Segunda, 4 de maio de 2026
O futuro das cidades, segundo Milton Santos
Pensador brasileiro, que revolucionou a Geografia a partir do Sul global e propôs uma outra globalização, faria cem anos. Como suas ideias ajudam a compreender os desafios urbanos de hoje, os impactos da Era Digital nos territórios e as insurgências que brotam das periferias?
OUTRASPALAVRAS OUTRAS CIDADES
Por Rôney Rodrigues
Publicado 03/05/2026

Foto: Claudio Rossi / Abril Comunicações S.A.
Thiago Adriano Machado em entrevista a Rôney Rodrigues e Raíssa Araújo Pacheco
Nas cidades abaixo da linha do Equador, há uma “fome de outra coisa”. O geógrafo Milton Santos, que faria cem anos neste 3 de maio, não cansava de sugerir isso. Afinal, a humanidade hoje se reúne em poucos lugares — consequência direta de um processo de urbanização no Sul global que foi um turbilhão: revolução industrial, demográfica, urbana, democrático-institucional, comportamental, tudo junto e misturado. Desse choque nasceu um fenômeno inédito na história, uma “mistura extraordinária de povos, raças, cheiros, gostos”, como já disse o pensador brasileiro, numa escala nunca antes vista. E essa aglomeração, longe de ser mero aspecto demográfico, exerce papel extraordinário na cultura e na produção de ideias. “O que temos de forte na América Latina é a ideia de futuro”, afirmou. Não o futuro como promessa vazia, mas como matéria-prima do pensamento, acreditava ele.
Num país de feridas abertas da escravidão, eis um pensador negro e nordestino que, como poucos, revolucionou um campo de estudos atravessando fronteiras — entre países, disciplinas e, não raro, pagando o preço. “Como intelectual, eu tenho que me habituar a estar sozinho. Não tenho que me preocupar com quem me acompanha. Não é próprio de um intelectual se preocupar se tem apoio ou não. São a produção das ideias, a coragem de defendê-las até o fim”, afirmou Milton Santos, que faria cem anos neste 3 de maio, em entrevista ao Roda Viva de 1997.
Disse isso com o semblante gentil de sempre e o sorriso sutil de quem tem convicção — sustentado, sem jamais cair no cabotinismo, até ao enquadrar interlocutores, como em uma entrevista a “uspianos” também em 1997, preocupados com os rumos dos partidos de esquerda na vanguarda: “Vocês vieram me ver sem ter lido nada do que eu escrevi. Não estou reclamando leitores, não. Estou reclamando da dificuldade dos partidos de esquerda de fazer esse trabalho”. Segundo ele, a política nasce de ideias pioneiras — que ganham terreno devagar, até se tornarem guias. E identificava uma presença constante da “vontade de ser colonizado” na Academia: “Nós, intelectuais latino-americanos, falamos com os europeus. Às vezes, descobrimos as coisas, mas nosso discurso é um discurso referido àqueles que nos dão prestígio. Isso reduz a força das nossas ideias. Nós envelopamos as ideias num envelope estranho.”
Nascido em Brotas de Macaúbas, na Bahia, em uma família de professores primários, recebeu cedo o impulso para a educação. Embora formado em Direito em 1948, foi na sala de aula — primeiro no Ginásio Municipal de Ilhéus, depois na Faculdade Católica de Filosofia em Salvador — que encontrou seu caminho: o contato com a tradição francesa o conduziu à Geografia, campo ao qual passaria a se dedicar integralmente. Em 1958, consolidou essa virada com o doutorado pela Universidade de Estrasburgo — que o levaria, em 1994, a receber o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, considerado o Nobel da área.
Milton Santos cultivava uma rigorosa autonomia de pensamento, o que o levava a dizer que partidos de esquerda “detestam intelectuais”. Quando atuou como editor do jornal baiano A Tarde, foi, segundo ele, o mais próximo de uma atuação partidária, dado o alinhamento do jornal com Bocaiuva Cunha e Samuel Wainer, próximos a Getúlio Vargas e ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Nesta sua “fase jornalística”, cobriu em 1960 a visita de Jânio Quadros a Cuba, que, quando chegou à Presidência, o convidou para a subchefia da Casa Civil na Bahia. Essa proximidade — somada à viagem a Cuba e, sobretudo, à defesa da taxação das grandes fortunas — tornaria Milton Santos alvo após o Golpe de 1964. Veio a prisão e, em seguida, o exílio.
Sua carreira internacional, portanto, nasce à força. O primeiro destino foi a França; depois, viriam universidades de prestígio nos Estados Unidos, França, Espanha, Canadá, Peru, Venezuela e Tanzânia — onde, lembrava, um professor universitário ganhava mais que o presidente da República. Milton Santos também atuou como consultor de organismos como a Organização das Nações Unidas (ONU), a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a Unesco. O retorno ao Brasil só viria em 1977. Após um período de resistência institucional, lecionou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, em seguida, na Universidade de São Paulo (USP), onde se tornaria professor titular.
A trajetória de Milton Santos é vastíssima, e suas contribuições ao pensamento social brasileiro — e ao do Sul global, então chamado de Terceiro Mundo ou países subdesenvolvidos — são igualmente ricas, analisadas em teses acadêmicas e biografias, com lacunas sendo até hoje preenchidas. Portanto, destacamos somente três aspectos de sua obra.
Primeiro, foi a de formular uma teoria robusta fora dos cânones eurocêntricos. No século XIX, o espaço geográfico era concebido como superfície, mero palco — noção que serviu, indubitavelmente, ao projeto colonial. Milton Santos rompe com esta ideia. Sua originalidade está também no trânsito entre tradições: lê o Norte e o Sul globais, mas não os toma como equivalentes — faz do contraste um método.
No centro de sua teoria está uma virada: o espaço deixa de ser cenário e passa a operar como condicionante da vida social. À Geografia, caberia então apreender as relações que se produzem no território, sem reduzir o espaço à sua aparência. É nesse sentido que ele o define como “um conjunto indissociável de sistemas de objetos e de sistemas de ações” — uma totalidade dinâmica, atravessada por técnica, poder e vida cotidiana.
Apregoava que sistemas de objetos e de ações são indissociáveis, então o espaço não está fora de nós: pessoas são espaço, o pensamento é espaço, a comida é espaço, por exemplo. Ao radicalizar essa categoria, ele nos oferece um legado: se o Norte global tende a tratar o espaço como recurso, Milton Santos o vê como vida. O espaço deixa de ser cenário e passa a ser estrutura ativa. É dessa inflexão que nasce sua leitura das desigualdades: elas não estão apenas na sociedade, mas inscritas na própria organização do espaço — nas metrópoles e nas pequenas cidades, no campo, nas florestas, nas águas. Ao operar essa virada, Milton Santos retira a Geografia do papel de simples descrição de paisagem, colocando-a ao lado da política, da economia e da cultura.
Segundo ponto: sua capacidade de antecipar as tendências globais que desembocaram na atual Era Digital, ao formular o conceito de “meio técnico-científico informacional”, com o qual define a fase do capitalismo consolidada a partir dos anos 1970. Trata-se da generalização das redes técnicas — transportes, comunicações, infraestrutura — que reconfiguram o território e integram cidades e regiões à lógica da modernidade global. Vê, nesse estágio, o espaço se tornar mais artificial e intensamente moldado pela técnica, pela ciência e pela informação, sob comando de agentes hegemônicos, sobretudo o mercado e as grandes corporações. E, junto a isso, denuncia a perversidade da globalização, reafirmando a potência das periferias. Contra a lógica da acumulação sem fim, propõe “uma outra globalização”, orientada pela vida e não pelo lucro.
O terceiro e último ponto a destacar é uma teorização incompleta de Milton Santos sobre outros mundos possíveis. Para ele, a globalização não esgota o mundo — ela o tensiona. Daí sua aposta: “Um mundo plano de humanismo que vai se instalar”, pois até “o trabalhador mais ignorante sabe que seu trabalho é valorizado no mundo, não apenas no lugar”. A informação, ao mesmo tempo que ordena, revela a falta: conhecimento é também carência. Saber o que falta é já interpretar o próprio lugar no mundo, diz. É nessa fresta que surge a contradição. A informação circula de cima; a comunicação verdadeira nasce embaixo. O povo sequestra o que recebe e devolve outra coisa — reinterpreta, recria. Nas metrópoles, essa dinâmica torna-se mais intensa, avaliava o geógrafo. Territórios de escassez tornam-se também territórios de encontro: uma solidariedade de preocupações entre os que partilham o mesmo espaço. É nesse chão de cidade que se desenha o futuro — não como promessa abstrata, mas como prática cotidiana. Para Milton Santos, são os de baixo que, vendo mais de perto as contradições, enxergam melhor o que ainda pode vir a ser.
Outras Cidades convidou o geógrafo Thiago Adriano Machado para refletir sobre a atualidade do pensamento de Milton Santos na leitura das cidades brasileiras — e do Sul global. Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, dedica-se a investigar as contribuições do autor para a compreensão da formação e da realidade nacional. Em pauta, questões candentes: o suposto movimento de desglobalização, a digitalização do território e as economias de plataforma, o papel das cidades do Sul global e as possibilidades de integração Sul-Sul, as alternativas ao planejamento tecnocrático e o “período demográfico ou popular” da história, esboçado por Milton Santos como horizonte utópico. (Rôney Rodrigues)
As hipocrisias da chamada globalização, claro, sempre existiram. Mas hoje, especialmente com a emergência econômica e tecnológica de países fora do Norte global e a ascensão da extrema-direita no mundo, até neoliberais sugerem que o “fim das fronteiras” fracassou. Diante dessas tensões, como podemos pensar as “cidades globais” a partir do Sul global?
Na década de 90, no auge da globalização, já se falava em algum nível de desglobalização. Nos anos 2000, também, com a ascensão da ideia de democracias iliberais — ou seja, o reconhecimento de que haveria no Ocidente democracias que, ainda que mantivessem o estágio eleitoral, não tinham uma densidade democrática das instituições. E o que a gente tem assistido com a ascensão da extrema-direita é ainda mais a degradação desse ambiente democrático, que vai mobilizar invariavelmente um discurso nacionalista. Muitas vezes, esse discurso descamba para um nacionalismo étnico, como vemos no discurso anti-imigrante e, sobretudo agora, no principal exemplo disso, que é mais uma rodada do conflito de Israel com a Palestina. Mas é preciso atenuar a ideia de uma desglobalização. Afinal, não estamos acabando com o comércio exterior. Pelo contrário, os dados indicam que ele só cresce, inclusive no Brasil. Talvez haja um elemento novo: uma crise, sim, daquela ideia de que os Estados nacionais precisam abrir mão de qualquer estratégia de desenvolvimento econômico, de um projeto nacional, em prol de uma abertura plena e incontestável em termos comerciais.
Pensando em termos mais geográficos, esse processo de regionalização — que assistimos com a pandemia e vem desde a crise de 2008 — é uma certa desestruturação de algumas cadeias de suprimento e a tentativa de estabelecer uma coesão regional maior do comércio exterior. Ou seja, a tentativa de se reagrupar em blocos regionais. Isso ganha ainda mais importância no momento em que esse segundo governo Trump tem demonstrado que a estabilidade das instituições internacionais sob a gestão dos Estados Unidos, desde depois da Segunda Guerra Mundial, acabou. E a Europa nota que não pode confiar nos Estados Unidos porque fica sofrendo pressões e chantagens.
As guerras, que abalam a circulação de produtos, mostram como as economias seguem interconectadas. Ao mesmo tempo, os próprios EUA estão tentando relocalizar a indústria, construir novos acordos, inclusive na produção de tecnologia, com países alinhados a eles. Nesse contexto, até que ponto o conceito de desglobalização ajuda, de fato, a entender o momento atual?
O deslocamento da produção do iPhone para a China e outros países da região, por meio da Foxconn [corporação multinacional taiwanesa fabricante de computadores e componentes eletrônicos] é muito simbólico do que o David Harvey chama “ajuste espacial” — spatial fix, que tem um duplo sentido em inglês: de consertar o que está quebrado e de ser algo fixo. Mas esse ajuste não é apenas um deslocamento espacial — ele também é um fixo espacial. E aí vem a ambiguidade do conceito: o capital produz espaço. Quando o capitalismo constrói uma fábrica, uma usina hidrelétrica, um data center, ele está produzindo uma materialidade espacial nova. Esses objetos espaciais são capital fixo, perdem liquidez. E, portanto, o deslocamento espacial acaba criando fixos que geram um custo adicional para a ideia de ter que se mudar de novo de local.
Por isso, a ideia de desglobalização levanta tanto debate. Nos últimos 40 anos, o capitalismo global investiu maciçamente na construção de objetos espaciais em Taiwan, Coreia do Sul, Japão e China para produzir semicondutores. Vejam: desglobalização não é coisa do Trump. O governo Biden fez um grande projeto do que chamam de reshoring — é como um ajuste espacial às avessas. Era dizer: vamos fazer o contrário do que fizemos nos anos 1980, trazer de volta essa infraestrutura crucial.
Talvez um termo melhor do que desglobalização seja reajuste espacial, nos termos do Harvey. Mas não é fácil porque você primeiro vai ter que desmobilizar os fixos espaciais construídos ao longo de 40 ou 50 anos, e depois fazer um grande volume de investimentos para construir uma nova infraestrutura espacial nos Estados Unidos.
A ideia de desglobalização causa esse rebuliço porque, no fim das contas, é isso. O núcleo dinâmico do capitalismo global — Europa e Estados Unidos —, durante as últimas quatro décadas, promoveu a globalização não só como livre comércio. O livre comércio continua e vai continuar. A grande questão da desglobalização é que, além do livre comércio, a globalização representou o deslocamento espacial do investimento: a exportação de capital para o Terceiro Mundo, como se chamava à época, construindo infraestrutura nesses países para usufruir do que eles ofereciam — mão de obra barata, flexibilidade da legislação ambiental ou fontes de recursos. E agora você está tendo que, em setores estratégicos como semicondutores, fazer um reajuste espacial. Isso demanda muito dinheiro e um reajuste propriamente estratégico das cadeias de suprimento.
E como pensar as cidades globais nesse novo contexto?
A globalização teve como um vetor mais importante o processo de financeirização. Quando a gente pensa em uma cidade global como São Paulo, no Sul global, essa financeirização nos coloca numa condição da Divisão Internacional do Trabalho muito subordinada — ou seja, um modo de administração do capitalismo dependente. Não vamos competir com a City de Londres, nem com as Bolsas de Nova Iorque, tampouco agora com a Ásia, para onde se deslocou boa parte dessa dinâmica financeira. Porém, agora, com um certo reordenamento territorial desse capitalismo — entre muitas aspas, desglobalizado —, talvez cidades globais como São Paulo possam exercer um outro papel na tentativa de se estruturar, a partir do Brasil, uma liderança regional.
Acredito que cidades globais do Sul global vão encontrar algum espaço efetivo numa perspectiva de integração sul-sul. E talvez esse contexto de crise da globalização — o que se tem chamado de desglobalização — seja, em alguma medida, favorável para elas como centros de gestão do território. A grande questão é pensar que projeto será posto em marcha a partir disso. Se for meramente administrar o capitalismo dependente, como se tem feito nas últimas décadas, a produção do espaço urbano vai continuar como observamos: cidades fragmentadas, desiguais, máquinas imensas de produção de desigualdade. E Milton já vinha falando disso desde a década de 60. Diante desse processo de digitalização do território, isso se evidencia ainda mais.
Como Milton Santos pode nos ajudar a entender as cidades na Era Digital?
Milton dá uma contribuição teórica profunda quando diz que o espaço não é um palco onde as coisas acontecem. O espaço é esse conjunto de objetos espaciais e de ações — portanto, é constitutivo, uma instância da realidade. Mas há outro conceito do Milton Santos muito interessante para discutirmos a sociedade contemporânea: o conceito de rugosidades. Os objetos espaciais produzidos em outras épocas, com outras densidades técnicas, permanecem na paisagem e compõem o espaço. Nossos centros históricos, por exemplo, estão cheios de formas espaciais que derivam de outros períodos históricos — até mesmo de outras fases de outros modos de produção.
Milton vai dizer, portanto, que o espaço geográfico é essa acumulação desigual de tempos: múltiplas temporalidades convivendo nele. E essas formas espaciais acabam sendo refuncionalizadas para a dinâmica contemporânea. A gente vê isso em vários centros históricos. Por exemplo, Recife tem um projeto forte do Porto Digital no Recife Antigo. Você tem formas espaciais antigas — prédios do final do século XIX, começo do século XX — sendo refuncionalizadas para abrigar, agora, incubadoras tecnológicas. Essas formas que remetem a outra temporalidade vão sendo ajustadas à dinâmica contemporânea do capitalismo informacional. O que é bem interessante é que Milton vai pensar o meio técnico-científico-informacional como a base material da globalização.
É impressionante: ele não viu os smartphones nem a inteligência artificial, mas nos deu categorias para refletir sobre o tempo contemporâneo. A categoria de meio técnico-científico-informacional é muito interessante para isso. E ela tem que ser pensada com a ideia de rugosidade. O espaço contemporâneo, principalmente o Brasil, com sua formação territorial tão assentada num capitalismo de via colonial, está o tempo todo acionando rugosidades espaciais — o velho, o antigo — nesse processo de modernização por meio de uma densidade técnica, científica e informacional.
O que acho interessante observar — e já há trabalhos apontando isso — é que estamos passando por uma nova fase. O Milton acompanhou o que aconteceu até o início dos anos 2000, mas a gente está vivendo, digamos assim, uma nova etapa do meio técnico-científico-informacional: um processo de digitalização do território. E esse processo precisa ser profundamente refletido a partir de suas bases materiais. Ou seja, superar essa ideia de que vivemos num mundo em nuvem. Existem infraestruturas espaciais, materiais, das quais necessitamos para o mundo digital operar. E essas bases materiais do mundo digital se expressam, mais uma vez — porque se reproduzem dentro de uma lógica capitalista —, de modo desigual. Desigual e combinado, eu diria.
O Nordeste brasileiro agora está cheio de projetos de data centers — uma região com restrição hídrica. Mas os governos locais, mais uma característica da globalização, puxam estratégias locais e regionais de desenvolvimento e acionam muitas palavras da moda. Uma delas é a ideia de smart cities. Trabalho em Caicó, uma cidade de 60 mil habitantes do semiárido do Rio Grande do Norte. E discute-se, de vez em quando, a ideia de Caicó como cidade inteligente. Ora, o que é uma cidade inteligente no semiárido? É uma cidade com eventos de inovação do SEBRAE com as empresas locais? Talvez uma cidade inteligente fosse uma cidade mais bem arborizada, por exemplo. O processo de digitalização do território aciona infraestruturas materiais do espaço geográfico, produz novas infraestruturas, produz espaço dentro de uma lógica desigual da reprodução social no capitalismo contemporâneo — que é um capitalismo informacional, mas não opera em nuvem. A nuvem é talvez a grande ideologia da nossa época.
A cidade não se explica por si mesma. Ela está inserida numa lógica maior — nacional e global. A partir do pensamento de Milton Santos, podemos vislumbrar caminhos para a construção de outras lógicas de Local, Nacional e Global?
De toda a obra geográfica do Milton, se a gente coloca em panorama, talvez o principal conceito seja o de espaços derivados, que ajuda a compreender como é que se produz espaço no que à época era chamado de Terceiro Mundo. Ou seja, não dá para a gente olhar o processo de urbanização da Europa ou pegar Henri Lefebvre e tentar compreender automaticamente como é que se dá a urbanização brasileira.
Trata-se, portanto, de afirmar que a produção do espaço nos países periféricos segue lógicas próprias, que exigem categorias analíticas enraizadas em suas condições concretas. É nesse sentido que Milton mobiliza a ideia de espaço derivado: para mostrar que, numa formação socioespacial de matriz colonial, há uma dinâmica particular de produção do espaço. Ao interpretar a urbanização do Sul global por exemplo, ele formula a distinção entre circuitos superior e inferior da economia urbana — ambos resultantes de processos de modernização. Ou seja, são processos que funcionam como vetores de produção dos espaços derivados: espaços que, em última instância, derivam de uma dinâmica global.
Para Milton Santos, a metrópole carrega uma grande potência. Apesar dela ser aberta às verticalidades e aos processos de modernização, esses processos não alcançam todos os lugares. A metrópole é também feita de rugosidades. E, a partir dessas rugosidades, se tornam possíveis processos de contra-racionalidade, de resistência. É aí que se dá a flexibilidade tropical: a capacidade, presente nas cidades dos chamados países subdesenvolvidos, de a modernização não se impor de maneira total e simultânea. Ou seja, o meio técnico-científico-informacional não se instala de forma uniforme no espaço. Persistem descontinuidades, tempos sobrepostos, rugosidades espaciais — e é nelas que se abrem brechas para outras formas de uso e produção da cidade.
Como interpretar isso a partir do processo de digitalização do território, que falamos antes? Um caminho é observar como as economias de plataforma operam hoje na produção das cidades. Se pegarmos plataformas como Uber e 99, por exemplo, vemos que, por um lado, elas integram o circuito superior da economia — intensivo em capital e tecnologia. Por outro lado, mobilizam como força de trabalho indivíduos que, sob a lógica maluca do “empreendedor de si mesmo”, acabam operando no circuito inferior da economia urbana. Há, portanto, estruturas globais altamente tecnificadas que se apoiam em formas de trabalho precarizadas e territorialmente situadas. Ou seja, é o Global incidindo diretamente sobre o Local — sobre as cidades.
Se a gente pensar dentro da lógica das economias de plataforma, esses agentes sociais — essa classe trabalhadora — estão produzindo suas próprias estratégias para tentar hackear a tecnologia do algoritmo. E esse jeito de hackear o algoritmo é muitas vezes profundamente geográfico, tal como o próprio algoritmo é geográfico. São tecnologias geoespaciais, inclusive produzindo mapas de calor: zonas quentes, zonas frias, e formas de punir os trabalhadores, excluindo-os dessas zonas quentes onde tem mais chamadas, nos horários mais adequados. Então, essa economia de plataforma pensada a partir da produção do espaço urbano no Sul global dialoga profundamente com toda a tradição de reflexão que o Milton Santos produziu desde a década de 60.
Diante da ideia de uma cidadania atrelada ao consumo — incompleta e desigual, como analisado em O Espaço do Cidadão —, como o pensamento de Milton Santos pode inspirar políticas territoriais voltadas para a justiça social nas cidades brasileiras?
Ele foi alguém que trabalhou intensamente com planejamento. No início de sua carreira, na Bahia, chegou a presidir a Comissão de Planejamento do Estado, foi subsecretário no governo Jânio Quadros e integrou uma elite tecnocrática engajada na modernização do território baiano. Mas depois desenvolve uma trajetória crítica em relação à ideia de planejamento. Há um texto muito interessante, A totalidade do diabo, em que ele pensa as formas espaciais como um tipo de Cavalo de Troia. É a ideia de que a verticalidade produz espaço, formas e objetos espaciais. Nos anos 1960 e 1970, ele observa a proliferação de políticas de planejamento vinculadas a instituições internacionais — como a Fundação Ford e projetos ligados ao sistema de Bretton Woods — que prometiam modernização e desenvolvimento regional a partir da industrialização.
O que ele percebe é que, muitas vezes, esses processos não só falham em cumprir o que prometem, como acabam reforçando desigualdades espaciais. Ainda assim, ele não abandona o planejamento. Nem o trata como panaceia: não seria por meio de uma visão tecnocrática, na qual o especialista apresenta soluções prontas, que se resolveriam os problemas da desigualdade espacial.
Acho que há um diagnóstico importante em O Espaço do Cidadão: a reinterpretação da formação do Brasil a partir de sucessivos pactos territoriais. Não dá para pensar nos pactos sociais e políticos no país sem considerar o território, porque eles são atravessados, por exemplo, pela questão agrária. Quem domina a política no Brasil? Aqui arrisco um diálogo com outro geógrafo, Rui Moreira, que foi inclusive meu orientador de doutorado. Ele propõe que há uma relação entre terra, território e Estado: quem controla a terra controla o território, e quem controla o território controla o Estado — não o contrário, como muitas vezes se supõe. Ou seja, no Brasil, historicamente, a lógica se inverte. E é nesse sentido que Milton Santos aponta que os pactos políticos são, na verdade, pactos territoriais — mais do que isso, pactos territoriais funcionais, porque atendem a determinados interesses de classe.
Há, nos escritos de Milton Santos, um horizonte utópico e até normativo. Ele propõe a ideia de um novo pacto territorial brasileiro, que lide com aquilo que chama de uso coerente do território. Podemos pensar o que seria esse “uso coerente” a partir de alguns dos principais problemas territoriais do país. Um deles é a questão agrária, que permanece central: a terra continua sendo um problema no Brasil, e o território segue sendo produzido, muitas vezes, com base na grilagem — inclusive de terras urbanas. Tenho visto, por exemplo, em São Paulo, o debate sobre os efeitos do último Plano Diretor, nosso principal instrumento de planejamento urbano, e como ele foi totalmente vampirizado pelas construtoras, utilizando hoje habitação social para Airbnb.
Para além do diagnóstico, talvez a principal proposição seja “fazer falar o território”, que era um dos objetivos de Milton Santos: dar ouvidos aos seus agentes. Isso implica pensar políticas e formas de planejamento que não sejam tecnocráticas, mas efetivamente participativas. Em termos miltonianos, trata-se de produzir um planejamento territorial participativo, atento às rugosidades e àquilo que ele chamava de “homens lentos” — ou, se quisermos reformular a ideia, as “gentes lentas”.
Quem são os homens, ou gentes, lentos? São exatamente os sujeitos sociais que não vão estar automaticamente subordinados a essa rapidez, a essa fluidez do meio técnico-científico-informacional e que, portanto, vão construir, a partir das rugosidades, as possibilidades de contra-racionalidade. Em O Espaço do Cidadão, ele vai falar de desiguais institucionais, das mulheres, dos migrantes, inclusive cita os nordestinos, as pessoas negras, tanto que no próprio debate dele, posterior ao livro, sua ideia de cidadania vai passar muito pelo conceito de corporeidade. Quando Milton discute, por exemplo, o que é ser negro no Brasil, ele insiste: não é possível compreender a corporeidade negra sem considerar a formação socioespacial do país — e, ao mesmo tempo, não se entende essa formação abrindo mão da corporeidade. Por isso, o conceito de formação socioespacial é central também para pensar o futuro da sociedade e do território brasileiros.
O planejamento, portanto, precisa ser genuinamente brasileiro, no sentido de partir das nossas próprias potências. Isso não exclui o diálogo com outras experiências, claro, mas a gente não vai construir soluções com a importação de modelos europeus, norte-americanos ou mesmo chineses.
Um conceito que ele esboçou foi o de período demográfico ou popular da História, que parece muito instigante ao apontar como as contradições do meio técnico-científico-informacional podem gerar resistências criativas e potentes… Era ele um grande otimista?
É mais um fio solto que ele deixa, entre tantos. Isso acaba sendo, inclusive, uma fonte de críticas que ele recebe — como se houvesse, em sua leitura, um traço teleológico, à maneira de certo marxismo mais clássico. Ou seja, assim como se pressupunha que a formação econômica da sociedade caminharia ao comunismo, alguns veem na perspectiva de Milton Santos um certo grau de de finalidade pressuposta na própria história.
Mas, para ele, o futuro é um projeto político. O chamado período demográfico ou popular da história deve ser entendido, portanto, como um exercício intelectual de construção de um horizonte utópico — muito mais ligado à ideia de projeto do que à previsão do que vai acontecer. Trata-se de um projeto que dialoga com uma veia existencialista e uma veia marxista: uma aposta na emancipação humana a partir da capacidade de as massas trabalhadoras exploradas tomarem as rédeas da técnica e, assim, construírem um novo período histórico.
O período demográfico da história, para ele, é a terceira lei da dialética, o salto do quantitativo para o qualitativo. O capitalismo produz uma massa de explorados tão grande que esse quantitativo, num momento, se converte em mudança qualitativa. Essa mudança vai permitir que os chamados homens lentos se apropriem da tecnologia e do meio técnico-científico-informacional para construir o que ele chama de uma outra globalização.
Qual é o lugar de Milton Santos no pensamento social brasileiro?
Interpretar o Brasil era um projeto intelectual de Milton Santos. Ele sempre pontuou isso em entrevistas e em seu último livro [O Brasil: território e sociedade no início do século XXI, escrito com María Laura Silveira]. Os geógrafos comumente são pouco reconhecidos como intérpretes do Brasil, basta olharmos as coletâneas de pensamento social brasileiro: Milton aparecerá numa delas, pela primeira vez em 2015, em “Intérpretes do Brasil: Clássicos, Rebeldes e Renegados” [livro organizado por Luiz Bernardo Pericás e Lincoln Secco] — curiosamente situado como um intérprete clássico.
Em 1997, ou seja, quatro anos antes do livro ser publicado, ele passa alguns meses na Universidade de Stanford, numa cátedra de pensamento social brasileiro, onde dá uma entrevista dizendo que está tentando formular uma interpretação do Brasil tal como o Florestan Fernandes, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Hollanda e Gilberto Freyre fizeram. Ou seja, ele tem essa ambição de se situar dentro desse campo intelectual que é da interpretação do Brasil de agora.
O projeto dele é pensar o Brasil a partir do território, construindo, antes de tudo, um modelo explicativo da formação socioespacial brasileira, que ele apresenta num texto de 1977. Trata-se de uma interpretação diacrônica — isto é, temporal — dessa formação. Ele mobiliza o conceito de meio geográfico para interpretar o país desde o meio natural, passando pelos sucessivos meios técnicos, diferenciados pelos distintos graus de mecanização do território. Assim, analisa o período colonial como um tipo específico de meio técnico e avança até momentos como a independência e a instalação das ferrovias. No final do século XIX, por exemplo, a chegada das ferrovias marca o que ele chama de circulação mecanizada. Vejam que se trata de uma interpretação geográfica do Brasil: ele não periodiza por eventos políticos ou econômicos, mas pelo conteúdo técnico, científico e informacional do território. Até chegar à globalização, no meio técnico-científico-informacional. Em termos diacrônicos, a formação socioespacial brasileira é interpretada desde o meio natural, passando pelos sucessivos meios técnicos, até esse estágio mais recente. Mas essa formação não é lida apenas de modo diacrônico, e sim também sincrônico. Ou seja, ele observa como, em cada momento, se organiza uma divisão territorial do trabalho e se configuram diferentes usos do território. A partir disso, produz uma regionalização do Brasil — um procedimento tipicamente geográfico de interpretação, já que regionalizar é recortar o território. É nesse quadro que surge a ideia dos quatro Brasis.
Eu incluiria ainda, nessa lógica da cidadania, textos que não são livros, mas escritos avulsos, nos quais ele aborda a cidadania mutilada brasileira, incorporando a dimensão da negritude a partir da ideia de corporeidade.
Nesse quadro mais amplo, eu insiro Milton Santos no pensamento social brasileiro talvez como a interpretação mais radical do país, se considerarmos a dimensão territorial. Alguns críticos vão dizer que falta sujeito nessa leitura — e eu, não por defendê-lo, mas justamente por estudá-lo, discordo: há sujeitos territoriais nessa interpretação. São os desiguais institucionais de O Espaço do Cidadão, os homens lentos, os migrantes, as mulheres, os negros.
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