Sábado, 17 de setembro de 2016
"Não pode haver mais vida para os setores de esquerda dentro do lulismo,
que mesmo antes do fim da lua de mel com as massas já mostrava uma
grande miopia diante dos anseios dos brasileiros."
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Do Correio da Cidadania
www.correiocidadania.com.br
Escrito por Gabriel Brito, da Redação
Entrevista com o sociólogo do trabalho Ruy Braga
Entre um impeachment e mais um ciclo eleitoral, o Brasil continua a
cambalear, no aguardo das medidas econômicas que visam combater a grave
crise e sob o calor de frequentes protestos contra o governo de
Michel Temer. Além disso, com o cerco da Operação Lava Jato a Lula,
indiciado nesta semana, a temperatura dos embates continua a subir, o
que deixa várias interrogações no horizonte. Sobre todo esse contexto,
o Correio da Cidadania entrevistou o sociólogo do trabalho Ruy Braga,
que fez profunda análise do momento.
“Não se pode obscurecer o fato de que a esquerda brasileira colhe
hoje aquilo que o PT plantou ao longo de seus 13 anos no Planalto:
desmobilização social, estratégia de negociar tudo no parlamento,
pacificação apoiada em reformas quase inexistentes, com privilegiamento
agudo de setores capitalistas e financeiros”, afirmou, como ponto de
partida da compreensão do que se passa.
Conforme já dissera em entrevista anterior, Braga alerta para a
necessidade de derrubar o governo de Michel Temer, que visa impor uma
dura ordem em favor dos negócios. Aliás, considera que tal combinação de
políticas de austeridade com violência política são cada vez mais
inerentes ao modelo de democracia em vigor. Mais ainda quando nem mesmo
aqueles que subiram ao poder conseguem se entender por completo.
“Ainda existe um potencial de contestação do movimento sindical e
também existe mobilização nas ruas. Portanto, um quadro de crise
bastante complexo, em que o PMDB tem ressalvas em implantar a agenda
desejada pelo PSDB, que pode se beneficiar do ponto de vista eleitoral
em dois anos. No entanto, o PMDB não se sente forte o suficiente pra
garantir tal agenda, sabendo que favorece os tucanos”.
Ruy Braga também destaca que não pode haver mais vida para os setores
de esquerda dentro do lulismo, que mesmo antes do fim da lua de mel com
as massas já mostrava uma grande miopia diante dos anseios dos
brasileiros. Com isso, considera que há um longo ciclo de reconstrução
pela frente, que tem tudo para encontrar duros obstáculos no plano
imediato diante de contexto tão aterrador.
“Não tem como manter concessões dos gastos sociais do governo federal
numa conjuntura de crise econômica. Isso iria colapsar conforme a crise
econômica se aprofundasse. Houve uma desaceleração a partir de 2013. O
governo do PT, em tal momento, ainda fez uma leitura vazia das Jornadas
de Junho, quando as massas – em especial a juventude da classe
trabalhadora, precarizada, mulher, negra e pobre – saíram às ruas
exigindo mais democracia, gastos públicos, investimentos em saúde,
educação, transporte, moradia. No mês seguinte, em julho de 2013, o
governo Dilma cortou mais de 10 bilhões de reais do orçamento federal. A
partir de então, não foi mais capaz de retomar a iniciativa política”,
contextualizou.
A entrevista completa com Ruy Braga pode ser lida a seguir.
Correio da Cidadania: Como você assistiu e sentiu o trâmite
final do processo de impeachment de Dilma, apreciado e votado no Senado
ao longo da última semana?
