Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Trump enfrenta federalismo dos EUA e da UE para combater a China

Domingo, 1º de fevereiro de 2026

Trump enfrenta federalismo dos EUA e da UE para combater a China


Pedro Augusto Pinho*
No PÁTRIA LATINA

Foto: Montagem de fotos

Pedro Augusto Pinho*
Habitualmente o unitarismo se distingue do federalismo pela centralização do poder político; porém há diversas variantes, sendo mais comum a condução democrática ou totalitária do poder político. O Brasil, por exemplo, foi unitário até a Proclamação da República e da primeira Constituição Republicana, em 24 de fevereiro de 1891.
Imediatamente após a queda da monarquia, o Decreto nº 1, de 15 de novembro de 1889, instituiu provisoriamente a República Federativa, transformando as antigas províncias em “Estados Federados”. Apenas imitação dos Estados Unidos da América (EUA), pois o Brasil Republicano guardava nos capitais ingleses, na propriedade latifundiária, até nas mesmas pessoas que o dirigiam no Brasil Império, o poder, até então unitário e, doravante, federativo.
Tão distante da nossa realidade política que os dois primeiros governos republicanos enfrentaram diversas oposições, bélicas e políticas, que prevaleceram após a queda de Floriano Peixoto e do governo de Prudente de Moraes, até a Revolução Nacionalista de 1930.
Com a Revolução de 1930, o Brasil voltou a ser unitário por mais 15 anos. E, novamente, com o golpe de 31 de março de 1964, foi unitário até a presidência de José Sarney (1985-1990). A bem da verdade, a ignorância política, mantida pelos donos do Brasil, jamais permitiria um sistema descentralizado do poder político, apenas alguma descentralização administrativa.
A ignorância política também leva a acreditar que o processo eleitoral periódico, com participação de mais de um partido representando interesses opostos ou aparentemente divergentes, é sinônimo de democracia. No entanto, votar em partido ou candidato que propugna pela submissão do país a interesse estrangeiro, como se viu na comemoração do 7 de setembro por bolsonarista na Avenida Paulista, na cidade de São Paulo, portando imensa bandeira dos EUA, quase do tamanho de campo de futebol, e diversos participantes do evento com bandeiras estadunidenses e do Estado de Israel, certamente não significa democracia mas entreguismo, a defesa do estrangeiro em disputa com o nacional.
Também, o voto em eleição para cargos em que o eleitor ignora a ação do eleito, como, exemplificando, para senador, pela imensa maioria dos eleitores brasileiros, não pode significar democracia, mas um desperdício de tempo e dinheiro.
A CHINA
A República Popular da China (China) tem efetivamente um único partido, o Partido Comunista Chinês (PCCh), porque não aceita quem deseje fazer da China uma colônia estrangeira. O país não esquece o século da grande humilhação (século XIX até 1921) quando os japoneses, ingleses, franceses, estadunidenses, repartiam a governança do país. Eles querem a China para os chineses, nas palavras de Xi Jin Ping, “o melhor lugar para os chineses viverem”.
Que partido político no Brasil defenderia este lema: “o melhor lugar para o brasileiro viver”? Só conheço partidos que defendem o lucro do sistema financeiro, dos banqueiros que atuam no Brasil. A propósito, o canal RT, em 28 de janeiro, publicou a pesquisa da “Brand Finance Global 500” apontando as marcas mais poderosas da América Latina: três são mexicanas (duas de cerveja), uma argentina (Mercado Libre, plataforma de comércio eletrônico) e uma do Brasil (254ª entre as 500): o Itaú Unibanco, que está presente em países da América Latina, como Argentina, Chile, Colômbia, Paraguai e Uruguai e também tem agências nos EUA, Londres, Luxemburgo, Hong Kong e Japão.
Apenas dois partidos em todo mundo tinham mais de 100 milhões de filiados em 2025: o indiano Bharatiya Janata (Partido Popular Indiano), com 140 milhões, e o PCCh, com 107 milhões.
A China é o 4º mais extenso país do mundo (9.597.000 km²), dividido em 22 províncias (Anhui, Fujian, Gansu, Guangdong, Guizhou, Hainan, Hebei, Heilongjiang, Henan, Hubei, Hunan, Jiangsu, Jiangxi, Jilin, Liaoning, Qinghai, Shaanxi, Shandong, Shanxi, Sichuan, Yunnan, Zhejiang) e uma reivindicada (Taiwan).
Possui cinco regiões autônomas: (a) Xinjiang (Uigur): noroeste, maioria muçulmana; (b) Tibete (Xizang): sudoeste, cultura tibetana e budista; (c) Guangxi (Zhuang): sul, com forte presença agrícola e economia voltada ao sudeste asiático; (d) Mongólia Interior (Mongol): norte, com povos mongóis e grandes planícies; e (e) Ningxia (Hui): norte/noroeste, com população de minoria muçulmana. Também tem quatro municipalidades, dirigidas diretamente pelo Governo Central: Beijing (Pequim), capital política, Shangai, centro financeiro, Tianjin, Chongqing, símbolo do desenvolvimento no oeste chinês. E duas regiões administrativas com sistemas jurídicos e econômicos próprios, baseados no princípio “um país, dois sistemas”: Hong Kong e Macau.
A diversidade territorial, étnica, geográfica bem demonstra o sucesso do PCCh. Para ter ingresso no Partido, o cidadão deve ser chinês e maior de 18 anos, manifestando seu interesse por carta ao órgão local do PCCh, explicando seus motivos para a adesão. O Partido inicia processo rigoroso de investigação de antecedentes, mentalidade e comportamento do candidato. Após a aceitação inicial, o candidato torna-se um “membro probatório”, participando das atividades e estudos ideológicos. Durante este tempo, seu desempenho é continuamente avaliado. Após cerca de 12 meses é então aprovado, tornando-se membro do Partido.
Com Xi Jin Ping, tornar-se membro ficou mais difícil, com regras mais estritas. Em alguns anos, milhões se candidatam, mas apenas uma fração é aceita. O recrutamento favorece estudantes universitários de destaque, jovens e profissionais bem-sucedidos. O ingresso é comum através do serviço militar, onde os oficiais são quase 100% membros do Partido. Em 2026, as diretrizes continuam focadas em “auto liderança plena e rigorosa”, com padrões de conduta e moralidade cada vez mais elevados.
Não fica difícil entender o sucesso da China em todas as atividades: científica e tecnológica, industrial, de engenharia, nas artes e na cultura (no Concurso Chopin de 2025, em Varsóvia, dos sete melhores classificados dois nasceram na China e um era filho de pai e mãe chineses), e, obviamente, na economia.
Conforme o Australian Strategic Policy Institute (ASPI), a China lidera em 37 das 44 tecnologias críticas, em 2025, nos setores de defesa, aeroespacial, energia, inteligência artificial (IA) e biotecnologia.
Voltemos à questão do unitarismo e do federalismo. Embora com partido único e forte poder central, a China convive com províncias de bastante autonomia, poder-se-ia dizer que acolhe também certo federalismo. E para capitais estrangeiros desenvolveu as Zonas Econômicas Especiais (ZEEs), com incentivos fiscais e regulamentações simplificadas para atrair capital estrangeiro. O volume acumulado de investimento direto externo atingiu Renmimbi (RMB) 20,6 trilhões (US$ 2,37 trilhões) ao final de 2024.
TRUMP VS TRUMP
Donald Trump pega os EUA e a Europa Ocidental na mais severa crise – econômica, social e cultural – desde o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), dezembro de 1991, e do domínio do capitalismo na China, Governo de Deng Xiao Ping (1978-1989). Como é óbvio, o desemprego, a miséria, os habitantes de rua, a falta de assistência à saúde são comuns nas cidades médias e grandes nos EUA e nas capitais dos países e de muitas províncias da Europa Ocidental. Tornando-os presas fáceis de ideologias e associações políticas contrárias aos interesses da plutocracia estadunidense e europeia.
Uma federação não dá condição de agir como deseja um governo unitário mesmo com povo facilmente iludido. E no segundo governo Trump ele se cercou dos donos e gerentes (CEO) de mídias virtuais e plataformas de comunicação: Marc Zuckerberg (META), Jeff Bezos (Amazon), Larry Ellison (Oracle), Bill Gates (Microsoft), Jensen Huang (NVidia), Larry Page, Sergey Brin e Sundar Pichai (CEO) (Alphabet) e Michael Bloomberg entre outros.
Foto: Arte / O Globo

A partir da perseguição a emigrantes vivendo nos EUA – 3.800 crianças detidas, de janeiro a outubro de 2025, pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE – Immigration and Customs Enforcement) em celas sem janelas e limitado acesso a atendimentos médicos –, da invasão à Venezuela, sequestrando seu presidente e esposa, da proteção a Israel e apoio ao genocídio de palestinos, ameaça de invasão à Groenlândia e ao Irã, Trump vai construindo seu cenário de guerra com objetivo de colocar sob domínio estadunidense o petróleo, terras raras (neodímio, disprósio), minerais críticos (níquel, molibdênio, nióbio, tântalo, titânio e tungstênio), grafite e lítio, ouro e outros recursos energéticos e minerais.
Também colocar a Faixa de Gaza como sendo uma Riviera do Mediterrâneo Oriental, com praias, bosques, jardins, com hotéis luxuosos, mansões e apartamentos de 900 e mil metros quadrados, diversos cassinos e bordéis administrados por sionistas, com jovens de 10 a 20 anos (talvez denominados Jeffrey Epstein, em homenagem ao amigo morto), com crianças, mulheres, homens, homossexuais, diversos e diversificados excelentes restaurantes com atendimento personalizado, alto padrão técnico, menus de degustação, omakase, e reconhecimento dos guias internacionais de gastronomia.
A construção desta Riviera é o sonho do investidor imobiliário Donald Trump, ao mesmo tempo em que vai ameaçando o mundo que tem petróleo de verdade, não do fracking como os EUA e o Canadá (que já teria desistido de transformar no 51º estado?) e minerais críticos para o salto tecnológico que os EUA estão custando dar.

A União Europeia (UE), que agrega atualmente 27 Estados, teve início em 1958 com somente seis. Lembra a Federação estadunidense que se iniciou com 12 Estados e hoje é composta por 50. Mas a UE não é uma Federação, talvez fosse melhor qualificada como Confederação. Os Estados-membros da UE mantêm sua soberania, exércitos próprios e a possibilidade de saída (artigo 50 do Tratado da UE). Mas sete países da UE são membros fundadores da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que atua sob o princípio de que um ataque contra um membro é considerado um ataque contra todos.


Tendo lugar privilegiado na OTAN, os EUA se consideram em condições de interferir na UE. Daí ações pouco diplomáticas do Trump com países europeus que não aceitam suas intromissões, mas dependem da OTAN para sua segurança, especialmente ao manifestarem injustificada russofobia.
Toda UE adota o euro como moeda; os fundadores desde 1999 e o último, a Romênia, a partir de 2024. E se a questão europeia transcende, e em muito, a questão econômica e militar, é porque, assim como o Brasil, vem sofrendo o retrocesso civilizatório desde 1980, com o domínio do poder financeiro. E nele se afunda cada vez mais, do que se aproveita Donald Trump para não dar atenção ou ser propositadamente descortês com dirigentes de outros países. Já abundam charges de Trump coroado.

A PRÓXIMA DERROTA
Por tudo que discorremos, se estivéssemos em um jogo, nossa aposta seria na China. E esta é a compreensão de todos. Cabe perguntar, então: por que o Brasil não é signatário do Memorando de Entendimento que o faria mais um dos 150 membros da Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR)?

* Pedro Augusto Pinho, administrador e petroleiro aposentado, membro do Conselho Editorial do Pátria Latina.

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Esta matéria foi postada originalmente no Pátria Latina deste sábado, 31 de janeiro de 2026.