“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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sexta-feira, 30 de junho de 2023

A liderança de Lula esboça um projeto

Sexta, 30 de junho de 2023 
Roberto Amaral*
 
“Podemos estar assistindo à emergência de um líder, oriundo do Sul, que acende esperanças em escala global. Lula está se tornando um ícone dos que demandam uma nova ordem. Nunca houve isso antes. É desconcertante para os que querem continuar mandando em tudo.”
- Manuel Domingos Neto, autor de O que fazer com o militar(anotações para uma nova defesa nacional)

A chamada classe-dominante — os herdeiros da casa-grande — não consulta sua história (de que não tem memória) e se recusa a olhar para o futuro. É o aqui e o agora da mediocridade e do atraso. Não há de ser fruto do acaso estarmos, nos primeiros anos da terceira década do terceiro milênio, patinando na periferia do capitalismo. E mesmo no capitalismo permanecemos órfãos de um projeto de sociedade e país. Desde sempre carecemos de pioneiros, de visionários, aqueles que se recusam a aceitar o statu quo como um determinismo, uma fatalidade ou desígnio divino, e se devotam, muitos a vida toda, a intervir na realidade, visando a transformá-la, confrontando os riscos da incerteza, o outro lado da acomodação histórica que nos caracteriza. Ao contrário, criamo-nos e formamo-nos sob o signo da dependência ideológica, a marca colonial que presidiu o império e chega à República dos nossos dias. Caminhávamos e caminhamos no contrapelo daquelas sociedades que puderam construir seu destino, ousando mesmo a aventura do desconhecido.

Nossa formação de cinco séculos registra a supremacia da conciliação sobre a ruptura, o reino da ordem estabelecida que se contrapõe ao progresso, tão bem e tão insistentemente denunciado por José Honório Rodrigues. A busca do novo, a revolução – que quase todos os povos experimentaram na base de seu processo histórico – foi sempre, entre nós, tratada como erva daninha. As reformas permitidas foram tão-só aquelas destinadas a preservar a ordem dominante,  a mesma há 500 anos. As mudanças são aquelas necessárias para que tudo permaneça como está, materialização da síntese consagrada por Lampedusa.

Não foram poucos os intelectuais orgânicos, comprometidos com seu povo, que lutaram pela construção de um país desenvolvido e de uma sociedade feliz, desde José Bonifácio e Joaquim Nabuco. No século passado, Darcy Ribeiro, que lograria reunir a intervenção intelectual à ação pública, reconheceria sua frustração. Já no fim da luta, reconheceria haver fracassado em tudo o que tentara na vida, ressaltando, contudo: “Os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.

Muitos dos vencedores estão hoje em Lisboa no doce farniente promovido pelo empresário Gilmar Mendes.

O líder revolucionário, o que abre as portas para o novo, além de condutor de massas, é agente social, condicionado em seu papel político pela interação entre a consciência de classe e a necessidade histórica, ditadas ambas por circunstâncias que não são de sua escolha, senão aquelas “legadas e transmitidas pelo passado”, como ensinou Marx, mas que não lhe cassam o papel de sujeito: se o indivíduo não escolhe as circunstâncias nas quais atuar, escolhe seu papel diante delas. De Gaulle e Pétain, em 1940, em face da mesma história (a derrocada militar e moral da França) optaram por papéis opostos. Um, epítome da resistência, o outro vassalo do invasor. Entre nós, diante da renúncia de Jânio Quadros, em 1961, o marechal Odylio Dennys intentou um golpe militar e o governador Leonel Brizola liderou o país na defesa da legalidade. Todos, ao tempo em que se escolhiam, interferiam no processo histórico, como Getúlio Vargas em 1954. Com o seu suicídio, o presidente adiou por uma década a ditadura militar que se estenderia por 21 anos.

O líder, quando também pioneiro, revolucionário ou reformista, não é mais simplesmente aquele que em diversos momentos conduz as grandes massas, ou por elas é amado, mas o raro personagem que aponta rumos e é seguido mesmo quando o ponto de chegada é desconhecido. Esse líder não caminha ao lado do povo: este é que o sente ao seu lado na jornada a que foi convocado. Visionário e estrategista, pode ser um profeta; quando interfere na moldagem do futuro, é um revolucionário. Há de ser sempre um gauche na vida: não entende que o indivíduo tenha de se adaptar ao mundo — às condições impostas a sua existência pelas circunstâncias — e por isso  forceja por adaptar o mundo às suas necessidades, ou às necessidades de seu sonho.