Quarta, 4 de fevereiro de 2026
Defensor do agro
Doações milionárias do agro e relatoria do PL do Veneno: quem é Luiz Nishimori, novo presidente da Comissão de Agricultura da Câmara
Deputado Luiz Nishimori (PSD-PR) ganhou protagonismo depois de relatar o PL do Veneno e conseguiu apoio de empresários
Brasil de Fato —Brasília (DF)
4.fev.202

Luiz Nishimori tem atuação como produtor agropecuário desde 1977
O deputado federal Luiz Nishimori (PSD-PR) foi eleito novo presidente da Comissão de Agricultura da Câmara nesta quarta-feira (4). Mesmo com uma atuação tímida no Congresso, o parlamentar é conhecido por ser um dos principais agentes do agronegócio no Legislativo. Doações milionárias de empresários do agro e a relatoria do PL do Veneno marcaram a sua reeleição em 2022 e, agora, Nishimori pretende ganhar ainda mais protagonismo nessa pauta.
O deputado se descreve nas redes sociais como um defensor do agronegócio. Ele foi eleito pela primeira vez ao Congresso em 2010, mas foi no governo de Jair Bolsonaro (PL) que Nishimori conseguiu chamar atenção. O congressista se destacou na relatoria do Projeto de Lei (PL) 6.299/2002, apelidado de “PL do Veneno” por parlamentares de oposição, ambientalistas e segmentos populares.
A medida flexibiliza as normas que tratam da adoção de agrotóxicos no país, facilitando a abertura do mercado para novos agrotóxicos, e concentra no Ministério da Agricultura as operações de fiscalização e análise desses produtos para uso agropecuário.
Em termos eleitorais, ter sido protagonista do PL do Veneno não rendeu muitos frutos ao congressista. Ele recebeu 73.344 votos em 2018 e, quatro anos depois, viu o número baixar para 73.202. No entanto, em termos financeiros a medida teve efeitos. A sua candidatura em 2018 recebeu R$ 380 mil de empresários e executivos do agronegócio. Quatro anos depois, o valor mais do que triplicou e ficou acima de R$ 1 milhão somente de empresários ligados ao agro.
Os dados foram extraídos da DivulgaCand Contas, plataforma do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e cruzados com reportagens e perfis dos doadores nas redes sociais. As doações individuais mais expressivas foram feitas por três nomes grandes do agronegócio paranaense. Primeiro aparece Marcelo Leomar Kappes, dono da KPS Agropecuária, empresa de produção de grãos, carne e fibras. Ele foi responsável por doar R$ 300 mil à campanha de Nishimori em 2022.
O segundo maior doador da campanha foi Koiti Orita. O empresário é sócio da Akto Agronegócio, empresa que cultiva feijão, soja e trigo e foi registrada sob um capital social de R$ 70 milhões. A doação do empresário foi de R$ 128 mil para a campanha do deputado.
Já Wilsemar Jose Dorneles Elger é sócio de uma empresa que leva seu nome e é responsável pela produção de milho, soja, feijão, carne, café e cereais e que foi registrada sob o capital social de R$ 500 mil. A doação do empresário foi de R$ 125 mil.
As doações que envolvem o deputado não são as únicas relações de NIshimori com o empresariado do agro. Segundo o site De Olho nos Ruralistas, ele fez um acordo de R$ 1,5 milhão para quitar uma dívida com a Syngenta, empresa líder do mercado mundial de agrotóxicos. O acordo ainda foi costurado durante a relatoria do PL do Veneno, que beneficiou a própria companhia suíça.
O parlamentar diz ser agricultor e afirma nas redes sociais ter fundado a Mariagro, em 1977, quando tinha apenas 21 anos. O objetivo da companhia não foi especificado no Quadro de Sócios e Administradores.
Depois, em 1993, o deputado fundou a Nishimori Distribuidora de Diesel, voltada ao comércio de combustíveis e derivados. E, em 2003, a Nishimori Agrícola Ltda, que produz sementes, mudas e outras formas de propagação vegetal.
Esta última é administrada pelos filhos do político e consta em relatório produzido pela Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), de 2014, que listou estabelecimentos inscritos para receber permissão para comercializar agrotóxicos.
Disputa com o governo
À frente da comissão, Nishimori deve manter a postura da Bancada Ruralista e da Frente Parlamentar Agropecuária de enfrentamento ao governo federal e de combate à luta pela reforma agrária. O deputado não esteve na comissão porque está em viagem à Coreia do Sul para negociar com produtores asiáticos.
A comissão é monopolizada por deputados da extrema direita ligados ao agronegócio. Todas as sessões são marcadas pela presença de lobistas e pecuaristas que mantém um diálogo constante com os parlamentares.
Ceres Hadich, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), afirma que a eleição de Nishimori mantem uma linha que já vinha sendo realizada pela comissão, especialmente no que se refere ao enfrentamento da reforma agrária e das pautas populares sobre o uso da terra.
“Ele tem um histórico de vínculo e negócios especialmente na região do Noroeste do Paraná. É um representante dos interesses do agronegócio. Não altera a correlação de forças por ser uma comissão estratégica para essa bancada. Via de regra, as pautas de interesse do agronegócio, seja pelas via sindical, seja pela ofensiva contra a agricultura familiar, passam por essa comissão”, disse ao Brasil de Fato.
O Movimento destaca que a comissão passou a ser o “berço de recepção” dos Projetos de Lei que propunham aprofundar o enfrentamento contra a reforma agrária depois da CPI que investigou a atuação do MST.
O ex-presidente da comissão, Rodolfo Nogueira (PL-MS), é pecuarista e agricultor e se posiciona de maneira enfática contra o governo Lula e as ações do MST. Ao Brasil de Fato, ele disse que a comissão estabeleceu uma “guerra” com o governo federal e considera ter avançado nessas pautas ao longo de 2025 e pretende ampliar essa disputa em 2026.
De acordo com ele, um dos principais problemas hoje na disputa com o governo é a definição da demarcação de terras indígenas. Para Nogueira, a eleição de Nishimori marca o perfil ideal para fazer esse enfrentamento.
“O governo desmerece o Marco Temporal e coloca fogo no barril de pólvora que são conflitos agrários entre índios e produtores rurais em todo o Brasil. Nishimori luta pela pesca e pelo agronegócio. É um parceiro nosso, que vai ter uma gestão importante na defesa dos produtores rurais”, disse.
Editado por: Maria Teresa Cruz



