Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

MPL: Não vai ter tarifa

Sexta, 8 de janeiro de 2015
Na cidade do amanhã que a humanidade em transe construirá pra si o transporte é público, gratuito e de qualidade para todos.
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O ano mal começou e as ruas de todo Brasil lotaram para mostrar sua disposição de luta. O primeiro round de 2016, como não podia ser diferente, é a batalha dos transportes, aberta desde junho 2013 e ainda latente no país.
Ato contra o aumento no Rio de Janeiro. Foto: Mídia NINJA
E se o Brasil decidir que de fato o transporte é um direito de todos? E se as ruas da democracia decidirem que não vai ter tarifa e que o poder público precisa operar uma mudança na matriz econômica deste serviço público urbano para assegurar a gratuidade de sua prestação? É isto que o futuro insiste em dizer! A luta contra o aumento das tarifas e por um transporte público de qualidade já voltou a lotar as ruas do país na primeira semana de 2016.
Ato contra o aumento no Rio de Janeiro. Foto: Mídia NINJA
O ano mal começou e as ruas já mostram sua disposição de luta. O primeiro round, como não podia ser diferente, volta a ser a batalha dos transportes, aberta desde junho 2013 e ainda latente no país. Por enquanto, as máfias empresariais vão vencendo a guerra. A caixa-preta das contas do setor permanece fechada e os lucros intocados dos barões do transporte. A melhoria na qualidade dos serviços não deixou de ser uma promessa na maior parte das capitais e a paciência cidadã se esgota.
Ato contra o aumento no Rio de Janeiro. Foto: Mídia NINJA
O século XXI, para o transporte público brasileiro, está definitivamente longe de começar. Merecem destaque os esforços de Fernando Haddad em São Paulo e do prefeito Washington Quaquá que implantou o tarifa zero em Maricá, município do Rio de Janeiro. Mas de modo geral, verdade seja dita, a letargia dos poderes públicos prevaleceu pós-junho e pouca qualidade democrática foi agregada à gestão destes serviços públicos que permanecem como verdadeiros feudos empresariais.
Ato em Belo Horizonte. Foto: Mídia NINJA
A democracia, entretanto, é dinâmica e o direito à cidade já ninguém pode calar no Brasil. Animada pelo protagonismo feminino que dá o tom dos protestos, a rua voltou a lotar pra dizer que não vai ter tarifa.

Alguém aí achou que o Brasil ia desistir da luta pelo direito ao transporte? Alguém aí achou que junho não serviu pra nada? Não adianta reprimir os protestos simplesmente porque amanhã serão maiores. Não há outro caminho possível: tem que tirar o transporte público da mão das máfias empresariais e confiar na própria democracia!
Ato contra o aumento no Rio de Janeiro. Foto: Mídia NINJA
Só cabe ao poder público radicalizar na transparência dos orçamentos do setor e escancarar a participação cidadã para que uma gestão compartilhada passa ser capaz de operar uma verdadeira transição democrática neste setor vital dos serviços urbanos que os torne efetivamente públicos. Agora é que são elas! Quem tem coragem de abrir alas pro futuro?
Ato contra o aumento em Sao Paulo. Foto: MPL- SP
Na cidade do amanhã que a humanidade em transe construirá pra si o transporte é público, gratuito e de qualidade para todos. Quem viver, verá! O futuro é mesmo teimoso. Tanto bate até que fura as velhas estruturas. 2016 está só começando e não tem arrego!

sábado, 19 de setembro de 2015

Algumas imagens dos protestos contra o aumento de tarifas de ônibus anunciado pelo governo Rollemberg

Sábado, 19 de setembro de 2015
Fotos do confronto entre manifestantes do Passe Livre e a PM do Distrito Federal, ontem (18/9), na Rodoviária do Plano Piloto de Brasília. Imagens da Agência Brasil.


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Repressão: Relatório mostra que 849 manifestantes foram detidos de 2014 a 2015

Quinta, 10 de setembro de 2015
Daniel Mello, repórter da Agência Brasil

Protestos em São Paulo
O levantamento sobre a detenção de manifestantes pela polícia foi feito pela organização não governamental (ONG) Artigo 19, a partir do acompanhamento de 740 protestos —Arquivio/Marcelo Camargo/Agência Brasil

Ao menos 849 pessoas foram detidas em protestos nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, de janeiro de 2014 a junho de 2015. A informação faz parte do relatório As Ruas sob Ataque, que denuncia violações de direitos em protestos. O levantamento, divulgado hoje (10), foi feito pela organização não governamental (ONG) Artigo 19, a partir do acompanhamento de 740 manifestações no período. “O número é preocupante, já que leva em conta apenas manifestações ocorridas em dois estados”, destaca o documento.
Em alguns casos, foram feitas detenções em massa, quando grupos de pessoas são detidos, de acordo com a ONG, muitas vezes, sem ter cometido infrações. O relatório destaca dois casos de protestos contra a Copa do Mundo, na cidade de São Paulo, em 2014. No primeiro, em 25 de janeiro, 128 manifestantes foram detidos. Em outra, no dia 22 de fevereiro, o número chegou a 262. “Neste dia, a polícia paulista utilizou pela primeira vez a técnica conhecida como Kettling ou Caldeirão de Hamburgo, isto é, um cordão policial que cercou dezenas de manifestantes aleatoriamente, independentemente de terem cometido qualquer ato contrário à lei, sob a alegação de que 'haveria quebra da ordem'”, detalha o texto.
À época, a Polícia Militar classificou a referida operação de bem-sucedida. O coronel Celso Luiz Pinheiro, então comandante do policiamento da região central de São Paulo, disse que ação reduziu os possíveis danos ao patrimônio, o número de policiais feridos e os confrontos.
As prisões de alguns manifestantes são identificadas no documento como casos de violações de direitos. No dia 23 de junho de 2014, Fábio Hideki e Rafael Lusvarghi foram presos em um ato na Avenida Paulista, acusados pelos crimes de desobediência, incitação ao crime, resistência e associação criminosa. Ambos permaneceram presos até agosto do ano passado, quando um laudo técnico comprovou que os materiais encontrados não eram explosivos. Eles foram definitivamente absolvidos em junho de 2015.

Saiba Mais

O uso de armamento letal em alguns dos protestos é outro ponto destacado pelo levantamento. No período investigado, foram confirmados quatro atos em que houve o uso de munição letal pela polícia: um deles na capital paulista e três na cidade do Rio. Em março de 2014, segundo o relatório, o estudante Rodrigo Oliveira, de 20 anos, foi atingido por um tiro no pé durante uma manifestação no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. De acordo com o documento, o disparo foi feito por um policial durante uma manifestação contra uma série de prisões na Favela Nova Brasília.
Na avaliação da Artigo 19, o trabalho das forças policiais nas manifestações de 2014 e 2015 mostra que os esforços do Poder Público foram no sentido de ampliar a repressão, em vez de buscar formas de garantir o direito a manifestações. “Dois anos após as Jornadas de Junho [protestos que se espalharam pelo país, tendo como início atos contra o aumento de passagens], o cenário que se tem é o de que essas violações continuam a ser perpetradas por agentes do Estado. Em muitos casos, foram até aprimoradas com investimentos no aparato repressor”, diz em referência à compra de equipamentos ou à criação de unidades policiais voltadas à contenção de protestos.
A ONG lembra que os atos de 2013 já haviam demonstrado que poderiam ocorrer protestos de maior amplitude do que os registrados anteriormente. “O Estado teve o tempo necessário para entender o fenômeno adequadamente e agir no sentido de garantir os direitos de liberdade de expressão e de manifestação, treinando os agentes das forças de segurança a reagir dentro de protocolos pautados pela defesa de direitos”, destaca o relatório.
Polícia Militar
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou, em nota, que não comenta estudos dos quais desconhece o conteúdo e a metodologia. Sobre a atuação em protestos, a Polícia Militar diz que a finalidade é garantir a segurança dos próprios manifestantes, assim como da população que não participa do protesto, além de assegurar o direito de manifestação e de expressão.
O órgão explica que a técnica do envelopamento (Kettling ou Caldeirão de Hamburgo, de acordo com o relatório da ONG) é usada internacionalmente e foi a responsável pela redução do emprego de técnicas potencialmente mais violentas, como o uso de munição química e de elastômeros (borracha). “É uma forma de se proteger os direitos de todos, separando os verdadeiros manifestantes de oportunistas que cometem atos de vandalismo ou ações criminosas. Essa técnica permite inserir mais um degrau no uso progressivo da força para garantir a ordem.”
A PM esclarece que não existe, no ordenamento jurídico brasileiro, a prisão para averiguação. A condução aos distritos policiais é motivada por atos ilegais ou fundada suspeita. “Eventuais erros ou abusos por parte de agentes da lei são exceções apuradas com extremo rigor, sempre que chegam ao conhecimento da Corregedoria.”
Também em nota, a Secretaria de Estado de Segurança (Seseg) do Rio de Janeiro informou que todos os policiais passam por um curso de formação de oito meses, com carga horária de 1.182 horas, que inclui treinamento e capacitação específicos para lidar com diferentes manifestações. O órgão informa também que faz capacitações especializadas e contínuas que contam, inclusive, com a participação de policiais de outros países e que, desde 2011, os agentes passam por cursos especiais para atuação em grandes eventos, de forma conveniada com o Ministério da Justiça e em parceria com as embaixadas da Espanha, Alemanha e dos Estados Unidos.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Roubaram a terra ao Anteu

Quinta, 2 de julho de 2015
Projeto de lei absurdo, descabido, autoritário, apresentado em 2011 pelo distrital Cristiano Araújo, do PTB de Gim, foi aprovado ontem (1/7/2015) pelos distritais.
Leia a seguir texto publicado originalmente aqui no Gama Livre no dia 19 de setembro de 2011. Com o título “Roubando a terra ao Anteu”, a postagem abordava o projeto de lei nº 572/2011, que golpeava a democracia, e que foi aprovado finalmente agora, nos últimos instantes de funcionamento da CLDF antes do recesso parlamentar de julho/início de agosto de 2015.

Leia o texto:

Roubando a terra ao Anteu

Segunda, 19 de setembro de 2011
Anteu                Google imagem
A praça! A praça é do povo

Como o céu é do condor;

É o antro onde a liberdade

Cria águias em seu calor

Senhor!... pois quereis a praça?

Desgraçada a populaça

Só tem a rua de seu...

Ninguém vos rouba os castelos,

Tendes palácios tão belos...

Deixai a terra ao Anteu.

(Castro Alves, em O Povo no Poder)

Castro Alves todos guardam na memória, mas suponho que caiba, em benefício de um ou outro leitor mais distraído, uma referência a Anteu, a quem o poeta, nesses versos, identificou com o povo. Personagem da mitologia grega, Anteu era um deus, filho de Posídon (o deus do mar, adotado pelos romanos sob o nome de Netuno) e Gaia (a Terra). Sua característica principal era a capacidade de captar para si a força da Terra, sua mãe, sempre que estivesse em contato com ela. Nessas condições, era invencível. Se perdesse esse contato, tornava-se indefeso.
Tem político que talvez por ser jovem, não ter vivido os tempos de chumbo, a ditadura imposta a partir de primeiro de abril de 1964, e principalmente nunca ter precisado sair às ruas para conseguir qualquer coisa na vida, agora brinca de querer proibir o povo de se manifestar na principal via pública de Brasília. Para torná-lo fraco, vulnerável, quer tirar-lhe o chão. Roubar a terra ao Anteu.
De acordo com o projeto de lei apresentado, neste mês de setembro, pelo deputado distrital Cristiano Araújo (PTB), todo o Eixo Monumental de Brasília (o eixo central do avião) seria, na prática, proibido como local de manifestações de protestos. O espaço compreende toda a extensão que vai da antiga rodoviária interestadual até a Praça dos Três Poderes, passando pelo maior palco das manifestações populares, que é a Esplanada dos Ministérios. Impedirá também a lei, caso seja aprovado o projeto autoritário de sua excelência, que a Praça do Buriti, onde se localizam o palácio do governador do Distrito Federal, a Câmara Legislativa do DF, o Tribunal de Justiça do DF e o Ministério Público do DF, seja usada para manifestações. Reinará, segundo as intenções do deputado, a mais perfeita calma naquela região, mesmo que tudo o mais esteja explodindo.
Foi na Praça do Buriti, por exemplo, que no dia 9 de dezembro de 2009 o povo se reuniu para protestar contra o mensalão do DEM, bandalheira patrocinada pelo grupo do governador José Roberto Arruda e denunciada pelo “produtor cinematográfico especial” Durval Barbosa, que era um dos secretários de Estado do governador. Foi aí que houve um verdadeiro teatro de guerra, onde a polícia do governador sentou o pau nos manifestantes. Na praça, estudantes, sindicalistas, mulheres, jovens, crianças e velhos. Não houve seletividade na carga da cavalaria, no spray de pimenta, na bomba de efeito moral, nas balas de borracha, no desrespeito ao direito de manifestação. Todos foram vítimas da arrogância e da truculência do governador e de suas tropas.
Do lado de lá, na trincheira do governador, estava o deputado Cristiano Araújo, parlamentar da base de apoio de Arruda. Não estava nas ruas, não protestava, permanecia omisso, se calava. E, claro, não gostava do que via.
Depois do naufrágio político de Arruda, sabe-se lá por quais cargas d’água o antigo aliado é hoje peça importante na base parlamentar do governo Agnelo/Filippelli, e em breve será nomeado secretário de Desenvolvimento Econômico.
Nenhum governo gosta de ver protestos nas ruas. Um protesto se inicia, mas ninguém é capaz de dizer com exatidão quais as suas conseqüências, qual o rumo que tomará mais adiante.
É verdade que por mais esquisito que possa parecer, temos assistido algumas manifestações que são verdadeiros “protestos de apoio”, se é que assim podemos chamar algum protesto. São centrais sindicais, sindicatos, entidades estudantis que foram domesticados e amestrados pelos governantes. Mas mesmo sendo assim, há de se garantir o seu direito de manifestação, de sair às ruas, de, sabe Deus, protestar ou aplaudir. Anos depois que o PT inventou o “apoio crítico”, surge agora essa hilariante onda de protestos de apoio.
Mas voltando ao autoritarismo do projeto de lei apresentado pelo deputado distrital Cristiano Araújo, ele estabelece critérios e horários para manifestações ao longo da Via do Eixo Monumental. Claro que haveria ele, o deputado, de tentar não deixar transparecer que era uma proibição e pronto. Assim, no artigo 2º do projeto de lei, o deputado coloca que “É vedada a realização de manifestação através de Carreata, passeata marchas outra da mesma natureza, nas faixas do Eixo Monumental nos horários de trânsito intensivo” (sic). O deputado considera horário de trânsito intenso aquele compreendido entre às 7 e 10 horas e entre as 16 e 19 horas.
As manifestações, assim, poderão ser realizadas a partir do primeiro segundo depois das 19 horas até 6h59min59. A partir desse momento, nenhum manifestante pode estar na área. Mas que bom, pois às 10 horas e mais um milésimo de segundo, um grito de guerra poderá reorganizar rapidamente a manifestação. O povo reinicia o que eles chamam de baderna, mas que terá que ser suspensa novamente às 15h59min59, podendo ser retomada às 19 horas mais um milésimo de segundo. Parece até aquela brincadeira de menino: “Vivo! Morto!”
A isso poderemos chamar de manifestação quebrada. Está aí. A intenção maior é quebrar com as manifestações, pois povo na rua é muito perigoso. Não para o país, mas para aqueles que nos governam, e geralmente de forma muito mal e acham que o país é deles. Incluindo o DF.
Engraçado — se não fosse suspeito — é o artigo 4º do projeto de lei de sua excelência o deputado distrital Cristiano Araújo. Ele faz uma ressalva, pois diz que a proibição estabelecida no artigo 2º “não atingirá os eventos já previstos no Calendário Oficial de Eventos do Distrito Federal, bem como as comemorações de datas festivas”. Por exemplo, o desfile do Sete de Setembro pode ser realizado, mas a Marcha Contra a Corrupção, a exemplo do que aconteceu no último dia em comemoração à independência do Brasil (qual independência?), seria tratada na base do cacete, do pit bull, do spray de pimenta, da cavalaria, do brucutu, do Bope. É isso, ou pior do que isso, essa coisa que o deputado quer transformar em lei.
Mas tem mais. Segundo o Projeto de Lei 531/2011 — que leva o DNA do “monstro da lagoa” imaginado por Chico Buarque — e que já foi lido no Plenário da CLDF, “os participantes deverão efetuar a concentração pública próxima à área do evento, para evitar o menor transtorno possível ao transito (sic) do local”. Está aí uma boa ideia. Se estiver, por exemplo, previsto um ato junto ao Congresso, os manifestantes teriam que se reunir a poucos metros do local. Caso fossem umas 100 mil pessoas, umas se acomodariam sobre as outras, em camadas cuja altura poderia causar transtornos ao tráfego aéreo, levando, da terra aos céus, as complicações que o projeto diz querer evitar.
Você acha que acabaram os absurdos colocados no projeto de lei? Não, a coisa vai longe. Reza o texto, no seu artigo 6º, que “As manifestações ao longo do Eixo Monumental, deverão ocorrer, preferencialmente, no canteiro central.” Já no artigo 7º, por sua vez, é definido que “Não havendo condições de utilização na forma prevista no artigo anterior, será permitida manifestação ao longo do Eixo Monumental, desde que não ocupe mais do que uma faixa de rolamento da via, sem que haja cruzamento entre uma faixa e outra, exceto, nas faixas de pedestres.”
A lei proposta pelo distrital Cristiano Araújo, para ser realmente sincera e franca, poderia resumir-se a três artigos:
Art. 1º. Fica proibida em Brasília qualquer manifestação de protesto.
Art. 2º. Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 3º. Revogam-se as disposições em contrário, especialmente aquelas que garantem o direito constitucional de manifestação.

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quarta-feira, 3 de junho de 2015

180 dias em Bangu (Primeira Parte)

Quarta, 3 de junho de 2015
IGOR MENDES
Rio, 03-06-2015, 180 dias de detenção:
[Para Tribuna da Imprensa online]
[Para a campanha dos Presos Políticos de modo geral]
O Complexo Penitenciário de Gericinó é o maior conjunto de presídios do Brasil. Deve ter em torno de 35 mil presos - uma cidade. Uma cidade muito particular, certamente, cercada por muros altos e grades, e homens armados nos tetos. Uma cidade na qual, atrás dos seus portões de ferro, as leis do país e conquistas humanas que já datam mais de duzentos anos (contando a partir da revolução francesa), como a própria noção de direitos, só valem até certo ponto, variando de acordo com o administrador de cada presídio, com o status social do preso ou até mesmo com o humor dos funcionários de plantão.
Nesse meio ano que estou aqui já vi muitas coisas, já ouvi muitas histórias. Pretendo contá-las, sem dúvida: quando aquilo que acontece atrás desses muros deixar de ser invisível, é possível que muitas opiniões sejam revistas, inclusive a noção tão difundida que “leis mais duras” e cadeia podem ser a solução para as profundas mazelas sociais e suas consequências que nos assolam secularmente. Mas a hora de cumprir essa tarefa, plenamente, ainda não chegou, mesmo porque eu continuo aqui, a via-crucis não terminou. Queria apenas compartilhar com vocês um pouco dessa experiência, não através de uma análise sociológica, tanto porque existem pessoas mais competentes para isso assim como porque não disponho de nenhum material de pesquisa, e sim pintando um quadro humano desse lugar, onde aprendi, dentre outras coisas, que não há limites para quem decidiu viver coerentemente de acordo com suas convicções, dignamente. Resistir é preciso, já dizia o Leão Alípio de Freitas, e é possível, ouso complementar. Aproveito para deixar registrada aqui, novamente, a minha saudação à campanha pela libertação dos presos políticos e aos meus queridos companheiros e companheiras que não me deixam sentir só em nenhum momento. Como o tema é vasto, escreverei esse artigo em duas partes, mas mesmo assim isso não esgotará, nem de longe, tudo que tenho vivenciado nos seis meses mais longos da minha vida.
*
Desses 180 dias o primeiro mês foi, sem dúvida, o mais difícil. Todo o estresse que envolve a prisão, a sensação de não saber, enquanto aguardava transferência da cidade da Polícia para Bangu o que me esperava. O contato com celas e algemas, o pensamento febril concentrado sobre todas as coisas que precisavam ser feitas, e agora teriam que ser adiadas... Dentro da cela temporária, ainda na Polícia Civil, na qual ficaram companheiros presos em julho do ano passado, guardei uma frase deixada por algum infeliz que por lá passara: “A cadeia é longa, mas não é perpétua”. Foi a primeira vez que li essa que é uma das máximas do universo na prisão. Há outras, como, por exemplo, “Não confie em ninguém”, “Quem fala menos, erra menos”, e por aí afora.

sábado, 14 de março de 2015

Domingo de protestos poderá deixar o governo mais fragilizado ainda

Sábado, 14 de março de 2015
Do Blog Náufrago da Utopia
Por Celso Lungaretti 



A página eletrônica vemprarua, criada a partir das jornadas de protesto de 2013 contra a majoração do transporte coletivo em Sampa, apresenta-se como um "projeto apartidário" que "surgiu da ideia em reunir em um site informações sobre as diversas manifestações [de protesto] agendadas no Brasil"..

Não sei dizer se é isto ou mais do que isto, pois vai além da função informativa, posicionando-se, em editorial, ao lado dos "movimentos que querem libertar o povo brasileiro deste modelo falido de governo". De qualquer forma, parece cumprir honestamente o papel de agenda, daí eu ter nele pinçado um quadro interessante do que poderá ocorrer neste domingo, 15.

Segundo a relação do vemprarua, as manifestações estão:
  • confirmadas em 35 cidades brasileiras, sendo a metade capitais (Aracaju, Belém, Belô, Brasília, Curitiba, Floripa, Fortaleza, Goiânia, João Pessoa, Natal, Porto Alegre, Recife, Salvador, São Luiz, São Paulo, Teresina e Vitória);
  • confirmadas em 9 cidades estrangeiras, quais sejam Bruxelas, Lisboa, Londres, Miami, Nova York, Orlando (claro!), Santa Cruz de la Sierra (claro!), São Francisco e Sidney;
  • previstas, mas não confirmadas, em 198 cidades brasileiras, incluindo Campinas (onde a partida de futebol marcada para as 16 horas foi mantida para não deixar a TV Globo sem sua atração dominical, e que se dane o povo se ocorrerem distúrbios!), Curitiba, Rio de Janeiro e, até, as três cidades do ABC paulista, berço do PT.

Os protestos do contra tendem a ser mais impactantes...
O governo que coloque as barbas de molho. Não será só um desabafo histérico dos coxinhas e dos sem-fome, como sua rede de blogueiros amestrados tenta fazer crer. Pode mesmo acontecer algo impactante, que seria a senha para os ratos abandonarem de vez o navio, colocando o Titanic em rota acelerada de colisão com o iceberg.

Eu insisto: passou da hora de os dirigentes petistas admitirem que grassa muito descontentamento entre os brasileiros e que alguma forma de compartilhamento do poder deve ser tentada, caso o partido não queira perdê-lo por inteiro.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

São Paulo: Protesto contra aumento de passagens tem depredação, bombas e 32 detidos em SP

Sexta, 9 de janeiro de 2015
Camila Boehm - Repórter da Agência Brasil*
A manifestação contra o aumento da tarifa do transporte público na capital paulista se dispersou por volta das 19h30, por causa da depredação de agências bancárias e da reação da Polícia Militar (PM), que atirou bombas de gás lacrimogênio entre os participantes. Houve correria dos manifestantes e a marcha se dividiu em várias passeatas menores.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Anistia Internacional lamenta veto a projeto que proíbe bala de borracha em SP

Sábado, 20 de dezembro de 2014
Isabela Vieira - Repórter da Agência Brasil
A organização não governamental Anistia Internacional divulgou hoje (20) nota em que lamenta a decisão do governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, de vetar o projeto de lei aprovado pela Assembleia Legislativa do estado (Alesp), no início do mês, que proibia o uso de bala de borracha pelos policiais civis e militares em protestos e manifestações.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

O gigante abre o olho. Tomara que acorde novamente; movimentos sociais reúnem cinco mil pessoas em SP contra gastos da Copa

Quinta, 22 de maio de 2014
Daniel Mello - Repórter da Agência
Uma manifestação organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) contra os gastos para a realização da Copa do Mundo começou há pouco, às 18h30. A passeata reúne cerca de cinco mil pessoas, segundo a Polícia Militar.  
A manifestação é animada por carros de som e também por cornetas tipicamente utilizadas por torcedores, durante os jogos de futebol do Mundial. Segundo o coordenador do MTST, Josué Rocha, o protesto critica a exclusão dos mais pobres do planejamento e na preparação do evento.
“A gente quer debater os gastos públicos da Copa. Ela foi feita principalmente para determinados setores da sociedade. O povo não foi ouvido. Para fazer uma Copa no Brasil, você deveria pensar antes nos direitos sociais”, disse.
Com o apoio de outras organizações, como o Movimento Passe Livre, o Comitê Popular da Copa e o movimento Se Não Tiver Direitos Não Vai Ter Copa, a manifestação teve início no Largo da Batata, na zona oeste, e deverá prosseguir até a Ponte Estaiada, na zona sul.
O protesto interdita totalmente um dos sentidos da Avenida Brigadeiro Faria Lima.
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Comentário do Gama Livre: Quando num tipo de manifestação assim a PM "estima" o número de pessoas em cinco mil, pode aumentar em muito. É a guerra

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Copa sem Povo, tô na Rua de Novo: Manifestantes fazem ato contra a Copa do Mundo no escritório da Odebrecht (São Paulo)

Quinta, 8 de maio de 2014

Fernanda Cruz – Repórter da Agência Brasil
      A manifestação organizada por movimentos sociais Copa sem Povo, tô na Rua de Novo seguiu em passeata pela zona oeste e chegou, por volta das 10h30, ao escritório da empresa Odebrecht, localizado na Marginal Pinheiros, próximo à Ponte Eusébio Matoso. Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em marcha desde a última terça-feira (6), se juntaram aos manifestantes ligados ao Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), Movimento Popular por Moradia (MPM), Movimento de Luta Popular (MLP).
Eles protestam contra os gastos públicos com a Copa do Mundo e consideram a empresa um símbolo desses gastos. "Não tem moradia e todo o dinheiro da Copa vai para Odebrecht. Está tendo a Copa e é despejo todos os dias, as nossas reivindicações estão ficando para trás. O dinheiro da construção de hospitais também está sendo desviado para isso", disse José Carlos Pereira dos Reis, coordenador do coletivo estadual do MTST.
     "Queremos educação, saúde, creches, moradia. Porque não é justo que as pessoas estejam na rua e o governo gastando com coisas que não precisa", disse Fabíola Rodrigues de Araújo, 25 anos, dona de casa. Ela é moradora da ocupação Novo Pinheirinho, de Embu das Artes. "Tem gente que doa roupas, alimentos, bastante coisa para gente dentro do acampamento. O terreno é da CDHU [Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano], estamos esperando a desapropriação há três anos. Moro lá com o meu marido e minha filha de 4 anos", contou.
    Ilmo Gomes de Souza, de 38 anos, motorista, também mora em Novo Pinheirinho, há um ano e oito meses. "É um absurdo o que gastaram com a Copa. Poderia [o governo] estar fazendo moradia, em vez de gastar com uma Copa de poucos dias".
      Hecílio Ferreira da Costa, de 42 anos, trabalha como segurança e concorda que a Copa não é boa para o país. "Primeiro devia estruturar o Brasil na educação, na saúde, na moradia, para depois fazer esse negócio de Copa. Não temos escola digna para os nossos filhos, médico... O Brasil está numa situação crítica", disse

terça-feira, 15 de abril de 2014

Protesto contra a Copa reúne mil pessoas e termina com depredação em São Paulo

Terça, 15 de abril de 2014
Imagem: facebook.com/midiaNINJA
 
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Daniel Mello - Repórter da Agência Brasil
Edição: Fábio Massalli

 Cerca de mil pessoas, segundo estimativa da Polícia Militar (PM), participaram na noite de hoje (15) do quinto ato Se Não Tiver Direitos, Não Vai Ter Copa. Os manifestantes se concentraram no vão livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp) e saíram em passeata pela Avenida Paulista, região central da capital.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Freixo rebate acusações de que abriga em gabinete advogado de ‘black blocs’

Quarta, 12 de fevereiro de 2014

O deputado do PSOL, Marcelo Freixo, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, no Rio (Foto: Alerj)

POR RODRIGO RODRIGUES

Em resposta a uma reportagem publicada pelo jornal “O Globo” nesta terça-feira (11), o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) divulgou nesta manhã uma nota em que diz não ser responsável pelas atividades exercidas pelos empregados do gabinete fora do horário de trabalho.

Segundo a reportagem, o advogado Thiago de Souza Melo além de assessorar o deputado estadual do PSOL, comanda também uma ONG que presta assessoria jurídica gratuita a pessoas que são presas durante as manifestações por vandalismo e outros crimes no Rio.
“O Globo” afirma que Melo é um dos diretores do Instituto de Defensores de Direitos Humanos (DDH), que em outubro passado já defendeu o tatuador Fábio Raposo, preso sob acusação de participação no crime contra o cinegrafista da TV Bandeirantes, Santiago de Andrade.
Fábio Raposo, conhecido entre os militantes de esquerda como Fox, teria utilizado os serviços do DDH após uma série de manifestações em que fora autuado pela polícia por depredação de patrimônio público. Leia a íntegra clicando aqui

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Deputados: segurança da Alerj agiu com truculência contra manifestantes que protestavam contra Sérgio Cabral

Quinta, 8 de agosto de 2013 
Após deixar Alerj, grupo seguiu para a Câmara de Vereadores
Jornal do Brasil 
Manifestantes foram vítimas de excesso de força de seguranças da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) durante uma manifestação no plenário da Casa, no final da tarde desta quinta-feira, afirmaram os deputados estaduais Marcelo Freixo (Psol) e Wagner Montes (PSD). 

Segundo Montes, a sessão plenária já havia sido encerrada quando os seguranças agiram contra os manifestantes. "Eram cerca de 30 pessoas, saí abraçado com elas para que não houvesse violência, mas eles agiram com gás de pimenta, que felizmente não me atingiu, mas quebraram os meus óculos", afirmou o parlamentar, mostrando a armação sem lentes.

Manifestantes invadiram a Alerj e foram retirados com  truculência pelos seguranças
Manifestantes invadiram a Alerj e foram retirados com  truculência pelos seguranças
Com os olhos irritados por conta do gás de pimenta, Freixo afirmou que, ao final da sessão, por volta das 17h30, os manifestantes passaram a protestar no plenário da Casa. Segundo o deputado do Psol, a retirada do grupo do local foi uma ordem do presidente da Alerj, Paulo Melo (PMDB). Leia a íntegra

Leia também: Manifestantes ocupam Câmara Municipal do Rio para acompanhar reunião da CPI dos Ônibus

terça-feira, 18 de junho de 2013

Sobre vândalos, antropófagos, canibais, tucanos, petistas e pessoas

Terça, 18 de junho de 2013
Por Osvaldo Coggiola*
Texto publicado originariamente no Correio da Cidadania 
Depois da quarta jornada de protestos, em que uma manifestação de 20 mil pessoas em São Paulo foi atacada de modo selvagem pela PM (com um saldo de 150 detidos e 55 feridos), fomos informados que “o comando do PT está insatisfeito com a atuação do prefeito Fernando Haddad em relação aos protestos contra a tarifa. E, temendo a nacionalização do problema, decidiu intervir para evitar que contamine a imagem do partido em todo o país”. Tarde demais, Lula. A presidente Dilma Rousseff foi vaiada (três vezes) na abertura da Copa das Confederações. A “contaminação” chegou a Brasília. Mais significativo talvez, Joseph Blatter (presidente da FIFA e mafioso internacional, segundo Diego Maradona, que alguma coisa aprendeu a respeito em Nápoles) pediu respeito e foi vaiado mais ainda. O problema já está “nacionalizado” (Rio de Janeiro, Goiânia, Natal e Porto Alegre tiveram manifestações, além de São Paulo) e até “internacionalizado” (Blatter que o diga), com piquetes solidários com os manifestantes brasileiros em várias capitais do mundo (França, Alemanha, Portugal e Canadá). Os torcedores do Estádio Mané Garrincha foram só os (circunstancialmente) últimos da lista. Até a juventude do PT já declarou seu apoio aos protestos. E a viúva do Mané (Elza Soares) cantou um novo samba: "R$0,20 eu não pago não". O Brasil se põe em pé de luta, os jornais do mundo inteiro se fazem eco.

A PM “despreparada” (na verdade, preparada demais para sua função precípua) desceu o sarrafo até em um jornalista que carregava vinagre, declarado material para preparação de explosivos por um comandante da corporação, numa linha de pensamento inaugurada há dez anos, quando comandantes militares do superpreparado exército dos EUA no Iraque exibiram tambores de inseticida como “armas de destruição em massa”, aderindo, talvez de modo involuntário, à campanha ecológica mundial contra o uso de agrotóxicos. Ninguém foi poupado, em São Paulo. Pessoas desmaiando, gritaria, centenas de homens e mulheres presos e feridos gravemente, inclusive idosos e crianças. “Segurança”.  E já nos informaram também que o principal saldo da Copa das Confederações, da Copa 2014 e da Olimpíada 2016, além das vitórias brasileiras, claro, será a institucionalização dos “novos esquemas de segurança”...

Geração sem medo está nascendo para o mundo

Terça, 18 de junho de 2013
Fabio Nassif*
Desta vez deveriam ter de 15 a 20 mil pessoas na rua. Um ato que caminhava de maneira organizada até a polícia interromper e iniciar a guerra. Toda tentativa de intimidação foi simplesmente ignorada pela manifestação. Quando se tem certeza de uma luta, não se recua diante de palavras que estamos acostumados a ouvir.

Chamou a atenção a quantidade enorme de policiais infiltrados. Eram eles que jogavam fogos a sinalizadores enquanto a absoluta maioria do ato gritava “sem violência!”. Este método estatal é antigo, muito antigo, mas o Brasil permanecia fingindo que deixou de existir. Assim como o desejo de realização de uma manifestação vitoriosa acabou novamente sendo verbalizada espontaneamente pelos manifestantes, estimulados por uma preocupação coletiva em torno da nossa pauta.

Obviamente, a repressão estava decretada. Não só pela ânsia de soldados mal pagos, treinados para reprimir a qualquer custo, mas respaldado pelos governos municipal, estadual e federal.

Haddad declara que não vai abaixar a tarifa e que considera as manifestações violentas. Alckmin vomita as mesmas palavras de sempre, pela punição, repressão e criminalização. E José Eduardo Cardozo, o “professor” de direito que, além de encabeçar o anúncio oficial do genocídio indígena com as mudanças no método de demarcação de terras, afirma que o governo federal está à disposição para ajudar na repressão.

REPRESSÃO

A repressão foi tremenda. Aliás, por curiosidade, quanto se gasta para reprimir uma manifestação? Helicópteros, 700 soldados, balas de borracha, bombas, cavalos, combustível… Gasta-se o quanto os governantes acharem necessário para proteger o Estado.  Gasta-se cotidianamente contra os pretos, pobres e periféricos. A manifestação se dispersou e se juntou mais de uma vez. Está certo, nem a polícia sabia para onde dispersar. Talvez a intenção nem fosse esta. Mas também os manifestantes não viam sentido em fazê-lo voluntariamente. Afinal, estamos certos. Agora, é hora novamente de lutarmos sem trégua pela libertação dos nossos.

Pois então. Do outro lado, até a mídia, atingida pelas balas de borracha, passa a questionar os motivos de tanta intransigência dos governos. Ora, a pauta voltou ao seu lugar! Já não é lunático pedir a revogação dos aumentos. E mais, já não é aceitável tamanha violência estatal.

Mas o emocionante nesta jornada toda, para além da gostosa e distante sensação de nos juntarmos a jovens e trabalhadores de todo o mundo que estão em luta, é saber que o Estado e a mídia burguesa estão formando uma geração de ativistas. Saber que as lutas contra o aumento ocorreram em diversas outras cidades como Porto Alegre, Natal, Maceió e Rio de Janeiro nos dá força. Saber ainda que uma manifestação foi realizada em Curitiba, simplesmente em solidariedade às demais, é arrepiante.

DEMOCRADURA

É muito possível revertermos o aumento. Porém, mesmo sob uma derrota triunfal, uma geração está sendo forjada pela experiência prática sobre o que é nossa democradura, a necessidade da organização coletiva e da disputa de uma sociedade inteira que, mesmo não entendendo essas cabeças juvenis, sabem que elas têm razão. Ah, e uma geração com um repúdio gigante à mídia da ordem.

No Chile, diante das massivas manifestações estudantis, diz-se que esta é uma geração sem medo, pois não viveu os tempos sombrios da ditadura oficial e tampouco está adaptada à ordem. E é a própria geração esmagada pela ditadura e depois pelo discurso neoliberal quem chega a esta conclusão, contribuindo assim para repassar o bastão da história. E isto se transforma em solidariedade, inclusive dos familiares e conhecidos dos manifestantes.

É cedo pra dizer isso do Brasil. Muito cedo. Ainda viveremos muita barbárie fruto da desigualdade social, adormecida enjoativamente pelo discurso da pátria de chuteiras e por uma sensação de estabilidade. Mas não é exagero afirmar que não somos a geração amorzinho, da conciliação de classes e da organização orquestrada pelo capital. E de repente, nos vácuos da calmaria e do senso comum, nasceremos para o mundo.

Fábio Nassif é jornalista
Texto publicado originariamente no Correio da Cidadania.