Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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sábado, 23 de maio de 2026

A armadilha nada inocente da “Educação Financeira”

Sábado, 23 de maio de 2026

A armadilha nada inocente da “Educação Financeira”

Num país de salários achatados e juros obscenos, quem lucra com eles – e empobrece as maiorias – busca transferir a responsabilidade para o suposto “descontrole” dos endividados. Exame de uma manobra cínica e de seus métodos

OUTRASPALAVRAS                                                             Mercado x Democracia

Matéria publicada originalmente no OUTRASPALAVRAS em 22/05/2026

Imagem: Créditos/Maurenilson

EMEF e OLITEF: a fábrica de pequenos investidores

A Olimpíada do Tesouro Direto de Educação Financeira (OLITEF) ensina crianças a investir, mas não explicita que os juros que elas recebem são pagos pelo conjunto da sociedade. Ela foi lançada em 20241, como iniciativa do Tesouro Nacional em parceria com a [B]³, com apoio do Ministério da Educação (MEC) e do Banco Central do Brasil (BC), para os estudantes da educação básica (nível 1: 6° e 7° ano; nível 2: 8° e 9° ano do Ensino Fundamental II; e nível 3: 1° a 3° série do Ensino Médio).

Sua criação insere-se no contexto de consolidação das políticas de educação financeira no Brasil, especialmente após a institucionalização da Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF), formalizada pelo Decreto nº 7.397/2010 e posteriormente reformulada. É coordenada pelo Comitê Nacional de Educação Financeira (CONEF), a qual é composta por três núcleos – (i) quatro órgãos reguladores do mercado financeiro, (ii) quatro ministérios e (iii) quatro representantes da sociedade civil, renovados a cada três anos. Seu documento orientador estabelece como eixos centrais a promoção da educação financeira e previdenciária e o desenvolvimento de competências para decisões individuais “conscientes”. Entre seus objetivos declarados estão: Promover a educação financeira e previdenciária; Aumentar a capacidade do cidadão para realizar escolhas conscientes; Contribuir para a eficiência e a solidez dos mercados financeiro, de capitais, de seguros e de previdência.

A articulação entre política pública educacional e fortalecimento do sistema financeiro não é neutra. Quando a ENEF estabelece como meta contribuir para a “solidez dos mercados”, a educação é acoplada a um projeto de racionalidade financeira, isto é, o enunciado desloca o processo educacional para dentro da lógica do sistema financeiro. Não se trata apenas de formar cidadãos capazes de compreender a economia, mas de estruturar comportamentos compatíveis com o funcionamento dos mercados. Nessa perspectiva, quando a política educacional passa a integrar explicitamente a estratégia de fortalecimento do mercado financeiro, a neutralidade pedagógica torna-se, para dizer o mínimo, questionável.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Por que a bolha de IA precisa estourar

Terça, 27 de janeiro de 2026

Por que a bolha de IA precisa estourar

A nova tecnologia vista pelo prisma da luta de classes. Como ferramentas potencialmente úteis são usadas para destruir empregos e serviços – e concentrar riquezas. Por que o colapso aproxima-se. Será possível salvar algo dos destroços?

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Por Cory Doctorow | Tradução: Antonio Martins
Sou escritor de ficção científica, o que significa que meu trabalho é criar parábolas futuristas sobre nossos arranjos tecnológicos atuais para questionar não apenas o que um dispositivo faz, mas para quem ele o faz e a quem ele se destina.

O que não faço é prever o futuro. Ninguém consegue prever o futuro, o que é bom, pois se o futuro fosse previsível, isso significaria que não podemos mudá-lo. Nem todos entendem a distinção. Pensam que os escritores de ficção científica são oráculos. Até mesmo alguns dos meus colegas vivem na ilusão de que podemos “ver o futuro”.

Além disso, há fãs de ficção científica que acreditam estar lendo o futuro. Parte dessas pessoas parece ter se tornado fanáticos por IA. Não param de falar sobre o dia em que sua engenhosa máquina de autocompletar vai despertar e nos transformar em clipes de papel , o que levou muitos jornalistas e organizadores de conferências confusos a tentarem me fazer comentar sobre o futuro da IA.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

A NECESSIDADE DE REGULAMENTAÇÃO DO MERCADO FINANCEIRO

 Quarta, 7 de setembro de 2022

Salin Siddartha



A NECESSIDADE DE REGULAMENTAÇÃO DO MERCADO FINANCEIRO


À Guisa de Introdução

O objetivo deste artigo é o de, ao longo do texto, alertar o leitor para o desequilíbrio em que se encontra o capitalismo global, suas consequências para a sociedade e para a soberania das nações e quais as medidas que poderiam ser implementadas para mitigar o efeito destruidor que as deficiências do mercado podem causar em uma próxima grande crise.

De fato, o principal fator gerador das crises que vêm abalando o mercado financeiro internacional é o desequilíbrio existente entre o centro do sistema capitalista global e os países periféricos. É a forma como atua a especulação financeira que torna deficiente o próprio mercado, e é assim que se deve interpretar a fase atual do capitalismo e o papel de influência da oferta descontrolada de dinheiro na sorte de cada país.

A falta de controle sobre o capital internacional causa a desorganização do sistema capitalista global, desestabilizando o mercado financeiro. O mercado não tem uma “magia” própria, e seu funcionamento desordenado pode chegar a ponto de uma inevitável desintegração do sistema. Ao contrário da falácia de que o mercado possui uma robusta solidez, ele mais parece um castelo de cartas que pode desabar.

Dentre as deficiências do mercado financeiro, nota-se que os tradicionais padrões éticos e civilizatórios estão ausentes do comportamento especulativo, que não leva em consideração as preocupações sociais e políticas, o que acarreta consequências deletérias para a sociedade. A especulação financeira é uma jogatina sem regras da qual a moralidade está ausente, pelo motivo de somente dar lugar à maximização dos lucros, que é a única coisa que lhe importa. Por isso, pode-se dizer que o mercado é imoral e divorciado do progresso da humanidade.

Os prejuízos causados pelo mercado financeiro internacional às nações dão-se, essencialmente, pela falta de correspondência entre os títulos comercializados e a realidade econômica, já que falseiam os valores dos ativos negociados, por estarem muito além dos recursos representados pelo PIB mundial. Sendo assim, o sistema capitalista global põe em xeque a soberania dos países.

Uma interpretação realista sobre os mercados financeiros mostra o quão deficientes eles se encontram. A inexistência de supervisão do mercado financeiro internacional é que tem feito o capital circulante ficar totalmente desregulamentado, o que conduz o funcionamento do capitalismo global a ser ameaçado por um possível advento de uma “débâcle”.


O Fluxo Reverso em Curto Prazo dos Recursos Financeiros para Cobrir Déficit Público

O capitalismo global é a fase atual do capitalismo como sociedade de classes internacionalizada pelo alcance e celeridade de movimentação que o avanço tecnológico possibilita ao capital financeiro, transferindo-o virtualmente como um fator de produção de si mesmo. Influenciando a sorte dos países, o capital financeiro ingressa como recurso para ser incorporado como um volume financiador das economias dependentes. Esse é o motivo pelo qual o capital financeiro desempenha papel dominante no mundo de hoje, determinando o contínuo aumento da influência dos mercados de capitais no sistema capitalista global.