Segunda, 12 de março de 2018
Do IHU
Instituto Humanitas Unisinos
e El País Brasil
Na madrugada do dia 24 de fevereiro, moradores da favela Santa Marta e do resto do bairro de Botafogo foram acordados com intensos tiroteios entre policiais e traficantes no morro. Esta comunidade da nobre Zona Sul do Rio de Janeiro foi a primeira a receber uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) há quase 10 anos, em novembro de 2008. O programa, que — em tese — consiste em ocupar determinando território dominado por facções criminosas, estabelecer um policiamento comunitário, que seja próximo ao cidadão, e abrir caminho para serviços públicos do Estado teve no Santa Marta sua principal vitrine. Hoje, após a instalação de 38 UPPs, o modelo que representou nos últimos anos a esperança de um Riomais seguro se mostra esgotado, após colecionar uma série de fracassos e escândalos nos últimos anos. Algo que também já se reflete no Santa Marta, que chegou a ficar mais de seis anos sem tiroteios. A velha rotina está de volta. Em meio a uma intervenção federal decreta pelo Governo de Michel Temer, que colocou um general no comando da segurança pública fluminense, qual será o destino das UPPs? Os confrontos nas favelas, incluindo a Santa Marta, se intensificarão? Não há respostas concretas.
A reportagem é de Felipe Betim, publicada por El País, 11-03-2018.
Apesar das incertezas, a paz parece reinar absoluta na Santa Marta em uma tarde chuvosa de quinta-feira. Crianças com uniformes da escola pública entram e saem, assim como trabalhadores e trabalhadoras, mães e pais, comerciantes e mecânicos. Nos becos e vielas, silêncio. Ao redor, algumas das recentes conquistas dessa favela modelo são evidentes: há uma clínica da família, uma Fundação de Apoio à Escola Técnica (FAETEC), um plano inclinado que leva moradores e turistas para o alto do morro, casas novas que substituíram velhos barracos de madeira... O esgoto, que em favelas do Rio geralmente corre a céu aberto, está de baixo do chão. "Fizeram obras de urbanização e 85% das casas estão ligadas à rede de esgoto. Como presidente, cobrei que não viesse só a secretaria de segurança. E aqui funcionou, entraram outras secretarias, como a de turismo e educação", conta José Mário Hilário dos Santos, presidente da associação de moradores. "O que aconteceu no Santa Marta não aconteceu em outras comunidades. Se tivesse acontecido simultaneamente, acredito que o quadro seria diferente".





