicada pelos fotógrafos ao retirar-se chutada do Palácio do Planalto enquanto os adversários estiverem festejando por todo o País. Após buscar tão diligentemente a derrota, ainda vai posar de derrotada, para gáudio dos que há muito queriam ver sua cabeça empalhada exposta na parede dos troféus.

Há quem louve tal teimosia, como se fosse espírito de luta. Não é.

Guerreiros de verdade não insistem em travar batalhas suicidas, para serem dizimados junto com seus efetivos, enquanto ainda existe uma mínima possibilidade de se retirarem com uma vitória na derrota, preservando suas forças para uma futura revanche.



O que seria uma retirada organizada, agora que barrar o impeachment se evidencia como totalmente impossível? Eis o roteiro: 
renúncia de Dilma tão logo o impeachment seja aprovado na Câmara;
  • na mensagem derradeira, exortação de Dilma a Temer, no sentido de que renuncie também e dê ao povo brasileiro a possibilidade de escolher alguém em quem realmente confie para conduzi-lo neste momento dramático da vida nacional, pois até as pedras sabem que os eleitores votam em presidentes e não dão a mínima para quem seja o vice;
  • imediata adesão do PT e outras forças de esquerda à campanha por uma nova eleição presidencial, revivendo o espírito das diretas já.
Uma vez que Dilma cultua tanto a imagem de Getúlio Vargas, por que não o imita?

Não precisaria abrir mão da vida, só do cargo.

Encostar o Temer na parede, apontando-o ao povo como o grande obstáculo à melhor solução para a crise, seria o equivalente à carta-testamento.

E, caso tal ato gere uma reviravolta que impeça o inimigo de colher o fruto podre de suas tramoias, o paralelo se completará.

Assim um guerreiro de verdade faria. Assim fez Vargas.

Assim fará Dilma, se ainda prezar sua dignidade e se ainda for fiel a opção assumida meio século atrás, de colocar as necessidades e interesses do povo sofrido acima de quaisquer considerações de ordem pessoal.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Continuidade deletéria

Terça, 12 de abril de 2016
Adriano Benayon *
Adriano Benayon
Publiquei, este ano, artigo “O Golpe Permanente”, em que resumi como as lamentáveis estrutura e infraestrutura econômica e social do País são o resultado da continuidade, nos últimos 62 anos, de políticas determinadas por interesses vinculados às potências imperiais ou, no mínimo, capitulações diante de pressões dessas potências.

2. A continuidade, geralmente despercebida, tem prevalecido sob governos e regimes díspares, incluindo os militares e os eleitos pelo voto direto, e também os instalados através de eleições indiretas pelo Congresso “Nacional”.

3. Essa realidade prossegue sob a presente “ordem” constitucional, e perdurará, enquanto esta existir, como também sendo ela  substituída por mais um regime incapaz de conduzir o Brasil ao desenvolvimento econômico e social.

4. Tenho enfatizado que a corrupção mais profunda  é de natureza distinta da que costuma ser investigada pelas autoridades competentes e exposta ao público pelos meios de comunicação social.

5. Muitos brasileiros estão divididos entre, os que consideram que a preservação (?) do inexistente (mas oficialmente assim definido) regime democrático depende de rejeitar o pedido de impeachment contra a presidente da República, e os que julgam que esse regime somente sobreviverá se conseguirem defenestrar a primeira mandatária.

6. Não obstante a segunda “alternativa” afigurar-se a mais deletéria, o País terá agravados os seus desequilíbrios com qualquer desses desfechos.

7. No deprimente espetáculo oferecido por políticos e partidos, o PMDB apresentou mais um número digno de seu passado de conchavos espúrios e deslavado fisiologismo, afastando-se do Executivo petista, de que fez parte desde o primeiro mandato de Lula.

8. De fato, por todo esse tempo, caciques peemedebistas, Temer, Cunha e outros, - além das cornucópias reservadas ao Legislativo, como as emendas ao orçamento – desfrutaram de cargos e feudos na área do Executivo.

9. E já o haviam feito nos oito anos de FHC (PSDB), cumpliciando-se em todos os atos de frontal desprezo aos interesses nacionais. 

10. É manifesta a orfandade dos brasileiros no que dependa da representação política, cujas mazelas independem da dualidade esquerda (PT, PC doB ?) / direita (PSDB e aliados, agora reforçados pelo PSB, em traição às memórias de seus fundadores).

11. Se a “direita”, é confessadamente alinhada às posições defendidas pelo império angloamericano e em favor de sua oligarquia financeira, os governos encabeçados pelo PT nunca deixaram de se acomodar com esta.

12.  Isso vem desde antes da primeira posse de Lula, quando este fez acordo de “governabilidade”, no qual concordou em sufocar os movimentos que pleiteavam rever as grossas bandalheiras das privatizações, em que foi dilapidado o grosso do patrimônio público. 

13. Recorde-se que o surgimento de Lula e do PT foi patrocinado durante governo militar, sob a direção de Golbery, ligado à CIA, a fim de dividir a esquerda que, à época ainda contava com figuras nacionalistas de expressão: Leonel Brizola e Miguel Arraes.

14. A escalada de Lula foi fomentada, não só pela ala pró-EUA do governo militar, mas também pela grande mídia, tradicional sustentáculo dos interesses dos carteis transnacionais, desde antes da derrubada do presidente Vargas em 1954.

15.  O apoio externo ao sindicalista de resultados manifestou-se, de forma despercebida pelo público, por exemplo, em cenários ilusórios de perseguição contra Lula, para transformá-lo em suposta vítima do governo ditatorial, como o sobrevoo ameaçador de concentração de seguidores, por helicópteros das FFAA.

16. Outro episódio marcante foram as fraudes contra Brizola para que Lula obtivesse, por pequena margem, o segundo lugar no 1º turno da fatídica eleição de 1989, que elevou Collor à presidência, para, entre outras medidas devastadoras, fazer o Congresso aprovar, em 60 dias, pacote de leis tão volumoso, como nocivo ao País.

17. Entretanto, fazendo justiça a Lula, lembre-se que ele, no primeiro mandato, tomou algumas medidas favoráveis à economia e deteve temporariamente a destruição da Petrobrás, encetada por FHC, desde a Lei 9.478/1997 e a infiltração de agentes de interesses externos na ANP e na estatal.

18. Lula pôs em posições executivas da Petrobrás, técnicos, como Guilherme Estrella e Ildo Sauer, que dirigiram as descobertas das grandiosas reservas do pré-sal,  além de ter conseguido aprovar a Lei que instituiu regime especial para a exploração dessas reservas.

19. Mas a qualidade das administrações da Petrobrás não se manteve no segundo mandato e deteriorou-se sob Dilma, com Graça Foster e muito mais com Bendine.

20. As políticas deste são contraditórias e destrutivas, como comprova: 1) o balanço de 2015, em que foram enganosamente desvalorizados e subavaliados os ativos da empresa; 2) a açodada venda de parte substancial de ativos.

21. É desastrosa a atuação da presidente Dilma, em áreas cruciais como o petróleo e a eletricidade, em manteve o sistema de caos programado instituído por FHC, e acabou consumando a virtual falência da Eletrobrás.

22. Entretanto, constatar esses fracassos não leva a concluir que a devastação do patrimônio do País não será ainda mais incrementada, se o Executivo for assumido por qualquer dos opositores. 

23. No próximo artigo, avaliarei antecedentes históricos das mentirosas  “alternativas” existentes no cenário político. 

* Adriano Benayon é doutor em Economia, pela Universidade de Hamburgo, Alemanha; autor de Globalização versus Desenvolvimento.

Último apelo a Dilma: Renuncie enquanto pode salvar algo do incêndio. Não nos legue Temer!!!

Terça, 12 de abril de 2016
Por Celso Lungaretti

O impeachment de Dilma Rousseff deverá ser votado pelo plenário da Câmara Federal neste domingo (17) e só os ingênuos supõem que haja a mínima chance de não ser aprovado (idem, adiante, no Senado).

Evidentemente, haverá grandes manifestações contra Dilma nas principais capitais brasileiras.

Evidentemente, a imagem que prevalecerá vai ser a da avenida Paulista, palco das duas maiores desta década, ambas oposicionistas.

Evidentemente, surgirão novidades impactantes da Operação Lava Jato, desde vazamentos até, talvez, a prisão do ex-presidente Lula.
Não tenho informações de cocheira nem sou adivinho, estou citando apenas o que se depreende do ocorrido em momentos semelhantes e de movimentações noticiadas pela imprensa.

Mas, o fator que realmente determinará o resultado da votação será o de que o grande capital, depois de não ter julgado conveniente afastar Lula quando explodiu o escândalo do mensalão (e fazê-lo teria sido muito fácil naquele instante), agora chegou à conclusão de que não vale a pena bancar uma presidente que até reza por sua cartilha, mas é incapaz de botar ordem na casa. Que tenta obedientemente enfiar goela dos brasileiros adentro o ajuste fiscal, mas não consegue entregar o que prometeu.

País pobre como o Brasil não convive bem com recessão tão longa (começou no segundo trimestre de 2014), muito menos com um contínuo agravamento da crise. A queda do PIB deverá ficar, neste ano, entre -3,5% e -4%, um pesadelo! E não há a mais remota perspectiva de melhora sob Dilma.

Inflação sob Sarney atingiu 90% ao mês. PMDB de novo?!
E, levando em conta a impopularidade de Dilma, a certeza de aparecerem na mídia como vilões e a perspectiva de obterem maiores recompensas do sólido poder econômico que do cambaleante poder político, é óbvio que os deputados mais perspicazes escolherão a opção que melhor contempla seus interesses.

Então,  vou novamente ensinar o caminho das pedras para a Dilma, embora cético quanto à possibilidade de ela o seguir; também levando em conta situações anteriores, temo que ela preferirá continuar se enredando nos espinheiros, como tem feito até agora.

Caia na real, Dilma! Seu afastamento é inexorável e, se optar pelo caminho que leva ao defenestramento humilhante, você legará ao povo brasileiro não só um desastre econômico, como também... o presidente Amigo da Onça!

Em nome do seu passado de revolucionária, aja, pelo menos desta vez, com desprendimento: renuncie, exorte publicamente o Temer a renunciar também (ele está vulnerável como nunca!) e vá para casa com o consolo de ter saído pela porta da frente e haver contribuído para a única solução capaz de trazer algum alívio ao povo sofrido: uma nova eleição presidencial.
Eu sei, tu sabes, você sabe, todos sabemos: a presidência tampão de Temer nada mais será do que o prolongamento da agonia atual. Os trabalhadores e os excluídos –aqueles  por quem há meio século você decidiu lutar– merecem isso de sua parte?!

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O Globo denuncia crime de responsabilidade na MP da Leniência

Domingo, 14 de fevereiro de 2016
Da Tribuna da Internet / O Globo
Francisco Leali
O Globo
 








Dilma Rousseff anunciou uma coisa e assinou outra

Foi tudo muito rápido. Em menos de 20 minutos,
estava sacramentada a medida provisória com novas regras para acordos de leniência fechados entre empresas envolvidas em atos de corrupção e o governo. O texto assinado pela presidente Dilma Rousseff numa solenidade no Palácio do Planalto no dia 18 dezembro do ano passado mudava a chamada Lei Anticorrupção, em vigor há pouco menos de dois anos. A partir dali, as empresas não mais precisavam admitir prática de crime para aderir ao acordo. Quem assinasse passou a ficar liberado para voltar a contratar com o governo. Quinze dias antes da rápida cerimônia palaciana, o texto era diferente: tinha dois pontos importantes para assegurar punição dos envolvidos, mas eles acabaram desaparecendo da MP 703.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Eu e a Dilma: Um caso de desamor à primeria vista (final)

Terça-feira, 12 de janeiro de 2016 

Do Náufrago da Utopia Por Celso Lungaretti


Clique e leia também:






Eu e Dilma: Um Caso de Desamor à Primeira Vista (3ª parte)


EU E DILMA: UM CASO DE DESAMOR À PRIMEIRA VISTA (4ª parte)


EU E A DILMA: UM CASO DE DESAMOR À PRIMEIRA VISTA (final)



A última eleição presidencial esquentou a partir da morte de Eduardo Campos, no dia 13 de agosto de 2014. E, se não me animava a lutar por nenhuma candidatura, a partir daí ficaram claras na minha mente quais as possibilidades que deveriam ser evitadas a todo custo:

  • um verdadeiro golpe de estado, com tropas e tanques nas ruas, que nos faria retroceder décadas, extirpando o pouco que se construiu de aproveitável a partir de 1985; e

  • a reeleição de Dilma, a pior timoneira possível e imaginável numa tempestade como a que se formava.

Então, ao mesmo tempo em que rebatia falácias utilizadas para desconstruir a candidatura de Marina Silva e tentava convencer os petistas a refrearem a selvageria de sua campanha, em várias ocasiões manifestei minha simpatia pelo volta, Lula!, pois a troca de cabeça de chapa provavelmente recolocaria no poder um político com habilidade e jogo de cintura para, pelo menos, reduzir as previsíveis tensões de um futuro imediato que seria crítico em termos econômicos.

Já Dilma, com sua péssima leitura do quadro político, seu primarismo estratégico, sua truculência tática e sua irredutibilidade característica de tecnoburocratas, é do tipo que joga álcool na fogueira o tempo todo, às vezes sem sequer perceber...
Assim, depois de tentar acelerar a economia no tranco (estatal) durante o primeiro governo, ela parece ter ficado aturdida quando lhe caiu a ficha de que, isto sim, incubara uma grave recessão.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Eu e Dilma: um caso de desamor à primeira vista (4ª parte)

Sexta, 8 de janeiro de 2016
Do Náufrago da Utopia Por Celso Lungaretti
Clique e leia também:



Eu e Dilma: Um Caso de Desamor à Primeira Vista (3ª parte)

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EU E DILMA: UM CASO DE DESAMOR À PRIMEIRA VISTA (4ª parte)

Outras cruéis decepções com Dilma vieram na esteira:
  • a negativa pífia ao pedido de asilo de Edward Snowden, sob pretexto burocrático que não iludiu ninguém, Deus e o mundo perceberam que o motivo real foi o receio de desagradar aos EUA;
  • a reação igualmente pífia à constatação de que vinha sendo espionada pelos estadunidenses, preferindo discursar inutilmente na ONU, diante de uma bancada dos EUA esvaziada de personagens do alto escalão, quando tinha uma oportunidade de ouro para dar realmente o troco, revendo a decisão sobre o Snowden;
  • a prorrogação dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade a fim de que o relatório final só fosse divulgado depois do 2º turno presidencial, para evitar que previsíveis protestos de militares jurássicos servissem como munição eleitoral para a direita (ou seja, por motivo politiqueiro, deixou-se de aproveitar o 50º aniversário do golpe de 1964 para aumentar, em muito, a repercussão na mídia dos relatos sobre o festival de horrores da ditadura).
Eram mais motivos para eu manter-me à distância da eleição de 2014. Então, nem sequer me animei a protestar contra a negativa de registro da Rede Sustentabilidade, embora estivesse careca de saber qual a mão que movimentara os cordéis nos bastidores. A política oficial me enojava.

Com a morte de Eduardo Campos e a volta de Marina Silva à disputa pra valer, vi com simpatia a possibilidade de outra representante da esquerda interromper o ciclo petista, pois a eternização no poder costuma provocar graves distorções na prática e até na identidade de partidos sem muita consistência ideológica, como o PT (tinha-a em 1980, mas o inchaço, o aburguesamento e a direitização o foram minando cada vez mais, por dentro).

Evitei declarar-lhe apoio, afirmando:

"Marina Silva é uma incógnita; Dilma Rousseff, a continuidade da pasmaceira atual; e Aécio Neves, o retrocesso. 
Aquilo com que sonho não é nenhuma candidatura presidencial de 2014, mas sim a emergência e afirmação de uma nova geração revolucionária, capaz de conquistar nas ruas o que jamais obteremos na Praça dos Três (podres) Poderes".
Mas, vi-me obrigado a sair em sua defesa quando passou a sofrer uma campanha de satanização grotesca e repulsiva, que me fez até lembrar a frase célebre do ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels ("Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade").


Mentirosos conscientes de estarem mentindo descaradamente, os responsáveis pela propaganda eleitoral petista e pelo municiamento da rede virtual chapa branca trombetearam que Marina seria subserviente aos banqueiros por estar recebendo o apoio de uma integrante da família proprietária do Itaú.

Omitiram que tal fulana era (é) uma mera herdeira, que apenas embolsa seus dividendos e jamais apitou nada nas decisões do grupo, tendo muito tempo ocioso no seu cotidiano e preenchendo-o com a adesão a causas nobres (na esfera da educação e ecologia, principalmente).  Pior ainda, que ela, na eleição anterior, prestara o mesmíssimo serviço ao candidato do PT à prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad.

Depois de martelado à exaustão na cabeça dos crédulos um inexistente vínculo de Marina com banqueiros, a campanha de Dilma passou à mentira seguinte: de que a malévola ex-seringueira, na Presidência, imporia um perverso ajuste fiscal, tirando a comida da mesa do povaréu, enquanto a santa Dilma jamais maltrataria os coitadezas. Nem que a vaca tossisse ela mexeria nos direitos trabalhistas, etc.

Desde o primeiro momento tentei dissuadir os grão petistas de cometerem tal infâmia, lembrando que o nosso lado não pisa no pescoço da mãe para ganhar eleições presidenciais; que, para nós, a verdade é (ou deveria ser) revolucionária; e que, antes da degringola ideológica das últimas décadas, tratávamos os lacaios da burguesia e a ralé ditatorial como inimigos, mas respeitávamos os esquerdistas de outras tendências como adversários, tentando destruir politicamente os primeiros e trazer para o nosso lado os segundos.


Um de meus piores pesadelos sempre foi a tragédia que se abateu sobre a mais proletária revolução do século passado, a soviética, que terminou melancolicamente com uma bestial e parasitária nomenklatura encastelada no poder. Nos nefandos julgamentos de Moscou, revolucionários com décadas de heroicas lutas travadas em seu currículo eram submetidos a intermináveis torturas e acabavam vindo a público admitir que haviam sido sempre espiões das potências imperialistas, envolvidos em conspirações tão mirabolantes como as dos vilões da série 007 (envenenar os reservatórios de água, p. ex.).

Foi canalhice equivalente, embora em miniatura, que o PT cometeu com Marina Silva, a filha pródiga do petismo: desconstruiu-a fazendo o povo acreditar que ela era envenenadora de represas. Refleti que um partido que recorre a tais ignomínias para permanecer no poder já está descendo a ladeira.

Paralelamente, comecei a perceber a insistência com que os poderosos do capitalismo exigiam do novo governo, qualquer que fosse ele, a adoção de medidas recessivas na economia. Era uma ação concertada, agressiva. E, analisando os três candidatos principais sem ilusões, cheguei à conclusão de que nenhum deles resistiria a tal rolo compressor.

Isto acendeu o alerta vermelho na minha mente. Os anos de trabalho indesejado em editorias de Economia, remédio amargo que tive de engolir por falta de melhor opção, familiarizaram-me o suficiente com o mundo dos negócios para saber muito bem o que vinha pela frente, um festival de iniquidades, injustiças e abusos contra os explorados.


Aí, mais do que nunca, passei a considerar fundamental a alternância de poder: qualquer partido de esquerda que fosse cumprir o que o poder econômico exigia estaria se condenando à desmoralização e ao opróbrio.

Pior, muito pior, se o partido atendesse pelo nome de PT. Pois, certo ou errado, o povo o vê como a esquerda no poder. E a esquerda no poder não pode se tornar neoliberal da noite para o dia, arrochando os coitadezas para garantir que os bancos brasileiros continuem entre os mais lucrativos do mundo.

A reeleição de Dilma foi a pior vitória de Pirro que poderia nos acontecer: trazia embutida a destruição do PT e da credibilidade da própria esquerda, que demorará uma eternidade para recuperar o prestígio com que saiu da ditadura militar.

Aí Dilma.2 começou da pior maneira possível, com a posse de um office-boy do Bradesco como ministro da Fazenda: Joaquim Levy, economista sem brilho acadêmico nem carreira destacada, cujas únicas credenciais eram a de ser neoliberal desde criancinha e vir indicado pelo presidente do Bradesco, Luís Carlos Trabuco, que astutamente se recusou a assumir ele próprio o posto, quando Dilma o convidou.

Iniciava-se o ano perdido de 2015, que acabaria superando minhas mais pessimistas previsões. (continua)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Eu e Dilma: Um Caso de Desamor à Primeira Vista (3ª parte)

Quarta, 6 de janeiro de 2015
Do Náufrago da Utopia
Por Celso Lungaretti
Clique e leia também:


 
A apuração das bestialidades perpetradas pela ditadura de 1964/1985 contra os que exerceram o direito milenar de resistência à tirania e punição dos agentes do Estado responsáveis por tais crimes contra a humanidade vinha sendo negligenciadas desde 1985 pelo Estado brasileiro, na contramão das recomendações da ONU para países que se redemocratizam.

No final de agosto de 2007, a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça encerrou seu trabalho de apurar as circunstâncias da morte de militantes durante o regime militar e indenizar as famílias das vítimas cujas mortes haviam sido oficializadas e daquelas cujos restos mortais evaporaram, pois, como sabemos, tudo que é sólido desmancha no ar...

Reuniu, então, o que apurara num livro-relatório intitulado Direito à Memória e à Verdade. Aí o Alto  Comando do Exército lançou uma nota oficial de protesto contra a iniciativa.

E, ao invés de exonerar imediatamente os responsáveis por insubmissão e quebra da cadeia de comando, o presidente da República e comandante supremo das Forças Armadas, Lula, recuou de forma humilhante: ordenou a seus ministros Tarso Genro (Justiça) e Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) que não tentassem mais levantar o assunto na esfera do Executivo, apontando aos insatisfeitos com a impunidade dos carrascos o caminho do Judiciário.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Eu e Dilma: um caso de desamor à primeira vista (1ª parte)

Sábado, 2 de janeiro de 2016
Por Celso Lungaretti
Dilma em 1972, na auditoria militar de Juiz de Fora.
Companheiros já tentaram me demover da minha posição de indiferença às desgraças da Dilma, reprovando-me a falta de solidariedade a uma antiga guerrilheira.
 
Como a vida é curta e nunca sabemos quando ela vai terminar, decidi finalmente esclarecer esta questão. Não quero que aconteça comigo o que aconteceu em 1967 com o cel. Américo Fontenelle, surpreendido por um ataque cardíaco no exato instante em que se dispunha a finalmente revelar, num programa de TV, por que se considerava traído pelo governador Abreu Sodré (este lhe dera carta branca para, inclusive recorrendo a práticas autoritárias, botar ordem no trânsito caótico de São Paulo, mas depois entregou sua cabeça ao grupo empresarial proprietário da Folha de S. Paulo, de outros jornais e da antiga estação rodoviária --saiba mais sobre isto aqui).
 
Os que realmente se interessam por meu trabalho, terão neste post a explicação sincera. Não tomarei a iniciativa de o divulgar amplamente por se tratar de assuntos um tanto melindrosos, que serão melhor entendidos por quem conhece a esquerda por dentro. 
Posso dizer que, entre mim e Dilma, houve desamor à primeira vista. Conhecemo-nos em outubro de 1969, no Congresso de Teresópolis da VAR-Palmares, como quadros em ascensão das duas facções antagônicas, os militaristas e os massistas.
 
O Moisés (José Raimundo da Costa) e eu, ambos comandantes estaduais da Organização em SP, fomos os iniciadores do racha que acabaria acontecendo no final daquele tenso congresso, mas um contra-ataque do lado oposto resultara na cassação de nossa condição de delegados. Por conhecermos o local onde se realizava, tivemos de nele permanecer até o final, incorporados à equipe de segurança.
 
Quando não estávamos vigiando os acessos para darmos o alarme se a repressão chegasse (e, provavelmente, sermos os primeiros a tombar sob o fogo inimigo), tínhamos o direito de assistir às discussões, desde que entrássemos mudos e saíssemos calados.
 
Então, percebi claramente que os massistas experientes e influentes (o Antonio Roberto Espinosa, o Carlos Franklin Paixão de Araújo e a Maria do Carmo Brito) haviam delegado à jovem e ambiciosa pupila a missão de atacar com muita contundência os militaristas de pavio curto como o Carlos Lamarca e o Cláudio de Souza Ribeiro. 
Paixão de Araújo na auditoria da Marinha (RJ)...
Por coincidência, eu estava lendo O Profeta Armado, de Isaac Deutscher, então me pareceu um caso semelhante ao do também jovem Trotsky que, ao ser acolhido no círculo de revolucionários mais antigos na redação do Iskra, atacava com tamanha fúria retórica posições contrárias que ganhou o apelido de "o porrete do Lênin", pois parecia a todos que o líder deixava a cargo do discípulo a tarefa antipática de desancar exacerbadamente algumas lendas vivas do passado que teriam amolecido com a idade (depois eles romperiam e Trotsky se tornaria menchevique, só se reconciliando com Lênin em julho de 1917).
 
Como não passo a vida remoendo mágoas e antipatias de outrora, minhas restrições ao porrete do Paixão de Araújo haviam ficado para trás em novembro de 2008, quando fui o primeiro a denunciar as falsidades que a direita virtual espalhava sobre a ministra Dilma (vide aqui). Em seguida, a Folha de S. Paulo fez o maior alarde a respeito de um plano de sequestro do Delfim Netto que a VAR esboçou mas nunca colocou em prática, tendo sido graças a uma mensagem minha que o ombudsman ficou sabendo e reconheceu publicamente que seu jornal estampara em plena capa uma ficha policial fajuta de Dilma, proveniente... da internet! Aquela reportagem como um todo ficou desmoralizada.
 
Veio a campanha presidencial de 2010 e o segundo turno me colocou num dilema. De um lado, a candidatura de José Serra se deslocara em demasia para a direita, recebendo o apoio até das viúvas da ditadura. Precisava ser barrado.
...em 1970. Eu era réu do mesmo processo.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Do outro, um posicionamento que perpassa toda a minha militância é a opção inflexível pela revolução, jamais me dando por satisfeito com a mera distribuição entre os trabalhadores das migalhas do banquete capitalista.
 
Ou seja, via o PT de 2010 como um partido reformista, empenhado apenas em atenuar os malefícios do capitalismo ao invés de acabar com ele; então, eu me sentiria muito mal apoiando a chapa petista.
 
Optei por pegar no pé do Serra o tempo todo, batendo pesado em todas as suas definições e posturas de campanha contrárias aos ideais da esquerda nos quais um dia ele acreditou. Ou seja, fiz o de sempre, combater a direita, sem apontar méritos na adversária nem apresentar motivos para se votar nela. Senti-me um tanto desconfortável, pois nunca fui adepto da comunicação negativa, que só aponta defeitos e não oferece esperanças; mas, foi a solução menos ruim que encontrei naquele instante. (continua)