Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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terça-feira, 27 de junho de 2017

Melancolia, fragmentação e a crise da práxis. Desafios da esquerda brasileira

Terça, 27 de junho de 2017

Do IHU
Instituto Humanitas Unisinos
Por: Patricia Fachin | 27 Junho 2017


O fato de a esquerda estar em crise não significa que ela esteja perdida ou não tenha um projeto. Ao contrário, ela “tem objetivos” e “se enxerga como um ator”, avalia Sabrina Fernandes, autora da tese de doutorado intitulada “Crisis of Praxis: Depoliticization and Leftist Fragmentation in Brazil”, defendida neste ano na Carleton University, no Canadá. “O que eu argumento é que a esquerda está em crise, sim, e essa é uma crise de práxis. Significa que o papel da esquerda em interpelar multidões, transformá-las em atores políticos como base, e assim unificar suas consciências e experiências ao redor de um projeto, está em crise. A falta de trabalho de base é um fator e sintoma disso. Também há a melancolia da esquerda. Na esquerda moderada isso se manifesta como um contínuo entreguismo à ordem política. A política de conciliação de classes do PT, que não passa de uma farsa, é exemplo disso. Já a esquerda radical está melancólica porque não sabe lidar com a hegemonia que o PT ainda possui, sente falta de um tempo de unificação e base estruturada que não vai recuperar tão fácil assim e se confunde entre autoproclamação, agitação e politização com frequência”, resume.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-LineSabrina também comenta o fenômeno de Junho de 2013 e suas consequências quatro anos depois. “Junho de 2013 expôs a crise das esquerdas no Brasil. Ficou evidente que havia um problema de representatividade, questões de sentimento antiesquerda, uma leitura popular de traição petista, e a inabilidade da esquerda radical de dialogar com a população que foi às ruas”. Junho, frisa, “marcou o começo de uma nova conjuntura com peso retomado para ações de rua e repercussão intensa sobre temas políticos, em especial a corrupção e a disputa entre esquerda e direita”.

quinta-feira, 23 de março de 2017

O processo de renovação da esquerda é atravancado pela 'renovada' hegemonia do PT. Entrevista especial com Pablo Ortellado

Quinta, 23 de março de 2017
Do IHU
Instituto Humanitas Unisinos
Por: Patricia Fachin | 23 Março 2017

Apesar de vozes à esquerda defenderem a necessidade de “enterrar” e fazer “o luto do PT” para que algo novo possa surgir no campo progressista, essa proposta foi praticamente soterrada depois do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, avalia Pablo Ortellado na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line. As razões disso, explica, se devem ao fato de a esquerda ter se aglomerado novamente em torno do PT por conta de dois motivos: “a polarização nas eleições de 2014” e “o impeachment da ex-presidente Dilma”.
Portanto, assinala, “o fenômeno novo” na conjuntura política é que “várias dessas correntes terminaram confluindo, novamente, para o PT”. Ele exemplifica: “Toda essa disputa crítica que aconteceu durante o governo Lula sobre a transposição do rio São Francisco foi completamente esquecida, e essa transposição, que pode e deve ser criticada sob inúmeros pontos de vista, foi absolutamente celebrada como uma grande conquista, um grande legado do governo do ex-presidente Lula”.

Para ele, o discurso de parte da esquerda em defesa das “empresas nacionais” e a crítica à Lava Jato e à Operação Carne Fraca fazem parte da “estratégia discursiva do Partido dos Trabalhadores, que está tentando desacreditar a Operação Lava Jato, apresentando-a como uma grande conspiração contra a indústria nacional, que tinha se projetado por meio das políticas desenvolvimentistas dos governos Lula e Dilma. Ao apresentar a Lava Jato junto com a recente operação da Polícia Federal [Carne Fraca] como uma iniciativa contrária à indústria nacional, eles tentam deslegitimar as denúncias de corrupção que vieram da Lava Jato e que atingem praticamente toda a cúpula do PT”. Mas salienta: “Como o resto da sociedade está fora da zona de influência da esquerda, e a vê como um agente corrompido, a esquerda fala de maneira desesperada e cada vez para menos pessoas, na medida em que ela só fala para seus próprios militantes”.

sábado, 17 de setembro de 2016

Estamos colhendo, exatamente, os frutos dos 13 anos de petismo no governo federal

Sábado, 17 de setembro de 2016
"Não pode haver mais vida para os setores de esquerda dentro do lulismo, que mesmo antes do fim da lua de mel com as massas já mostrava uma grande miopia diante dos anseios dos brasileiros."
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Do Correio da Cidadania
www.correiocidadania.com.br
Escrito por Gabriel Brito, da Redação
Entrevista com o sociólogo do trabalho Ruy Braga

Entre um impeachment e mais um ciclo eleitoral, o Brasil continua a cambalear, no aguardo das medidas econômicas que visam combater a grave crise e sob o calor de frequentes protestos contra o governo de Michel Temer. Além disso, com o cerco da Operação Lava Jato a Lula, indiciado nesta semana, a temperatura dos embates continua a subir, o que deixa várias interrogações no horizonte. Sobre todo esse contexto, o Correio da Cidadania entrevistou o sociólogo do trabalho Ruy Braga, que fez profunda análise do momento.

“Não se pode obscurecer o fato de que a esquerda brasileira colhe hoje aquilo que o PT plantou ao longo de seus 13 anos no Planalto: desmobilização social, estratégia de negociar tudo no parlamento, pacificação apoiada em reformas quase inexistentes, com privilegiamento agudo de setores capitalistas e financeiros”, afirmou, como ponto de partida da compreensão do que se passa.

Conforme já dissera em entrevista anterior, Braga alerta para a necessidade de derrubar o governo de Michel Temer, que visa impor uma dura ordem em favor dos negócios. Aliás, considera que tal combinação de políticas de austeridade com violência política são cada vez mais inerentes ao modelo de democracia em vigor. Mais ainda quando nem mesmo aqueles que subiram ao poder conseguem se entender por completo.

“Ainda existe um potencial de contestação do movimento sindical e também existe mobilização nas ruas. Portanto, um quadro de crise bastante complexo, em que o PMDB tem ressalvas em implantar a agenda desejada pelo PSDB, que pode se beneficiar do ponto de vista eleitoral em dois anos. No entanto, o PMDB não se sente forte o suficiente pra garantir tal agenda, sabendo que favorece os tucanos”.

Ruy Braga também destaca que não pode haver mais vida para os setores de esquerda dentro do lulismo, que mesmo antes do fim da lua de mel com as massas já mostrava uma grande miopia diante dos anseios dos brasileiros. Com isso, considera que há um longo ciclo de reconstrução pela frente, que tem tudo para encontrar duros obstáculos no plano imediato diante de contexto tão aterrador.

“Não tem como manter concessões dos gastos sociais do governo federal numa conjuntura de crise econômica. Isso iria colapsar conforme a crise econômica se aprofundasse. Houve uma desaceleração a partir de 2013. O governo do PT, em tal momento, ainda fez uma leitura vazia das Jornadas de Junho, quando as massas – em especial a juventude da classe trabalhadora, precarizada, mulher, negra e pobre – saíram às ruas exigindo mais democracia, gastos públicos, investimentos em saúde, educação, transporte, moradia. No mês seguinte, em julho de 2013, o governo Dilma cortou mais de 10 bilhões de reais do orçamento federal. A partir de então, não foi mais capaz de retomar a iniciativa política”, contextualizou.

A entrevista completa com Ruy Braga pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Como você assistiu e sentiu o trâmite final do processo de impeachment de Dilma, apreciado e votado no Senado ao longo da última semana?

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Pela utopia de uma esquerda que dialogue com a sociedade

Sexta, 1º de julho de 2016
Do Correio da Cidadania
www.correiocidadania.com.br
por Marcelo Castañeda*
A “esquerda”, esse campo imaginário que deve ser dito no plural pela diversidade de seus elementos componentes, não cansa de brigar entre si, a ponto de ter desaprendido a dialogar com corações e mentes em prol das mudanças sociais que afetem a todos. Nesse movimento não consegue mais sequer se contrapor ao processo de direitização que toma conta do mundo em que vivemos.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Desafios da esquerda frente ao novo bloco de poder

Quarta, 4 de maio de 2016
"Vale lembrar que nos governos Lula e Dilma a CUT e outras centrais e sindicatos foram deliberadamente domesticados para evitar confrontos com os patrões e aplaudir, sem qualquer senso crítico, as ações e obras do governo, inclusive os bilhões gastos na Copa do Mundo de Futebol – um evento privado e faturado pela FIFA. Os únicos movimentos sociais de abrangência nacional que conseguiram manter alguma autonomia e combatividade, MST e MTST, foram convocados pelo lulismo para dar ao governo Dilma o gesto derradeiro de resistência ao golpe."
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Do Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br
Escrito por Hamilton Octavio de Souza
Embora boa parte das forças políticas que se articula para dar sustentação ao governo de transição de Michel Temer, do PMDB, tenha participado intensamente do governo Dilma Rousseff, do PT, a nova composição formada no processo de impeachment, reforçada com PSDB, DEM, PPS e outras siglas, cria uma situação nova para a oposição de esquerda, já que o novo bloco de poder, com forte conteúdo conservador e neoliberal, tende a agredir direitos e conquistas dos trabalhadores, reduzir ainda mais o papel moderador do Estado e impor medidas imediatas para agradar os interesses gerais do mercado e do capital.

Nas gestões de Lula e Dilma os partidos de centro e de direita integraram a ampla coalizão concebida pelo PT, que incluiu no campo partidário desde o PCdoB até o PP de Paulo Maluf e o PRB do bispo Edir Macedo. Essa esdrúxula coalizão conseguiu colocar no mesmo balaio – durante anos – o MST e a representante do latifúndio e do agronegócio Kátia Abreu; a CUT e a FIESP de Paulo Skaf; o MTST e o ministro das Cidades, Gilberto Kassab, do PSD; os movimentos católicos remanescentes da Teologia da Libertação e os representantes do fundamentalismo evangélico abrigados no PR e no PSC; enfim, o país engoliu uma enorme babel de gregos e troianos preocupada exclusivamente com a própria sustentabilidade do governo federal.

Agora o quadro é outro: a não ser que ocorram dissensões de última hora, o bloco de poder unifica praticamente todos os partidos de centro e de direita, reúne os vários setores do empresariado e a grande maioria das classes médias, além de segmentos populares representados pelos partidos e organizações dominados por grupos cristãos e igrejas evangélicas. O PT e o PCdoB, depois de 13 anos e cinco meses de acomodação na máquina federal e de convivência com a direita, foram atirados à planície da oposição, junto com desgarrados do PDT e do PSB, e onde estão o decano PSOL, o novato REDE e os partidos da esquerda socialista sem representação no Congresso Nacional, entre os quais PSTU, PCB e PCO.

Além de ter unificado o bloco partidário conservador de centro-direita, o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff unificou majoritariamente também as forças do capital, em especial o empresariado industrial, agronegócio, mineração, transportes, construção civil e o setor financeiro.

A dúvida fica por conta dos bancos, grandes empreiteiras e concessionárias de serviços públicos, que até o começo do presente ano ainda estavam apostando mais no resgate do governo Dilma Rousseff do que na aventura de um novo governo com o vice Michel Temer. Não porque tenham diferenças nas medidas defendidas pelo capital, mas na forma de aplicação do ajuste econômico com mais, ou menos, legitimidade e garantia de controle das ruas.

O que acontece

No entanto, a situação do governo Dilma desandou de tal maneira que o processo de impeachment se tornou uma saída emergencial para recuperar o mínimo de governabilidade e de estabilidade política e econômica. O processo foi vitaminado pela rebeldia da base aliada no Congresso Nacional, pelas investigações da Operação Lava Jato e pela grande mídia comprometida com interesses dos empresários e das classes médias. Todos esses atores operaram na única direção e jogaram pesado no “fora Dilma”, de quebra no “fora Lula” e “fora PT”, mesmo sem ter base sólida e convincente para o afastamento constitucional da presidente. Essa questão ficou em segundo plano depois do amplo consenso por um novo governo.

O PT, que durante muitos anos abandonou os movimentos sociais à própria sorte, teve de se socorrer do MST e do MTST para criar, nas ruas, a possibilidade de reação perdida no Congresso Nacional e nas alianças com o empresariado.

Vale lembrar que nos governos Lula e Dilma a CUT e outras centrais e sindicatos foram deliberadamente domesticados para evitar confrontos com os patrões e aplaudir, sem qualquer senso crítico, as ações e obras do governo, inclusive os bilhões gastos na Copa do Mundo de Futebol – um evento privado e faturado pela FIFA. Os únicos movimentos sociais de abrangência nacional que conseguiram manter alguma autonomia e combatividade, MST e MTST, foram convocados pelo lulismo para dar ao governo Dilma o gesto derradeiro de resistência ao golpe.

Agora, a se confirmar o exílio de 180 dias da presidente Dilma, com o novo bloco de poder capitaneado por Michel Temer no Palácio do Planalto, MST e MTST terão de definir se jogam suas energias no retorno de Dilma, no desgaste do governo de transição de Michel Temer e se miram ou não o novo horizonte que se abre com a articulação de uma grande frente das esquerdas e a construção de uma proposta inovadora para as eleições gerais de 2018.

A não ser que a correlação de forças resulte na explosão da luta de massas, nas ruas, semelhante ao que aconteceu em 2000, na Argentina, capaz de derrubar Temer, Cunha, Renan e exigir eleições diretas já, o que se apresenta no calendário da legalidade democrática institucional é a disputa eleitoral de 2018.

O que fazer

Dificilmente Dilma Rousseff reassumirá a presidência da República. Tudo indica que será cassada ao final do processo, a não ser que antes venha a renunciar. O PT e o lulismo tendem a perder boa parte de suas forças, estarão sob impacto do desgaste do impeachment e das denúncias da Operação Lava Jato. Lula corre sério risco de ser condenado e ficar impedido de se candidatar devido ao envolvimento com as empreiteiras Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e OAS, que assaltaram a Petrobras.

Restará aos petistas e aos militantes do MST, do MTST e demais movimentos sociais da área de influência do lulismo estabelecer nova estratégia de enfrentamento das classes dominantes, seja o repeteco de alianças com a direita ou fazer novo alinhamento no campo da esquerda – com partidos e organizações sociais declaradamente socialistas.

A principal questão é saber se interessa ao PT refazer o rumo com outra proposta de disputa do poder e se consegue retomar a prática de fazer oposição pela esquerda com programa autenticamente transformador. Já que não fez, até hoje, qualquer autocrítica do rumo tomado desde a Carta do Povo Brasileiro, em 2002, e muito menos a avaliação crítica do processo que levou o governo Dilma a sofrer impeachment, tudo indica que o PT tende mesmo a manter prioridade nas alianças com os partidos e forças de centro e de direita, inclusive nas eleições municipais de 2016 – sem levar em conta as forças da esquerda socialista.

A essas forças aparece a oportunidade de constituir, desde já e nos próximos anos, uma grande e sólida frente popular, democrática e anticapitalista não só para combater o governo de transição de Michel Temer, atrair as classes trabalhadoras e a juventude para a militância, mas também para disputar as eleições gerais de 2018 contra o novo bloco de poder marcadamente neoliberal e conservador.

A crise do impeachment abriu espaço para novo rearranjo político e nova correlação de forças no cenário nacional. O processo dialético movimenta a história. As contradições do novo bloco de poder vão aparecer rapidamente. Os trabalhadores e a população que mais demanda a ação do Estado e os serviços públicos vão perceber que o discurso da “salvação nacional” é pura engabelação. Os movimentos sociais populares e partidos de esquerda serão importantes ferramentas para a defesa da grande maioria do povo. A articulação dessa frente de oposição de esquerda depende agora da visão e decisão da militância. O Brasil inaugura nova etapa da luta de classes.

Hamilton Octavio de Souza é jornalista e professor.