Domingo, 24 de março de 2013
Do "resistir.info"
– A consequência de uma política recessiva que desde o
início já se sabia que ia ter estes resultados
RESUMO DESTE ESTUDO
Há mais de 80 anos, Keynes, um economista que queria salvar o
capitalismo, perante um contexto muito semelhante ao atual (estava-se no inicio
da 1ª grande recessão económica de 1929-33, e agora estamos
mergulhados em plena 2ª grande recessão económica), e
confrontado com políticas muito semelhantes às impostas pelo
BCE/FMI/Comissão Europeia e pelo governo PSD/CDS, escreveu o seguinte:
"
Com homens e fábricas sem ocupação,
é ridículo
dizer que não podemos pagar novos desenvolvimentos. …Quando temos
homens desempregados e fábricas ociosas e mais poupança do que
estamos a utilizar internamente,
é completamente imbecil
dizer que não temos dinheiro para essas coisas. Porque é com
homens desempregados e com fábricas ociosas, e com nada mais, que essas
coisas se fazem"
(Keynes-Hayek: o confronto que definiu a economia moderna, pág. 70).
É precisamente esta política que Keynes designou por
"ridícula" e "imbecil" que está a conduzir a
UE e Portugal ao descalabro económico e social.
Em três anos de governo PSD/CDS e de "troika", ou seja, entre
2011 e 2013, a taxa oficial de desemprego aumentará de 12,4% para 18,9%
(+351.900 desempregados), e a taxa real de desemprego que inclui os
desempregados que não constam dos números oficiais de desemprego,
subirá de 17,7% para 28,2% (+59,3%). No fim do ano de 2013, o desemprego
oficial atingirá 1.040.800 portugueses, e o desemprego real, calculado
com base em dados do INE, deverá atingir 1.641.000 portugueses. É
um número assustador que, a continuar a atual política recessiva
e destrutiva da economia aplicada em plena recessão, poderá ainda
ser ultrapassado. Ele também revela a total inadequação da
política que está a ser imposta ao país para reduzir o
défice.
Em três anos de "troika" e de governo PSD/CDS, o valor do PIB
perdido devido ao desemprego varia entre 91.468 milhões € e 142.273
milhões €, conforme se considere o desemprego oficial ou o
desemprego real. É um valor que oscila entre 55% e 85,5% do valor do PIB
total de 2012. Estes números, embora indicativos, dão já
uma ideia da dimensão da riqueza que é perdida devido ao elevado
desemprego que resulta da política recessiva de destruição
de emprego.
No "Memorando" inicial de Maio de 2011 previa-se, para 2011, um
défice de 5,9%, mas o défice real, sem medidas criativas, atingiu
7,4%. Se comparamos com o valor do défice real de 2010 – 9,6%
– conclui-se que se verificou uma redução de 2,2 pontos
percentuais. Para 2012, estava previsto no "Memorando" inicial um
défice de 4,5%, na 6ª avaliação foi fixado um novo
valor – 5% – mas o défice real, segundo Vitor Gaspar, atingiu
6,6% o que significa, em relação ao défice real de 2011
(7,4%), uma redução de apenas 0,8 pontos percentuais. Portanto,
em dois anos (2011 e 2012) o défice orçamental real foi reduzido
em 3 pontos percentuais (-31,3%), pois passou de 9,6% para 6,6%. Para os anos
de 2013/2015, as previsões já sofreram várias
alterações. Por ex., a previsão do défice
orçamental para 2013, que era no "Memorando" inicial de 3%, na
7ª avaliação da "troika" realizada em Mar-2013
passou para 5,5%, portanto um desvio de +83,3%.
Como consequência da política recessiva aplicada em plena
recessão económica, entre 2010 e 2012, a divida pública
aumentou mais 43.499 milhões € (+30%), e, em 2014, deverá
atingir 215.213 milhões €, o que corresponde a 123,7% do PIB, ou
seja, muito mais do que a riqueza criada no país durante todo um ano. E
isto tem um elevado preço. Em 2011, o Estado gastou com juros e encargos
6.039,2 milhões €; em 2012, esse gasto subiu para 6.960,3
milhões € e, para 2013, estão previstos no Orçamento
do Estado 7.276,3 milhões €. Em apenas três anos, o Estado
português gastará com o pagamento de juros e encargos da divida
20.275,8 milhões €, ou seja, quase tanto como gastará com a
educação dos portugueses que será 21.365,6 milhões
€. Este aumento tão elevado quer da divida quer dos juros com a
divida ainda é mais insustentável se se tiver presente que tem
lugar num contexto da grave recessão em que o país está
mergulhado.
Os desvios que se verificam entre as previsões que serviram de base
à elaboração do Orçamento do Estado de 2013 e as
previsões que resultaram da 7ª avaliação da
"troika" de Mar/2013 são enormes. A nível do PIB a
quebra aumenta 130%; no consumo privado a diminuição sobe 59,1%;
no investimento a quebra é 81% superior à prevista no OE-2013; a
quebra na procura interna é 41,4% superior à prevista no OE-2013;
a diminuição na taxa de crescimento das exportações
atinge 77,8%, podendo dizer que elas vão praticamente estagnar em 2013;
a destruição de emprego aumenta 129,4% relativamente à
taxa prevista no OE-2013. É evidente que o cenário previsto pela
7ª avaliação da "troika" é muito diferente
das previsões utilizadas na elaboração do OE 2013,
podendo-se dizer, como foi dito por muitos economistas na altura, que o
cenário macroeconómico do OE-2013 é fantasioso, revelando
uma total incompreensão da realidade. A confirmar isso, está
já o facto de que em Jan/2013 as receitas fiscais e as
contribuições para a Segurança Social foram inferiores
às de Jan/2012 em 82,8 milhões €.
Face a tudo isto, é cada vez mais claro, que se a política da UE
e a interna não mudarem radicalmente, Portugal não tem qualquer
futuro na Zona Euro. O que aconteceu em Chipre, que para salvar a banca, se
confisca uma parcela dos depósitos, é o sinal de uma UE sem
valores e de governantes em que não se pode acreditar, que hoje dizem
uma coisa e amanhã fazem outra.
O aumento brutal do desemprego é o indicador mais visível da
política que Keynes designou por "ridícula" e
"imbecil", e que o próprio PSD e CDS vêm agora dizer,
depois de ter provocado a destruição do país durante
vários anos, que foi "mal desenhada", e que o PS continua a
hesitar distanciar-se de uma forma clara, como fosse possível cumprir a
política do "Memorando" com uma política de crescimento
económico e de desenvolvimento.
Quadro 1-Variação do desemprego e do emprego durante o
período do governo
PSD/CDS e da "troika" – 2011/2013
(Clique aqui para ver o quadro)