Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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domingo, 12 de fevereiro de 2023

A necropolítica de genocídio dos povos indígenas do governo Bolsonaro e a catástrofe humanitária do povo Yanomami

Domingo, 12 de fevereiro de 2023

(Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Do 

Edição 1224
7 de fevereiro de 2023

Nos últimos dias a tragédia vivida pela população yanomami chamou a atenção da cobertura midiática no Brasil e no mundo. Assistimos perplexos o resgate de mais de mil pessoas em situação de completo abandono, sofrendo com doenças como malária, pneumonia, desnutrição e contaminação por mercúrio. Tal realidade contrasta com o tratamento dispensado à população indígena pela Constituição Federal de 1988. Nosso Código Legal dedica o capítulo VIII, intitulado “Da Ordem Social” para a questão indígena, estabelecendo em seu artigo 20, XI que as terras tradicionalmente ocupadas pelos povos originários são bens da União. Além disso, o artigo 22, XIV determina que compete privativamente a União legislar sobre as populações indígenas. Ou seja, nossa constituição deixa claro que tais povos estão sob a responsabilidade do Estado brasileiro, que deve zelar pelo bem-estar destas populações.

Em relação a exploração das terras indígenas, o artigo 49, XVI deixa claro que compete exclusivamente ao Congresso Nacional autorizar qualquer tipo de aproveitamento de recursos hídricos e a lavra de riquezas minerais. Tal determinação tem o claro objetivo de evitar que os interesses capitalistas e predatórios sejam colocados acima dos interesses e do bem-estar das populações indígenas. Apesar disso, em 2021, houve a maior expansão de garimpos nos últimos 36 anos, o que significa a devastação de 15 mil hectares em um único ano. De 2017 a 2021, as novas áreas de garimpo atingiram 59 mil hectares, número que supera todo o espaço tomado por garimpos até a década de 1980. Dentre as populações indígenas, as mais afetadas pela atividade garimpeira nos últimos anos foram: Kayapó e Munduruku, ambas no Pará e a Yanomami, em Roraima. Segundo levantamento divulgado recentemente pela Hutukara Associação Yanomani, o garimpo ilegal em Terra Indígena Yanomami cresceu 54 %, em 2022, devastando 5.053 hectares. A Associação ainda aponta que a devastação promovida por garimpos ilegais na região saltou de pouco mais de 1.000 hectares, em 2018, para mais de 5.000 hectares em 2022. Com isso, fica evidente que o Estado brasileiro não cumpriu seu papel, estabelecido pela Constituição Federal, de zelar pelas populações indígenas, o que contribuiu diretamente para a crise humanitária vivida pelos Yanomamis.

Vale lembrar que a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro foi marcada pelo total desprezo com as populações indígenas e pela defesa das atividades predatórias, como os garimpos. Como deputado federal, em 1995, Bolsonaro foi contra a demarcação de terras indígenas, inclusive das que são ocupadas pelos Yanomamis. Em 2020, segundo apurado por reportagem do Brasil de Fato, publicada em 6 de maio de 2022, Bolsonaro voltou a se posicionar contra a existência das terras indígenas yanomamis, declarando que:

quinta-feira, 8 de julho de 2021

O alto custo Bolsonaro para os evangélicos

Quinta, 8 de julho de 2021

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil


Quanto irá custar às igrejas e grupos evangélicos, em termos de credibilidade, terem apoiado a eleição e sustentado até agora o governo de Jair Bolsonaro, embora seu programa eleitoral e suas decisões e indecisões como presidente nada tenham a ver com os princípios morais do cristianismo?

Podemos começar pela linguagem chula, sem educação, rude, um tanto grosseira, obscena e tantas vezes de baixo calão, inapropriada para quem ocupa o cargo de presidente de um país, até há pouco respeitado em todo o mundo. Imaginem o tosco Bolsonaro no púlpito de uma igreja, ao lado de uma Bíblia, ou num encontro internacional da ONU em Genebra, falando como se estivesse num boteco.

Mas até Mazzaropi seria respeitado se, em termos de governo, mostrasse inteligência e respeito ao povo, a todos os cidadãos, com suas diferenças de cor, gênero e de comportamento. Não é o caso. Bolsonaro é racista, desrespeita as mulheres como um machista já fora da moda, não considera os indígenas como seres humanos e não tem nenhum respeito pelos pobres, muito menos quando morre de Covid.

Não se pode esquecer que ele defendeu, em seu passado de deputado, a esterilização dos pobres como meio eficaz para combater a criminalidade e a miséria. Ou seja, em lugar de se resolver a questão social, se diminui a população pobre.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Uma outra Samarco: indispensável e transparente

Segunda, 23 de maio de 2016
Do Observatório da Imprensa
Em 16/05/2016 na edição 903
Reportagem de Catarina Ferreira, Mariana Mallet e Maria Elisa Pinheiro; edição de Edna Dantas, com a contribuição de Angela Pimenta na apuração

Este é primeiro de uma série de cinco artigos analisando o papel da imprensa da região de Mariana, em Minas Gerais, na cobertura da tragédia causada pela avalancha de lama que soterrou a localidade de Bento Rodrigues, em novembro de 2015.  O caso de Mariana é parte de uma série de reportagens analisando as relações entre a imprensa regional e grandes empresas instaladas em 11 municípios brasileiros.

Pouco mais de um mês depois do maior desastre socioambiental do país, o jornal O Liberal, um veículo líder da região Mariana, Ouro Preto e Itabirito, em Minas Gerais, estampou a seguinte manchete on-line: Marianeses lançam campanha “Somos Todos Samarco”. Amplamente favorável à mineradora controlada pela Vale e pela australiana BHP Billiton, a matéria do dia 17 de dezembro de 2015 ocultava uma figura de linguagem – a metonímia – e encampava uma tese – a de que Mariana não pode viver sem a Samarco.

domingo, 22 de maio de 2016

Tocha mobiliza mais do que problemas reais da população

Domingo, 22 de maio de 2016
Do Observatório da Imprensa
www.observatoriodaimprensa.com.br

*Por João Somma Neto em 17/05/2016 na edição 903
Texto publicado originalmente no site objETHOS, 16/5/2016 
 
O 3 de maio de 2016, quando foi comemorado o dia mundial da liberdade de imprensa, em breve provavelmente estará fadado ao esquecimento como tantas outras datas vivenciadas sem grandes acontecimentos que tenham real significado para a maior parte da sofrida população brasileira.

Mas, para o maior conglomerado midiático do país, um fato ocorrido naquele dia teve importância superlativa a ponto de provocar a interrupção de sua programação normal para ser transmitida a “magnífica” chegada do fogo olímpico a ser carregado em tocha por todo o Brasil a partir da capital federal.

Se por acaso existisse uma olimpíada brasileira do telejornalismo onde a competição fosse pautada por critérios essencialmente em função da ética e da qualidade jornalística é possível que não houvesse vencedores, ou melhor, medalhistas, tal a mediocridade que tem assolado o jornalismo televisivo no Brasil, sobretudo aquele praticado pelas grandes redes de abrangência nacional.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Lava Jato: Enfim algo se move

Terça, 1º de novembro de 2015
Por Alberto Dines
Entre o jocoso e o sério, entre o cômico e o dramático, o clima estava insuportável: tenso, retesado. Em suspenso, incapaz de prever o desfecho, a plateia mal respirava. Nos bastidores, a paralisia ganhava dimensões de anarquia — sem script nem diretor, o espetáculo era empurrado pelos pressentimentos e a dinâmica do desespero. De repente, com a brusca irrupção em cena de apenas um ator cônscio do seu papel e impregnado pela compulsão de buscar a verdade e resgatar o que sobrou da honra do pai, apertaram-se os laços. Corda esticada, a tragédia consumou-se.
Sabia-se que o senador Delcídio Amaral, boa pinta e boa praça, também estaria na lista dos atingidos pelo jorro dos dutos da Petrobrás – quem não estava ? – sabia-se que Nestor Cerveró, diretor da área internacional, estava seriamente implicado na teia de escândalos da petroleira – não era o único, outros colegas estavam em idênticas condições redigindo as respectivas confissões. Ele talvez pior do que os demais.
Menos conhecidas eram a habilidade, generosidade e fidelidade do Midas progressista, o banqueiro André Esteves. Absolutamente desconhecido era o advogado Edson Ribeiro contratado para defender Nestor Cerveró e o funcionário Diogo Ferreira, chefe-de-gabinete do senador Delcídio
Uma única vez, na véspera do Carnaval, apareceu no noticiário o nome de Bernardo Cerveró ao persuadir os fabricantes de máscaras a não reproduzir o rosto do pai e evitar a galhofa em torno do defeito no rosto.
Em espetacular exibição dos seus talentos para surpreender e produzir reviravoltas, juntos ou associados, o destino, os fados, a fortuna, os idos romanos e o imortal engenho de William Shakespeare, providenciaram uma reunião do grupo no dia 4 de novembro em confortável hotel em Brasília e premiaram o único que ali estava para cumprir um papel decente, piedoso. Equipado com dois celulares (um para ser ostensivamente desligado como acontece em reuniões deste tipo), com total domínio de gestos, atitude e voz, Bernardo Cerveró prontificou-se a ouvir a proposta de recompensa que lhe faria Delcídio Amaral pela retirada do seu nome (e de outros) no texto da delação.
O teor da proposta tornou-se mais conhecido do que a escalação da seleção que joga uma final da Copa do Mundo. Envergonhada com o que ouviu nas rádios e telejornais da manhã da última quarta-feira, a Senhora Dona República, permitiu-se gestos extremos – prender um senador com mandato em flagrante delito (obstrução de investigações) e calar o corporativismo dos senadores que em votação aberta concordaram com a ordem de prisão emitida pelo STF.
O mundo veio abaixo, literalmente. E o que ainda ficou de pé, ruirá com grande velocidade. O aedes brasiliensis (para os menos versados no idioma do Lácio, o “coisa ruim brasileiro”, Eduardo Cunha), está com os dias contados. E não só ele. A pasmaceira que tanto serve aos delinquentes será naturalmente superada pela simbiose das forças postas em movimento.
Algo se move. O fim deste 2015 tem condições de ser menos tóxico e trágico se as bruxas com suas maquinações conseguirem encerrar o miserável ciclo sem vencidos nem vencedores. Equalizados e fatigados, só assim será possível programar a nova temporada com repertório mais edificante e o dramatis personae menos canastrão.
**********
A edição do “Jornal das 10” da GloboNews, na última quinta-feira, exibiu em alta definição as contradições & incompreensões entre os profissionais que buscam qualificar o conteúdo e os executivos que apostam todas as fichas em picos de audiência.
Enquanto a editora Renata Loprete e o seu time de comentaristas políticos tentava antecipar-se aos jornais do dia seguinte, alguma chefia – talvez a financeira – insistia em interromper seu trabalho para exibir as sensacionais e palpitantes tomadas do helicóptero mostrando… o tranquilíssimo comboio de viaturas da PF conduzindo o banqueiro André Esteves para o rotineiro exame no IML antes de hospedar-se no presídio Ary Franco.
Para que tanta pirotecnia? Naquele momento o cidadão-assinante só queria digerir as informações que recebera durante o dia. Aquele faz de conta de filme americano de ação foi rigorosamente provinciano e subdesenvolvido

sábado, 25 de julho de 2015

Um filme de horror que ninguém quer assistir


Sábado, 25 de julho de 2015
Do Observatório da Imprensa
http://observatoriodaimprensa.com.br
Por Alberto Dines em 24/07/2015 na edição 860
Uma das primeiras apostas de Hollywood para levar mais gente aos cinemas foi um truque psicológico extremamente simples: pavor. Há mais de um século, tal como antes na literatura, as pessoas eram atraídas pelo que deveriam abominar e graças a esta contradição, surgiram os Frankenstein, os Drácula, médicos loucos, fantasmas, almas do outro mundo, lobisomens, monstros importados do passado, do fundo do mar, do espaço, do futuro.
No Brasil, talvez por força da infantilização das grandes audiências — para as quais medo não tem charme — um filme de horror chamou a atenção de um dos mais importantes jornais do mundo , no entanto, provocar grande frisson, aqui no Brasil, apesar de nosso protagonismo na película.
“Recessão e suborno: a crescente podridão no Brasil” foi o título do editorial desta quinta-feira no secular “Financial Times”, o jornal cor-de-salmão que raramente pisa em falso quando dá opinião (sobre música, vinho, política, ou macroeconomia), e, por isso adquirido no mesmo dia por mais de quatro bilhões de reais pelos japoneses da Nikkei.
“Incompetência, arrogância e corrupção tiraram do Brasil seu encanto mágico…Não é de admirar que o país hoje seja comparado a um infindável filme de horror”, afirma o FT.
Que o governo não reagisse ou reagisse no estilo inglês – glacialmente – era o esperado. Designado para responder, Jacques Wagner, ministro da Defesa, contestou com o argumento de veterano cinéfilo: “ não é filme de horror mas de superação”. A surpresa veio da repercussão – quase nenhuma. Por solidariedade e/ou despeito, nossa mídia enfiou a viola no saco e saiu de fininho. Para não ser denunciada como alarmista ou golpista, talvez por sentir-se absolutamente desamparada diante de uma crise tão disseminada e ameaçadora, a verdade é que a retórica e o racionalismo anglo-saxônico se impuseram aos floreios da prosa neolatina.
Incompetência e arrogância
Ao associar de forma direta, impiedosa, o fenômeno macroeconômico da recessão à esfera criminal onde se encaixa o suborno, o jornal escancara a natureza da nossa desgraça. Para não deixar dúvidas quanto a gravidade do que está sendo investigado, adiciona dois penosos ingredientes raramente utilizados nas avaliações sobre o que aconteceu na Petrobrás: incompetência e arrogância.
Para coroar, o diagnóstico, o arrasador substantivo – podridão – que nos remete a Shakespeare e ao inconformado Hamlet, ao reconhecer que “há algo de podre no reino da Dinamarca”. Na injusta metáfora, o Bardo não se referia apenas ao casal regicida (mãe e padrasto de Hamlet), mas à sociedade desmoralizada, corrompida, desprovida de senso moral que permitiu a consumação e a ocultação do crime.
Entende-se porque o editorial não foi transcrito e traduzido na íntegra em nossa imprensa: por pudor e autoestima. No “Valor”, de sexta-feira (24/7), nenhuma referência foi feita ao atroz editorial do FT, no texto de uma página inteira sobre a aquisição do jornal britânico pelo grupo nipônico. Passou despercebido? Claro que não: “Folha”, dona de 50% do “Valor” também não publicou uma única linha.
Em compensação, o Grupo Globo”, dono dos restantes 50%, publicou uma chamada na capa e um razoável comentário na pagina 3. Será que os acionistas conseguirão entender-se e permitir que o jornal não brigue com o noticiário ?
Verdadeira bomba arrasa-quarteirão espalha estilhaços, fere a todos que, mesmo de longe, percebem o enredo. O interminável filme de horror do qual somos personagens e espectadores, ao contrário do que apregoam os mestres no gênero, parece condenado ao insucesso. Ninguém faz questão de vê-lo, o desfecho ainda demora. Nossas plateias são impacientes, se resignam às longas e artificiosas telenovelas, mas quando se trata de crises exigem soluções imediatas, no atual mandato.

sábado, 27 de junho de 2015

DUCK DUCK GO" O ‘anti-google’ e a navegação sem rastreio

Sábado, 27 de junho de 2015
Do Observatório da Imprensa 
http://observatoriodaimprensa.com.br
Por Sergio da Motta e Albuquerque em 23/06/2015 na edição 856
Dois temas ligados à privacidade e guarda de dados digitais de usuários da web chamaram minha atenção nos último dias: o primeiro foi o lançamento de um novo motor de buscas que não rastreia os usuários nem mantém bancos de dados sobre seus utentes. O segundo tema trata do que podemos fazer para combater tanta vulnerabilidade em nossa navegação na web, em grande parte facilitada pela arquitetura (desenho) de nossos navegadores (ou browsers).

O quão vulnerável é o seu navegador? Ou o meu? Você sabia que, de acordo com as suas configurações, você pode estar mais ou menos exposto a invasões e espionagem? Há um site na web que mostra o quão frágeis somos na web diante de identificadores digitais das grandes corporações e sites da rede, que insistem em tentar provar que precisam conhecer nossas vidas a fundo para nos oferecerem “serviços customizados”.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Aquecendo o ovo da serpente

Segunda, 1º de junho de 2015
Por Luciano Martins Costa
Comentário para o programa radiofônico do Observatório da Imprensa nº 2618, em 1/6/2015
É sabido por dez entre dez profissionais de comunicação que, com exceção da chamada agenda pública, ou seja, dos acontecimentos que se passam nas instituições que precisam obrigatoriamente se comunicar regularmente com a sociedade, que jornais, revistas e outros veículos da mídia tradicional são muito dependentes das assessorias de imprensa. Sem os press-releases, notas e declarações passadas pelas empresas por meio de seus assessores, a imprensa não teria recursos para preencher a maior parte dos espaços e do tempo que têm disponíveis diariamente.
Essa dependência, associada à progressiva redução da força de trabalho nas redações, faz com que esse material seja publicado praticamente sem mudanças, eventualmente até com o título sugerido pelas assessorias.
As assessorias de imprensa mais aparelhadas prefeririam que seus textos fossem recebidos como sugestão de pauta, não como conteúdo para ser publicado, porque, no longo prazo, essa prática desvaloriza sua própria atividade e faz parecer muito fácil o que na verdade exige muita experiência e planejamento.
Essa fragilidade da imprensa faz com que profissionais e empresas com pouca qualificação e baixa exigência em termos éticos se estabeleçam no mercado, porque também eles conseguem emplacar materiais de valor duvidoso nos principais veículos da imprensa. Esse é o caminho usado, por exemplo, por candidatos a celebridade, por líderes instantâneos criados nas redes sociais e por empresas que precisam dar um lustro em suas reputações. O fenômeno cresce nas edições de fim de semana, quando as redações precisam de mais conteúdo para inserir entre os anúncios.
Essa prática condiciona há tempos o conteúdo dos cadernos de negócios e as editorias de entretenimento, eventualmente dissimuladas sob o signo de “Cultura”.
Mais recentemente, porém, também a editoria de Política tem se tornado terreno fértil para o plantio de informações, versões, frases e opiniões elaboradas sob medida por assessores para ganhar destaque na mídia. As redes do Twitter e Facebook tornaram a imprensa ainda mais vulnerável a essas ações.
Maioridade penal
Um exemplo curioso desse sistema de alimentação da imprensa é a notícia, publicada pela Folha de S.Paulo na edição de segunda-feira (1/6), dando conta de que uma das filhas do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, está oferecendo serviços de marketing político para colegas de seu pai.
A moça admite que sua filiação, no momento em que o pai protagoniza uma sucessão de crises de relacionamento entre os poderes da República, facilita a obtenção de clientes, e o jornal não questiona o evidente problema ético presente nesse fato. Apenas registra que “ela afirma não ver conflito de interesse no que faz”.
Esse é, na verdade, o elemento central desse processo no qual a imprensa costuma validar informações de interesse específico de empresas ou de pessoas, abrindo mão de sua obrigação fundamental, que é checar a real relevância pública desta ou daquela notícia. Se há algum valor no fato de que a filha do presidente da Câmara usa a sombra do pai para ganhar dinheiro, esse valor está justamente no evidente problema ético que ela não enxerga.
Por outro lado, a mesma imprensa que noticia tal aberração sem qualquer senso crítico também abriga passivamente os factoides criados pelo pai da jovem candidata à marketagem política, como se fossem todos atos do mais alto valor para a República. O mais recente, exibido na segunda-feira (1/6) nas primeiras páginas dos diários de circulação nacional, destaca a intenção de Eduardo Cunha de colocar em pauta, na Câmara dos Deputados, a PEC 171, de 1993, que propõe a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos.
O artifício usado pelo presidente da Câmara para se manter no noticiário foi publicar uma nota no Twitter, na qual afirma: “A próxima polêmica, após a conclusão da reforma política, será a redução da maioridade penal, que votaremos até o fim de junho em plenário”.
Sua intenção é promover um referendo popular para contornar a restrição constitucional sobre a proposta – pois, segundo muitos juristas, sendo uma cláusula pétrea da Constituição, a maioridade penal não pode ser alterada sem uma mudança no texto constitucional.
A maioria dos jornais parece discordar da proposta, mas trata o anúncio com brandura, aplicando ao tema apenas a rotina banal de “ouvir os dois lados”, sem se aprofundar no debate que movimenta juristas e entidades sociais desde o início do ano.
Aplicada em alimentar a crise política que interessa a Eduardo Cunha, a imprensa aquece o ovo da serpente gestado pela bancada mais reacionária que o Congresso já abrigou desde o fim da ditadura militar.

Fonte: Observatório da Imprensa


http://observatoriodaimprensa.com.br

domingo, 31 de maio de 2015

Estado corrupto e estado violento: a conjunção

Domingo, 31 de maio de 2015
Do Observatório da Imprensa
http://observatoriodaimprensa.com.br
Por Alberto Dines em 30/05/2015 na edição 852
Hora de mudar hábitos e trocar rotinas: acostumados a acompanhar os escândalos nas páginas de política, a violência urbana no noticiário local e os desmandos no futebol nos cadernos de esporte, agora se tornou impossível escapar do confronto com a totalidade.

Estamos condenados ao holismo, não há alternativas: o tamanho e concomitância das nossas desgraças nos obriga encará-las como aberração única, expandida e integrada. A complacência e, sobretudo, a impunidade colocaram ao lado do gigante adormecido outro gigante, desperto e esperto que maliciosamente juntou num único pacote aquilo que por comodismo sempre tratamos de forma descuidada e fragmentada.

terça-feira, 31 de março de 2015

‘Zelotes’, nome errado para a mãe de todos os escândalos


Terça, 31 de março de 2015
Do Observatório da Imprensa
Por Alberto Dines em 31/03/2015 na edição 844
Ao revelar à sociedade brasileira a designação da nova operação contra as malfeitorias praticadas contra o erário pelos maiores grupos empresariais do país, a Polícia Federal errou na filologia: na linguagem corrente, zelote ou zelota (do grego zelotes, imitador) tem conotação negativa: zelo falso, devoção simulada, tartufo, enganador.
Sob o ponto de vista estritamente histórico, o grupo de judeus que se intitulavam Canaim, Cananeus (século I da Era Comum), eram fervorosos defensores da expulsão dos romanos da Terra Santa. Pagaram por isso. Inclusive o mais célebre de todos. Um dos seus seguidores, conhecido como Simão, o Zelota, fez parte deste grupo.
O termo foi resgatado recentemente por um diligente historiador americano de origem iraniana, Reza Aslan, que coligiu e compactou os mais importantes estudos publicados nos últimos dois séculos sobre os primórdios do cristianismo e produziu o best-seller Zelota, a vida e a época de Jesus de Nazaré (Zahar, 2013).
O alvo da operação policial são as empresas que tentaram eliminar ou diminuir os seus débitos junto ao CARF (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, órgão que funciona como uma espécie de tribunal da Receita Federal). Pagaram fabulosas propinas aos funcionários do órgão para produzir pareceres favoráveis às empresas infratoras e/ou tentaram outras maracutaias.
Quem recebeu a documentação da Polícia Federal e teve o privilégio de revelar o escândalo foi o Estado de S.Paulo, por meio de sua sucursal de Brasília (sexta-feira e sábado, 27 e 28/3, com manchetes na capa). Não fez investigações complementares. Em compensação, publicou tudo. Ou quase.
Ao largo
Considerado o maior escândalo na história da Receita Federal, o prejuízo contabilizado por enquanto é de quase 6 bilhões de reais, mas envolve processos que somam 19 bilhões de reais – quase o dobro do dez bilhões de reais da Operação Lava Jato. Entre as empresas implicadas na malfeitoria estão os bancos Bradesco, Santander, Pactual, BankBoston e Safra, as montadoras Ford e Mitsubishi, o conglomerado-gigante BR Foods (marcas Sadia e Perdigão, entre outras), Light e grupos Gerdau e RBS.
No caso desta última, o Estadão mencionou que se trata de um grupo que opera no ramo das comunicações, omitiu que se trata do terceiro maior do país nesse segmento e importante parceiro da Rede Globo no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Não revelou os títulos dos importantes veículos do conglomerado, porém detalhou os valores da infração, aliás a menor da lista: pagou a propina de 15 milhões reais para obter uma redução de 150 milhões no seu débito. Excelente negócio.
No sábado (28/3), o intrépido Globo não teve outra alternativa senão noticiar a Operação Zelotes (numa distante página da seção de Economia) citando nominalmente alguns infratores. O nome do parceiro da Rede Globo evaporou. Isso acontece quando o tempo está quente. Evidentemente respeitou-se o sobrenome da família que fundou e tem o controle do conglomerado. Afinal, há jornalistas com o mesmo sobrenome e brilhante currículo que nada tem a ver com a Zelotes. Naquela noite o Jornal Nacional, ao noticiar a operação, deu o nome do grupo e a sua filiação à Rede Globo. Mas rapidinho, como convém.
Na Folha de S.Paulo de sábado, igualmente na última página do caderno “Mercado-1” (B-7), há um resumo da operação da PF com o nome dos denunciados inclusive no ramo da comunicação social.
Em dívida com os seus leitores, o Valor Econômico de segunda-feira (30/3) passou ao largo do escândalo. As empresas implicadas agradecem. As que pagam seus compromissos e respeitam a lei devem se sentir lesadas. Isso também acontece.
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A recessão por um fio

Terça, 31 de março de 2015
Do Observatório da Imprensa
Por Rolf Kuntz* em 31/03/2015 na edição 844
O fantasma da recessão em 2014 foi exorcizado e sumiu, graças à mudança de cálculo do IBGE. A economia brasileira cresceu 0,1% no ano passado, segundo o novo critério, ajustado ao padrão internacional. Foi quase nada, mas o resultado ficou acima de zero. Nem assim a imprensa ficou sossegada. “PIB cresce 0,1%, e país adia recessão para 2015”, segundo a manchete do Globo no sábado (28/3). A mesma profecia apareceu em outros grandes jornais. O Brasil escapou do número negativo no ano passado, mas os números conhecidos até agora já indicam um primeiro trimestre no vermelho.
Houve pouca variação no material publicado por esses jornais, no dia seguinte à divulgação das contas nacionais de 2014. A média anual de crescimento econômico nos últimos quatro anos, 2,1%, foi a mais baixa desde o governo Collor. Além disso, o produto por habitante foi 0,7% menor que em 2013. Além de enfrentar a estagnação econômica, o brasileiro médio ficou mais pobre.
Todos deram esses detalhes. Houve também comparações com o desempenho de outros países do Grupo dos 20 (G-20), formado pelas maiores economias do mundo. Mas ninguém se lembrou de incluir na edição de sábado (28) a comparação, especialmente significativa, com outras economias sul-americanas.
Entre 2011 e 2014, Bolívia, Chile, Colômbia, Paraguai e Peru cresceram a taxas anuais médias superiores a 4%. Os mais dinâmicos desse grupo cresceram mais de 5% ao ano. Se o desempenho do Brasil, como disseram tantas vezes a presidente Dilma Rousseff e seus ministros, foi determinado pelas condições internacionais, como explicar os números desses países, também exportadores de commodities?

quarta-feira, 18 de março de 2015

CASO HSBC, SWISSLEAKS – Consórcio de jornalistas e não um ‘pool’ de jornais

Quarta, 18 de março de2015
Por Alberto Dines em 17/03/2015 na edição 842
Quatro circunstâncias foram decisivas para convencer a equipe do programa de TV do Observatório da Imprensa a pautar o Caso SwissLeaks na edição levada ao ar na terça-feira (10/3, remissão abaixo):
1. O enorme interesse suscitado pelo megavazamento na imprensa internacional, sobretudo europeia, e a decisão do Comitê de Redação do prestigioso Le Monde de publicar a lista de todos os correntistas, a despeito do veto simbólico dos acionistas majoritários.
2. A visível hesitação da grande mídia brasileira em entrar com vontade no assunto apesar de sua evidente importância.

quarta-feira, 4 de março de 2015

CASO HSBC: O silêncio da mídia

Quarta, 4 de março de 2015
Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado
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Por Randolfe Rodrigues*
em 03/03/2015 na edição 840 do Observatório da Imprensa

O HSBC é um gigante do mercando financeiro mundial, com 254 mil funcionários em 6.200 escritórios e agências em 129 países, somando mais de 52 milhões de clientes no mundo inteiro.
No ranking de 2014 da revista inglesa The Banker, o HSBC, com sede em Londres, aparece como a segunda marca bancária mais valiosa do mundo, no valor de quase 27 bilhões de dólares.
Um poderio que se manifesta também no Brasil, onde o banco assumiu as operações do antigo Bamerindus. Com sede em Curitiba, o HSBC opera em 565 municípios brasileiros com 933 agências, além de quase 500 postos de atendimento bancários e mais de 5 mil caixas automáticos, com uma carteira de 3 milhões de clientes individuais e outros 320 mil como empresas.
Numa instituição tão grande, um passo em falso se transforma em desastre.
O desastre virou um escândalo planetário no início de fevereiro passado, quando o HSBC virou protagonista, na definição do jornal londrino The Sunday Times, da “maior evasão de impostos da História”. A notícia tem como fonte original um especialista em informática do HSBC, o franco-italiano Hervé Falciani, hoje com 43 anos, que o banco havia transferido de Mônaco para sua filial suíça em Genebra. Lá, ele descobriu o método criminoso que ele definiu assim para a revista alemã Der Spiegel: “Bancos como o HSBC criaram um sistema para enriquecer às expensas da sociedade, através da assistência para evasão de impostos e lavagem de dinheiro”.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

CASO HSBC: Escândalo provoca debate sobre pressão comercial no jornalismo

Terça, 24 de fevereiro de 2015
Tradução e edição: Leticia Nunes. Informações de Benjamin Mullin [“The Telegraph soft-balled bank to save advertising contract, former staffer says”, Poynter, 17/2/15], Chris Johnston [“Daily Telegraph 'makes no apology' for its coverage of HSBC scandal”, The Guardian, 19/2/15] e Simon Bowers [“Telegraph owners' £250m HSBC loan raises fresh questions over coverage”, The Guardian, 19/2/15] 

“Se grandes jornais permitem que corporações influenciem seu conteúdo por medo de perder receita publicitária, a democracia está em perigo”. A frase é de Peter Oborne, principal comentarista político do Daily Telegraph, que pediu demissão acusando o jornal britânico de suavizar sua cobertura jornalística em nome de um contrato publicitário.

Segundo Oborne, o Telegraph omitiu informações sobre denúncias de que o HSBC teria ajudado milhares de clientes a lavar dinheiro na Suíça. Depois de publicar seis artigos sobre a investigação sofrida pelo banco, funcionários do Telegraph receberam ordem de destruir todos os emails, anotações e documentos ligados ao inquérito.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

IMPRENSA SILENCIOSA: Jornais pouco veiculam manifestação em Madri

Terça, 3 de fevereiro de 2015
Por Cristiano de Sales em 03/02/2015 na edição 836 do Observatório da Imprensa
Impressiona a pouca ênfase que os jornais de maior circulação no Brasil, em suas versões online, deram à manifestação ocorrida no sábado (31/1) num dos principais endereços da capital espanhola. Na busca de maiores informações sobre o ocorrido, pode-se digitar no Google, em português, a expressão “manifestação em Madrid” e ver uma série de respostas nos direcionando a sítios lusitanos. O número de participantes foi calculado em 100 mil
Se quisermos ler em nossos “principais” jornais o que houve na Espanha, temos que vasculhar os frames, as diferentes seções, e rolar um bocado a barra lateral de navegação para encontrarmos notícias compiladas da mesma fonte dos tais periódicos lusitanos.
A manifestação, que teve como força propulsora as eleições na Grécia, com a vitória do Syriza, parece não interessar muito aos periódicos que tantos favores prestam às forças econômicas estrangeiras. Mesmas forças que sufocaram a Grécia nisso que eles chamam de salvamento da economia da zona do euro. O problema não são as verdades ou mentiras sobre essa questão de salvamento da economia europeia. O problema é sempre aceitar que questões humanistas (até onde sei, a liberdade é uma questão de humanidade) possam ser sacrificadas em prol de um salvamento econômico. E é contra isso que os europeus começam a sinalizar ao eleger um governo de oposição na Grécia e ao tomarem as ruas de Madrid. E é exatamente isso que os jornais do Brasil preferem não fazer virar debate.
Noticiar, como fizeram o Estado de S.Paulo e O Globo, reproduzindo agências de notícias, está bem longe de transformar um assunto em debate. Aliás, essa manifestação não ganha destaque nem mesmo entre as notícias internacionais desses jornais. Ela aparece como mais uma dentre as tantas tristes notícias dos conflitos pelo mundo. Mas espera aí! Essa é uma notícia diferente. Ela talvez seja o contraponto às notícias deprimentes de conflitos que estamos acostumados a ver com tanta frequência (mesmo que essa manifestação gere conflitos).
A falta de interesse
Claro, para que haja debate sobre um fenômeno como esse é necessário tempo de digestão das informações e amadurecimento das ideias, mas o primeiro passo não foi dado, as informações não apareceram com o destaque que mereciam para resultarem em interesse público.
Um ponto, entre tantos outros de desdobramento sócio histórico, que poderia começar a ser trabalhado na veiculação desses acontecimentos, é a demonstração, por exemplo, das diferentes motivações com que se vai às ruas na Europa, se comparado ao Brasil. Sem querer estabelecer uma comparação reducionista e infrutífera entre os dois continentes, vale destacar o tipo de pautas que têm levado os europeus às ruas. Elas são mais subjetivas, abstratas, conceituais. A de Madrid foi convocada contra a austeridade do governo. É contra uma prática bastante objetiva do governo? Sim, mas é também contra um conceito, uma postura, uma ideia, uma solução.
As manifestações no Brasil têm um perfil um pouco mais pontual: reivindica-se, aparentemente, contra aumento de tarifas de transporte, contra falta d’água, contra falta de moradia (todas elas absolutamente legítimas). Não significa que por serem assim sejam menos dignas, significa que o país tem outro perfil, o de exigir (a própria população faz isso) que as pautas sejam claras e objetivas, e não subjetivas, ou pouco definidas. E a população exige isso muito em função da forma como os noticiários veiculam as manifestações; muito em função de como a mídia “fomenta” esse debate protegendo os interesses de grupos muito parecidos com aqueles que estão agora na mira das manifestações europeias. Daí a falta de interesse em fomentar publicamente essa discussão que em muito ajudaria a nós, brasileiros, entendermos que nossas manifestações também não são apenas pontuais, por 50 centavos, elas são também conceituais. Tomamos as ruas porque cada vez menos interferimos nas decisões da res publica. Isso não aparece no jornal.
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Cristiano de Sales é professor de Comunicação Social 
Fonte: Observatório da Imprensa
http://www.observatoriodaimprensa.com.br

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Hora da verdade, fase dois

Quarta, 17 de dezembro de 2014
Do Observatório da Imprensa
Por Alberto Dines

O relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV) está cumprindo o seu verdadeiro papel: está despertando um debate que se imaginava impossível e sepultado. Na melhor das hipóteses, insípido e tedioso.

Não é isso que acontece. Mesmo magnetizada pelas revelações da Operação Lava Jato, a sociedade brasileira está percebendo que não pode manter-se calada e omissa, enganada pela segunda vez em 50 anos diante dos horrores produzidos pelo golpe de 1964.

Com a AP 470, Joaquim Barbosa e seus colegas no Supremo Tribunal Federal despertaram a esquecida vontade de fazer justiça. Num país amortecido por seculares impunidades materializou-se, de repente, a hipótese de punir abusos e ilícitos. As investigações judiciais ora em curso sobre os monumentais desmandos na Petrobras sugerem um desastre que, se efetivado, desabará inapelavelmente sobre a cabeça de todos, sem exceções. A Justiça deixou de ser uma figura estática e enigmática para tornar-se movimento, ação.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Educação, jornalismo, publicidade: não se fracassa sozinho

Sexta, 12 de dezembro de 2014
Por Cristiano de Sales* em 09/12/2014 na edição 828
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Poderíamos chamar de infeliz o anúncio publicitário que ocupou a página 5 do jornal O Globo de domingo (7/12), que procurava promover políticas educacionais da prefeitura do Rio de Janeiro. Mas não, infelizes somos nós que já passamos, há tempos, da categoria de leitores para a de consumidores e agora para a categoria de mercadorias, conforme ensinou Carlos Castilho, neste mesmo Observatório,quando escreveu sobre a publicidade nativa (ver “Publicidade que parece notícia”). Além de já termos sido coisificados (e olha que nem sou marxista; aliás, precisa ser um para perceber isso?), agora testemunhamos de maneira explícita a concepção que administrações públicas como a do Rio de Janeiro têm sobre o que é educar um povo. Produção em série de pessoas supostamente habilitadas a desenvolver determinadas (e muito bem determinadas!) tarefas. Homogeneização das habilidades; nem sei se podemos falar neste caso em homogeneização do pensamento, pois não dá para confiar que um órgão que promova sua contribuição à educação com anúncios como o acima destacado esteja estimulando algum pensamento em seus produtos, digo, crianças.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

URNA ELETRÔNICA: Fiscalização dos programas nas eleições de 2014

Domingo, 21 de setembro de 2014
Por Pedro Antonio Dourado de Rezende
Durante a recente cerimônia de compilação, assinatura e lacração dos programas do sistema eletrônico de votação do TSE para a eleição de outubro próximo, realizada na tarde de 5 de setembro na sede do Tribunal em Brasília, seu presidente declarou à Agência Brasileira de Notícias que “a grande prova da garantia da urna eletrônica se mostra pela quantidade de partidos políticos aqui presentes”.
Apenas o PDT e o PCdoB haviam enviado representantes para participar daquela cerimônia, levando o presidente do Tribunal, ministro Dias Toffoli, a avaliar o motivo dessa pouca representatividade concluindo, na mesma declaração, que “a confiabilidade do sistema é tão grande que não há divergências a esse respeito”.
Data vênia o ministro, é preciso deixar registrado que os representantes do PDT, historicamente o partido político que mais tem se preocupado com os rumos da informatização do processo de votação no Brasil, não avalizam tal conclusão. Se não há divergências aparentes quanto ao sistema que será usado na eleição de 2014, é porque as questões levantadas por esta representação naquela mesma cerimônia, através de petição protocolada na ocasião, ainda não foram satisfatoriamente respondidas pelas autoridades eleitorais.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

ANÚNCIO INFELIZ — Vendendo a verdade com embalagem ‘fake’


Terça, 26 de agosto de 2014
Por Alberto Dines em 26/08/2014 na edição 813
No exato momento em que o jornalismo em geral, e o impresso em particular, são desafiados, cobrados, pressionados, desacreditados e colocados sob suspeita, a Associação Nacional de Jornais (ANJ) entra em cena com novo e portentoso disparate que só reforça as cobranças, questionamentos e dúvidas.
Na quinta-feira (21/8), a Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo e Valor chegaram às mãos de seus assinantes em São Paulo com capas falsas – ditas “promocionais” ou mascaradas de “informes publicitários” – para vender a ideia de que se deu no jornal é verdade.
Jogada infantil para agarrar o público jovem, o anúncio tenta reproduzir uma página de tuítes e posts da rede social. O principal deles, postado por Maria Reininger (depois do 7 a 1 é chique ter nome alemão), informa que se algo está na capa do jornal de hoje “eu acredito”.
Na página interna diz-se que “quem abre uma notícia, abre um jornal (deveria ser o contrário – tudo bem, bacana ser obtuso). Seguem-se algumas linhas de sociologia de boteco informando que o que ontem foi viralizado, o que está nas page views, nos hashtags, nos tuites e retuítes só existe quando sair no jornal. Conclusão acaciana: “Jornal é o que leva a verdade até você, é o que garante que tudo aconteceu”.
Zona de turbulência
Primeira pergunta aos senhores acionistas de empresas jornalísticas: se o jovem é avesso a jornal como se apregoa, qual a utilidade de dirigir uma mensagem escrita a quem não lê ?
Segunda pergunta: se as capas daquela edição foram falsificadas, como associar o meio jornal ao conceito de verdade?
Terceira pergunta: no início da temporada eleitoral, quando os jornalões deveriam tentar a individuação para desfazer a imagem de pool ou confraria, a inconveniência da mensagem coletiva, em uníssono, não ocorreu a alguém? Uma autopromoção com forte teor corporativo e veiculada simultaneamente pelas maiores empresas jornalísticas do país (Valor é uma parceria da Folha com o Globo) não confirma – ao invés de desfazer – a falta de pluralismo e diversidade em nossos meios de comunicação?
Apertem o cinto, senhores: vamos entrar em área de turbulência e os pilotos estão tontos.