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(Millôr Fernandes)

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A Chávez era precisa derrubar…

Segunda, 19 de maio de 2014
De Corrientemovimiento.org

Maduro: Sem Golpe de Timão não te derrubam!

Por: Juan García Viloria 
Nota prévia:
Este artigo intenciona abrir um diálogo reflexivo onde se ressalta o protagonismo de uma maioria do povo venezuelano como ator político mais do que principal e motor essencial das mudanças produzidas e que converteram as lutas em processo revolucionário a partir dos fatos ocorridos em Guarenas e Caracas durante os dois primeiros dias de fevereiro de 1989. Por outro lado, também busca colocar em seus justos termos a liderança de Chávez como ator que soube empalmar e apreender esse espírito revolucionário que percorria toda a geografia nacional ante o descaso, a corrupção e a impunidade que imperava nas alturas do poder e de um Estado entregue à lógica do Capital durante IV República. Evidentemente, não é um artigo imparcial. Toma-se partido a favor do Povo que vive unicamente do seu Trabalho: o verdadeiro setor produtivo do país, esse que põe em movimento social e econômico cada rincão da Pátria durante os 365 dias do ano, que assegura a funcionalidade da nação a cada segundo e que só vive do seu salário. Toma-se partido também do legado de Chávez, que soube resgatar nossa vinculação histórica aos povos de nossa América e atuar no marco de um mundo mediado por relações capitalistas e de exploração que põem cada vez mais em perigo a sobrevivência da Humanidade e o Planeta. Tarefa nada fácil em um cenário internacional onde todas as nações estão constituídas sob a condução de Estados e Instituições mundiais que regulam a favor da lógica do Capital em sua fase mais corrupta e criminosa: são os 1% que concentram e controlam as maiores riquezas do mundo contra os 99% da população a nível global que cada vez mais veem diminuídas suas condições de vida e suas perspectivas do futuro. Futuro que não tem saída se os povos não controlarem toda essa riqueza privatizada e refundarem suas nações sobre a base de Estados que regulem a favor do Trabalho sob o controle democrático dos próprios trabalhadores.
Chávez apareceu em um momento da história quando o povo venezuelano se posicionava na vanguarda das lutas contra os pacotes de ajustes neoliberais que eram aplicados nos países do chamado Terceiro Mundo.
Os sucessos de Fevereiro de 1989 evidenciaram que estava instalada uma disposição de mudança na cabeça dos excluídos, disposição essa que provocou uma crise em todas as instituições do estado, aí incluída a instituição militar: as bases exploradas do povo e os baixos setores militares estavam fartos de tanta corrupção e impunidade… a IV República havia perdido toda a credibilidade. Abria-se uma situação revolucionária com um povo que queria modificar tudo e que empalmava uma liderança cuja qualidade máxima era seu instinto revolucionário e sua natural posição anti-imperialista e integracionista cultivada na Pátria de Bolívar: sabia da inconclusa tarefa da II Independência e do necessário acompanhamento dos povos da Nossa América para empreendê-la. Tarefa que se choca de maneira frontal contra o Capitalismo global, que tem a seu favor a permanente luta dos povos explorados da região e do mundo, mas que carece de direções políticas ocupando funções de governo capazes de emular o melhor do legado de Chávez: esse instinto revolucionário e sua capacidade de sempre retificar seus passos para se aproximar progressivamente das posições anticapitalistas (ver seu último legado póstumo de 20 de outubro de 2012 de 2012 em seu Primeiro Conselho de Ministros que denominou de Novo Ciclo: Documento “Golpe de Timão”¹). Hoje se poderia dizer: Não há Plano da Pátria sem Golpe de Timão!
As razões do Golpe do 11 de abril
1.- Refundação da República e Constituinte: democracia inédita
1998 foi o ano das elaborações de ajustes para governar, ano em que se começava a sentir a vitória. O debate era candente e uma vanguarda do povo estava em processo constituinte com a clara intenção de demolir o estabelecido: o velho regime, esse que Chávez denominou IV República e onde já não havia mais espaço à decomposição. Para avançar era necessário ser consequente com o chamado à Assembleia Constituinte. O sujeito era o Povo Bolivariano que se consolidava como Soberano e Poder Originário. Com o triunfo de Chávez se fazia irrefreável uma Revolução no Regime. A situação revolucionária que impulsionava a disposição de mudança do povo se converte em processo revolucionário e em confirmação das vitórias. Em um ano e meio, entre 1999 e 2000, ocorre um fato inédito internacional marcado pela participação e o protagonismo do povo que nos colocou como o país mais democrático do mundo: nova Constituição, dois Referendos e relegitimação dos poderes através de novas eleições. A Venezuela com essa imensa conquista se converte em um obstáculo para o governo dos EUA que tinha como projeto uma Constituinte Hemisférica cuja ponta de lança abria passagem e se iniciava com os acordos econômicos neoliberais concretizados nos Tratados de Livre Comércio (a ALCA) com México e Canadá.
2.- Renda Petroleira: crescimento, distribuição e controle
Em meio a este turbilhão democrático, ocorreram duas viagens de Chávez aos países da OPEP frente ao dilema de onde se obter financiamento para governar: ou suspensão de pagamentos da Dívida Externa ou recuperação dos preços petrolíferos. A Venezuela se encaminhou a favor do plano de aliança com os países exportadores membros da organização, o qual os países chamados desenvolvidos estavam a ponto de destruir com a ajuda da “meritocracia de mais alto nível” da indústria petroleira venezuelana que continuou mantendo o controle até 3 de fevereiro de 2003 daquilo que Chávez denominou “a caixa negra” da PDVSA: um sistema de gastos onde se perdiam cerca de 80% dos dólares que entravam pela realização da renda petrolífera e que constituía o grande segredo não explicado dos grandes operadores da indústria!
Mas também antes do Golpe de 11 de abril de 2002, em novembro de 2000 Chávez é habilitado pela Assembleia Nacional e 7 meses depois são sancionadas 49 leis nas que se destacam como mais importantes, visto que golpeavam a lógica do capital, as seguintes:
  •  Lei Orgânica de Hidrocarbonetos: que incrementava em 30% (antes 16,7%) a tributação das transnacionais nas atividades de extração petrolífera, e fixava em 51% a participação mínima do Estado em sociedades mistas.
  • Lei da Pesca que impunha fortes restrições à pesca de arrasto e à pesca comercial em benefício dos pescadores artesanais (naquele momento 95% da frota pesqueira estava nas mãos do setor provado e lhes foi proibida a pesca dentro das 6 milhas costeiras)
  • Lei de Terras e Desenvolvimento Agrário que permitia expropriar latifúndios e beneficiar os camponeses que buscavam cultivar pequenas extensões de terra (naquele momento somente 10% dos proprietários detinha por volta de 70% das terras cultiváveis do país).
Acrescenta-se a isso que Chávez, antes de ser investido presidente, empenha sua equipe num plano de recuperação do preço do barril petroleiro que se encontrava a 7 dólares x barril na ocasião da sua chegada ao governo. Ali Rodríguez Araque se reúne em dezembro de 1998 em Madri com representantes da Arábia Saudita e do México com o objetivo de promover uma redução da oferta por parte da OPEP e outros grandes produtores. Os cortes de produção na OPEP conseguem se harmonizar a partir de 1999 e a organização fixa no ano 2000 um objetivo de preços na forma de banda entre 22 e 28 dólares por barril. A partir desse momento a Renda Petroleira começa um crescimento em dólares que atinge picos devido à invasão do Iraque e à crise econômica de 2008; pela primeira vez, depois do Golpe Petroleiro derrotado em fevereiro de 2003, a PDVSA passa, sob o maior controle real, a mãos do Estado; mas, além disso, se qualifica uma melhor distribuição da renda a favor da população, constroem-se grandes obras de infraestrutura e gera-se um aumento do salário social através das Missões.
A política econômica internacional e nacional de Chávez nesses três anos (1999-2001) desestabilizava econômica e politicamente a lógica do capital global a favor de nosso país e da região. Isto se converteu na razão da conspiração nacional e internacional dos setores capitalistas que os levou a deflagrar um Golpe de Estado e conquistar o governo mais efêmero do mundo. Em outras palavras até mesmo bem cristãs e para além dos erros que foram cometidos:
- Uma liderança ou direção política consequente com a base social explorada, excluída e pobre que o sustenta: pode ser derrubada, mas um povo que é coautor das conquistas faz milagres.
Esta foi a lição que ensinou o Povo Bolivariano em 13 de abril de 2002 quando o mundo pareceu ficar pequeno para os dirigentes do governo. Lição contundentemente clara que requer objetivizar ao Povo Bolivariano como o grande ator primeiríssimo do processo: aquele que abriu a situação revolucionária em 1989, aquele que ativou as duas insurreições militares de 1992, aquele que contribuiu para a saída de Carlos Andrés Pérez em 1993, aquele que subscreveu o registro de óbito da Acción Democrática (AD) e do Comité de Organización Política Electoral Independiente (COPEI) no mesmo ano das eleições onde se disse que Andrés Velazquez da Causa R ganhou, aquele que levou Chávez ao governo em 1998 e protagonizou e decidiu junto com ele a Revolução no Regime de onde nasceu a Constitución de la República Bolivariana de Venezuela (CRBV), um povo que selou a confraternização cívico-militar com uma inteligência genialmente intuitiva para atuar em momentos de perigo e produzir de maneira autônoma outra Revolução mais inédita. Um povo que restituiu o governo de Chávez em 13 de abril de 2002. Um Povo Bolivariano com a suficiente autoridade política para ser parte da governabilidade consciente na tarefa da II Independência Econômica no marco democrático das Chaves Constituintes: no debate público constituinte contra o estabelecido, chamando-o para a consulta como defendia Chávez através do exercício decisório do referendo para acelerar as tarefas anticapitalistas que contribuam para o trânsito até o Socialismo em toda Nossa América.
Uma interrogação à parte que gera uma dúvida a favor do Debate Constituinte, do Exercício Decisório do Poder Originário e da Dupla Delegatura do Poder conforme realizou Chávez ao convocar à Assembleia Constituinte:
Se em 2001 Chávez, então Presidente e ocupante da mais alta representação da República Bolivariana da Venezuela, tivesse transferido a sanção das Leis Habilitantes para povo venezuelano via Referendo: teria desativado o Golpe de Estado de 2002?
Presidente Maduro, é preciso mudar o rumo. Recorde seu melhor momento:
“Sem as medidas pontuais contra a usura, a especulação e o desabastecimento programado que foram tomadas em 6 de novembro de 2013 antes das eleições municipais e que tiveram um impacto positivo entre o povo, inclusive junto aos que votaram na oposição, não se teria logrado a imensa participação eleitoral nesse triunfo que pôs fim a incerteza de “fraude” nas eleições presidenciais que a oposição tratou de instalar. Essas medidas repercutiram tão contundentemente no povo que muitos chavistas e setores abstensionistas, independentemente de sua posição política mas claramente desgostosos com as tramoias evidentes de comerciantes, importadores e banqueiros, somado ao silêncio cúmplice da oposição que não podia atacar seus financiadores usurários, provocaram uma imensa reanimação a favor do processo bolivariano.” (Una derecha entrampada: del “vacío de poder” al Salto al Vacío… del todo a la nada²)
1-http://www.aporrea.org/media/2012/12/golpe-de-timon.pdf
2-http://www.aporrea.org/actualidad/a183144.html