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terça-feira, 3 de novembro de 2026

Europa: o antissistema agora é a juventude

Terça, 3 de novembro de 2026

Europa: o antissistema agora é a juventude

Espalham-se, por um continente até há pouco prostrado, revoltas por igualdade e pelo Comum. Ultradireita, que se pintava de “alternativa”, já pede repressão. Greves gerais convocadas em três países. Que esperar agora da Geração Z?

OutrasPalavras                               Movimentos e Rebeldias

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Publicado 03/11/2026

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Por Thomas Fazi, no UnHeard | Tradução: Antonio Martins

Como muda o ambiente político, nos lugares em que os mais jovens entram em cena. No Brasil, eles foram centrais nas Jornadas de Outubro, que inverteram o rumo das eleições presidenciais e salvaram o país. Na Europa, há sinais de que estão transformando a cena política e de que talvez possam desfazer uma cilada estratégica.

Em pelo menos onze países (leia nossa matéria a respeito) repetem-se há semanas protestos de rua, protagonizados em alguns casos (na França, por exemplo) por gente entre 14 e 17 anos. Rejeita-se a desigualdade cada vez mais profunda, típica do capitalismo tardio. Exige-se o Comum: boas escolas, moradia acessível, trabalho digno. Rejeita-se o aumento dos gastos militares, incentivado pela OTAN, em histeria anti-Rússia, e por quase todos os governos europeus (o de Pedro Sanchez, na Espanha, é notável exceção) Denuncia-se, em todos os casos, a marca mais típica (e a que perdura por mais tempo) do credo neoliberal: os “ajustes fiscais”, que reprimem o gasto e o investimento público e atingem hospitais, escolas, programas habitacionais.

Produz-se, além disso, um desmascaramento. A crise de 2008 alimentou o surgimento, em todo o Ocidente, de uma “nova” ultradireita – e deu-lhe condições de se capturar a angústia das maiorias e se apresentar como antissistema. O embuste sempre foi grosseiro. Venderam-se como “rebeldes” os políticos comprometidos até os ossos com as classes mais predatórias e privilegiadas. Conseguiram fazê-lo porque os governos liberais insistiram de modo insano nas políticas que degradam as condições de vida da maioria e que produzem o descrédito da democracia e o rancor.

Agora, os jovens assumem a luta pelos direitos não nas palavras, mas em suas mentes e corpos. Enfrentam a brutalidade policial. Em alguns casos, respondem também com violência. Após meses de protestos, têm a solidariedade dos sindicatos. Na França (5/11), Espanha (11/11) e Itália (20/11) estão convocadas greves gerais. Têm caráter distinto das paralisações anteriores. O movimento sindical tradicional não as convocou – aderiu a elas, propostas na Espanha pelo movimento dos inquilinos e na França pelos secundaristas e “coletes amarelos”.

Na Itália, ganha também dimensão internacionalista. A categoria mais mobilizada são os estivadores – que promovem, há cerca de dois anos, seguidos boicotes anti-genocídio, bloqueando a exportação de armas e outros insumos para Israel. Na Espanha, a mobilização das mulheres (que já produziu a Greve Feminista de 2018), prepara uma jornada em que o trabalho reprodutivo e as lutas de quem o realiza apareçam com destaque.

À ultradireita, surpreendida, restou pedir mais repressão. Na França, Marine Le Pen, da Reuniuão Nacional, quer o exército contra os manifestantes. A luta será dura. Anos de desencanto com a política deram gás ao “neo”fascismo. Nas eleições para os governo espanhol (em 29/11) e francês (em abril de 2027), a ultradireira é, no momento, favorita. Mas talvez o caso brasileiro sugira: é possível reverter prognósticos eleitorais muito negativos, quando há mobilização social. No texto a seguir, o jornalista, escritor e tradutor italiano Thomas Fazi analisa em profundidade os novos movimentos europeus – inclusive sua complexa relação com a violência. (A.M.)

Em toda a Europa, os jovens estão em revolta. Os protestos estudantis na França atraíram a maior parte da atenção, sobretudo devido à violência que os seguiu, com tumultos, saques e incêndios em prédios públicos. Mas, nas últimas semanas, jovens também foram às ruas em diversos outros países — na Itália, Espanha, Portugal, Bélgica, Grécia, Irlanda, Alemanha, Áustria e outros. Enquanto isso, na Sérvia, um movimento estudantil que passou dois anos nas ruas acaba de vencer as eleições gerais, pondo fim ao longo reinado de Aleksandar Vučić.

Os fatores desencadeantes podem variar — escolas na França e na Bélgica, habitação na Espanha e em Portugal, o custo de vida na Itália, corrupção e uma combinação de todos esses elementos na Sérvia — mas a raiz do problema é a mesma. São os protestos de uma geração que vê seu futuro roubado. É uma conclusão difícil de contestar. O contrato social que seus pais conheceram — trabalhar duro e, no mínimo, garantir uma casa, sustentar uma família e ter uma vida melhor do que as gerações anteriores — desmoronou. Para muitos jovens europeus sem herança, a vida adulta significa transitar de um emprego precário para outro, mal ganhando o suficiente para cobrir o aluguel e as compras do supermercado, quanto mais para formar uma família. Isso, se conseguirem emprego. Enquanto isso, assistem às instituições que deveriam lhes dar um começo na vida e amortecer seus impactos — escolas, universidades, serviços de saúde e para a juventude — definharem sob a “austeridade” e a privatização.

Não há dúvida de que os jovens foram os mais afetados pelas políticas neoliberais implementadas nas últimas décadas. É amplamente reconhecido que o neoliberalismo elevou a desigualdade a níveis sem precedentes. O que é menos notado é que essa desigualdade está cada vez mais relacionado às diferenças entre gerações. O analista geopolítico Arnaud Bertrand compartilhou recentemente algumas estatísticas extraordinárias sobre a França. Os maiores de 60 anos — aproximadamente um quarto da população — detêm cerca de 60% da riqueza do país. Eles também recebem quase dois terços de todos os gastos sociais do governo francês, na forma de aposentadorias que, no sistema atual, são pagas pelas gerações mais jovens. Essa contínua transferência intergeracional de riqueza, de baixo para cima, é ainda mais extraordinária quando se considera que o aposentado francês médio agora tem uma renda superior à do trabalhador médio .

Os manifestantes frequentemente se reconhecem de modo explícito em termos geracionais — mais obviamente com o slogan alemão “ Gen Z regelt ” (que se traduz aproximadamente como “A Geração Z resolve tudo”). Mas suas reivindicações não são formuladas como acusações contra os mais velhos. Essa é, sem dúvida, a abordagem correta. Culpar os baby boomers seria um erro. Eles simplesmente tiveram a sorte de crescer em uma era de pleno emprego, moradia acessível e aposentadorias dignas, e não há nada de escandaloso em sociedades envelhecidas gastarem mais com os idosos.

Além disso, grande parte dessa riqueza está concentrada nas mãos de uma pequena minoria de baby boomers: nem todos os idosos levam uma vida luxuosa, é claro. Em última análise, o problema não é que as aposentadorias sejam muito altas; é que os jovens estão sendo privados daquilo que seus pais consideravam garantido. A divisão geracional significa simplesmente que os mais jovens estão vivenciando uma guerra de classes de décadas, imposta de cima para baixo, depois que os trabalhadores já a haviam sofrido; e a nova geração herdou um regime político-econômico construído para transferir riqueza para cima. Na Europa, esse regime foi incorporado à própria arquitetura institucional — o euro, o Tratado de Maastricht, as regras fiscais — que favorece sistematicamente os detentores de ativos em detrimento dos assalariados, e os trabalhadores estabelecidos em detrimento dos novos.

É fácil compreender os mecanismos. Uma década de transferência de dinheiro ao topo da pirâmide social, via quantitative easing, inflacionou os ativos imobiliários e financeiros detidos pelos idosos. Enquanto isso, os salários estagnaram, impedindo os jovens de comprar uma casa. As contrarreformas do mercado de trabalho — do pacote Treu e da Lei do Trabalho na Itália às leis Hartz na Alemanha e à lei El Khomri na França — preservaram a segurança daqueles que já estavam empregados, enquanto relegavam os recém-chegados a um ciclo vicioso de contratos temporários e cada vez mais precários em nome da “flexibilidade”. Depois de 2010, a austeridade atingiu desproporcionalmente a educação, os serviços para jovens e o investimento público. As aposentadorias existentes foram protegidas, enquanto as futuras foram silenciosamente reduzidas. Como resultado, em toda a Europa, os gastos governamentais com os idosos aumentaram, enquanto o investimento público foi drasticamente reduzido. Em seguida, veio a pandemia, que custou à Geração Z anos de escolaridade, trabalho e vida social, seguida por uma disparada da inflação, agravada por um choque energético que os líderes europeus, em grande parte, infligiram a si mesmos.

Como se não bastasse, os jovens agora são instruídos a aceitar novos cortes e a deterioração das condições de vida para dar lugar ao rearmamento e a uma guerra sem fim — para a qual, ao que parece, sempre há dinheiro. Há poucas semanas, enquanto a polícia francesa disparava gás lacrimogêneo contra adolescentes, os líderes da UE incumbiram a Comissão Europeia de encontrar mais 70 bilhões de euros para a Ucrânia em 2027, além dos 45 bilhões de euros já reservados. As regras fiscais que nunca foram flexibilizadas para escolas ou hospitais estão sendo manipuladas para a Defesa, por meio de cláusulas de escape nacionais e empréstimos conjuntos para a aquisição de armamentos.

E os jovens perceberam. Dizem-lhes que não há dinheiro para suas salas de aula, enquanto dezenas de novos bilhões são encontrados para uma guerra sem fim à vista — uma guerra na qual, com o retorno do serviço militar obrigatório à agenda europeia, eles podem até ser chamados a lutar uns contra os outros. Em muitos países, os jovens estão começando a associar explicitamente a crise do custo de vida ao programa de rearmamento

A verdadeira questão, portanto, não é por que os jovens estão se revoltando, mas por que demoraram tanto. As raízes econômicas desses protestos são inegáveis. Mas será que elas explicam tudo? A maioria dos comentaristas conservadores prefere se concentrar na presença, nos protestos, de jovens de segunda geração de origem árabe e africana; e em seu suposto papel de liderança na violência e nos saques, sobretudo na França, mas também na Itália. Para grande parte da direita, os distúrbios simplesmente confirmam o que vem sendo dito há anos: que a imigração em massa tem sido um desastre absoluto, enchendo as cidades europeias com uma subclasse majoritariamente muçulmana. Ela não teria interesse em se integrar e que, na versão mais simplista dessa narrativa, estaria empenhada em destruir o próprio tecido da civilização ocidental, em alguns casos com a ajuda da “extrema-esquerda”. Enquanto isso, as reivindicações dos protestos, em sua grande maioria pacíficos, são amplamente ignoradas.

Há uma ironia nisso. A direita populista nunca se cansa de reclamar que um “establishment globalista” empobreceu e desindustrializou a Europa. No entanto, quando os jovens vão às ruas, às vezes violentamente, contra esse mesmo establishment e as consequências de suas políticas, ela não consegue aceitar que eles possam ter queixas genuínas. Em vez disso, presume instintivamente que alguém deve estar puxando os cordões: islamitas, Antifa, Jean-Luc Mélenchon.

É claro que é correto distinguir entre os protestos pacíficos que exigem reformas econômicas e os tumultos e saques que os acompanharam. Mas serão realmente duas histórias completamente separadas? Não há dúvida de que grande parte dos saques, tanto na França quanto na Itália, teve um forte componente de segunda geração, oriundo dos subúrbios e das periferias marginalizadas das cidades italianas, com pouca ideologia discernível por trás. Tampouco vale negar os custos da imigração em massa, desde a segurança pública até a pressão sobre os serviços públicos. Muitos dos envolvidos na violência agiram claramente por oportunismo. E o crescimento de comunidades apartadas, de diferentes origens sociais e religiosas, muitas vezes vivendo em condições de extrema exclusão, é claramente uma bomba-relógio social. Ela já causou sérios danos à coesão social — e aqueles na esquerda que negam essa realidade são tão míopes quanto aqueles na direita que se fixam nela, excluindo tudo o mais.

É possível ir além e argumentar que a imigração em massa tem sido parte da engenharia social neoliberal das últimas décadas, sobretudo por criar uma reserva de mão de obra barata. É possível também argumentar que os tumultos que ocorrem em manifestações pacíficas prejudicam a própria causa dos manifestantes, abafando suas reivindicações e fornecendo às forças de segurança um pretexto para repressão. Houve até sinais de que a polícia francesa permitiu deliberadamente a destruição para justificar a repressão em massa.

São todos argumentos válidos. Mas levantam uma questão óbvia: por que os manifestantes que se revoltam contra o status quo não direcionam sua raiva contra esses imigrantes e, em vez disso, muitas vezes marcham ao lado deles? Estariam simplesmente cegos por uma ideologia de esquerda ingênua? Ou há algo mais profundo em jogo? É mais provável que vivenciem sua luta principalmente através de uma lente geracional, que transcende as linhas étnicas e, em certa medida, as de classe. Isso parece muito mais convincente do que a teoria “islamo-gauchista”, que sustenta que essa aliança interétnica não é uma solidariedade espontânea, mas algo arquitetado por partidos de esquerda como o La France Insoumise de Mélenchon. Isso é ainda mais ridículo na Itália, onde não existe um LFI italiano, nenhuma aliança comparável entre a esquerda e os eleitores muçulmanos, e ainda assim as mesmas multidões mistas apareceram nas ruas, como em outros lugares.

Além disso, reduzir a violência unicamente à sua componente de segunda geração imigrante também é enganoso e demasiado reconfortante. Jovens de origem europeia também participaram nela. As multidões que recentemente se revoltaram em Milão incluíam jovens com pais nascidos na Itália, juntos com aqueles de famílias imigrantes. Portanto, temos de questionar até que ponto esta violência é também uma reação a um sistema que não oferece qualquer caminho para a mudança política. Isto não significa justificá-la. Este tipo de violência, por si só, não conduz a nada emancipatório. Mas não é possível ignorar um fato incômodo: um sistema cada vez mais autoritário , ativamente empenhado em bloquear qualquer mudança democrática está fadado a gerar violência. Ainda mais quando não cria intermediação social entre o poder e as massas, ou onde não há forças capazes de dar à revolta uma direção e um conteúdo político, de colocá-la sob a orientação da emancipação social. Por fim, há a implacável aritmética geracional: os jovens são uma minoria em todas as sociedades europeias. Não podem vencer eleições com base numa plataforma geracional.

Mas a violência — e especialmente os saques desenfreados — também expressa um mal-estar mais profundo, que vai além da economia. Reflete o vazio niilista em que as sociedades ocidentais mergulharam. Quando o individualismo, a falta de propósito, a ansiedade e o desespero se tornam a norma, não devemos nos surpreender se o resultado for uma depressão coletiva ou uma fúria. Em um momento de decadência moral em todos os níveis das sociedades ocidentais, particularmente entre suas elites políticas e corporativas, que sistematicamente demonstram pouco respeito pela vida humana, não seria um tanto ilusório esperar que os mais jovens e desfavorecidos se pautassem por um padrão moral mais elevado do que o de seus governantes?

Ao escrever sobre os distúrbios na Inglaterra em 2011, o psicólogo social alemão Götz Eisenberg descreveu os jovens como a “geração excedente” — já não necessários para a sociedade, com sua força de trabalho descartável, privados da oportunidade de construir uma vida independente por seus próprios esforços, mas constantemente deslumbrados pela promessa de autorrealização através do consumo – algo cada vez mais inatingível para eles. Quinze anos depois, seu diagnóstico é mais relevante do que nunca — e, de fato, a Grã-Bretanha continua sendo um barril de pólvora social que pode explodir novamente a qualquer momento. A violência não é a solução para os problemas sociais, mas também não surge do nada. Onde o poder político e econômico se torna anônimo, a raiva se volta contra os símbolos mais próximos, como uma boutique da Louis Vuitton. Uma vitrine pode ser quebrada; os mercados financeiros e a “austeridade”, não.

Dito isso, não devemos cometer o erro de presumir que os manifestantes representam toda uma geração. A mesma geração que lota as ruas também vota, em números crescentes, na direita anti-imigração. Nas eleições francesas de 2024, um terço dos jovens com menos de 25 anos apoiou o Rassemblement National; na Alemanha, no ano passado, mais de um quarto dos jovens votou no AfD. A raiva contra o establishment é a mesma, mas é canalizada na direção política oposta. A questão é se os políticos europeus, sejam os que estão no poder ou seus desafiantes de ultradireita, têm alguma resposta concreta.

Para atender às reivindicações dos manifestantes, seria necessária uma mudança sistêmica: maior investimento público em educação e habitação, salários mais altos, empregos mais seguros, redistribuição econômica (focada nos verdadeiros detentores de riqueza, e não nos aposentados em geral) e uma política energética racional, o que, por si só, exigiria uma mudança radical no paradigma geopolítico. No entanto, é difícil imaginar como isso poderia ser alcançado dentro da atual estrutura da UE-OTAN, que quase nenhum partido importante parece disposto a contestar. Enquanto isso, a ideia de que o problema da juventude alienada de segunda geração possa ser resolvido por meio de uma repressão ainda mais severa — ou talvez até mesmo por “reemigração” — não passa de uma fantasia.

A questão, então, é se os jovens da Europa conseguirão replicar o que aconteceu na Sérvia. Trata-se de um país que enfrenta desafios demográficos muito semelhantes — uma população envelhecida e em declínio —, mas seu movimento estudantil conseguiu construir uma plataforma que atraiu apoio de diversas gerações, em parte por rejeitar a ideologia tradicional e se unir em torno de uma mensagem simples e apartidária por mudanças. É irônico que hoje isso pareça mais difícil de alcançar no Ocidente “liberal-democrático” do que em um país rotineiramente descrito como autoritário.

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